Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 5 de 39

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Indícios de Oiro

Certa Voz na Noite Ruivamente

Esquivo sortilégio dessa voz, opiada

Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza. Que eu lembro não sei de Onde — a voz duma Princesa Bailando meia nua entre clarões de espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada; E bêbeda de Si, arfante de Beleza.

Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...

Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente A sua voz a fulcro ao meu lembrar-me. Assim Não lhe desejo a carne — a carne inexistente...

É só de voz-em-cio a bailadeira astral —

E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total, É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...

Lisboa, 31 de janeiro de 1914