Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 10 de 39

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Indícios de Oiro

O Resgate

A última ilusão foi partir os espelhos —

E nas salas ducais, os frisos de esculturas Desfizeram-se em pó... Todas as bordaduras Caíram de repente aos reposteiros velhos.

Atónito, parei na grande escadaria

Olhando as destroçadas, imperiais riquezas... Dos lustres de cristal — as velas de oiro, acesas, Quebravam-se também sobre a tapeçaria...

Rasgavam-se cetins, abatiam-se escudos; Estalavam de cor os grifos dos ornatos.

Pelas molduras de honra, os lendários retratos Sumiam-se de medo, a roçagar veludos...

Doido! Trazer ali os meus desdéns crispados!... Tetos e frescos, pouco a pouco enegreciam; Panos de Arrás do que não-Fui emurcheciam — Velavam-se brasões, subitamente errados...

Então, eu mesmo fui trancar todas as portas; Fechei-me a Bronze eterno em meus salões ruídos — Se arranho o meu despeito entre vidros partidos, Estilizei em Mim as doiraduras mortas!

Camarate, Quinta da Vitória — outubro de 1914