Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 10 de 44

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Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

conhecimento, salvo de conforto, da existência do meu cor-po. Vou sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que es-tou gozando da minha consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato ao sol, os movi-mentos da lógica da minha imaginação desprendida. Vou sentindo sumirem-se-me os privilégios da penumbra, e os rios lentos sob as árvores das pestanas entrevistas, e o sus-surro das cascatas perdidas entre o som do sangue lento nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me perdendo até vivo.

Não sei se durmo, ou se só sinto que durmo. Não sonho o intervalo certo, mas reparo, como se começasse a despertar de um sono não dormido os primeiros ruídos da vida da ci-dade, a subir, como uma cheia, do lugar vago, lá embaixo, onde ficam as ruas que Deus fez. São sons alegres, coados pela tristeza da chuva que há, ou, talvez, que houve — pois a não ouço agora... — só o cinzento excessivo da luz frinchada até mais longe que me dá, nas sombras de uma claridade frouxa, insuficiente para a altura da madrugada, que não sei qual é. São sons alegres e dispersos e doem-me no coração como se me viessem, com eles, chamar a um exame ou a uma execução. Cada dia se o ouço raiar da cama onde ignoro, me parece o dia de um grande acontecimento meu que não terei coragem para enfrentar. Cada dia, se o sinto erguer-se do leito das sombras, com um cair de roupas da cama pelas ruas e as vielas, vem chamar-me a um tribunal. Vou ser julgado em cada hoje que há. E o condenado perene que há em mim agarra-se ao leito como à mãe que perdeu, e acaricia o travesseiro como se a ama o defendesse de gentes. A sesta feliz do bicho grande à sombra de árvores, o cansaço fresco do esfarrapado entre a erva alta, o torpor do negro na tarde morna e longínqua a delícia do bocejo que pesa nos olhos frouxos tudo que acaricia o esquecimento fa-zendo sono, o sossego do repouso na cabeça, encostando, pé

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ante pé, as portas da janela na alma, o afago anônimo de dormir.

Dormir, ser longínquo sem o saber, estar deitado, es-quecer com o próprio corpo; ter a liberdade de ser incons-ciente, um refúgio do lago esquecido, estagnado entre fron-des árvores, nos vastos afastamentos das florestas. Um nada com respiração por fora, uma morte leve, de que se desperta com saudade e frescura, um ceder dos tecidos da alma à roupagem do esquecimento.

Ah, e de novo, como o protesto reatado de quem se não convenceu, ouço o alarido brusco da chuva chapinhar no universo aclarado. Sinto um frio até aos ossos supostos, como se tivesse medo. E agachado, nulo, humano a sós comigo na pouca treva que ainda me resta, choro, sim, choro, choro de solidão e de vida, e a minha mágoa fútil como um carro sem rodas jaz à beira da realidade entre os estercos do abandono. Choro de tudo, entre perda do regaço, a morte da mão que me davam, os braços que não soube como me cingissem, o ombro que nunca poderia ter... E o dia que raia definiti-vamente, a mágoa que raia em mim como a verdade crua do dia, o que sonhei, o que pensei, o que se esqueceu em mim — tudo isso, num amálgama de sombras, de ficções e de remorsos, se mistura no rastro em que vão os mundos e cai entre as coisas da vida como o esqueleto de um cacho de uvas, comido à esquina pelos garotos que o roubaram. O ruído do dia humano aumenta de repente, como um som de sineta de chamada. Estala a dentro de casa o fecho suave da primeira porta que se abre para universo [ ?]. Ouço chinelos num corredor absurdo que conduz até meu coração. E num gesto brusco, como quem enfim se matasse, arrojo de sobre o corpo duro as roupas profundas da cama que me abriga. Despertei. O som da chuva esbate-se para mais alto no exterior indefinido. Sinto-me mais feliz. Cumpri uma coi-sa que ignoro. Ergo-me, vou à janela, abro as portas com 170

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uma decisão de muita coragem. Luz um dia de chuva clara que me afoga os olhos em luz baça. Abro as próprias janelas de vidro. O ar fresco umedece-me a pele quente. Chove, sim, mas, ainda que seja o mesmo é afinal tão menos! Quero re-frescar-me, viver, e inclino o pescoço à vida, como a uma canga imensa.

Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coi-sa do tamanho do Universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro.

Floresce alto na solidão noturna um candeeiro incógnito por trás de uma janela. Tudo mais na cidade que vejo está escuro, salvo onde reflexos frouxos da luz das ruas sobem vagamente e fazem aqui e ali pairar um luar inverso, muito pálido. Na negrura da noite a própria casaria destaca pouco, entre si, as suas diversas cores, ou tons de cores: só dife-renças vagas, dir-se-ia abstratas, irregularizam o conjunto atropelado.

Um fio invisível me liga ao dono anônimo do candeeiro. Não é a comum circunstância de estarmos ambos acordados: não há nisso uma reciprocidade possível, pois, estando eu à janela no escuro, ele nunca poderia vêr-me. É outra coisa, minha só, que se prende um pouco com a sensação de isola-mento, que participa da noite e do silêncio, que escolhe aque-le candeeiro para ponto de apoio porque é o único ponto de apoio que há. Parece que é por ele estar aceso que a noite é tão escura. Parece que é por eu estar desperto, sonhando na treva, que ele está alumiando.

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Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo. Sinto que eu nâo existiria, nesta hora — que não existiria, ao menos, do modo em que estou existindo, com esta consciência presente de mim, que por ser consciência e presente é neste momento inteiramente eu — se aquele candeeiro não estivesse aceso além, algures, farol não indicando nada num falso privilégio de altura. Sinto isto porque não sinto nada. Penso isto por-que isto é nada. Nada, nada, parte da noite e do silêncio e do que com eles eu sou de nulo, de negativo, de intervalar, es-paço entre mim e mim, coisa esquecimento de qualquer deus...

Passei entre eles estrangeiro porém nenhum viu que eu o era.Vivi entre eles espião, e ninguém, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham por parente: nenhum sabia que me haviam trocado à nascença. Assim fui igual aos ou-tros sem semelhança, irmão de todos sem ser da família. Vinha de prodigiosas terras, de paisagens melhores que a vida, mas das terras nunca falei, senão comigo, e das paisa-gens, vistas se sonhava, nunca lhes dei notícia. Meus passos eram como os deles nos soalhos e nas lages, mas o meu cora-ção estava longe, ainda que batesse perto, senhor falso de um corpo desterrado e estranho.

Ninguém me conheceu sob a máscara da igualha, nem soube nunca que era máscara, porque ninguém sabia que neste mundo há mascarados. Ninguém supôs que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaram-me sempre idêntico a mim.

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Abrigaram-me as suas casas, as suas mãos apertaram a minha, viram-me passar na rua como se eu lá estivesse; mas quem sou não esteve nunca naquelas salas, quem vivo não tem mãos que outros apertem, quem me conheço não tem ruas por onde passe, a não ser que sejam todas as ruas, nem que nelas o veja, a não ser que ele mesmo seja todos os outros.

Vivemos todos longínquos e anônimos; disfarçados, so-fremos desconhecidos. A uns, porém, esta distância entre um ser e ele mesmo nunca se revela; para outros é de vez em quando iluminada, de horror ou de mágoa, por um re-lâmpago sem limites; mas para outros ainda é essa a dolorosa constância e quotidianidade da vida.

Saber bem que quem somos não é conosco, que o que pensamos ou sentimos é sempre uma tradução, que o que queremos o não quisemos, nem porventura alguém o quis — saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada senti-mento, não será isto ser estrangeiro na própria alma, exilado nas próprias sensações?

Mas a máscara, que estive fitando inerte, que falava à esquina com um homem sem máscara nesta noite de fim de Carnaval, por fim estendeu a mão e se despediu rindo. O homem natural seguiu à esquerda, pela travessa a cuja es-quina estava. A máscara — dominó sem graça — caminhou em frente, afastando-se entre sombras e acasos de luzes, numa despedida definitiva e alheia ao que eu estava pen-sando. Só então reparei que havia mais na rua que os can-deeiros acesos, e, a turvar onde eles não estavam, um luar vago, oculto, mudo, cheio de nada como a vida...

 

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De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados sú-bitos, ergo a cabeça, da minha vida anônima, para o conheci-mento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.

Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas idéias mais cla-ras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhe-cimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o ator mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um soli-tário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu. Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desa-lento que passa os limites da minha individualidade cons-ciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensa-mento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda de-pois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é li-berto, por um terremoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade

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verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa de-fini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo — desde a nascença e a consciên-cia —, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteli-gente e natural.

Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um mo-mento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os atos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demônio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustrai, é ter subitamente a noção da mônada íntima, da palavra mágica da alma. Mas uma luz súbita cresta tudo, consome tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei por-quê, acho que o sentido é dormir.

 

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Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos des-conheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a mi-nha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instin-tiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.

Estética do Artificio

A vida prejudica a expressão da vida. Se eu vivesse um grande amor nunca o poderia contar.

Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim-próprio. Sim, é as-sim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia a meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir é — crede-me bem — para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que de corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artifi-cialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza. Penso às vezes no belo que seria poder, [...] os meus sonhos, criar-me uma vida contínua, sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas imaginários com gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali cairiam

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sobre mim. E nada de mim seria real. Mas teria tudo uma lógica soberba, séria, seria tudo segundo um ritmo de volup-tuosa falsidade, passando tudo numa cidade feita da minha alma, perdida até [ao] cais à beira de um comboio calmo, muito longe dentro de mim, muito longe... E tudo nítido, inevitável, como na vida exterior, mas, estética de Morte [ ?] do Sol.

Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisân-temos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da mi-nha alma uma coisa decorativa.

Não sei que detalhes demasiadamente pomposos e esco-lhidos definem o feitio do meu espírito. O meu amor ao orna-mental é, sem dúvida, porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.

Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale mais para mim um adjetivo que um pran-to [ ?] real da alma. O meu mestre Vieira [...] Mas às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas das quentes, dos que não têm nem tiveram mãe; e meus olhos que ardem dessas lágrimas mortas, ardem dentro do meu coração.

Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibili-dade, vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio.

 

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Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena?

Sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal.

Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou contra a cara não me podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num jazigo — essa que me pertenceria, se o Destino houvesse querido que me pertencesse. Disseram-me, mais tarde, que minha mãe era bonita, e dizem que, quando mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de emoções, e o falar ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de ima-ginar.

Meu pai, que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o conheci. Não sei ainda porque é que vivia longe. Nunca me importei de o saber. Lembro-me da notícia da sua morte como de uma grande seriedade às primeiras refeições depois de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de troco, entendendo es-tupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez, sem eu ver, continuassem a olhar-me.

Fluido, o abandono do dia finda entre púrpuras exaus-tas. Ninguém me dirá quem sou, nem saberá quem fui. Des-ci da montanha ignorada ao vale que ignoraria, e meus pas-sos foram, na tarde lenta, vestígios deixados nas clareiras da floresta. Todos quantos amei me esqueceram na sombra. Ninguém soube do último barco. No correio não havia no-tícia da carta que ninguém haveria de escrever.

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Tudo, porém, era falso. Não contaram histórias que outros houvessem contado, nem se sabe ao certo do que par-tiu outrora, na esperança do embarque falso, filho da bruma futura e da indecisão por vir. Tenho nome entre os que tar-dam, e esse nome é sombra como tudo.

Tenho assistido, incógnito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao soçobro lento de tudo quanto quis ser. Posso dizer, com aquela verdade que não precisa de flores para se saber que está morta, que não há coisa que eu tenha querido, ou em que tenha posto, um momento que fosse, o sonho só desse momento, que se me não tenha desfeito de-baixo das janelas como pó parecendo pedra caído de um vaso de andar alto. Parece, até, que o Destino tem sempre procu-rado, primeiro, fazer-me amar ou querer aquilo que ele mes-mo tinha disposto para que no dia seguinte eu visse que não tinha ou teria.

Espectador irônico de mim mesmo, nunca, porém, de-sanimei de assistir à vida. E, desde que sei, hoje, por anteci-pação de cada vaga esperança que ela há-de ser desiludida, sofro o gozo especial de gozar já a desilusão com a esperança, como um amargo com doce que torna o doce doce contra o amargo. Sou um estratégico sombrio, que, tendo perdido to-das as batalhas, traça já, no papel dos seus planos, gozando-lhe o esquema, os pormenores da sua retirada fatal, na vés-pera de cada sua nova batalha.

Tem-me perseguido, como um ente maligno, o destino de não poder desejar sem saber que terei que não ter. Se um momento vejo na rua um vulto núbil de rapariga, e, indife-rentemente que seja, tenho um momento de supor o que seria se ele fosse meu, é sempre certo que, a dez passos do