Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 14 de 44

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Nessas tardes enche-me, como um mar em maré, um sentimento pior que o tédio mas a que não compete outro nome senão tédio — um sentimento de desolação sem lugar, de naufrágio de toda a alma. Sinto que perdi um Deus com-placente, que a Substância de tudo morreu. E o universo sensível é para mim um cadáver que amei quando era vida; mas é tudo tornado nada na luz ainda quente das últimas nu-vens coloridas.

O meu tédio assume aspectos de horror; o meu aborre-cimento é um medo. O meu suor não é frio, mas é fria a minha consciência do meu suor. Não há mal-estar físico, salvo que o mal-estar da alma e tão grande que passa pelos poros do corpo e o inunda a ele também.

É tão magno o tédio, tão soberano o horror de estar vivo que não concebo que coisa haja que pudesse servir de leni-tivo, de antídoto, de bálsamo ou esquecimento para ele. Dor-mir horroriza-me como tudo. Morrer horroriza-me como tudo. Ir e parar são a mesma coisa impossível. Esperar e des-crer equivalem-se em frio e cinza. Sou uma prateleira de fras-cos vazios.

Contudo que saudade do futuro se deixo os olhos vulga-res receber a saudação morta do dia iluminado que finda! Que grande enterro da esperança vai pela calada dourada ainda dos céus inertes, que cortejo de vácuos e nadas se es-palha a azul rubro que vai ser pálido pelas vastas planícies do espaço alvar!

Não sei o que quero ou o que não quero. Deixei de saber querer, de saber como se quer, de saber as emoções ou os pensamentos com que ordinariamente se conhece que esta-mos querendo, ou querendo querer. Não sei quem sou ou o que sou. Como alguém soterrado sob um muro que se des-

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moronasse, jazo sob a vacuidade tombada do universo in-teiro. E assim vou, na esteira de mim mesmo, até que a noite entre e um pouco do afago de ser diferente ondule, como uma brisa, pelo começo da minha impaciência de mim. Ah, e a lua alta e maior destas noites plácidas, mornas de angústia e desassossego! A paz sinistra da beleza celeste, ironia fria do ar quente, azul negro enevoado de luar e tímido de estrelas.

O desgosto de não encontrar nada encontro comigo pou-co a pouco. Não achei razão nem lógica senão a um ceti-cismo que nem sequer busca uma lógica para se defender. Em curar-me disto não pensei — porque me havia eu de curar disso. E o que era ser são? Que certeza tinha eu que esse estado de alma deve pertencer á doença? Quem nos afir-ma que, a ser doença, a doença não era mais desejável, ou mais lógica ou mais (...) do que a saúde? A ser a saúde pre-ferível, porque era eu doente se não por naturalmente o ser, e se naturalmente o era porque ir contra a Natureza, que para algum fim, se fim ela tem, me quereria decerto doente? Nunca encontrei argumentos senão para a inércia. Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. Procurar modos de inércia, apostar-me a fugir a todo o esforço quanto a mim, a toda a responsabilidade social — talhei nessa matéria de (...) a está-tua pensada da minha existência.

Deixei leituras, abandonei casuais caprichos de este ou aquele modo estético da vida. Do pouco que lia aprendi a ex-trair só elementos para o sonho. Do pouco que presenciava, apliquei-me a tirar apenas o que se podia, em reflexo dis-tante e [...], prolongar mais dentro de mim. Esforcei-me porque todos os meus pensamentos, todos os capítulos quo-tidianos da minha experiência me fornecessem apenas sen-

 

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sações. Criei à minha vida uma orientação estética. E orien-tei essa estética para puramente individual. Fi-la minha apenas.

Apliquei-me depois, no decurso procurado do meu he-donismo interior, a furtar-me às sensibilidades sociais. Len-tamente me couracei contra o sentimento do ridículo. Ensi-nei-me a ser insensível quer para os apelos dos instintos, quer para as solicitações (...)

Reduzi ao mínimo o meu contato com os outros. Fiz o que pude para perder toda a afeição à vida, (...) Do próprio desejo da glória lentamente me despi, como quem cheio de cansaço se despe para repousar.

Não sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à com-preensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.

Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno mo-vimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranqüilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro su-bitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação.

Posso pensar sem dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objetividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efetivamente, por-que, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.

Tudo quanto amamos ou perdemos — coisas, seres, sig-nificações — nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe

 

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nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente.

Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nele. Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer outra coisa, e efetiva-mente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta. Não há dificuldade em compreen-der isto desde que se o tenha visto: uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro. As sensações ajustam-se, dentro de nós a certos graus e tipos da compreensão delas. Há maneiras de entender que têm maneiras de ser entendidas.

Há dias em que sobe em mim, como que da terra alheia à cabeça própria, um tédio, uma mágoa, uma angústia de viver que só me não parece insuportável porque de fato a su-porto. É um estrangulamento da vida em mim mesmo, um desejo de ser outra pessoa em todos os poros, uma breve notícia do fim.

As coisas nítidas confortam, e as coisas ao sol confor-tam. Ver passar a vida sob um dia azul compensa-me de mui-to. Esqueço indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar. O meu coração translúcido e aéreo penetra-se da suficiência das coisas, e olhar basta-me carinhosamente. Nunca eu fui outra coisa que uma visão incorpórea, despida de toda a alma salvo um vago ar que passou e que via.

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Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas na da nos-sa mesma alma, é o principio da sabedoria. Considerar isto em pleno meio dessa angústia é a sabedoria inteira. No mo-mento em que sofremos, parece que a dor humana é infinita. Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais que ser uma dor que nós temos.

Quantas vezes, sob o peso de um tédio que parece ser loucura, ou de uma angústia que parece passar além dela, paro, hesitante, antes que me revolte, hesito, parando, antes que me divinize. Dor de não saber o que é o mistério do mundo, dor de nos não amarem, dor de serem injustos co-nosco, dor de pesar a vida sobre nós, sufocando e prendendo, dor de dentes, dor de sapatos apertados — quem pode dizer qual é maior em si mesmo, quanto mais nos outros, ou na generalidade dos que existem?

Para alguns que me falam e me ouvem, sou um insensí-vel. Sou, porém, mais sensível — creio — que a vasta maio-ria dos homens. O que sou, contudo, é um sensível que se conhece, e que, portanto, conhece a sensibilidade. Ah, não é verdade que a vida seja dolorosa, ou que seja doloroso pensar na vida. O que é verdade é que a nossa dor só é séria e grave quando a fingimos tal. Se formos naturais, ela passará assim como veio, esbater-se-á assim como cresceu. Tudo é nada, e a nossa dor-nele.

Escrevo isto sob a opressão de um tédio que parece não caber em mim, ou precisar de mais que da minha alma para ter onde estar; de uma opressão de todos e de tudo que me estrangula e desvaira; de um sentimento físico da incom-preensão alheia que me perturba e esmaga. Mas ergo a ca-beça para o céu azul alheio, exponho a face ao vento incons-

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cientemente fresco, baixo as pálpebras depois de ter visto, esqueço a face depois de ter sentido. Não fico melhor, mas fico diferente. Ver-me liberta-me de mim. Quase sorrio, não porque me compreenda, mas porque, tendo-me tornado ou-tro, me deixei de poder compreender. No alto do céu, como um nada visível, uma nuvem pequeníssima é um esqueci-mento branco do universo inteiro.

Ninguém ainda definiu, com linguagem com que com-preendesse quem o não tivesse experimentado, o que é o té-dio. O a que uns chamam tédio, não é mais que aborreci-mento; o que a outros o chamam, não é senão mal-estar; há outros, ainda, que chamam tédio ao cansaço. Mas o tédio, embora participe do cansaço, e do mal-estar, e do aborreci-mento, participa deles como a água participa do hidrogênio e oxigênio, de que se compõe. Inclui-os sem que a eles se assemelhe.

Se uns dão assim ao tédio um sentido restrito e incom-pleto, um ou outro lhe presta uma significação que em certo modo o transcende — como quando se chama tédio ao des-gosto íntimo e espiritual da variedade e da incerteza do mun-do. O que faz abrir a boca, que é o aborrecimento; o que faz mudar de posição, que é o mal-estar; o que faz não se poder mexer, que é o cansaço — nenhuma destas coisas é o tédio; mas também o não é o sentimento profundo da vacuidade das coisas, pelo qual a aspiração frustrada se liberta, a ânsia desi-ludida se ergue, e se forma na alma a semente, da qual nasce o místico ou o santo.

O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é, de-veras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas. Mas