Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 13 de 44

Páginas do PDF

Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista. Não tenho uma idéia de mim próprio; nem aquela que consiste em uma falta de idéia de mim-próprio. Sou um nô-mada da consciência de mim. Tresmalharam-se a l.ª guarda os rebanhos da minha riqueza íntima.

A única tragédia é não nos podermos conceber trágicos. Vi sempre nitidamente a minha coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de coexistir com ele; por isso nunca fui um normal.

Agir é repousar.

Todos os problemas são insolúveis. A essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar um fato significa não haver um fato. Pensar é não saber existir. Milímetros {sensações us coisas mínimas) Como o presente é antiqüíssimo, porque tudo, quando existiu foi presente, eu tenho para as coisas, porque perten-cem ao presente, carinhos de antiquário, e fúrias de colecio-nador precedido para quem me tira os meus erros sobre as coisas com plausíveis, e até verdadeiras, explicações cientí-ficas e baseadas.

As várias posições que uma borboleta que voa ocupa sucessivamente no espaço são aos meus olhos maravilhados várias coisas que ficam no espaço visivelmente. As minhas reminiscências são tão vividas que (...)

LIVRO DO DESASSOSSEGO

Mas só as sensações mínimas, e de coisas pequeníssi-mas, é que eu vivo intensamente. Será pelo meu amor ao fútil que isto me acontece. Pode ser que seja pelo meu escrú-pulo no detalhe. Mas creio mais — não o sei, estas são as coisas que eu nunca analiso — que é porque o mínimo, por não ter absolutamente importância nenhuma social ou prá-tica, tem, pela mera ausência disso, uma independência ab-soluta de associações sujas com a realidade. O mínimo sabe-me a irreal. O inútil é belo porque é menos real que o útil, que se continua e prolonga, ao passo que o maravilhoso fútil, o glorioso infinitesimal fica onde está, nâo passa de ser o que é, vive liberto e independente. O inútil e o fútil abrem na nossa vida real intervalos de estática humilde. Quanto não me provoca na alma de sonhos e amorosas delícias a mera existência insignificante dum alfinete pregado numa fita! Triste de quem não sabe a importância que isso tem! Depois, entre as sensações que mais penetrantemente doem até serem agradáveis o desassossego do mistério é uma das mais complexas e extensas. E o mistério nunca transpa-rece tanto como na contemplação das pequeninas coisas, que, como se não movem, são perfeitamente translúcidas a ele, que param para o deixar passar. É mais difícil ter o senti-mento do mistério contemplando uma batalha, e contudo pensar no absurdo que é haver gente, e sociedades e comba-tes delas é do que mais pode desfraldar dentro do nosso pen-samento a bandeira de conquista do mistério — do que diante da contemplação duma pequena pedra parada numa estrada, que, porque nenhuma idéia provoca além da de que existe, outra idéia não pode provocar, se continuarmos pensando, do que, imediatamente a seguir, a do seu mistério de existir. Benditos sejam os instantes, e os milímetros, e as som-bras das pequenas coisas, ainda mais humildes do que elas! Os instantes, (...) Os milímetros — que impressão de assom-bro e ousadia que a sua existência lado a lado e muito apro-

FERNANDO PESSOA

ximada numa fita métrica me causa. Às vezes sofro e gozo com estas coisas. Tenho um orgulho tosco nisso. Sou uma placa fotográfica prolixamente impressionável. Todos os detalhes se me gravam desproporcionadamente [a] haver um todo. Só me ocupa de mim. O mundo exterior é me sempre evidentemente sensação. Nunca me esqueço de que sinto.

Tão dado como sou ao tédio, é curioso que nunca, até hoje, me lembrou de meditar em que consiste. Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem ape-tece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança, de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, a análise, sempre um pouco factícia, do que ele seja.

Não o sei, realmente, se o tédio é somente a correspon-dência desperta da sonolência do vadio, se é coisa, na ver-dade, mais nobre que esse entorpecimento. Em mim o tédio é freqüente, mas, que eu saiba, porque reparasse, não obe-dece a regras de aparecimento. Posso passar sem tédio um domingo inerte; posso sofrê-lo repentinamente, como uma nuvem externa, em pleno trabalho atento. Não consigo rela-cioná-lo com um estado da saúde ou da falta dela; não al-canço conhecê-lo como produto de causas que estejam na parte evidente de mim.

Dizer que é uma angústia metafísica disfarçada, que é uma grande desilusão incógnita, que é uma poesia surda da alma aflorando aborrecida à janela que dá para a vida — dizer isto, ou o que seja irmão disto, pode colorir o tédio, como uma criança ao desenho cujos contornos transborde e apa-

LIVRO DO DESASSOSSEGO

gue, mas não me traz mais que um som de palavras a fazer eco nas caves do pensamento.

O tédio... Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer — tudo isto está no tédio sem ser o tédio, nem é dele mais que uma paráfrase ou uma translação. É, na sensação direta, como se de sobre o fosso do castelo da alma se erguesse a ponte levadiça, nem restasse, entre o castelo e as terras, mais que o poder olhá-las sem as poder percorrer. Há um isola-mento de nós em nós mesmos, mas um isolamento onde o que separa está estagnado como nós, água suja cercando o nosso desentendimento.

O tédio... Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio... É como a possessão por um demô-nio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. Dizem que os bruxos, ou os pequenos magos, conseguem, fazendo de nós imagens, e a elas inflingindo maus tratos, que esses maus tratos, por uma transferência astral, se reflitam em nós. O tédio surge-me, na sensação transposta desta ima-gem, como o reflexo maligno de bruxedos de um demônio das fadas, exercidas, não sobre uma imagem minha, senão sobre a sua sombra. É na sombra íntima de mim, no exterior do,interior da minha alma, que se colam papéis ou se espe-tam alfinetes. Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu. O tédio... Trabalho bastante. Cumpro o que os mora-listas da ação chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desin-teligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras ve-zes, no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um

FERNANDO PESSOA

fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim.

De mim por quê, se não pensava em mim? De que outra coisa, se não pensava nela? O mistério do universo, que baixa às minhas contas ou ao meu reclínio? A dor universal de viver que se particulariza subitamente na minha alma me-diúnica? Para quê enobrecer tanto quem não se sabe quem é? É uma sensação de vácuo, uma fome sem vontade de comer, tão nobre como estas sensações do simples cérebro, do sim-ples estômago, vindas de fumar demais ou de não digerir bem.

O tédio... É talvez, no fundo, a insatisfação da alma íntima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. É talvez a insegurança de quem precisa mão que o guie, e não sente, no caminho negro da sensação profunda, mais que a noite sem ruído de não poder pensar, a estrada sem nada de não saber sentir... O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dú-vida é impossível, até o ceticismo não tem força para descon-fiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capaci-dade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexis-tente por onde ele sobe sólido à verdade. Antes que o estio cesse e chegue o outono, no cálido intervalo em que o ar pesa e as cores abrandam, as tardes costumam usar um traje sensível de gloríola falsa. São com-paráveis àqueles artifícios da imaginação em que as saudades são de nada, e se prolongam indefinidas como rastos de na-vios formando a mesma cobra sucessiva.