Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa. É nestas horas de um abismo na alma que o mais pe-queno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nu-vens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados. Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objeto que lhe não disseram o que é. Joga-mos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfú-gio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida. Releio, sim, estas páginas que representam horas po-bres, pequenos sossegos ou ilusões, grandes esperanças des-viadas para a paisagem, mágoas como quartos onde se não entra, certas vozes, um grande cansaço, o evangelho por es-crever.
Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas... Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não com-preendo nada...
E, hoje, pensando no que tem sido a minha vida, sinto-me um qualquer bicho vivo, transportado num cesto de en-
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curvar o braço, entre duas estações suburbanas. A imagem é estúpida, porém a vida que defini é mais estúpida ainda do que ela. Esses cestos costumam ter duas tampas, como meias ovais, que se levantam um pouco em um ou outro dos ex-tremos curvos se o bicho estrebucha. Mas o braço de quem transporta, apoiado um pouco ao longo dos dobramentos cen-trais, não deixa coisa tão débil erguer frustemente mais do que as extremidades inúteis, como asas de borboleta que en-fraquece.
Esqueci-me que falava de mim com a descrição do cesto. Vejo-o nitidamente, e ao braço gordo e branco queimado da criada que o transporta. Não consigo ver a criada para além do braço e a sua penugem. Não consigo sentir-me bem senão — de repente — uma grande frescura de (...) daqueles varais brancos e nastros de (...) com que se tecem os cestos e onde estrebucho, bicho, entre duas paragens que sinto. Entre elas repouso no que parece ser um banco e falam lá fora do meu cesto. Durmo porque sossego, até que me ergam de novo na paragem.
A única maneira de teres sensações novas é construires-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires-te de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos — há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes? — e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las. Muda de alma como? Descobre-o tu.
Desde que nascemos até que morremos mudamos de alma lentamente, como do corpo. Arranja meio de tornar rápida essa mudança, como com certas doenças, ou certas convalescenças, rapidamente o corpo se nos muda.
FERNANDO PESSOA
Não descer nunca a fazer conferências para que não se julgue que temos opiniões, ou que descemos ao público para falar com ele. Se ele quiser que nos leia.
De mais a mais o conferenciador semelha ator — cria-tura que o bom artista despreza, moço de esquina da Arte. O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.
Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Ti-nha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.
O criador do espelho envenenou a alma humana. As cousas modernas são (1) A evolução dos espelhos
(2) Os guarda-fatos
Passamos a ser criaturas vestidas, de corpo e alma.
E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passamos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passamos — homens, corpos — à categoria de animais ves-tidos.
Não é só o fato de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação desse traje e a sua curiosa
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qualidade de não ter quase nenhuma relação com os elemen-tos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movi-mentos.
Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, através de uma razão sensível, eu responderia mu-damente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.
O entusiasmo é uma grosseria.
A expressão do entusiasmo é, mais do que tudo, uma violação dos direitos da nossa insinceridade. Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã po-demos sê-lo por coisa contrária.
Por mim não tive convicções. Tive sempre impressões. Nunca poderia odiar uma terra em que eu houvesse visto um poente escandaloso.
Exteriorizar impressões é mais persuadirmo-nos de que as temos do que termo-las.
Foi sempre com desgosto que li no diário de Amiel as referências que lembram que ele publicou livros. A figura quebra-se ali. Se não fora isso, que grande! O diário de Amiel doeu-me sempre por minha causa. Quando cheguei àquele ponto em que ele diz que sobre ele desceu o fruto do espírito como sendo "a consciência da consciência'', senti uma referência direta à minha alma. 4
O sonho
tem grandes cinemas
O que há de mais reles nos sonhos é que todos os têm. Em qualquer coisa pensa no escuro o moço de fretes que modorra de dia contra o candeeiro o intervalo dos carretos. Sei em que entrepensa: é no mesmo em que eu me abismo entre lançamento e lançamento no tédio estivai do escritório quietíssimo.
Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legí-timo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longín-quo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doi-dos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devanea-dores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o pos-sível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre à esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas
FERNANDO PESSOA
desertas dos plainos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver. Debruço-me, de uma das janelas de sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê, da dis-tância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o corri -mão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia da esquina, o vislumbre das gar-rafas daquele vinho do Porto que sonho que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da matéria. Inves-tigo com a imaginação. A gente que passa na rua é sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspecto flutuante de alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam e não chegam a acontecer.
A notação com a consciência dos sentidos, antes que com os mesmos sentidos... A possibilidade de outras coi-sas... E, de repente, soa, de trás de mim no escritório, a vinda metafisicamente abrupta do moço. Sinto que o poderia matar por me interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas tardes em voz alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor. Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles. E