Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
lento, e as lanças luzem já na distância com uma madrugada sua.
Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capaci-dade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligên-cia para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.
O dia baço e mole escalda umidamente. Sozinho no es-critório, passo em revista a minha vida, e o que vejo nela é como o dia que me oprime e me aflige. Vejo-me criança con-tente de nada, adolescente aspirando a tudo, viril sem alegria nem aspiração. E tudo isto se passou na moleza e no emba-ciado, como o dia que mo faz ver ou lembrar. Qual de nós pode, voltando-se no caminho onde não há regresso, dizer que o seguiu como o devia ter seguido? Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis velozes nem de comboios expressos. Basta-me UM- carro elétrico e a espantosa faculdade de abstração que tenho e cultivo.
Num carro elétrico em marcha eu sei, por uma atitude constante e instantânea de análise, separar a idéia de carro da idéia de velocidade, separá-las de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo não dentro do carro mas dentro da mera-velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o delírio da velocidade enorme [?], posso trans-portar a idéia para o Puro imitar da velocidade e a meu bom
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prazer, aumentá-la ou diminuí-la, alargá-la para além de to-das as velocidades possíveis de veículos comboios. Correr riscos reais, além de me apavorar não é por medo que eu sinta excessivamente — perturba-me a perfeita aten-ção às minhas sensações, o que me incomoda e me desper-sonaliza.
Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos.
Um poente é um fenômeno intelectual.
Penso, muitas vezes, em como eu seria se, resguardado do vento da sorte pelo biombo da riqueza, nunca houvesse sido trazido, pela mão moral de meu tio, para um escritório de Lisboa, nem houvesse ascendido dele para outros, até este píncaro barato de bom ajudante de guarda-livros, com um trabalho como uma certa sesta e um ordenado que dá para estar a viver.
Sei bem que, se esse passado que não foi tivesse sido, eu não seria hoje o capaz de escrever estas páginas, em todo o caso melhores, por algumas, do que as nenhumas que em me-lhores circunstâncias não teria feito mais que sonhar. É que a banalidade é uma inteligência e a realidade, sobretudo se é estúpida ou áspera, um complemento natural da alma. Devo ao ser guarda-livros grande parte do que posso sentir e pensar como a negação e a fuga do cargo. Se houvesse de inscrever, no lugar sem letras de res-posta a um questionário, a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele 82 FERNANDO PESSOA
inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Mo-reira, do Vieira caixeiro de praça e do Antônio moço do es-critório. E a todos poria, em letras magnas, o endereço-chave LISBOA.
Vendo bem, tanto o Cesário Verde como estes foram para a minha visão do mundo coeficientes de correção. Creio que é esta a frase, cujo sentido exato evidentemente ignoro, com que os engenheiros designam o tratamento que se faz à matemática para ela poder andar até à vida. Se é, foi isso mesmo. Se não é, passe por o que poderia ser, e a intenção valha pela metáfora que falhou.
Considerando, aliás, e com a clareza que posso, o que tem sido aparentemente a minha vida, vejo-a como uma coi-sa colorida — capa de chocolate ou anilha de charuto — var-rida, pela escova leve da criada que escuta de cima, da toalha a levantar para a pá de lixo das migalhas, entre as côdeas da realidade propriamente dita. Destaca-se das coisas cujo des-tino é igual por um privilégio que vai ter a pá também. E a conversa dos deuses continua por cima do escovar, indife-rente a esses incidentes do serviço do mundo. Sim, se eu tivesse sido rico, resguardado, escovado, or-namental, não teria sido nem esse breve episódio de papel bonito entre migalhas; teria ficado num prato da sorte — "não, muito obrigada" — e recolheria ao aparador para en-velhecer. Assim, rejeitado depois de me comerem o miolo prático, vou com o pó do que resta do corpo de Cristo para o caixote do lixo, e nem imagino o que se segue, e entre que astros; mas sempre é seguir.
O moço atava os embrulhos de todos os dias no fim cre-puscular do escritório vasto. "Que grande trovão", disse, para ninguém, com um tom alto de "bons dias", o crude-
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líssimo bandido. Meu coração começa a bater novo. O apo-calipse tinha passado. Fêz-se uma pausa. E com que alívio — luz forte e clara, espaço, trovão duro — este troar próximo já afastado nos aliviava do que houvera. Deus cessara. Senti-me respirar com os pulmões inteiros. Reparo que restava pouco ar no escritório. Notei que havia ali outra gente, sem ser o moço. Todos haviam estado calados. Soou uma coisa trêmula e crespa: era a grande folha espessa do Razão que o Moreira virará para diante, brusca-mente, para verificar.
a chuva caía ainda triste, mas mais branda, como num cansaço universal; não havia relâmpagos, e apenas, de vez em quando, com o som de já longe, um trovão curto res-mungava duro, e às vezes como que se interrompia, cansado * também. Como que subitamente, a chuva abrandou mais ainda. Um dos empregados abriu as janelas para a Rua dos Douradores. Um ar fresco, com restos mortos de quente, insinuou-se na sala grande. A voz do patrão Vasques soou alta no telefone do gabinete, "Então ainda está a falar?" E houve um som de fala seca e à parte — comentário, obs-ceno (adivinha-se) á menina longínqua.
Vi e ouvi ontem um grande homem. Não quero dizer um grande homem atribuído, mas um grande homem que verdadeiramente o é. Tem valia, se a há neste mundo; co-nhecem que tem valia; e ele sabe que o conhecem. Tem, pois, todas as condições para que eu o chame um grande ho-mem. É, efetivamente, o que o chamo.
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O aspecto físico é de um comerciante cansado. A cara tem traços de fadiga, mas tanto poderiam ser de pensar de-mais como de não viver higienicamente. Os gestos são quais-quer. O olhar tem uma certa viveza — privilégio de quem não é míope. A voz é um pouco embrulhada, como se os inícios da paralisia geral estragassem essa emissão da alma. E a alma emitida discursa sobre a política de partidos, sobre a desvalorização do escudo, e sobre o que há de reles nos cole-gas da grandeza.
Se eu não soubesse quem ele é, não o conheceria pela estampa. Sei bem que não há que fazer dos grandes homens aquela idéia heróica que as almas simples formam: que um grande poeta há de ser um Apoio de corpo e um Napoleão de | expressão; ou, com menos exigências, um homem de distin-ção e um rosto expressivo. Sei bem que estas coisas são hu-manidades naturais e absurdas. Mas, se não se espera tudo ou quase tudo, espera-se todavia alguma coisa. E, quando se passa da figura vista para a alma falada, não há sem dúvida que esperar espírito ou vivacidade, mas há ao menos que contar com inteligência, com, ao menos, a sombra da ele-vação.
Tudo isto — estas desilusões humanas — nos faz pensar no que pode realmente haver de verdade no conceito vulgar de inspiração. Parece que este corpo destinado a comerciante e esta alma destinada a homem educado são, quando estão a sós, investidos misteriosamente de qualquer coisa interior que lhes é externa, e que não falam, senão que se fala neles, e a voz diz o que fora mentira que eles dissessem. São especulações casuais e inúteis. Chego a ter pena de as ter. Não diminuí com elas a valia do homem; não aumenta com elas a expressão do seu corpo. Mas, na verdade, nada altera nada, e o que dizemos ou fazemos roça só os cimos dos montes, em cujos vales dormem as coisas.
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Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhu-ma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obs-curo da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas trava-vam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nas-ceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum. Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio, de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu cora-ção batia como se falasse.
Com passos largos e falsos, que em vão procurava tor-nar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoe-rentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cômoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em balouço o ferro acre dos pés da cama inglesa. Acendi um ci-garro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que ti-nha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga em ser, quando não em nome, e que a cons-ciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo.
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Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada. Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo escla-rear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho escuro sujo na luz que se estravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir.
Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai alumiar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim. Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superficie de nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o des-tino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chama-mos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma