Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 25 de 44

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em cuja casa estou, me não deixou não aceitar o seu convite, vim para aqui cheio de constrangimento — como um tímido para uma festa grande — cheguei aqui com alegria, gostei do ar e da paisagem ampla, almocei e jantei bem, e agora, noite funda, no meu quarto sem luz o lugar vago enche-me de an-gústia.

A janela do quarto onde dormirei deita para o campo aberto, para um campo indefinido, que é todos os campos, para a grande noite vagamente constelada onde uma aragem que se não ouve se sente. Sentado à janela, contemplo com os sentidos, toda esta coisa nenhuma da vida universal que está lá fora. A hora harmoniza-se numa sensação inquieta, desde a invisibilidade visivel de tudo até à madeira vagamente rugosa de ter estalado a tinta velha do parapeito branque-jante, onde está estendidamente apoiada de lado a minha mão esquerda.

Quantas vezes, contudo, não anseio visualmente por esta paz de onde quase fugiria agora, se fosse fácil ou decente! Quantas vezes julgo crer — lá embaixo, entre as ruas estrei-tas de casas altas — que a paz, a prosa,*b definitivo estariam antes aqui, entre as coisas naturais, que ali onde o pano de mesa da civilização faz esquecer o pinho já pintado em que assenta! E, agora, aqui, sentindo-me saudável, cansado a bem, estou intranqüilo, estou preso, estou saudoso. Não sei se é a mim que acontece, se a todos os que a civilização fez nascer segunda vez. Mas parece-me que para mim, ou para os que sentem como eu, o artificial passou a ser o natural, e é o natural que é estranho. Não digo bem: o artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser diferente. Dispenso e detesto veículos, dispenso e detesto os produtos da ciência — telefones, telégrafos — que tornam a vida fácil, ou os subprodutos da fantasia — gramofonógrafos,

FERNANDO PESSOA

receptores hertzianos — que, aos a quem divertem, a tornam divertida.

Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irre-gular da cidade tranqüila, sob o luar, vista da Graça ou de S. Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa.

A beleza de um corpo nu só o sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o obstá-culo para a energia.

A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. 0 que gozei destes campos vastos, gozei-o porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido. A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma aproximação do natural. O que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artifi-cial por natural.

É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da alma humana superior.

Uma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma via-gem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.