Livro do Desassossego
Livro do Desassossego
Cada casa por que passo, cada chalé, cada casita isolada caiada de branco e de silêncio — em cada uma delas num momento me concebo vivendo, primeiro feliz, depois te-diento, cansado depois; e sinto que tendo-a abandonado, tra-go comigo uma saudade enorme do tempo em que lá vivi. De modo que todas as minhas viagens são uma colheita dolorosa e feliz de grandes alegrias, de tédios enormes, de inúmeras falsas saudades.
Depois, ao passar diante de casas, de ''Villas", de cha-lés, vou vivendo em mim todas as vidas das criaturas que ali estão. Vivo todas aquelas vidas domésticas ao mesmo tempo. Sou o pai, a mãe, os filhos, os primos, a criada e o primo da criada, ao mesmo tempo e tudo junto, pela arte espacial que tenho de sentir ao mesmo [tempo] várias sensações diver-sas, de viver ao mesmo tempo — e ao mesmo tempo por fora, vendo-as, e por dentro sentindo-mas — as vidas de vá rias criaturas.
Paisagens inúteis, como aquelas que dão a volta às chá-venas chinesas, partindo da asa. e vindo acabar na asa, de repente. As chávenas são sempre tão pequenas... Para onde se prolongaria, e com que (...) de porcelana, a paisagem que não se prolongou para além da asa da chávena? É possível a certas almas sentir uma dor profunda por a paisagem pintada num abano chinês não ter três dimensões. — Naufrágios? Não, nunca tive nenhum. Mas tenho a impressão de que todas as minhas viagens naufraguei, a mi-nha salvação escondida em [...]
— Sonhos vagos, luzes confusas, paisagens perplexas — eis o que me resta na alma de tanto que viajei.
FERNANDO PESSOA
Tenho a impressão de que conheci horas de todas as cores, amores de todos os sabores, ânsias de todos os tama-nhos. Desmedi-me pela vida fora, e nunca me bastei nem me sonhei bastando-me.
— Preciso explicar-lhe que viajei realmente. Mas tudo me sabe a constar-me que viajei, mas não vivi. Levei de um lado para outro, de norte para sul... de leste para oeste o cansaço de ter tido um passado, o tédio de viver o presente, e o desassossego de ter que ter um futuro. Mas tanto me esforço que fico todo no presente matando dentro de mim o passado e o futuro.
— Passei pelas margens dos rios cujo nome me encon-trei ignorando. As mesas dos cafés de cidades visitadas des-cobri-me a perceber que tudo me sabia a sonho, a vago. Che-guei a ter às vezes a dúvida se não continuava sentado à mesa da nossa casa antiga, universal e deslumbrado por sonhos! Não lhe posso afirmar que isso não aconteça, que eu não esteja lá agora ainda, que tudo isto, incluindo esta conversa consigo, não seja falso e suposto. O sr. que é? Dá-se o fato ainda absurdo de não o poder explicar...
Viagem nunca feita
Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz.
O céu — impossivelmente me recordo — era dum resto roxo de ouro triste, e a linha agônica dos montes, lúcida, tinha uma auréola cujos tons de morte lhe penetravam, ama-ciadores, na astúcia do seu contorno. Da outra amurada do barco (estava mais frio e era mais noite sob esse lado do tol-do) o oceano tremia-se até onde o horizonte leste se entriste-cia, e onde, pondo penumbras de noite na linha líquida e obscura do mar extremo, um hálito de treva pairava como uma névoa em dia de calor.
LIVRO DO DESASSOSSEGO
O mar, recordo-me, tinha tonalidades de sombra, de mistura com fugas ondeadas de vaga luz — e era tudo mis-terioso como uma idéia triste numa hora de alegria, profético não sei de quê.
Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igual-mente, o propósito ritual da minha viagem era ir em de-manda de portos inexistentes — portos que fossem apenas o entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios, estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dú-vida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. É que nunca viajastes como eu.
Eu parti? Eu não vos juraria que parti. Encontrei-me em outras partes, noutros portos, passei por cidades que não eram aquela, ainda que nem aquela nem essas fossem cidades algumas. Jurar-vos que fui eu que parti e não a paisagem, que fui eu que visitei outras terras e não elas que me visi-taram — não vô-lo posso fazer. Eu que, não sabendo o que é a vida, nem sei se sou eu que a vivo se é ela que me vive (tenha esse verbo ao "viver" o sentido que quiser ter), decerto não vos irei jurar qualquer coisa.
Viajei. Julgo inútil explicar-vos que não levei nem me-ses, nem dias, nem outra quantidade qualquer de qualquer medida de tempo a viajar. Viajei no tempo é certo, mas não do lado de cá do tempo, onde o contamos por horas, dias e meses; foi do outro lado do tempo que eu viajei, onde o tem-po se não conta por medida. Decorre, mas sem que seja pos-sível medi-lo. É como que mais rápido que o tempo que vi-mos viver-nos. Perguntais-me a vós, de certo, que sentido têm estas frases; Nunca erreis assim. Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.
Em que barco fiz essa viagem? No vapor Qualquer. Rides. Eu também, e de vós talvez. Quem vos diz, e a mim, que não escrevo símbolos para os deuses compreenderem?