Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 21 de 44

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Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, idéias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!

A vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebu-losa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de to-das as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. Agir é reagir contra si próprio. Influenciar é sair de casa.

Sempre que meditei como era absurdo que, onde a rea-lidade substancial é uma série de sensações, houvesse coisas tão complicadamente simples como comércios, indústrias, relações sociais e familiares, tão desoladoramente incom-preensíveis perante a atitude interior da alma para com a idéia de verdade.

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Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e ativos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sem-pre o fazem, como crêem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem acarinha uma criança, alguém alheio à certeza e à exatidão da vida.

Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingênuos, e eu era ingênuo, que esse sorriso dado às preocu-pações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação in-tima de superioridade. É somente um estalido de diferença. E, se antigamente eu considerava esse sorriso como um in-sulto, porque implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças uma agudeza de espi-rito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que so-nhamos e o dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que, muitas ve-zes, os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superiori-dade; e então sorriem superiormente, para esconder que a entrevêem.

Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem ativo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que o sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação. Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O

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sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite cor-rem na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da rea-lidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes seja feito, e, como Machiavelli, vestem os trajos da corte para escrever bem em segredo.

Int[ervalo] Do/[oroso]

Nem no orgulho tenho consolação. De quê orgulhar-me se não sou o criador de mim-próprio. E mesmo que haja em mim de que envaidecer-me, quanto para me não envai-decer.

Jazo a minha vida. E nem sei fazer com o sonho o gesto de me erguer, tão até à alma estou despido de saber ter um esforço.

Os fazedores de sistemas metafísicos, os (...) de expli-cações psicológicas são ainda piores no sofrimento. Sistema-tizar, explicar o que é senão (...) e construir? E tudo isso — arranjar, dispor, organizar — o que é senão esforço reali-zado — e quão desoladoramente isso é vida! Pessimista — eu não o sou. Ditosos os que conseguem traduzir para universal o seu sofrimento. Eu não sei se o mundo é triste ou mau nem isso me importa, porque o que os outros sofrem me é aborrecido e indiferente. Logo que não chorem ou gemam, o que me irrita e incomoda, nem um en-colher de ombros tenho — tão fundo me pesa o meu desdém por eles — para o seu sofrimento.

 

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Mas sou [?] quem crê que a vida seja meio luz meio sombras. Eu não sou pessimista. Não me queixo do horror da vida. Queixo-me do horror da minha. O único fato im-portante para mim é o fato de eu existir e de eu sofrer e de não poder sequer sonhar-me de todo por fora de me sentir sofrendo.

Sonhadores felizes são os pessimistas. Formam o mundo à sua imagem e assim sempre conseguem estar em casa. A mim o que me dói mais é a diferença entre o ruído e a alegria do mundo e a minha tristeza e o meu silêncio aborrecido. A vida com todas as suas dores e receios e solavancos deve ser boa e alegre, como para uma viagem em velha dili-gência para quem vai acompanhado (e o pode ver [?]). Nem ao menos posso sentir o meu sofrimento como si-nal de Grandeza. Não sei se o é. Mas eu sofro em coisas tão reles, ferem-me coisas tão banais, que não ouso insultar com essa hipótese a hipótese de que eu possa ter gênio. A glória de um poente belo, com a sua beleza entris-tece-me. Ante eles eu digo sempre: como quem é feliz se deve sentir contente ao ver isto!

E este livro é um gemido. Escrito ele já o Só não é o livro mais triste que há em Portugal.

Ao pé da minha dor todas as outras dores me parecem falsas ou mínimas. São dores de gente feliz ou dores de gente quo vive e se queixa. As minhas são de quem se encontra encarcerado da vida, aparte...

Entre mime a vida...

De modo que tudo o que angustia vejo. E tudo o que alegra não sinto. E reparei que o mal mais se vê que se sente, a alegria mais se sente do que se vê. Porque não pensando, não vendo, certo contentamento adquire-se, como o dos mís-ticos [?] e dos boêmios e dos canalhas. Mas tudo afinal entra

 

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[em] casa pela janela da observação e pela porta do pensa-mento.

(a child hand's playing with [?] cotton-reels, etc.)

Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse ape-nas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movi-mento.

Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. A vida nunca pedi senão que pas-sasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisa-gem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar. A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo — mas tenho pena de o não fazer... e alinho na minha imaginação, confor-tavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.

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AIguns passam dificuldades, outros têm uma vida boê-mia, pitoresca e humilde. Há outros que são caixeiros-via-jantes (poder sonhar-me caixeiro-viajante foi sempre uma das minhas grandes ambições — irrealizável infelizmente!). Outros moram em aldeias e vilas lá para as fronteiras de um Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atra-ção... E quando sonho isto, passeando no meu quarto, fa-lando alto, gesticulando... quando sonho isto, e me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilham-me os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... isso mesmo não atinge o fervor do-loroso e trêmulo com que choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secun-dárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina na minha visiona-ção, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.

A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nun-ca é tão lacrimosa contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudes-sem ser, realmente, independente da minha consciência deles!

Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca es-teve senão comigo! As flores do jardim da pequena casa de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um cam-po que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os

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atalhos, as pedras, os camponeses que passam... tudo isto que nunca passou de um sonho, está guardado em minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los passo horas depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade saudade que eu tenho, um passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene, no seu caixão. Há também as paisagens e as vidas que não foram intei-ramente interiores. Certos quadros, sem subido relevo artís-tico, certas oleogravuras que havia em paredes com que con-vivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já mais em pequeno! Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por aquele luar eterno (embora mal-desenhado), vendo o homem que passa num barco por baixo do debruçar de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do meu desespero eram dife-rentes. A impossibilidade que me torturava era de outra or-dem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos gaios e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto na-quela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de [...] consciência do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades.