Livro do Desassossego
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grandes acontecimentos da prosa vivida, parece-me hoje, es-crito na distância destas páginas relidas com outra alma, uma bomba de quintal de província, instalada por instinto e ma-nobrada por serviço. Naufraguei sem tormenta num mar onde se pode estar de pé.
E pergunto ao que me resta de consciente nesta série confusa de intervalos entre coisas que não existem, de que me serviu encher tantas páginas de frases em que acreditei como minhas, de emoções que senti como pensadas, de ban-deiras e pendões de exércitos que são, afinal, papéis colados com cuspo pela filha do mendigo debaixo dos beirais. Pergunto ao que me resta de mim a que vêm estas pá-ginas inúteis, consagradas ao lixo e ao desvio, perdidas antes de ser entre os papéis rasgados do Destino. Pergunto, e prossigo. Escrevo a pergunta, embrulho-a em novas frases, desmeado-a de novas emoções. E amanhã tornarei a escrever, na seqüência do meu livro estúpido, as impressões diárias do meu desconvencimento com frio.
Sigam, tais como são. Jogado o dominó, e ganho o jogo, ou perdido, as pedras viram-se para baixo e o jogo findo é negro.
... como um náufrago afogando-se à vista de ilhas mara-vilhosas, em aqueles mesmos mares dourados de violeta de que em leitos remotos verdadeiramente sonhara. Suponho que seja o que chamam um decadente, que haja em mim, como definição externa do meu espírito, essas lucilações tristes de uma estranheza postiça que incorporam
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em palavras inesperadas uma alma ansiosa e malabar. Sinto que sou assim e que sou absurdo. Por isso busco, por uma imitação de uma hipótese dos clássicos, figurar ao menos em uma matemática expressiva as sensações decorativas da mi-nha alma substituída. Em certa altura da cogitação escrita, já não sei onde tenho o centro da atenção — se nas sensações despersas que procuro descrever, como a tapeçarias incógni-tas, se nas palavras com que, querendo descrever a própria descrição, me embrenho, me descaminho e vejo outras coi-sas. Formam-se em mim associações de idéias, de imagens, de palavras — tudo lúcido e difuso —, e tanto estou dizendo o que sinto, como o que suponho que sinto, nem distingo o que a alma me sugere do que as imagens, que a alma deixou cair, me enfloram no chão, nem, até, se um som de palavra bárbara, ou um ritmo de frase interposta, me não tiram do assunto já incerto, da sensação já em parque, e me absolvem de pensar e de dizer, como grandes viagens para distrair. E isto tudo, que, se o repito, deveria dar me uma sensação de futilidade, de falência, de sofrimento, não consegue senão dar-me asas de ouro. Desde que falo de imagens, talvez por-que fosse a condenar o abuso delas, nascem-me imagens; desde que me ergo de mim para repudiar o que não sinto, eu o estou sentindo já e o proprio repúdio é uma sensação com bordados; desde que, perdida enfim a fé no esforço, me quero abandonar ao extravio, um termo clássico, um adjetivo espa-cial e sóbrio, fazem-me de repente, como uma luz de sol, ver clara diante de mim a página escrita dormentemente, e as letras da minha tinta da caneta são um mapa absurdo de si-nais mágicos. E deponho-me como à caneta, e traço a capa de me reclinar sem nexo, longínquo, intermédio e súcubo, final como um náufrago afogando-se etc.
Tornar puramente literária a receptividade dos senti-dos, e as emoções, quando acaso inferiorizem aparecer, con-
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vertê-las em matéria aparecida para com ela estátuas se es-culpirem de palavras fluidas e [...]
Educação sentimental.(?)
Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensações uma religião e uma política, para esse o primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, é o sentir as coisas mínimas extraordinária — e des-medidamente. Este é o primeiro passo, e o passo simples-mente primeiro não é mais do que isto. Saber pôr no saborear duma chávena de chá a volúpia extrema que o homem nor-mal só pode encontrar nas grandes alegrias que vem da ambi-ção subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou então nos atos finais e carnais do amor; poder encontrar na visão dum poente ou na contemplação dum detalhe decorativo aquela exasperação de senti-los que geralmente só pode dar, não o que se vê ou o que se ouve, mas o que se cheira ou .se gosta — essa proximidade do ob-jeto da sensação que só as sensações carnais — o tato, o gosto, o olfato — esculpem de encontro à consciência; poder tornar a visão interior, o ouvido do sonho — todos os senti-dos supostos e do suposto — recebedores e tangíveis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as análogas suponham-se, dentre as sensações que o cultor de sentir-se logra, educado já, espasmar, para que dêem uma noção con-creta e próxima do que busco dizer.
O chegar, porém, a este grau de sensação, acarreta ao amador de sensações o correspondente peso ou gravame fí-sico de que correspondentemente sente, com idêntico exas-pero consciente, o que de doloroso impinge [sic ] do exterior, e por vezes do interior também, sobre o seu momento de atenção. É quando assim constata que sentir excessivamente, se por vezes é gozar em excesso, é outras sofrer com proli-
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xidade, e porque o constata, que o sonhador é levado a dar o segundo passo na sua ascensão para si-próprio. Ponho de parte o passo que ele poderá ou não dar, e que, consoante ele o possa ou não dar, determinará tal ou tal outra atitude, jeito de marcha, nos passos que vai dando, segundo possa ou não isolar-se por completo da vida real (se é rico ou não, — redunda nisso). Porque suponho compreendido nas entreli-nhas do que narro, que, consoante é ou não possível ao so-nhador isolar-se e dar-se a si, ou não é, com menor, ou maior, intensidade ele deve concentrar-se sobre a sua obra de despertar doentiamente o funcionamento das suas sensações das coisas e dos sonhos. Quem tem de viver entre os homens, ativamente e encontrando-os, — e é realmente possível re-duzir ao mínimo a intimidade que se tem de ter com eles (a intimidade, e não o mero contato, com gente, é que é o prejudicador) — terá de fazer gelar toda a sua superfície de convivência para que todo o gesto fraternal e social feito a ele escorregue e não entre ou não se imprima. Parece muito isto, mas é pouco. Os homens são fáceis de afastar: basta não nos aproximarmos. Enfim, passo sobre este ponto e reintegro-me no que explicava.
O criar uma agudeza e uma complexidade imediata às sensações as mais simples e fatais, conduz, eu disse, se a aumentar imoderadamente o gozo que sentir dá, também a elevar com despropósito o sofrimento que vem de sentir. Por isso o segundo passo do sonhador deverá ser o evitar o sofri-mento. Não deverá evitá-lo como um estóico ou um epicu-rista da primeira maneira — desnificando-se [sic] porque assim endurecerá para o prazer, como para a dor. Deverá ao contrário ir buscar à dor o prazer, e passar em seguida a educar-se a sentir a dor falsamente, isto é, a ter ao sentido a dor, um prazer qualquer. Há vários caminhos para esta ati-tude. Um é aplicar-se exageradamente a analisar a dor, tendo preliminarmente disposto o espírito e perante o prazer não analisar mas sentir apenas; é uma atitude mais fácil, aos su-periores é claro, do que dita parece. Analisar a dor e habi-
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tuar-se a entregar a dor sempre que aparece, e até que isso aconteça por instinto e sem pensar nisso, à análise acrescenta a toda a dor o prazer de analisar. Exagerado o poder e o ins-tinto de analisar, breve o seu exercício absorve tudo e da dor fica apenas uma matéria indefinida para a análise. Outro método, mais sutil esse e mais difícil, é habituar-se a encarnar a dor numa determinada figura ideal. Criar um outro Eu que seja o encarregado de sofrer em nós, de sofrer o que sofremos. Criar depois um sadismo interior, masoquista todo, que goze o seu sofrimento como se fosse doutrem. Este método — cujo aspecto primeiro, lido, é de impossível — não é fácil, mas está longe de conter dificuldades para os in-dustriados na mentira interior. Mas é eminentemente realizá-vel. E então, conseguido isto, que sabor a sangue e a doença, que estranho travo de gozo longínquo e decadente, que a dor e o sofrimento vestem: Doer aparenta-se com o inquieto e magoante auge dos espasmos. Sofrer, o sofrer longo e lento, tem o amarelo íntimo da vaga felicidade das convalescências profundamente sentidas. E um requinte gasto a desassossego e a dolência, aproxima essa sensação complexa da inquieta-ção que os prazeres causam na idéia de que fugirão, e a do-lência que os gozos tiram do antecansaço que nasce de se pensar no cansaço que trarão.
Há um terceiro método para sutilizar em prazeres as dores e fazer das dúvidas e das inquietações um mole leito. É o dar às angústias e aos sofrimentos, por uma aplicação irri-tada da atenção, uma intensidade tão grande que pelo próprio excesso tragam o prazer do excesso, assim como pela vio-lência sugiram a quem de hábito e educação de alma ao pra-zer se vota e dedica, o prazer que dói porque é muito prazer, o gozo que sabe a sangue porque feriu. E quando, como em mim — requintador que sou de requintes falsos, arquiteto que me construo de sensações sutilizadas através da inteli-gência, da abdicação da vida, da análise e da própria dor — todos os três métodos são empregados conjuntamente, quan-do uma dor, sentida imediatamente, e sem demoras para es-
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tratégia íntima, é analisada até à secura, colocada num Eu exterior até à tirania, e enterrada em mim até ao auge de ser dor, então verdadeiramente eu me sinto o triunfador e o he-rói. Então me pára a vida, e a arte se me roja aos pés.
Tudo isto constitui apenas o segundo passo que o so-nhador deve dar para o seu sonho.
O terceiro passo, o que conduz ao limiar rico do Templo — esse quem que não só eu o soube dar? Esse é o que custa porque exige aquele esforço interior que é imensamente mais difícil que o esforço na vida, mas que traz compensações pela alma fora que a vida nunca poderá dar. Esse passo é, tudo isso sucedido, tudo isso totalmente e conjuntamente feito — sim, empregados os três métodos sutis e empregados até gastos, passar a sensação imediatamente através da inteligên-cia pura, coá-la pela análise superior, para que ela se esculpa em forma literária e tome vulto e relevo próprio. Então eu fixei-a de todo. Então eu tornei o irreal real e dei ao inatin-gível um pedestal eterno. Então fui eu, dentro de mim, co-roado o Imperador.
Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamen-tálmente ilógico, (...) da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior a que eu chamo ou A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trêmula, ou mesmo para que eu goze com a prosa — ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados — mas para que dê com-plexa exterioridade ao que é interior, para que assim realize o irrealizável, conjugue o contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estag-nador de vida que sou, burilador de inexatidões, pajem doen-te da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da
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minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz tênue e última dum misterioso dia espiritual.
Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao me-nos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesqui-nha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de dis-tração de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma ma-neira, e assim é toda a vida.
Um tédio que inclui a antecipação só de mais tédio; a pena, já, de amanhã ter pena de ter tido pena hoje — grandes emaranhamentos sem utilidade nem verdade, grandes ema-ranhamentos...
... onde, encolhido num banco de espera da estação apeadeiro, o meu desprezo dorme entre o gabão do meu de-salento...
... o mundo de imagens sonhadas de que se compõem, por igual, o meu conhecimento e a minha vida... Em nada me pesa ou em mim dura o escrúpulo da hora presente. Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições.
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Releio lúcido, demoradamente, trecho a trecho tudo quanto tenho escrito. E acho que tudo é nulo e mais valera que eu o não houvesse feito. As coisas conseguidas, sejam impérios ou frases, têm, porque se conseguiram, aquela pior parte das coisas reais, que é o sabermos que são perecíveis. Não é isto, porém, que sinto e me dói no que fiz, nestes lentos momentos em que o releio. O que me dói é que não valeu a pena fazê-lo, e que o tempo que perdi no que fiz, o não ganhei senão na ilusão, agora desfeita, de ter valido a pena fazê-lo.
Tudo quanto buscamos, buscâmo-lo por uma ambição, mas essa ambição ou não se atinge, e somos pobres, ou jul-gamos que a atingimos, e somos loucos ricos. O que me dói é que o melhor é mau, e que outro, se o houvesse, e que eu sonho, o haveria feito melhor. Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensamos em fazer. Desdiz, não só da perfeição externa, senão da perfeição interna; falha não só à regra do que deve-ria ser, senão à regra do que julgávamos que poderia ser. Somos ocos não só por dentro, senão também por fora, párias da antecipação e da promessa.
Com que vigor da alma sozinha fiz página sobre página reclusa, vivendo sílaba a sílaba a magia falsa, não do que es-crevia, mas do que supunha que escrevia! Com que encan-tamento de bruxedo irônico me julguei poeta da minha prosa, no momento alado em que ela me nascia, mais rápida do que os movimentos da pena, como um desforço falaz aos insultos da vida! E afinal, hoje, relendo, vejo rebentar meus bonecos, sair-lhes a palha pelos rasgos, despejarem-se sem ter sido... As frases que nunca escreverei, as paisagens que não poderei nunca descrever, com que clareza as dito à minha
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inércia e as descrevo na minha meditação, quando, recos-tado, não pertenço, senão longinquamente, à vida. Talho frases inteiras, perfeitas palavra a palavra, contexturas de dramas narram-se-me construídas no espírito, sinto o movi-mento métrico e verbal de grandes poemas em todas as pala-vras, e um grande [...] como um escravo que não vejo, se-gue-me na penumbra. Mas se der um passo, da cadeira, onde jazo estas sensações quase cumpridas, para a mesa onde que-reria escrevê-las, as palavras fogem, os dramas morrem, do nexo vital que uniu o murmúrio rítmico não fica mais que uma saudade longínqua, um resto de sol sobre montes afas-tados, um vento que ergue as folhas ao pé do limiar deserto, um parentesco nunca revelado, a orgia dos outros, a mulher, que a nossa intuição diz que olharia para trás, e nunca chega a existir.
Projetos, tenho-os tido todos. A Ilíada que compus teve uma lógica de estímulo, uma concatenação orgânica de epo-dos que Homero não podia conseguir. A perfeição estudada dos meus versos por completar em palavras deixa pobre a precisão de Virgílio e frouxa a força de Milton. As sátiras alegóricas que fiz excederam todas a Swift na precisão simbó-lica dos particulares exatamente ligados. Quantos Verlaines fui!
E sempre que me levanto da cadeira onde, na verdade, estas coisas não foram absolutamente sonhadas, tive [sic] a dupla tragédia de as saber nulas e de saber que não foram todas sonho, que alguma coisa ficou delas no limiar abstrato em eu pensar e elas serem.
Fui gênio mais que nos sonhos e menos que na vida. A minha tragédia é esta. Fui o corredor que caiu quase na meta, sendo, até aí, o primeiro.
A experiência direta é o subterfúgio, ou o esconderijo, daqueles que são desprovidos de imaginação.
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Lendo os riscos que correu o caçador de tigres tenho quanto de riscos valeu a pena ter, salvo o do mesmo risco, que tanto não valeu a pena ter, que passou. Os homens de ação são os escravos involuntários dos homens de entendimento. As coisas não valem senão na in-terpretação delas. Uns, pois, criam coisas para que os outros, transmudando-as em significação as tornem vidas. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido.
Quanto mais avançamos na vida, mais nos convence-mos de duas verdades que todavia se contradizem. A pri-meira é de que, perante a realidade da vida, soam pálidas todas as ficções da literatura e da arte. Dão, é certo, um prazer mais nobre que os da vida; porém são como os so-nhos, em que sentimos sentimentos que na vida se não sen-tem, e se conjugam formas que na vida se não encontram; são contudo sonhos, de que se acorda, que não constituem memórias nem saudades, com que vivamos depois uma se-gunda vida.
A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coi-sas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjetivamente pode ser vi-vida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.
Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sá-bio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá contudo que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.
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Feliz quem não exige da vida mais do que ela esponta-neamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espetáculo externo de todas as impressões. Feliz, por fim, esse que ab-dica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.
O campônio, o leitor de novelas, o puro asceta — estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade — um porque vive do instinto, que é impes-soal, outro porque vive da imaginação que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme. Nada me satisfaz, nada me consola, tudo — quer haja sido, quer não — me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passa-gem entre o que não tenho e o que não quero. Desde o meio do século dezoito que uma doença terrível baixou progressivamente sobre a civilização. Dezessete sécu-los de aspiração cristã constantemente iludida, cinco séculos de aspiração pagã perenemente postergada — o catolicismo que falira como cristismo, a renascença que falira como paga-nismo, a reforma que falira como fenômeno universal. O de-sastre de tudo quanto se sonhara, a vergonha de tudo quanto se conseguira, a miséria de viver sem vida digna que os ou-tros pudessem ter conosco, a sem vida dos outros que pudés-semos dignamente ter.
Isto caiu nas almas e envenenou-as. O horror à ação, por ter de ser vil numa sociedade vil, inundou os espíritos. A
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atividade superior da alma adoeceu; só a atividade inferior, porque mais vitalizada, não decaiu; inerte a outra, assumiu a regência do mundo.
Assim nasceu a literatura e uma arte feitas de elementos secundários do pensamento — o romantismo; e uma vida social feita de elementos secundários da atividade — a demo-cracia moderna.
As almas nascidas para mandar só tinham o remédio de abster-se. As almas nascidas para criar, numa sociedade onde as forças criadoras faliam, tinham por único mundo plástico à sua vontade o mundo social dos seus sonhos, a esterilidade introspectiva da própria alma.
Chamamos "românticos", por igual, aos grandes que faliram e aos pequenos que se revelaram. Mas não há seme-lhança senão na sentimentalidade evidente; mas em uns a sentimentalidade mostra a impossibilidade do uso ativo da inteligência; em outros mostra a ausência da própria inteli-gência. São fruto da mesma época um Chateaubriand e um Hugo, um Vigny e um Michelet. Mas um Chateaubriand é uma alma grande que diminui; um Hugo é uma alma pe-quena que se distende com o vento do tempo; um Vigny é um gênio que teve de fugir; um Michelet uma mulher que teve de ser homem de gênio. No pai de todos Jean-Jacques Rousseau as duas tendências estão juntas. A inteligência nele era de criador, a sensibilidade de escravo. Afirma ambas por igual. Mas a sensibilidade social, que tinha, envenenou as suas teorias, que a inteligência apenas [dispôs?] clara-mente. A inteligência que tinha só servia para gemer a mi-séria de coexistir com tal sensibilidade.
J.-J. Rousseau é o homem moderno, mas mais com-pleto que qualquer homem moderno. Das fraquezas que o fi-zeram falir tirou — ai dele e de nós! — as forças que o fize-ram triunfar. O que partiu dele venceu, mas nos lábaros da sua vitória, quando entrou na cidade, via-se que estava es-crita [...] a palavra "Derrota". No que dele fica para trás,
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incapaz do esforço de vencer, foram as coroas e os cetros, a majestade de mandar e a glória de vencer por destino in-terno.
O mundo, no qual nascemos, sofre de ambos [?] — meio de renúncia e de violência — da renúncia dos superio-res e da violência dos inferiores, que é a sua vitória. Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se moderna-mente, tanto na ação, como no pensamento, na esfera polí-tica, como na especulativa.
A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde um medi-dor [?] da forma não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contato da alma com a vida. O esforço é cada vez mais do-loroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exte-riores do esforço.
A ruína dos ideais clássicos fez de todos artistas possí-veis, e portanto, maus artistas. Quando o critério da arte era a construção sólida, a observância cuidadosa de regras — poucos podiam tentar ser artistas, e grande parte desses são muito bons. Mas quando a arte passou de ser tida como cria-ção, para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista porque todos têm sentimentos. A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-ía-mos; tudo (o) mais é sistema e arredores. Basta-nos, se pen-sarmos, a incompreensibilidade do universo; querer com-preendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se não compreende.
Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite, mas que o não abra. Trazem-
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me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa, se ela não tem senão pó?
Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios: conforme as exigências da emoção. Se a emoção é clara e fatal, falo, naturalmente, dos Deuses, e assim a enquadro numa consciência do mundo múltiplo. Se a emoção é profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a engasto numa consciência una. Se a emoção é um pensa-mento, falo, naturalmente, do Destino, e assim a encosto à parede.
Umas vezes o próprio ritmo da frase exigirá Deuses e não Deus; outras vezes impor-se-ão as duas sílabas de Deu-ses e mudo verbalmente de universo; outras vezes pesará
[sic] ao contrário as necessidades de uma rima íntima, um deslocamento do ritmo, um sobressalto de emoção e o poli-teísmo ou o monoteísmo amolda-se e prefere-se. Os Deuses são uma função do estilo.
Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocul-tismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últi-mas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os gran-des segredos que são os cavoucos do mundo. Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que al-guém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? mas há alucinações co-letivas.
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O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sa-bedores do invisível é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Dia-bo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o co-mércio com a gramática? Quem, através de longos exercí-cios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dog-ma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever — já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta —, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver [?] Porque há de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há de sobrar um reles bocado, com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?
Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são inca-pazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estra-nhos; gostara, porém, que me provassem que o são por supe-rioridade ao normal e não por impotência dele. Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um ato de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.
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O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a ação so-bre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa. Reparando, às vezes, no trabalho literário abundante, ou, pelo menos, feito de coisas extensas e completas, de tan-tas criaturas que ou conheço ou de quem sei, sinto em mim uma inveja incerta, uma admiração desprezante, um misto incoerente de sentimentos mistos.
Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou seja má — e, se nunca é inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má — sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. É como um filho; é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os filhos são.
E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escre-ver mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também. Mais valera pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se reconhece incapaz de agir. Penso se tudo na vida não será a degeneração de tudo. O ser não será uma aproximação — umas vésperas ou uns ar-redores.
Assim como o Cristianismo não foi senão a degeneração bastarda do neoplatonismo abaixado (...) a judaização do hele-nismo falso, romano, assim nossa época [....] é o desvio múl-