Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a de aquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, so-bretudo, para o converter na nossa íntima substância, fare-mos também descrições e análises, que, uma vez feitas, pas-sarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se vies-sem na tarde.
Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incômodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se dis-trair, sem mais nada.
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me de-morar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cômodas até mim. Sento-me à porta e em-bebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho en-quanto espero.
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Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência.
Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito nolivros dos viajantes puder, relido um dia por outros, en-tretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.
Quando nasceu a geração, a que pertenço, encontrou o mundo desprovido de apoios para quem tivesse cérebro, e ao mesmo tempo coração. O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera que o mundo, para o qual nascemos, não tivesse segurança que nos dar na ordem religiosa, esteio que nos dar na ordem moral, tranqüilidade que nos dar na ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia moral, em pleno desassossego político. Ebrias das fórmulas externas, dos meros processos da razão e da ciên-cia, as gerações, que nos precederam, aluíram todos os fun-damentos da fé cristã, porque a sua crítica bíblica, subindo de crítica dos textos a crítica mitológica, reduziu os evangelhos e a anterior hierografia dos judeus a um amontoado incerto de mitos, de legendas e de mera literatura; e a sua crítica científica gradualmente apontou os erros, as ingenuidades selvagens da ' 'ciência'' primitiva dos evangelhos; e, ao mes-mo tempo, a liberdade de discussão, que pôs em praça todos os problemas metafísicos, arrastou com eles os problemas religiosos onde fossem da metafísica. Ébrias de uma coisa in-certa, a que chamaram "positividade", essas gerações criticaram toda a moral, esquadrinharam todas as regras de vi-ver, e, de tal choque de doutrinas, só ficou a certeza de ne-nhuma, e a dor de não haver essa certeza. Uma sociedade assim indisciplinada nos seus fundamentos culturais não po-dia, evidentemente, ser senão vítima, na política, dessa indis-ciplina; e assim foi que acordamos para um mundo ávido de
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novidades sociais, e com alegria ia à conquista de uma liber-dade que não sabia o que era, de um progresso que nunca definira.
Mas o criticismo frusto dos nossos pais, se nos legou a impossibilidade de ser cristãos, não nos legou o contenta-mento com que a tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, não nos legou á indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto o problema político, não deixou indiferente o nosso espírito a como esse problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente porque viviam em uma época que tinha ain-da reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que eles destruíam, que dava força à sociedade, para que pudessem destruir sem sentir o edifício rachar-se. Nós herdamos a des-truição e os seus resultados.
Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar con-quista-se hoje quase pelos mesmos processos, por que se con-quista o intemamento num manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação. Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que trans-feriam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamora-dos só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam bus-car a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nas-cemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma
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religião que a representa: passar para outras regiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
Nós perdemos essa, e às outras também. Ficamos, pois, cada um entregue a si-próprio, na deso-lação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a idéia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, dimi-nuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A ener-gia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.
Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidia-no, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.
Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa pú-blica, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existir-mos. Impossível esforço, em que[m] não tem, como o por-tador da Cruz, uma origem divina na consciência. Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ou-viam, crendo amar quando chocavam contra as exteriorida-des do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estáva-mos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos per-dido a noção normal da morte.
Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em
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si-próprios. O que viveram foi em negação, em descon-tentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no gênero de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
Tenho sido sempre um sonhador irônico, infiel às pro-messas interiores. Gozei sempre, como outros e estrangeiro, as derrotas dos meus devaneios, assistente casual ao que pen-sei ser. Nunca dei crença àquilo em que acreditei. Enchi as mãos de areia, chamei-lhe ouro, e abri as mãos dela toda, escorrente. A frase fora a única verdade. Com a frase dita estava tudo feito; o mais era a areia que sempre fora. Se não fosse o sonhar sempre, o viver num perpétuo alheamento, poderia, de bom grado, chamar-me um realista, isto é, um indivíduo para quem o mundo exterior é uma nação independente. Mas prefiro não me dar nome, ser o que sou com uma certa obscuridade e ter comigo a malícia de me não saber prever.
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espetáculo que pos-so. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.
Guardo, íntima, como a memória de um beijo grato, a lembrança de infância de um teatro em que o cenário azulado e lunar representava o terraço de um palácio impossível. Ha-via, pintado também, um parque vasto em roda, e gastei a alma em viver como real aquilo tudo. A música, que soava branda nessa ocasião mental da minha experiência da vida, trazia para real de febre esse cenário dado.
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O cenário era definitivamente azulado e lunar. No palco nâo me lembro quem aparecia, mas a peça que ponho na pai-sagem lembrada, sai-me hoje dos versos de Verlaine e de Pessanha; não era a que deslembro, passada no palco vivo aquém daquela realidade de azul música. Era minha e fluida, (a) mascarada imensa e lunar, (o) interlúdio de prata e azul findo.
Depois veio a vida. Nessa noite levaram-me a cear ao Leão. Tenho ainda a memória dos bifes no paladar da sau-dade — bifes, sei ou suponho, como hoje ninguém faz ou eu não como. E tudo se me mistura — infância, vivida à distân-cia, comida saborosa de noite, cenário lunar, Verlaine futuro e eu presente — numa diagonal difusa, num espaço falso entre o que fui e o que sou.
Tudo quanto não é a minha alma é para mim, por mais que eu queira que o não seja, não mais que cenário e decora-ção. Um homem, ainda que eu possa reconhecer pelo pensa-mento que ele é um ente vivo como eu, teve sempre, para o que em mim, por me ser involuntário, é verdadeiramente eu, menos importância que uma árvore, se a árvore é mais bela. Por isso senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias coletivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam ne-les. Nunca me pesou o que de trágico se passasse na China. É decoração longínqua, ainda que a sangue e peste. Relembro, com tristeza irônica, uma manifestação de operários, feita não sei com que sinceridade (pois me pesa sempre admitir sinceridade nas coisas coletivas, visto que é o indivíduo, a sós consigo, o único ser que sente). Era um grupo compacto e solto de estúpidos animados, que passou
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gritando coisas diversas diante do meu indiferentismo de alheio. Tive subitamente náusea. Nem sequer estavam sufi-cientemente sujos. Os que verdadeiramente sofrem não fa-zem plebe, não formam conjunto. O que sofre sofre só. Que mau conjunto: Que falta de humanidade e de dor! Eram reais e portanto incríveis. Ninguém faria com eles um quadro de romance, um cenário de descrição. Decorriam como lixo num rio, no rio da vida. Tive sono de vê-los, nau-seado e supremo.
Desejaria construir um código de inércia para os supe-riores nas sociedades modernas.
— A sociedade governar-se-ia espontaneamente e a si própria, se não contivesse gente de sensibilidade e de inteli-gência. Acreditem que é a única coisa que a prejudica. As sociedades primitivas tinham uma feliz existência mais ou menos assim.
Pena é que a expulsão dos superiores da sociedade resul-taria em eles morrerem, porque não sabem trabalhar. E tal-vez morressem de tédio, por não haver espaços de estupidez entre eles. Mas eu falo do ponto de cura [?] da felicidade hu-mana.
Cada superior que se manifestasse na sociedade seria ex-pulso para a ilha [...] dos superiores. Os superiores seriam alimentados, como animais em jaula, pela sociedade normal. Acreditem: se não houvesse gente inteligente que apon-tasse os vários mal-estares humanos, a humanidade não dava por eles. E as criaturas de sensibilidade fazem sofrer os ou-tros por simpatia.
Por enquanto, visto que vivemos em sociedade, o único dever dos superiores é reduzir ao mínimo a sua participação na vida da tribo.
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Não ler jornais, ou lê-los só para saber o que de pouco importane e curioso passa; não ninguém imagina a volú-pia que arranco ao noticiário sucinto das províncias. Os me-ros nomes abrem-me portas sobre o vago. O supremo estado honroso para um homem superior é não saber quem é o chefe de estado do seu país, ou se vive sob monarquia ou sob república.
— Toda a sua atitude deve ser colocar a alma de modo que a passagem das coisas, dos acontecimentos não o inco-modem. Se o não fizer terá que se interessar pelos outros, para cuidar [?] de si próprio.
Sempre neste mundo haverá a luta, sem decisão nem vitória, entre o que ama o que não há porque existe, e o que ama o que há porque não existe. Sempre, sempre, haverá o abismo entre o que renega o mortal porque é mortal, e o que ama o mortal porque desejaria que ele nunca morresse. Vejo-me aquele que fui na infância, naquele momento em que o meu barco dado se virou no tanque da quinta, e não há filo-sofias que substituam esse momento, nem razões que me ex-pliquem porque passou. Lembro-o, e vivo; que vida melhor tens tu para me dar?
— Nenhuma, nenhuma porque também eu lembro. Ah, lembro-me bem! Era na casa velha da quinta antiga e ao serão; depois de coserem e fazerem meia, o chá vinha, e as torradas, e o sono bom que eu haveria de dormir. Dá-me isto outra vez, tal qual era, com o relógio a tictacar ao fun-do, e guarda para ti os Deuses todos. Que me é um Olimpo que me não sabe às torradas do passado? Que tenho eu com deuses que não tem o meu relógio antigo?
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Talvez tudo seja símbolo e sombra, mas não gosto de símbolos e não gosto de sombras. Restitui-me o passado e guarda a verdade. Dá-me outra vez a infância e leva Deus contigo.
— Os teus símbolos! Se eu chorar na noite, como uma criança com medo, nenhum dos teus símbolos me vem afa-gar no ombro e embalar por ali até que eu durma. Se eu me perder na estrada, tu não tens Virgem Maria melhor que me venha buscar pela mão. Tenho frio das tuas transcendências. Quero um lar no Além. Julgas que alguém tem sede na alma de metafísicas ou de mistérios ou de altas verdades? — De que é que se tem sede nessa alma? — De qualquer coisa como tudo que foi a nossa infân-cia. Dos brinquedos mortos, das tias velhas idas. Essas coisas é que são a realidade, embora morressem. Que tem o Inefá-vel comigo?
— Uma coisa... Tiveste algumas tias velhas, e alguma quinta antiga e algum chá e algum relógio? — Não tive. Gostaria de ter tido. E tu viveste à beira-mar?
— Nunca. Não o sabias?
— Sabia, mas acreditava. Para que descrer do que só se supõe?
Não sabes que este é um diálogo no jardim do Palácio, um interlúdio lunar, uma função em que nos entretemos en-quanto as horas passam para os outros?
— Pois sim, mas eu estou a raciocinar...
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— Está bem: eu não estou. O raciocínio é a pior espécie do sonho, porque é aquele que nos transporta para o sonho a regularidade da vida que não há, isto é, é duplamente nada. — Mas o que quer isso dizer?
(Pondo-lhe a mão no outro ombro, e envolvendo-o num abraço) — O filho, o que quer qualquer coisa dizer? Nunca durmo: vivo e sonho, ou, antes, sonho em vida e a dormir, que também é vida. Não há interrupção em minha consciência: sinto o que me cerca se não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde que deveras dur-mo. Assim o que sou é um perpétuo desenrolamento de ima-gens, conexas ou desconexas, fingindo sempre de exteriores, umas postas entre os homens e a luz se estou desperto, ou-tras postas entre os fantasmas e a sem-luz que se vê, se estou dormindo. Verdadeiramente, não sei como distinguir uma coisa da outra, nem ouso afirmar se não durmo quando estou desperto, se não estou a despertar quando durmo.
A vida é um novelo que alguém emaranhou. Há um sentido nela, se estiver desenrolada e posta ao comprido, ou enrolada bem. Mas, tal como está, é um problema sem no-velo próprio, um embrulhar-se sem onde.
Sinto isto, que depois escreverei, pois que vou já so-nhando as frases a dizer, quando, através da noite de meio-dormir, sinto, junto com as paisagens de sonhos vagos, o ruído da chuva lá fora, a tornar-mos mais vagos ainda. São adivinhas do vácuo, trêmulas de abismo, e através delas se escoa, inútil, a plangência externa da chuva constante, mi-núcia abundante da paisagem do ouvido. Esperança? Nada. Do céu invisível desce em som a mágoa água que vento alça. Continuo dormindo.
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Era, sem dúvida, nas alamedas do parque que se passou a tragédia de que resultou a vida. Eram dois e belos e deseja-vam ser outra coisa; o amor tardava-lhes no tédio do futuro, e a saudade do que haveria de ser vinha já sendo filha do amor que não tinham tido. Assim, ao luar dos bosques pró-ximos, pois através deles se coava a lua, passeavam, mãos dadas, sem desejos nem esperanças, através do deserto pró-prio das aléias abandonas. Eram crianças inteiramente, pois que o não eram em verdade. De aléia em aléia, silhuetas entre árvore e árvore, percorriam em papel recortado aquele cenário de ninguém. E assim se sumiram para o lado dos tanques, cada vez mais juntos e separados, e o ruído da vaga chuva que cessa é o dos repuxos de para onde iam. Sou o amor que eles tiveram e por isso os sei ouvir na noite em que não durmo, e também sei viver infeliz.
Com um charuto caro e os olhos fechados é ser rico. Como quem visita um lugar onde passou a juventude, consigo, com um cigarro barato, regressar inteiro ao lugar da minha vida em que era meu uso fumá-los. E através do sabor leve do fumo todo o passado revive-me. Outras vezes será um certo doce. Um simples bombom de chocolate escangalha-me às vezes os nervos com o excesso de recordações que os estremece. A infância! E entre os meus dentes que se cravam na massa escura e macia, trinco e gosto as minhas humildes felicidades de companheiro alegre do soldado de chumbo, de cavaleiro congruente com a cana casual meu cavalo. Sobem-me as lágrimas aos olhos e junto com o sabor do chocolate mistura-se a meu sabor a minha felicidade passada, a minha infância ida e pertenço voluptuo-samente à suavidade da minha dor.
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Nem por simples é menos solene este meu ritual (do) •paladar.
Mas é o fumo do cigarro o que mais espiritualmente me reconstrói momentos passados. Ele apenas roça a minha consciência de ter paladar. Por isso mais [...] me evoca as horas que morri, mais longínquas as faz presentes, mais ne voentas quando me envolvem, mais etéreas quando as cor-porizo. Um cigarro mentolado, um charuto barato toldam de suavidade alguns meus momentos. Com que sutil plausibili-dade de sabor-aroma reergo os cenários mortos e empresto outra vez as [...] de um passado, tão século dezoito sempre pelo afastamento malicioso e cansado tão medievais sempre pelo inevitavemente perdido.
Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos vi-ver quando estamos moribundos.
Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro. Tudo aquilo que em nossas atividades consideramos su-perior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo tuor-to, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é an-tes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das rela-ções entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte. O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a