Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 31 de 44

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Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

Mãe de todos os silêncios, Lareira das almas que têm frio, Anjo da guarda dos abandonados, paisagem humana — ir-real [?] de triste — eterna Perfeição.

Nossa Senhora do Silêncio

(trecho)

Tu não és mulher. Nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.

Mas tu, na tua vaga essência, não és nada. Não tens realidade, nem mesmo uma realidade só tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto. És como que um senti-mento que fosse o seu próprio objeto e pertencesse todo ao íntimo de si-próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para (poder) ver, a orla da veste que por pouco eu não pude ver, perdido num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da idéia de contorno. Já passaste, e já foste e já te amei — o sentir-te presente é sentir isto.

Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os inters-tícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são opiais de te sentir, e os meus sentimentos góticos [?] de evocar-te. Lua de memórias perdidas sobre a negra paisagem, ní-tida de vazio [?], da minha imperfeição compreendendo-se. O meu ser sente-te vazante como se fosse um cinto teu que te sentisse. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas no-turnas do meu desassossego, no meu saber que és lua no meu

 

LIVRO DO DESASSOSSEGO

céu para que o causes, ou estranha lua submarina para que, não sei como, o finjas.

Quem pudesse criar o Novo Olhar com que te visse, os Novos Pensamentos e Sentimentos que houvessem de te po-der pensar e sentir!

Ao querer tocar no teu manto as minhas expressões cansam o esforço estendido dos gestos de suas mãos, e um cansaço rígido e doloroso gela-se nas minhas palavras. Por isso, curva [?] um vôo de ave que parece que se aproxima e nunca chega, em torno ao que eu quereria dizer de ti, mas a matéria das minhas frases não sabe imitar a substância ou do som dos teus passos, ou do rasto dos teus olhares, ou da cor triste e vazia da curva dos gestos que não fizeste nunca. Final

E se acaso falo com alguém longínquo, e se, hoje nuvem de possível, amanhã caíres, chuva de real sobre a terra, não te esqueças nunca da tua divindade original de sonho meu. Sê sempre na vida aquilo que possa ser o sonho de um isolado e nunca o abrigo de um amoroso. Fazê o teu dever de mera taça. Cumpre o teu mister de ânfora inútil. Ninguém diga de ti o que o rio pode dizer das margens, que existem para o limitar. Antes não correr na vida, antes secar de sonhar. Que o teu gênio seja o ser supérflua, e a tua vida a arte de olhares para ela, de seres a olhada, a nunca idêntica. Não sejas nunca mais nada.

Hoje é apenas o perfil criado deste livro, uma hora car-nalizada e separada das outras horas. Se eu tivesse a certeza de que o eras, ergueria uma religião sobre o (sonho de) amar-te.

És o que falta a tudo. És o que a cada coisa falta para a podermos amar sempre. Chave perdida das portas do Tem-

FERNANDO PESSOA

pio, caminho encoberto do Palácio, Ilha longínqua que a bruma nunca deixa ver...

Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo.

E já que queremos ser estéreis, sejamos também cas-tos, porque nada pode haver de mais ignóbil e baixo do que, renegando da Natureza o que nela é fecundado, guardar vilã-mente dela o que nos praz no que renegamos. Não há nobre-zas aos bocados.

Sejamos castos como eremitas, puros como corpos so-nhados, resignados a ser tudo isto, como freirinhas doidas... Que o nosso amor seja uma oração... Unge-me de ver-te que eu farei dos meus pensamentos de te sonhar um rosá-rio onde os meus tédios serão padre-nossos e as minhas an-gústias ave-marias.

Fiquemos assim eternamente como uma figura de ho-mem em vitral defronte de uma figura de mulher noutro Vi-tral... Entre nós, sombras cujos passos soam frios, a huma-nidade passando... Murmúrios de rezas, segredos de (...) passarão entre nós... Umas vezes enche-se bem o ar de (...) de incensos. Outras vezes, para este lado e para aquele uma figura de estátua [?] rezará aspersões... E nós sempre os mesmos vitrais, nas cores quando o sol nos bata, nas linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silên-cio vítreo... Lá fora passarão civilizações, escacharão revol-tas, turbilhonarão festas, correrão [?] mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor viril, teremos sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma (...)