Livro do Desassossego
Livro do Desassossego
Uns têm graça, outros têm só graça, outros ainda não existem. A graça dos cafés divide-se em ditos de espírito so-bre os ausentes e ditos de insolência aos presentes. A este gênero de espírito chama-se ordinariamente apenas grosse-ria. Nada há mais indicador da pobreza da mente do que não saber fazer espírito senão com pessoas.
Passei, vi, e, ao contrário deles, venci. Porque a minha vitória consistiu em ver. Reconheci a identidade de todos os aglomerados inferiores: vim encontrar aqui, na casa onde te-nho um quarto, a mesma alma sórdida que os cafés me reve-laram, salvo, graças aos deuses todos, a noção de vencer em Paris. A dona desta casa ousa Avenidas Novas em alguns dos seus momentos de ilusão, mas do estrangeiro está salva, e o meu coração enternece-se.
Conservo dessa passagem pelo túmulo da vontade a me-mória de um tédio nauseado e de algumas anedotas com es-pírito.
Vão a enterrar, e parece que já no caminho do cemitério se esqueceu no café o passado, pois vai calado agora.
... e a posteridade nunca saberá deles, escondidos dela para sempre sob a mole negra dos pendões ganhados nas suas vitórias de dizer.
Tudo ali é quebrado, anônimo e impertencente. Vi ali grandes movimentos de ternura, que me pareceram revelar o fundo de pobres almas tristes; descobri que esses movimen-tos não duravam mais que a hora em que eram palavras, e que tinham raiz — quantas vezes o notei com a sagacidade dos silenciosos — na analogia de qualquer coisa com o pie-doso, perdida com a rapidez da novidade da notação, e, ou-
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tras vezes, no vinho do jantar do enternecido. Havia sempre uma relação sistematizada entre o humanitarismo e a aguar-dente de bagaço, e foram muitos os grandes gestos que so-freram do copo supérfluo ou do pleonasmo da sede. Essas criaturas tinham todas vendido a alma a um diabo da plebe infernal, avarento de sordidezas e de relaxamentos. Viviam a intoxicação da vaidade e do ócio, a morriam mo-lemente, entre coxins de palavras, num amarfanhamento de lacraus de cuspo.
O mais extraordinário de toda essa gente era a nenhuma importância, em nenhum sentido, de toda ela. Uns eram re-datores dos principais jornais, e conseguiam não existir; ou-tors tinham lugares públicos em vista do anuário e conse-guiam não figurar em nada da vida; outros eram poetas até consagrados, mas uma mesma poeira de cinza lhes tornava lívidas as faces párvoas, e tudo era um túmulo de embalsa-mados hirtos, postos com a mão nas costas em posturas de vidas.
Guardo do pouco tempo que me estagnei nesse exílio da esperteza mental uma recordação de bons momentos de graça franca, de muitos momentos monótonos e tristes, de alguns perfis recortados no nada, de alguns gestos dados às serven-tes do acaso, e, em resumo, um tédio de náusea física e a memória de algumas anedotas com espírito. Neles se intercalavam, como espaços, uns homens de mais idade, alguns com ditos de espírito pregresso, que di-ziam mal como os outros, e das mesmas pessoas. Nunca senti tanta simpatia pelos inferiores da glória pú-blica como quando os vi malsinar por estes inferiores sem querer essa pobre glória. Reconheci a razão do triunfo por-
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que os párias do Grande triunfavam em relação a estes, e não em relação à humanidade.
Pobres-diabos sempre com fome — ou com fome de al-moço, ou com fome de celebridade, ou com fome das sobre-mesas da vida. Quem os ouve, e os não conhece, julga estar escutando os mestres de Napoleão e os instrutores de Sha-kespeare.
Há os que vencem no amor, há os que vencem na polí-tica, há os que vencem na arte. Os primeiros têm a vantagem da narrativa, pois se pode vencer largamente no amor sem haver conhecimento célebre do que sucedeu. É certo que, ao ouvir contar a qualquer desses indivíduos as suas Maratonas sexuais, uma vaga suspeita nos invade, pela altura do sétimo desfloramento. Os que são amantes de senhoras de título, ou muito conhecidas (são, aliás, quase todos), fazem um tal gasto de condessas que uma estatística das suas conquistas não deixaria sérias e comedidas nem as bisavós dos títulos presentes.
Outros especializam no conflito físico, e mataram os campeões de box da Europa numa noite de pândega, á es-quina do Chiado. Uns são influentes junto de todos os mi-nistros de todos os ministérios, e estes são aqueles de que menos há que duvidar, pois não repugna. Uns são grandes sádicos, outros são grandes pederas-tas, outros confessam, com uma tristeza de voz alta, que são brutais com mulheres. Trouxeram-nas ali, a chicote, pelos caminhos da vida. No fim ficam a dever o café. Há os poetas, há os (...)
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Não conheço melhor cura para toda esta enxurrada de sombras que o conhecimento direito da vida humana cor-rente, na sua realidade comercial, por exemplo, como a que surge no escritório da Rua dos Douradores. Com que alívio eu volvia daquele manicômio de títeres para a presença real do Moreira, meu chefe, guarda-livros autêntico e sabedor, mal vestido e maltratado, mas, o que nenhum dos outros conseguia ser, o que se chama um homem... Comparados com os homens simples e autênticos, que passam pelas ruas da vida, com um destino natural e calhado, essas figuras dos cafés assumem um aspecto que não sei defi-nir senão comparando-as a certos duentes de sonhos — figu-ras que não são de pesadelo nem de mágoa, mas cuja recor-dação, quando acordamos, nos deixa, sem que saibamos por-que, um sabor a um nojo passado, um desgosto de qualquer coisa que está com eles mas que se não pode definir como sendo deles.
Vejo os vultos dos gênios e dos vencedores reais, mes-mo pequenos, singrar na noite das coisas sem saber o que cortam as suas proas altivas, nesse mar de sargaço de palha de embalagem e aparas de cortiça.
Ali se resume tudo, como no chão do saguão do prédio do escritório, que, visto através das grades da janela do ar-mazém, parece uma cela para prender lixo. Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem digni-dade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto é do gato. Senti
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em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me hou-vessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria en-tão o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.
Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desa-grado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstaciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo — tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso cem cho-rar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte.
Aliás, se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos Douradores, a que outra coisa me che-garia — por que a outra me haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria — por que de outro me haveria de vestir? Todos temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível. Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável, de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes gênios e a muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade... Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstra-tos do mundo.
Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negó-cios com todo o Estado: "você é explorado, Borges" [sic],
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Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível. Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.
E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia, escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar — ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tin-teiro como à grande indiferença das estrelas. Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sa-bem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibi-lidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vege-tativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente a de um ho-mem com dor de dentes que houvesse recebido uma fortuna — a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) à alegria e à dor.
Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos ve-getais!
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Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vômito para aliviar a vontade de vomitar.
Um dos meus passeios prediletos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de fra-ses que os outros de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invi-sível da minha meditação aberta.
E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... "E então ela disse..." e o tom diz da intriga dela. "Se não for ele, foste tu..." e a voz que responde ergue-se no protesto que já não ouço. ' 'Disseste, sim senhor, disseste..." e a voz da costureira afirma estridentemente "minha mãe diz que não quer..." " E u ? " e o pasmo do rapaz que traz o lanche embrulhado em papel manteiga não me convence, nem deve convencer a loura suja. "Se calhar era..." e o riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade que (...) "E então pus-me mesmo diante do gajo, e ali mesmo na cara dele — na cara dele, hein, ó Zé..." e o pobre-diabo mente, pois o chefe do escritório — sei pela voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço — não lhe recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas [ ? ] " . . . E então eu fui fumar para a retrete..." ri o pequeno de fundilhos escuros.
Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não ouço, mas as vozes todas são-me claras por uma
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transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer — não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse — o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direção in-voluntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o vômito, é preciso provocar só um.
' 'O gajo estava tão grosso que nem via a escada''. Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar que me dá na fronte — o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a escada — talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão. A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho ves-tido com a consciência inconsciente [?] da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de ma-caco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das códeas úmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações. Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
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Vivemos pela ação, isto é, pela vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos gênios ou mendigos — irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me gênio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalis-mos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comér-cio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta. Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o não fica-rem ali ?
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo [...], um bo-cado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a sombra não por falta de boa alma mas para não ter que desabotoar o casaco [... ]
Escrevo, triste, no quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se, a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substân-cia de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino quotidiano ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espé-
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cie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação con-tra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto an-dar alto da Rua dos Douradores, sinto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato [...] sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quar-to andar, a interpelar a vida! a dizer o que as almas sentem! afazer prosa [...]
Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito, então, parece-me a eternidade. O patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavel-mente, a hipnose do patrão Vasques. Que me é esse homem, salvo o obstáculo ocasional de ser dono das minhas horas, num tempo diurno da minha vida? Trata-me bem, fala-me com amabilidade, salvo nos momentos bruscos de preocupa-ção desconhecida em que não fala bem a alguém. Sim, mas por que me preocupa? É um símbolo? É uma razão? O que é? O patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não ter feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim. Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram gênios e não foram mais que men-digos com sonhos, junto com a massa anônima dos que não tiveram poder para vencer nem renúncia larga para vencer do avesso. Seja onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o escritório da Rua dos Etouradores, e a monotonia da vida quotidiana será para mim como a recordação dos
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amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus.
O patrão Vasques. Vejo de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo — estatura média, atarracado, grosseiro com li-mites e afeições, franco e astuto, brusco e afável — chefe, à parte o seu dinheiro, nas mãos cabeludas e lentas, com as veias marcadas como pequenos músculos coloridos, o pes-coço cheio mas não gordo, as faces coradas e ao mesmo tem-po tensas, sob a barba escura sempre feita a horas. Vejo-o, vejo os seus gestos de vagar enérgico, os seus olhos a pensar para dentro coisas de fora, recebo a perturbação da sua oca-sião em que lhe não agrado, e a minha alma alegra-se com o seu sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multidão.
Será, talvez, porque não tenho próximo de mim figura de mais destaque do que o patrão Vasques, que, muitas ve-zes, essa figura comum e até ordinária se me emaranha na inteligência e me distrai de mim. Creio que há símbolo. Creio ou quase creio que algures, em uma vida remota, este ho-mem foi qualquer coisa na minha vida mais importante do que é hoje.
A tragédia principal da minha vida é, como todas as tragédias, uma ironia do Destino. Repugno a vida real como uma condenação; repugno o sonho como uma libertação ig-nóbil. Mas vivo o mais sórdido e o mais quotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho. Sou como um escravo que se embebeda à sesta — duas misérias em um corpo só.
Sim, vejo nitidamente, com a clareza com [que] os re-lâmpagos da razão destacam do negrume da vida os objetos
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próximos que nô-la formam, o que há de vil, de lasso, de dei-xado e factício, nesta Rua dos Douradores que me é a vida inteira — este escritório sórdido até à sua medula de gente, este quarto mensalmente alugado onde nada acontece senão viver um morto, esta mercearia da esquina cujo dono co-nheço como gente conhece gente, estes moços da porta da taberna antiga, esta inutilidade trabalhosa de todos os dias iguais, esta repetição pegada das mesmas personagens, como um drama que consiste apenas no cenário, e o cenário esti-vesse às avessas...
Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo aden-tro do real, nem o repudio porque, sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou.
E o sonho, a vergonha de fugir para mim, a covardia de ter como vida aquele lixo da alma que os outros têm só no sono, na figura da morte com que ressonam, na calma com que parecem vegetais progredidos!
Não poder ter um gesto nobre que não seja de portas a dentro, nem um desejo inútil que não seja deveras inútil! Definiu César toda a figura da ambição quando disse aquelas palavras: "Antes o primeiro na aldeia do que o se-gundo em Roma!'' Eu não sou nada nem na aldeia nem em Roma nenhuma. Ao menos, o merceeiro da esquina é res-peitado na Rua da Assunção até à Rua da Vitória; é o César de um quarteirão. Eu superior a ele? Em quê, se o nada não comporta superioridade, nem inferioridade, nem compa-ração?
É César de todo um quarteirão e as mulheres gostam dele condignamente.