Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 34 de 44

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esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma idéia dele a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que tal-vez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma...

Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a mi-nha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adotivo, nem nenhuma Amizade para seu compa-nheiro de brinquedos.

Tenho frio demais. Estou tão cansado no meu aban-dono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio [...], a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia.

Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou fazer sentir... Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com os seus grandes gatos prontos e cruéis...

Fecho subitamente portas dentro de mim, por onde cer-tas sensações iam passar para se realizarem. Retiro brusca-mente do seu caminho os objetos espirituais que lhes vão vincar certos gestos.

FERNANDO PESSOA

Pequenas frases sem sentido, metidas nas conversas que supomos estar tendo, afirmações absurdas feitas com [...] de outras que já de si não significam nada.

— O seu olhar tem qualquer coisa de música tocada a bordo dum barco, no meio misterioso de um rio com flores-tas na margem oposta...

— Não diga que é fria uma noite de luar. Abomino as noites de luar... Há quem costume realmente tocar música nas noites de luar...

— Isso também é possível... E é lamentável, está cla-ro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo de ser saudoso de qualquer coisa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilu-sões que tenho tido...

— Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo com o olhar...

— Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sen-timos realmente o que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.

— Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes exagerada-mente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de reali-dade excessiva e um pouco forçada... Acho que a única coisa digna de uma mulher contemporânea é este ideal de ser es-tampa-. Quando eu era criança queria ser a rainha dum naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia em minha casa... Achava esse mister duma heráldica realmente com-passiva... Mas quando se é criança, tem-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em que as nossas aspirações são todas imorais, é que pensamos nisso a sério... — Eu como nunca falo a crianças creio no instinto ar-tista delas... Sabe, enquanto estou falando, agora mesmo,

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eu estou querendo penetrar o íntimo sentido dessas coisas que me estava dizendo... Perdoa-me?

— Não de todo... Nunca se deve devassar os senti-mentos que os outros fingem que têm.

— São sempre demasiadamente íntimos... Acredite que me dói realmente estar-lhe fazendo estas confidencias ínti-mas, que, se bem que todas elas falsas, representam verda-deiros farrapos da minha pobre alma... No fundo, acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa idéia de nós. — Isso é tão verdadeiro... Para que dizê-lo? Feriu-me. Para que tirar à nossa conversa a sua irrealidade constante? Assim é quase uma conversa possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador de sen-sações.

— Sim, sim... É a minha vez de pedir perdão... Mas olhe que eu estava distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma coisa justa... Mudemos de assunto... Que tarde que é sempre! Não se torne a zangar... Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum... — Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando... Toda a boa conversa deve ser um monólogo de dois... Devemos, no fim, não poder ter a certeza se conver-samos realmente com alguém ou se imaginamos totalmente a conversa... As melhores e as mais íntimas conversas, e sobretudo as menos moralmente instintivas, são aquelas que os romancistas têm entre duas personagens das suas nove-las... Como exemplo...

— Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo... Isso só se faz nas gramáticas; não sei se se recorda que até nunca os lemos.

— Leu alguma vez uma gramática?

— Eu nunca. Tive sempre uma aversão profunda a sa-ber como se dizem as coisas... A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as exceções e para os pleonasmos... Es-

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capar às regras e dizer coisas inúteis resume bem a atitude essencialmente moderna. Não é assim que se diz? — Absolutamente... O que tem de antipático nas gra-máticas (já reparou na deliciosa impossibilidade [?] de estar-mos falando neste assunto?) — o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos... São as palavras que dão sentido às frases... Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos... Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou — cada vez que tenho uma conversa um pouco lon-ga suicido um amigo — tinha tencionado dedicar toda a sua vida a destruir os verbos...

— (Ele por que se suicidou?)

— Espere, ainda não sei... Ele pretendia descobrir e fi-xar o modo de não completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que procurava o micróbio da signi-ficação. .. Suicidou-se, é claro, porque um dia reparou na res-ponsabilidade imensa que tomara sobre si... A importância do problema, deu-lhe cabo do cérebro... Um revólver... — Ah, não... Isso de modo algum... Não vê que não podia ser um revólver?...

Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça... O senhor pouco se entende com os amigos que nunca teve... É um defeito grande, sabe?... A minha melhor amiga— uma (deliciosa) rapaz que eu inventei.

— Dão-se bem?

— Tanto quanto é possível... Mas essa rapariga, não imagina, (...)

As duas criaturas que estavam à mesa de chá não tive-ram com certeza esta conversa. Mas estavam tão alinhadas e bem vestidas que era pena que não falassem assim... Por isso escrevi esta conversa para elas a terem tido... As suas atitu-des, os seus pequenos gestos, as suas criancices de olhares e sorrisos nos momentos de conversa que ambos mantemos [?] no sentimento de existirmos disseram nitidamente o que falsamente finjo que riposto... Quando eles um dia forem

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ambos e sem dúvida casados cada um para seu lado [...], se eles por acaso olharem para estas páginas, acredite que reconhecerão o que nunca disseram e que não deixarão de me ser gratos por eu ter interpretado tão bem, não só o que eles são realmente, mas o que eles nunca desejaram ser nem sabiam que eram...

Eles, se me lerem, acreditem que foi isto que realmente disseram. Na conversa aparente que eles escutaram um ao outro faltavam tantas coisas que (...) — faltou o perfume da hora, o aroma do chá, a significação para o caso do ramo de (...) que ela tinha ao peito... Tudo isso, que assim formou parte da conversa eles se esqueceram de dizer... Mas tudo isto lá estava e o que eu faço é, mais do que um trabalho literário, um trabalho de historiador. Reconstruo, comple-tando... e isso me servirá de desculpa junto deles, de ter es-tado tão fixamente a escutar-lhes o que não diziam e não quereriam dizer.

Não se subordinar a nada — nem a um homem, nem a um amor, nem a uma idéia, ter aquela independência lon-gínqua que consiste em não crer na verdade, nem, se a hou-vesse, na utilidade do conhecimento dela — tal é o estado em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual dos que não vivem sem pensar. Per-tencer — eis a banalidade. Credo, ideal, mulher ou profissão — tudo isso é a cela e as algemas. Ser é estar livre. A mesma ambição se vão orgulho e paixão é um fardo, não nos orgu-lharíamos se compreendêssemos que é um cordel pelo qual nos puxam. Não: nem ligações conosco! Livres de nós como dos outros, contemplativos sem êxtase, pensadores sem con-clusão, viveremos, libertos de Deus, o pequeno intervalo que as distrações dos algozes concedem ao nosso êxtase na pa-rada. Temos amanhã a guilhotina. Se a não tivéssemos ama-nhã tê-la-íamos depois de amanhã. Passeemos ao sol o re-

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pouso antes do fim, ignorantes voluntariamente dos propó-sitos e dos perseguimentos. O sol dourará nossas frontes sem rugas e a brisa terá frescura para quem deixar de esperar. Atiro a caneta pela secretária fora e ela rola, regres-sando, sem que eu a apanhe, pelo declive onde trabalho. Senti tudo de repente. E a minha alegria manifesta-se por este gesto da raiva que não sinto.

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso — em suma é a nós mesmos — que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor se-xual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa. O ona-nista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os ges-tos que se empreendem, são matéria de estranha complexi-dade. Na própria arte em que nos conhecemos, nos desco-nhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sen-tem-no por troca, e cada um quer dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a ati-vidade da alma.

Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensa-mento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma — de coisa al-guma, pelo menos, que me esteja na platéia da consciência. Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga

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que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli [?] fisicamente... Disse mal o escoliasta de Virgílio. Ê de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar. Ninguém compreende outro. Somos, como disse o poe-ta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra — sombra disforme no chão do seu entendimento. Amo as expressões porque não sei nada do que expri-mem. Sou como o mestre de Santa Marta [?]: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender?

Talvez seja por este ceticismo do inteligível que eu en-caro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual). Tudo o que vejo é para mim o só visível, seja o céu alto azul de verde branco da manhã que há de vir, seja o esgar falso em que se contrai o rosto de quem está a sofrer perante testemunhas a morte de quem ama.

Bonecos, ilustrações, páginas que existem e se voltam. Meu coração não está neles nem quase minha atenção que os percorre de fora, como uma mosca por um papel. Sei eu sequer se sinto, se penso, se existo? Nada: só um esquema objetivo de cores, de formas, de expressões de que sou o espelho oscilante por vender inútil.

Pensaste já, ó Outra, quão invisíveis somos uns para os outros? Meditaste já em quanto nos desconhecemos? Ve-

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mo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta ape-nas uma voz que está dentro de si.

As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrá-gios do nosso entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros. Sabem-nos a morte, volúpias que outros põem em palavras. Lemos volúpia e vida no que outros deixam cair dos lábios sem intenção de dar sentido profundo.

A voz dos regatos que interpretamos [...] explicadora, a voz das árvores onde pomos sentido no seu murmúrio — ah, meu amor ignoto, quanto tudo isso é nós e fantasias tudo de cinza que se escoa pelas grades da nossa cela!

A alma humana é vítima tão inevitável da dor que sofre a dor da surpresa dolorosa, mesmo com o que devia esperar. Tal homem, que toda a vida falou da inconstância e da volu-bilidade feminina como de coisas naturais e típicas, terá toda a angústia da surpresa triste quando se encontre traído em amor — tal qual, não outro, como se tivesse sempre tido por dogma ou esperança a fidelidade e a firmeza da mulher. Tal outro, que tem tudo por oco e vazio, sentirá como um raio súbito a descoberta de que tem por nada o que escreve, ou que é estéril o seu esforço por ensinar ou que é falsa a comu-nicabilidade da sua emoção.

Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como estes, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou cer-tos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos