Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 4 de 44

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mais sutis que aqueles que se registram dos santos e dos ere-mitas. Há suplícios da inteligência como os há do corpo e do desejo. E desses, como dos outros suplícios, há uma volúpia. ... reles como os fins da vida que vivemos, sem que queiramos nós tais fins.

A maioria, senão a totalidade, dos homens vive(m) uma vida reles, reles em todas as suas alegrias, e reles em quase todas as suas dores, salvo naquelas que se fundamentam na morte, porque nessas colabora o Mistério (e a mesma vida se desmente).

Ouço, coados pela minha desatenção, os ruídos que so-bem, fluidos e dispersos, como ondas interfluentes ao acaso e de fora como se viessem de outro mundo: gritos de vende-dores, que vendem o natural, como hortaliça, ou o social, como as cautelas; riscar redondo de rodas — carroças e car-ros rápidos por saltos —; automóveis, mais ouvidos no mo-vimento que no giro; o tal sacudir de qualquer coisa pano a qualquer janela; o assobio do garoto; a gargalhada do andar alto; o gemido metálico do elétrico na outra rua; o que de misturado emerge do transversal; subidas, baixas, silêncios do variado; trovões trôpegos do transporte; alguns passos; princípios, meios, e fins de vozes — e tudo isto existe para mim, que durmo pensá-lo, como uma pedra entre erva, em qualquer modo espreitando de fora de lugar. Depois, e ao lado, é de dentro de casa que os sonos con-fluem com os outros: os passos, os pratos, a vassoura, a can-tiga interrompida — (meio-fado) —; a véspera na combina-ção da sacada; a irritação do que falta na mesa; o pedido dos cigarros que ficaram em cima da cômoda — tudo isto a reali-dade, a realidade anafrodisíaca que não entra na minha ima-ginação.

FERNANDO PESSOA

Leves os passos da criada ajudante, chinelos que revi-siono de trança encarnada e preta, e, se assim os visiono, o som toma qualquer coisa da trança encarnada e preta; segu-ros, firmes, os passos de bota do filho de casa que sai e se despede alto, com o bater da porta cortando o eco do logo que vem depois do até; um sossego, como se o mundo acabasse neste quarto andar alto; ruído de louça que vai para se lavar; correr de água;' 'então não te disse que"... e o silêncio apita do rio. Mas eu modorro, digestivo e imaginador. Tenho tem-po, entre cenestesias. E é prodigioso pensar que eu não que-reria se agora perguntassem e eu respondesse, melhor breve vida que estes lentos minutos, esta nulidade do pensamento, da emoção, da ação, quase da mesma sensação, o ocaso-nato da vontade dispersa. E então reflito, quase sem pensamento, que a maioria, senão a totalidade, dos homens, assim vive, mais alto ou mais baixo, parados ou a andar, mas com a mesma modorra para os fins últimos, o mesmo abandono dos propósitos formados, a mesma sensação da vida. Sempre que vejo um gato ao sol lembra-me a humanidade. Sempre que vejo dormir lembro-me que tudo é sono. Sempre que alguém me diz que sonhou, penso se pensa que nunca fez senão so-nhar. O ruído da rua cresce, como se uma porta se abrisse, e tocam a campainha.

O que foi era nada, porque a porta se fechou logo. Os passos cessam no fim do corredor. Os pratos levados erguem a voz de água e louça. [..-.]

Coisas de nada, naturais da vida, insignificâncias do usual e do reles, poeira que sublinha com um traço apagado e grotesco a sordidez e a vileza da minha vida humana. — o Caixa aberto diante dos olhos cuja vida sonha com todos os orientes; a piada inofensiva do chefe do escritório

LIVRO DO DESASSOSSEGO

que ofende todo o universo; o avisar o patrão que telefone, que é a amiga, por nome e dona [...] no meio da meditação do período mais insexual de uma teoria estética e mental. Todos têm um chefe de escritório com a piada sempre inoportuna [?] e a alma fora do universo em seu conjunto. Todos têm um patrão e a amiga do patrão, e a chamada ao telefone no momento sempre impróprio em que a tarde ad-mirável desce e as amantes [...] arriscam falar contra o amigo que está fazendo xixi como os outros sabemos. Mas todos os que sonham, ainda que não sonhem em escritórios da Baixa, nem diante duma escrita do armazém de fazenda, todos têm um Caixa diante de si — seja a mulher com quem casaram seja a [...] dum futuro que lhe vem por herança, seja o que for logo que positivamente [?] seja. Depois os amigos, bons rapazes, bons rapazes, tão agra-dável estar falando com eles, almoçar com eles, jantar com eles, e tudo, não sei como, tão sórdido, tão reles, tão pe-queno, sempre no armazém de fazendas ainda que na rua, sempre diante do livro caixa ainda que no estrangeiro, sem-pre com o patrão ainda que no infinito.

Todos nós, que sonhamos e pensamos, somos ajudantes e guarda-livros num Armazém de fazendas, ou de outra qualquer fazenda em uma Baixa qualquer. Escrituramos e perdemos; somamos e passamos; fechamos o balanço e o sal-do invisível é sempre contra nós.

Escrevo sorrindo com as palavras, mas o meu coração está como se se pudesse partir, partir como as coisas que se quebram, em fragmentos, em cacos, em lixo, que o caixote leva num gesto de por cima dos ombros para o carro do eter-no [ ?] de todas as Câmaras Municipais.

E tudo espera, aberto e decorado, o Rei que virá, e já chega, que a poeira do cortejo é uma nova névoa no oriente