Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
Nastro desatado, a alma não existe em si mesma. As grandes paisagens são para amanhã, e nós já vivemos. Fa-lhou a conversa interrompida. Quem diria que a vida havia de ser assim?
Perco-me se me encontro, duvido se acho, não tenho se obtive. Como se passeasse, durmo, mas estou desperto. Como se dormisse, acordo, e não me pertenço. A vida, afi-nal, é, em si mesma, uma grande insônia, e há um estremu-nhamento lúcido em tudo quanto pensamos e fazemos. Seria feliz se pudesse dormir. Esta opinião é deste mo-mento, porque não durmo. A noite é um peso imenso por trás do afogar-me com o cobertor mudo do que sonho. Te-nho uma indigestão na alma.
Sempre, depois de depois, virá o dia, mas será tarde, como sempre. Tudo dorme e é feliz, menos eu. Descanso um pouco, sem que ouse que durma. E grandes cabeças de mons-tros sem ser emergem confusas do fundo de quem sou. São dragões do Oriente do abismo, com línguas encarnadas de fora da lógica, com olhos que fitam sem vida a minha vida morta que os não fita.
A tampa, por amor de Deus, a tampa! Concluam-me a inconsciência e vida! Felizmente, pela janela fria, de portas desdobradas para trás, um fio triste de luz pálida começa a tirar a sombra do horizonte. Felizmente, o que vai raiar é o dia. Sossego, quase, do cansaço do desassossego. Um galo canta, absurdo, em plena cidade. O dia lívido começa no meu vago sono. Alguma vez dormirei. Um ruído de rodas faz carroça. Minhas pálpebras dormem, mas não eu. Tudo, en-fim, é o Destino.
LIVRO DO DESASSOSSEGO
A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas pró-prias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, te-mos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sonho sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quan-tos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, fazendo seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assassinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! O grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e, sonho todavia ser [?].
Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeira-mente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.
FERNANDO PESSOA
Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que [se] me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das me-lhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o te-rem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individual-mente, a caixa para a rua, mal disposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica. Mas quantos Césares fui!
Na perfeição nítida do dia estagna contudo o ar cheio de sol. Não é a pressão presente da trovoada futura, mal-estar dos corpos involuntários, vago baço do céu azul deveras. É o torpor sensível da insinuação do ócio, pluma roçando leve a face a adormecer. É estio mas verão. Apetece o campo até a quem não gosta dele.
Se eu fora outro, penso, este seria para mim um dia feliz, pois o sentiria sem pensar nele. Concluiria com uma alegria de antecipação o meu trabalho normal — aquele que me é monotonamente anormal todos os dias. Tomaria o car-ro para Benfica, com amigos combinados. Jantaríamos em pleno fim de sol, entre hortas. A alegria em que estaríamos seria parte da paisagem, e por todos, quantos nos vissem, re-conhecida como de ali.
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Como, porém, sou eu, gozo um pouco o pouco que é imaginar-me esse outro. Sim, logo ele eu, sob parreira ou árvore, comerá o dobro do que sei comer, bebera o dobro do que ouso beber, rirá o dobro do que posso pensar em rir. Logo ele, eu agora. Sim, um momento fui outro: vi, vivi, em outrem, essa alegria humilde e humana de existir como ani-mal em mangas de camisa. Grande dia que me fez sonhar assim! É tudo azul e sublime no alto como o meu sonho efê-mero de ser caixeiro de praça com saúde em não sei que fé-rias de fim de dia.
Quando o estio entra entristeço. Parece que a luminosi-dade, ainda que acre, das horas estivais deverá acarinhar quem não sabe quem é. Mas não, a mim não me acarinha. Há um contraste demasiado entre a vida externa que exubera e o que sinto e penso, sem saber sentir nem pensar — o ca-dáver perenemente insepulto das minhas sensações. Tenho a impressão de que vivo, nesta pátria informe chamada o uni-verso, sob uma tirania política que, ainda que me não oprima diretamente, todavia ofende qualquer oculto princípio da mi-nha alma. E então desce em mim, surdamente, lentamente, a saudade antecipada do exílio impossível.
Tenho principalmente sono. Não um sono que traz la-tente, como todos os sonos, ainda os mórbidos, o privilégio físico do sossego. Não um sono que, porque vai esquecer a vida, e porventura trazer sonhos, traz na bandeja com que nos vem até a alma as oferendas plácidas de uma grande abdicação. Não: este é um sono que não consegue dormir, que pesa nas pálpebras sem as fechar, que junta num gesto que se sente ser de estupidez e repulsa as comissuras sentidas dos beiços descrentes. Este é um sono como o que pesa inu-tilmente sobre o corpo nas grandes insônias da alma.
FERNANDO PESSOA
Só quando vem a noite, de algum modo sinto, não uma alegria, mas um repouso que, por outros repousos serem contentes, se sente contente por analogia dos sentidos. Então o sono passa, a confusão do lusco-fusco mental, que esse sono dera, esbate-se, esclarece-se, quase se ilumina. Vem, um momento, a esperança de outras coisas. Mas essa espe-rança é breve. O que sobrevém é um tédio sem sono nem es-perança, o mau despertar de quem não chegou a dormir. E da janela do meu quarto fito, pobre alma cansada de corpo, muitas estrelas; muitas estrelas, nada, o nada, mas muitas estrelas...
Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens ha-viam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber por quê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, aquela espécie de homens que estão sempre na mar-gem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser; podendo pois dever ser ado-rado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia bioló-gica, e não significando mais que a espécie humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie ani-mal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cul-tos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gen-LIVRO DO DESASSOSSEGO 227
tes, naquela distância de tudo a que comumente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.
A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstração do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futil-mente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo, sutilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais. Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito cen-tral, de que tudo é sujeito a leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, por que reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdica-mos do esforço como os débeis do entretenimento dos atle-tas, e curvamo-no sobre o livro das sensações com um gran-de escrúpulo de erudição sentida.
Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certo, outra realidade que não as nossas sen-sações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assi-duamente, não só na contemplação estética, mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer con-vencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena ob-jetividade ao prazer subjetivo da leitura.