Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 35 de 44

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somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais no-bres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida.

Máximas

Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e ca-ráter fixo e conhecido — tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um fato, de a materializar e tornar exterior. Viver é um doce e fluido estado de desconhecimento das coi-sas e de si próprio (é o único modo de vida que a um sábio convém e aquece).

— Saber interpor-se constantemente entre si-próprio e as coisas é o mais alto grau de sabedoria e prudência. — A nossa personalidade deve ser indevassável, mes-mo por nós-próprios: daí o nosso dever de sonharmos sem-pre, e incluirmo-nos nos nossos sonhos, para que não seja possível ter opiniões a nosso respeito.

E especialmente devemos evitar a invasão da nossa per-sonalidade pelos outros. Todo o interesse alheio por nós é uma indelicadeza ímpar. O que desloca a vulgar saudação — como está — de ser uma indesculpável grosseria é o ser ela em geral absolutamente vã e insincera.

— Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia por-tanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).

— Dar bons conselhos é insultar a faculdade de errar que Deus deu aos outros. E de mais a mais, os atos alheios

FERNANDO PESSOA

devem ter a vantagem de não serem também nossos. Apenas é compreensível que se peça conselhos aos outros — para saber bem, ao agir ao contrário, quem somos bem nós, bem em desacordo com a Outragem.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na so-lidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si so-mente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, ca-paz de te bastares e de te separares, a penúria te força a con-viveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo. Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela. A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus pra-zeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e continua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que ado-ram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pom-

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pa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou. Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interrom-per-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momen-tos de excelsis.

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

Nada se penetra, nem átomos, nem almas. Por isso nada possui nada. Desde a verdade até a um lenço — tudo é impossível. (A propriedade não é um roubo: não é nada.) < ^ >