Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 44 de 44

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uma indicação de valor. Para os valores maiores não há moe-da: são de papel e esse valor é sempre pouco. Com estas psicologias metafísicas se consolam os hu-mildes como eu.

Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases, que es-crevo, durarem com louvor, eu terei enfim gente que me ' 'compreenda'', os meus, a família verdadeira para nela nas-cer e ser amado. Mas, longe de eu nela ir nascer, (eu) terei já morrido há muito. Serei compreendido só em efígie quando a afeição já não compense a quem morreu a só desafeição que houve, quando vivo.

Um dia talvez compreendam que cumpri, como ne-nhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e quando o compreendam, hão de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me aconte-cesse. E o que escrever isto será, na época em que o escrever, incompreendedor, como os que me cercam, do meu análogo daquele tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso dos seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sa-bemos ensinar as verdadeiras regras de viver. Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai aca-bando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me co-nhecesse.

FERNANDO PESSOA

No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida. Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor, a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida e azul da tarde aquática — leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor.

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