Livro do Desassossego
Livro do Desassossego cos. A sua mesma…
LIVRO DO DESASSOSSEGO cos. A sua mesma estreiteza, através da qual a sua clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma im-pressão álacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer. Os mesmos deuses pagãos repousam do mistério.
A análise sobrecuriosa das sensações — por vezes das sensações que supomos ter —, a identificação do coração com a paisagem, a revelação anatômica dos nervos todos, o uso do desejo como vontade e da aspiração como pensa-mento — todas estas coisas me são demasiado familiares para que em outrem me tragam novidade, ou me dêem sossego. Sempre que as sinto, desejaria, exatamente porque as sinto, estar sentindo outra coisa. E, quando leio um clássico, essa outra coisa é me dada.
Confesso-o sem rebuço nem vergonha... Não há trecho de Chateaubriand ou canto de Lamartine — trechos que tan-tas vezes parecem ser a voz do que eu penso, cantos que tanta vez parecem ser me ditos para conhecer — que me enleve e me erga como um trecho de prosa de Vieira ou uma outra ode daqueles nossos poucos clássicos que seguiram de-veras a Horácio.
Leio e estou liberto. Adquiro objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável [?] o sol que vê todos, a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que aca-bam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas. Leio como quem abdica. E, como a coroa e o manto régios nunca são tão grandes como quando o Rei que parte os deixa no chão, deponho sobre os mosaicos das antecâmaras
FERNANDO PESSOA
todos os meus triunfais do tédio e do sonho, e subo a esca-daria com a única nobreza de ver.
Leio como quem passa. E é nos clássicos, nos calmos, nos que, se sofrem, o não dizem, que me sinto sagrado tran-seunte, ungido peregrino, contemplador sem razão do mun-do sem propósito, Príncipe do Grande Exílio, que deu, par-tindo-se, ao último mendigo, a esmola extrema da sua deso-lação.
Detesto a leitura. Tenho um tédio antecipado das pá-ginas desconhecidas. Sou capaz de ler só o que já conheço. O meu livro de cabeceira é a Retórica do Padre Figueiredo, onde leio todas as noites pela cada vez mais milésima vez a descrição, em estilo de um português conventual e certo, as figuras de retórica, cujos nomes, mil vezes lidos, não fixei ainda. Mas embala-me a linguagem (...), e se me faltasse[m] as palavras justas [?] escritas com C dormiria inquieto. Devo contudo ao livro do Padre Figueiredo, com o seu exagero de purismo, o relativo escrúpulo que tenho — todo o que posso ter — de escrever a língua em que me registro com a propriedade que (...)
E leio:
(um trecho do P. Figueiredo)
- [.]
e isto consola-me de viver
ou então
(um trecho sobre figuras)
que volta no prefácio
Não exagero uma polegada verbal: sinto tudo isto.
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Como outros podem ler trechos da Bíblia, leio-os desta Retórica. Tenho a vantagem do repouso e da falta de de-voção.
Não conheço prazer como o dos livros, e pouco leio. Os livros são apresentações aos sonhos, e não precisa de apre-sentações quem, com a facilidade da vida, entre em conversa com eles. Nunca pude ler um livro com entrega a ele; sem-pre, a cada passo, o comentário da inteligência ou da imagi-nação me estorvou a seqüência da própria narrativa. No fim de minutos, quem escrevia era eu, e o que estava escrito não estava em parte alguma.
As minhas leituras prediletas são a repetição de livros banais que dormem comigo à minha cabeceira. Há dois que me não deixam nunca — A Retórica do Padre Figueiredo e as Reflexões sobre a Língua Portuguesa, do Padre Freire. Estes livros, releio-os sempre a bem; e, se é certo que já os li todos muitas vezes, também é certo que a nenhum deles li em seqüência. Devo a esses livros uma disciplina que quase creio impossível em mim — uma regra de escrever objeti-vado, uma lei da razão de as coisas estarem escritas. O estilo afetado, claustral, frusto, do Padre Figueiredo é uma disciplina que faz as delícias do meu entendimento. A difusão, quase sempre sem disciplina, do Padre Freire, en-tretém o meu espírito sem o cansar, e educa-me sem me dar preocupação. São espíritos de eruditos e de sossegados que fazem bem à minha nenhuma disposição para ser como eles, ou como qualquer outra pessoa.
Leio e abandono-me, não à leitura, mas a mim. Leio e adormeço, e é como entre sonhos que sigo a descrição das figuras de retórica do Padre Figueiredo, e por bosques de
FERNANDO PESSOA
maravilha que ouço o Padre Freire ensinar que se deve dizer Magdalena, pois Madalena só o diz o vulgo.
Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de pro-sa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como mui-tos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. E certo que escrevi antes da norma e do sis-tema; nisso, porém, não sou diferente dos outros. Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exata-mente como se sente — claramente, se é claro; obscura-mente, se é obscuro; confusamente, se é confuso —; com-preender que a gramática é um instrumento, e não uma lei. Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, "Aquela rapariga parece um rapaz". Um outro ente hu-mano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, "Aquela rapariga é um rapaz". Outro ain-da, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela concisão, que é a luxúria do pen-samento, dirá dela, "Aquele rapaz". Eu direi, "Aquela rapaz", violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de gênero, como de nú-mero, entre a voz substantiva e a adjetiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da cha-teza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e in-transitivos; porém o homem de saber dizer tem muitas vezes
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que converter um verbo transitivo em intransitivo para foto-grafar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi ' 'Sou". Se quiser dizer que existo como alma separada, direi "Sou e u " . Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei de empregar o verbo " s e r " senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi, "Sou-me". Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que, tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, "Sou Rei de Roma, e acima da gramática". E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigis-mundo "super-grammaticam". Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se. O olfato é um vista estranha. Evoca paisagens senti-mentais por um desenhar súbito do subconsciente. Tenho sentido isto muitas vezes. Passo numa rua. Não vejo nada, ou, antes, olhando tudo, vejo como toda a gente vê. Sei que vou por uma rua e não sei que ela existe com lados feitos de casas diferentes e construídas por gente humana. Passo numa rua. De uma padaria sai um cheiro a pão que nauseia por doce no cheiro dele: e a minha infância ergue-se de determi-nado bairro distante, e outra padaria me surge daquele reino das fadas que é tudo que se nos morreu. Passo numa rua. Cheira de repente às frutas do tabuleiro inclinado da loja es-