Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspecto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha inimpor-tância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz.
Não acredito na paisagem. Sim. Não o digo porque creia no "a paisagem é um estado de alma" do Amiel, um dos bons momentos verbais da mais insuportável interiorice. Digo-o porque não creio.
Depois que os últimos calores do estio deixavam de ser duros no sol baço, começava o outono antes que viesse, numa leve tristeza, prolixamente indefinida, que parecia uma vontade de não sorrir do céu. Era um azul umas vezes mais claro, outras mais verde, da própria ausência de substância da cor alta; era uma espécie de esquecimento nas nuvens, púrpuras diferentes e esbatidas; era, não já um torpor, mas um tédio, em toda a solidão quieta por onde nuvens atra-vessam.
A entrada do verdadeiro outono era depois anunciada por um frio dentro do não-frio do ar, por um esbater-se das cores que ainda se não haviam esbatido, por qualquer coisa de penumbra e de afastamento no que havia sido o tom das paisagens e o aspecto disperso das coisas. Nada ia ainda mor-
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rer, mas tudo, como que num sorriso que ainda faltava, se virava em saudade para a vida.
Vinha, por fim, o outono certo: o ar tornava-se frio de vento; soavam folhas num tom seco, ainda que não fossem folhas secas; toda a terra tomava a cor e a forma impalpável de um paul incerto. Descoloria-se o que fora sorriso último, num cansaço de pálpebras, numa indiferença de gestos. E assim tudo quanto sente, ou supomos que sente, apertava, íntima, ao peito a sua própria despedida. Um som de rede-moinho num átrio flutuava através da nossa consciência de outra coisa qualquer. Aprazia convalescer para sentir verda-deiramente a vida.
Mas as primeiras chuvas do inverno, vindas ainda no outono já duro, lavavam estas meias-tintas como sem res-peito. Ventos altos, chiando em coisas paradas, barulhando coisas presas, arrastando coisas móveis, erguiam, entre os brados irregulares da chuva, palavras ausentes de protesto anônimo, sons tristes e quase raivosos de desespero sem alma.
E por fim o outono cessava, a frio e cinzento. Era um outono de inverno o que vinha agora, um pó tornado lama de tudo, mas, ao mesmo tempo, qualquer coisa do que o frio do inverno traz de bom — verão duro findo, primavera por che-gar, outono definindo-se em inverno enfim. E no ar alto, por onde os tons baços já não lembravam nem calor nem tris-teza, tudo era propício à noite e à meditação indefinida. Assim era tudo para mim antes que o pensasse. Hoje se o escrevo é porque o lembro. O outono que tenho é o que perdi.
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Cantava, em uma voz muito suave, uma canção de um país longínquo. A música tornava familiares as palavras in-cógnitas. Parecia o fado para a alma, mas não tinha com ele semelhança alguma.
A canção dizia, pelas palavras veladas)e a melodia hu-mana, coisas que estão na alma de todos e que ninguém co-nhece. Ele cantava numa espécie de sonolência, ignorando com o olhar os ouvintes, num pequeno êxtase de rua. O povo reunido ouvia-o sem grande motejo visível. A canção era de toda a gente, e as palavra falavam às vezes conosco, segredo oriental de qualquer raça perdida. O ruído da cidade não se ouvia se o ouvíamos, e passavam as carroças tão perto que uma me roçou pelo solto do casaco. Mas senti-a e não a ouvi. Havia uma absorção no canto do desconhecido que fazia bem ao que em nós sonha ou não consegue. Era um caso de rua, e todos reparamos que o polícia virara a esquina lentamente. Aproximou-se com a mesma lentidão. Ficou parado um tempo por trás do rapaz dos guarda-chuvas, como quem vê qualquer coisa. Nesta altura o cantor parou. Nin-guém disse nada. Então o polícia interveio.
Como nos dias em que a trovoada se prepara e os ruídos da rua falam alto com uma voz solitária.
A rua franzia-se de luz intensa e pálida e o negrume baço tremeu, de leste a oeste do mundo, com um estrondo feito de escangalhamentos ecoantes... A tristeza dura da chuva bruta piorou o ar negro de intensidade feia. Frio, morno, quente — tudo ao mesmo tempo — o ar em toda a parte era errado. E, a seguir, pela ampla sala uma cunha de luz metálica abriu brecha nos repousos dos corpos humanos, e, com o sobressalto gelado um Pedregulho de som bateu em
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toda a parte, esfacelando-se com silêncio(s) duro(s). O som da chuva, diminui como uma voz de menos peso. O ruído das ruas diminuiu angustiantemente. Nova luz, de um ama-relado rápido, tolda o negrume surdo, mas houve agora uma respiração possível antes que o punho [?] do som trêmulo ecoasse súbito doutro ponto; como uma despedida zangada, a trovoada começava a aqui não estar.
com um sussurro arrastado e findo, sem luz na luz que aumentava, o tremor da trovoada acalmava [?) nos largos longes — rodava [ ?] em Almada...
Uma súbita luz formidável estilhaça-se. [...] Tudo esta-cou. Os corações pararam um momento. Todos são pessoas muito sensíveis. O silêncio aterra como se houvera morte. O som da chuva que aumenta, alivia como lágrimas de tudo. [?] Há chumbo.
Desde o princípio baço do dia quente e falso nuvens es-curas e de contornos mal rotos rondavam a cidade oprimida. Dos lados a que chamamos da barra, sucessivas e torvas, essas nuvens sobrepunham-se, e uma antecipação de tragé-dia estendia-se com elas do indefinido rancor das ruas contra o sol alterado.
Era meio-dia e já, na saída para o almoço, pesava uma esperança má na atmosfera empalidecida. Farrapos de nu-vens esfarrapadas negrejavam na dianteira dela. O céu, para os lados do Castelo, era limpo mas de um mau azul. Havia sol mas não apetecia gozá-lo.
À uma hora e meia da tarde, quando se regressara ao escritório, parecia mais limpo o céu, mas só para um lado antigo. Sobre os lados da barra estava de fato mais desco-
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berto. De sobre a parte norte da cidade, porém, as nuvens conjugavam-se lentamente numa nuvem só — negra, impla-cável, avançando lentamente com garras rombas de branco cinzento na ponta de braços negros. Dentro em pouco atin-giria o sol, e os ruídos da cidade parece que se abafavam com o esperá-la. Era, ou parecia, um pouco mais límpido o céu para os lados de leste, mas o calor fazia mais desagrado. Sua-va-se na sombra da sala grande do escritório. "Vem aí uma grande trovoada", disse o Moreira, e voltou à página do Razão.
Às três horas da tarde falhara já toda a ação do sol. Foi preciso — e era triste porque era verão — acender a luz elé-trica — primeiro ao fundo da sala grande, onde estavam em-pacotando as remessas, depois já a meio da sala, onde se tor-nava difícil fazer sem erro as guias de remessa e notar nelas os números das senhas de caminho de ferro. Por fim, já eram quase quatro horas, até nós — os privilegiados das janelas, não víamos agradavelmente para trabalhar. O escritório fi-cou iluminado. O patrão Vasques atirou com o guarda-vento do gabinete e disse para fora saindo: "Ô Moreira, eu tinha que ir a Benfica mas não vou; vai-se fartar de chover''. "E é lá desse lado", respondeu o Moreira, que morava ao pé da Avenida. Os ruídos da rua destacaram-se de repente, altera-ram-se um pouco, e era, não sei porquê, um pouco triste o som das campainhas dos elétricos na rua paralela e próxima. Depois que as últimas chuvas passaram para o sul, e só ficou o vento que as varreu, regressou aos montões da cidade a alegria do sol certo e apareceu muita roupa branca pendu-rada a saltar nas cordas esticadas por paus médios nas janelas altas dos prédios de todas as cores.
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Também fiquei contente, porque existo. Saí de casa para um grande fim, que era, afinal, chegar a horas ao escritório. Mas, neste dia, a própria compulsão da vida participava da-quela outra boa compulsão que faz o sol vir nas horas do almanaque, conforme a latitude e a longitude dos lugares da terra. Senti-me feliz por não poder sentir-me infeliz. Desci a rua descansadamente, cheio de certeza, porque, enfim, o es-critório conhecido, a gente conhecida nele, eram certezas. Não admira que me sentisse livre, sem saber de quê. Nos cestos pousados à beira dos passeios da Rua da Prata as bana-nas de vender, sob o sol, eram de um amarelo grande. Contento-me, afinal, com muito pouco: o ter cessado a chuva, o haver um sol bom neste Sul feliz, bananas mais amarelas por terem nódoas negras, a gente que as vende por-que fala, os passeios da Rua da Prata, o Tejo ao fundo, azul-esverdeado a ouro, todo este recanto doméstico do sistema do Universo.
Virá o dia em que não veja isto mais, em que me sobre-viverão as bananas da orla do passeio, e as vozes das ven-dedoras solertes, e os jornais do dia que o pequeno estendeu lado a lado na esquina do outro passeio dá rua. Bem sei que as bananas serão outras, e que as vendedoras serão outras, e que os jornais terão, a quem se baixar para vê-los, uma data que não é a de hoje. Mas eles, porque não vivem, duram ainda que outros; eu, porque vivo, passo ainda que o mesmo.
Esta hora, poderia eu bem solenizá-la comprando bana-nas, pois me parece que nestas se projetou todo o sol do dia como um holofote sem máquina. Mas tenho vergonha dos rituais, dos símbolos, de comprar coisas na rua. Podiam não me embrulhar bem as bananas, não mas vender como devem ser vendidas por eu as não saber comprar como devem ser
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compradas. Podiam estranhar a minha voz ao perguntar o preço. Mais vale escrever do que ousar viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas ao sol, enquanto o sol dura e há bananas que vender.
Mais tarde, talvez... Sim, mais tarde... Um outro, tal-vez... Não sei...
O calor, como uma roupa invisível, dá vontade de o tirar.
Trovoada Este ar baixo de nuvens paradas. O azul do céu estava sujo de branco transparente.
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel á roda do embrulho eterno...
'' Como está [...]," comenta estatisticamente. Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cor-tados á faca. Sentiu-se, prolongadamente, como um mal-es-tar de tudo, um suspender cósmico da respiração. Parara o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A tre-va encarvoou-se de silêncio.
Súbito, aço vivo, (...)
Que humano era o toque metálico dos elétricos! Que paisagem alegre a simples chuva na rua ressuscitada do abismo!
Oh, Lisboa, meu lar!
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Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos — tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.
Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas — uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e va-zias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação mi-nha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me sur-girem de fora, como o elétrico que dá a volta na curva ex-trema da rua, ou a voz do apregoador noturno, de não sei que 122 FERNANDO PESSOA
coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta re-param em pouco os vadios parados que são donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos, [ ?] ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito freqüentes; [...] No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação. Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu sentir, [...] quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas — salada coletiva da vida. O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecan-saço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes... bri-lhos do espírito, correntes do entendimento, vozes [...] e filosofias que têm o mesmo entendimento que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.
Escrevo num domingo, manhã alta, num dia amplo de luz suave, em que, sobre os telhados da cidade interrompida, o azul do céu sempre inédito fecha no esquecimento a exis-tência misteriosa de astros...
É domingo em mim também...
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Também meu coração vai a uma igreja que não sabe onde é, e vai vestido de um traje de veludo infante, com a cara corada das primeiras impressões a sorrir sem olhos tris-tes por cima do colarinho muito grande.
Surge dos lados do oriente a luz loura do luar de ouro. O rastro que faz no rio largo abre serpentes no mar. No nevoeiro leve da manhã de meia-primavera, a Baixa desperta entorpecida e o sol nasce como que lento. Há uma alegria sossegada no ar com metade de frio, e a vida, ao sopro leve da brisa que não há, tirita vagamente do frio que já pas-sou, pela lembrança do frio mais que pelo frio, pela compa-ração com o verão próximo, mais que pelo tempo que está fazendo.
Não abriram ainda as lojas, salvo as leiterias e os cafés, mas o repouso não é de torpor, como o de domingo; é de repouso apenas. Um vestígio louro antecede-se no ar que se revela, e o azul cora palidamente através da bruma que se esfina. O começo do movimento rareia pelas ruas, destaca-se a separação dos peões, e nas poucas janelas abertas, altas, madrugam também aparecimentos. Os elétricos traçam a meio-ar o seu vinco móbil amarelo e numerado. E, de mi-nuto a minuto, sensivelmente, as ruas desdesertam-se. Vogo, atenção só dos sentidos, sem pensamento nem emoção. Despertei cedo; vim para a rua sem preconceitos. Examino como quem cisma. Vejo como quem pensa. E uma leve névoa de emoção se ergue absurdamente em mim; a bruma que vai saindo do exterior parece que se me infiltra lentamente.
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Sem querer, sinto que tenho estado a pensar na minha vida. Não dei por isso, mas assim foi. Julguei que somente via e ouvia, que não era mais, em todo este meu percurso ocioso, que um refletor de imagens dadas, um biombo bran-co onde a realidade projeta cores e luz em vez de sombras. Mas era mais, sem que o soubesse. Era ainda a alma que se nega, e o meu próprio abstrato observar era uma negação ainda.
Tolda-se o ar de falta de névoa, tolda-se de luz pálida, em a qual a névoa como que se misturou. Reparo subita-mente que o ruído é muito maior, que muito mais gente existe. Os passos dos mais transeuntes são menos apressa-dos. Aparece, a quebrar a sua ausência e a menor pressa dos outros, o correr andado das varinas, a oscilação dos padeiros, monstruosos de cesto, e [a] igualdade divergente das vendei-ros de tudo mais desmonotoniza-se só no conteúdo das ces-tas, onde as cores divergem mais que as coisas. Os leiteiros chocalham, como chaves ocas e absurdas, as latas desiguais do seu ofício andante. Os policiais estagnam nos cruzamen-tos, desmentido parado da civilização ao movimento invisí-vel da subida do dia.
Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como se não tivesse com ele mais relação que o vê-lo — contemplar tudo como se fora o viajante adulto chegado hoje à superfície da vida! Não ter aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na expressão que têm separadamente da expres-são que lhes foi imposta. Poder conhecer na varina a sua realidade humana independente de se lhe chamar varina, e de se saber que existe e que vende. Ver o polícia como Deus o vê. Reparar em tudo pela primeira vez, não apocaliptica-mente, como revelações do Mistério, mas diretamente como florações da Realidade.
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Soam — devem ser oito as que não conto — badaladas de horas de sino ou relógio grande. Acordo de mim pela ba-nalidade de haver horas, clausura que a vida social impõe à continuidade do tempo fronteira no abstrato, limite no des-conhecido. Acordo de mim e, olhando para tudo, agora já cheio de vida e de humanidade costumada, vejo que a névoa que saiu de todo do céu, salvo o que no azul ainda paira de ainda não bem azul, me entrou verdadeiramente para a alma, e ao mesmo tempo entrou para a parte de dentro de todas as coisas, que é por onde elas têm contato com a minha alma. Perdi a visão do que via. Ceguei com vista. Sinto já com a banalidade do conhecimento. Isto agora não é já a Realidade: é simplesmente a Vida.
... Sim, a vida a que eu também pertenço, e que tam-bém me pertence a mim; não já a Realidade, que é só de Deus, ou de si mesma, que não contém mistério nem ver-dade, que, pois que é real ou o finge ser, algures exista fixa, livre de ser temporal ou eterna, imagem absoluta, idéia de uma alma que fosse exterior.
Volvo lentos os passos mais rápidos do que julgo ao por-tão para onde subirei de novo para casa. Mas não entro; he-sito; sigo para diante. A Praça da Figueira, bocejando vende-res [sic] de várias cores, cobre-me esfreguesando-se o hori-zonte de ambulante. Avanço lentamente, morto, e a minha visão já não é minha, já não é nada: é só a do animal humano que herdou sem querer a cultura grega, a ordem romana, a moral cristã e todas as mais ilusões que formam a civili-zação em que sinto.
Onde estarão os vivos?
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Sinfonia de uma noite inquieta
Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma des-fraldada sobre um quartel sem ser.
Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam os vidros para que a extremi-dade se ouvisse. No fundo de tudo, calada, a noite era o tú-mulo de Deus (a alma sofria com pena de Deus). E, de repente, — nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade — o vento assobiava no intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas agitações na altura. De-pois a noite fechava-se como um alçapão, e um grande sos-sego fazia vontade de ter estado a dormir. Não é nos largos campos ou nos jardins grandes que vejo chegar a primavera. É nas poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa tristeza.
Amo esses largos solitários, intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles mesmos sem mais trânsito que as ruas. São clareiras inúteis, coisas que esperam, entre tumultos longinquos. São de aldeia na cidade.
Passo por eles, subo qualquer das ruas suas afluentes, depois desço de novo essa rua, para a ele[s] regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a mesma paz deixa dourar de saudade súbita — sol no ocaso — o lado que não vira na ida. Tudo é inútil, e eu o sinto como tal. Quanto vivi se me esqueceu como se o ouvira distraído. Quanto serei me não lembra como se o tivera vivido e esquecido. LIVRO DO DESASSOSSEGO 127
Um ocaso de mágoa leve paira vago em meu torno. Tudo esfria, não porque esfrie, mas porque entrei numa rua estreita e o largo cessou.
O céu do estio prolongado todos os dias despertava de azul verde baço, e breve se tornava de azul acinzentado de branco mudo. No ocidente, porém, era da cor que lhe costu-mam chamar, a ele todo.
Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilu-são de tudo — quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das páginas sóbrias e lidas! Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca! Lápis-lazúli das emoções descontinuas! Quantas memórias alberga uma suposição factícia, lembras-te, visão somente? E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce, emoção do fundo da minha consciência de mim. Sem ninguém os bancos antigos, e as aléias alastram onde eles estão a sua melancolia de arruamentos vazios. Noite em Heliópolis! Noite em Heliópolis! Noite em Heliópolis! Quem te dirá as palavras inúteis, me compensará a sangue e indecisão?
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
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Apagar tudo do quadro de um dia para outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.
Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.
Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de som-
bras e queimações — sois hoje, sois eu, porque vos vejo sois o que [...] e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas [?] na pas-sagem.
Sonho triangular
A luz tornara-se de um amarelo exageradamente lento, de um amarelo sujo de lividez. Haviam crescido os intervalos entre as coisas, e os sons, mais espaçados de uma maneira nova davam-se desligadamente. Quando se ouviam acaba-vam de repente, como que cortados. O calor, que parecia ter aumentado, parecia estar, ele calor, frio. Pela leve frincha das portas encostadas da janela via-se a atitude de exagerada expectativa da única árvore visível. O seu verde era outro. O silêncio entrara-lhe com a cor. Na atmosfera haviam-se fe-chado pétalas. E na própria composição do espaço uma inter-relação diferente de qualquer coisa como planos havia alterado e quebrado o modo dos sons, das luzes e das cores usarem a extensão.
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O gládio de um relâmpago frouxo volteou sombriamente no quarto largo. E o som a vir, suspenso um hausto amplo, retumbou, emigrando profundo. O som da chuva chorou alto, como carpideiras no intervalo das falas. Os pequenos sons destacaram-se cá dentro, inquietos.
Névoa ou fumo? Subia da terra ou descia do céu? Não se sabia: era mais como uma doença do ar que uma descida ou uma emanação. Por vezes parecia mais uma doença dos olhos do que uma realidade da natureza.
Fosse o que fosse ia por toda a paisagem uma inquieta-ção turva, feita de esquecimento e de atenuação. Era como se o silêncio do mau sol tomasse para seu um corpo imperfeito. Dir-se-ia que ia acontecer qualquer coisa e que por toda a parte havia uma intuição, pela qual o visível se velava. Era difícil dizer se o céu tinha nuvens ou antes névoa. Era um torpor baço, aqui e ali colorido, um acinzentamento imponderavelmente amarelado, salvo onde se esboroava em cor-de-rosa falso, ou onde estagnava azulescendo, mas ali não se distinguia se era o céu que se revelava, se era outro azul que o encobria.
Nada era definido, nem o indefinido. Por isso apetecia chamar fumo à névoa, por ela não parecer névoa, ou pergun-tar se era névoa ou fumo, por nada se perceber do que era. O mesmo calor do ar colaborava na dúvida. Não era calor, nem frio, nem fresco; parecia compor a sua temperatura de ele-mentos tirados de outras coisas que o calor. Dir-se-ia, deve-ras, que uma névoa fria aos olhos era quente ao tato, como se tato e vista fossem dois modos sensíveis do mesmo sentido.
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Nem era, em torno dos contornos das árvores, ou das esquinas dos edifícios, aquele esbater de recortes ou de ares-tas, que a verdadeira névoa traz, estagnando, ou o verdadeiro fumo, natural, entreabre e entrescurece. Era como se cada coisa projetasse de si uma sombra vagamente diurna, em to-dos os sentidos, sem luz que a explicasse como sombra, sem lugar de projeção que a justificasse como visível. Nem visível era: era como um começo de ir a ver-se qualquer coisa, mas em toda a parte por igual, como se o a revelar hesitasse em ser aparecido.
E que sentimento havia? A impossibilidade de o ter, o coração desfeito na cabeça, os sentimentos confundidos, um torpor da existência desperta, um apurar de qualquer coisa anímica como o ouvido, para uma revelação definitiva, inú-til, sempre a aparecer já, como a verdade, sempre, como a verdade, gêmea de nunca aparecer.
Até a vontade de dormir, que lembra ao pensamento, desapartei [?], por parecer um esforço o mero bocejo de a ter. Até deixar de ver faz doer os olhos. E, na abdicação incolor da alma inteira, só os ruídos exteriores, longe, são o mundo impossível que ainda existe.
Ah, outro mundo, outras coisas, outra alma com que senti-las, outro pensamento com que saber dessa alma! Tudo, até o tédio, menos este esfumar comum da alma e das coisas, este desamparo azulado da indefinição de tudo! Depois dos dias todos de chuva, de novo o céu traz o azul, que escondera, aos grandes espaços do alto. Entre as ruas, onde as poças dormem como charcos do campo, e a alegria clara que esfria no alto, há um contraste que torna agradáveis as ruas sujas e primaveril o céu de inverno baço. É domingo e não tenho que fazer. Nem sonhar me apetece, de tão bem que está o dia. Gozo-o com" uma sinceridade de sentidos a que a inteligência se abandona. Passeio como um
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caixeiro liberto. Sinto-me velho, só para ter o prazer de me sentir rejuvenescer.
Na grande praça dominical há um movimento solene de outra espécie de dia. Em S. Domingos há a saída de uma missa, e vai principiar outra. Vejo uns que saem e os que ainda não entram, esperando por alguns que não estão vendo quem sai.
Todas estas coisas não têm importância. São, como tudo no comum da vida, um sono dos mistérios e das ameias, e eu olho, como um arauto chegado à planície da minha me-ditação.
Outrora, criança, eu ia a esta mesma missa, ou porven-tura à outra, mas devia ser a esta. Punha, com a devida cons-ciência, o meu único fato melhor, e gozava tudo — até o que não tinha razão de gozar. Vivia por fora e o fato era limpo e novo. Que mais quer quem tem que morrer e o não sabe pela mão da mãe?
Outrora gozava tudo isto, por isso é só agora, talvez, que compreendo quanto o gozava. Entrava para a missa como para um grande mistério, e saía da missa como para uma clareira. E assim é que verdadeiramente era, e ainda verdadeiramente é. Só o ser que não crê e é adulto, com alma que recorda e chora, são a ficção e o transtorno, o desalinho e a laje fria.
Sim, o que eu sou fora insuportável, se eu não pudesse lembrar-me do que fui. E esta multidão alheia que continua ainda a sair da missa, e o princípio da multidão possível que começa a chegar para entrar para a outra — tudo isto são como barcos que passam por mim, rio lento, sob as janelas abertas do meu lar erguido sobre a margem. Memórias, domingos, missas, prazer de haver sido, mi-lagre do tempo que ficou por ter passado, e não esquece nun-ca porque foi meu... Diagonal absurda das sensações prová-veis, som súbito de carruagem de praça que soa rodas no fundo dos silêncios ruidosos dos automóveis, e de qualquer modo, por um paradoxo maternal do tempo, subsiste hoje, 132 FERNANDO PESSOA
aqui mesmo, entre o que sou e o que perdi, no ântero olhar de mim que sou eu...
Que sei? Que procuro? Que sinto? Que pediria se ti-vesse que pedir?
Por entre a casaria, em intercalações de luz e sombra — ou, antes, de luz e de menos luz — a manhã desata-se sobre a cidade. Parece que não vem do sol mas da cidade, e que é dos muros e dos telhados que a luz do alto se desprende — não deles fisicamente, mas deles por estarem ali. Sinto, ao senti-la, uma grande esperança; mas reco-nheço que a esperança é literária. Manhã, primavera, espe-rança — estão ligados em música pela mesma intenção meló-dica; estão ligados na alma pela mesma memória de uma igual intenção. Não: se a mim mesmo observo, como ob-servo à cidade, reconheço que o que tenho que esperar é que este dia acabe, como todos os dias. A razão também vê a aurora. A esperança que pus nela, se a houve não foi minha: foi a dos homens que vivem a hora que passa, e a quem en-carnei sem querer, o entendimento exterior neste momento. Esperar? Que tenho eu que espere? O dia não me pro-mete mais que o dia, e eu sei que ele tem decurso e fim. A luz anima-me mas não me melhora, pois [?] sairei de aqui como para aqui vim — mais velho em horas, mais ale-gre uma sensação, mais triste um pensamento. No que nasce tanto podemos sentir o que nasce como pensar o que há de morrer. Agora, à luz ampla e alta, a paisagem da cidade é como de um campo de casas — é natural, é extensa, é com-binada. Mas, ainda no ver disto tudo, poderei eu esquecer que existo? A minha consciência da cidade é, por dentro, a minha consciência de mim.
Lembro-me de repente de quando era criança, e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu
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(não sendo consciente) era a vida. Via a manhã e tinha ale-gria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas. Sim, outrora eu era daqui; hoje, a cada paisa-gem, nova para mim que seja, regresso estrangeiro, hóspede e peregrino da sua presentação, forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca ve-rei. No meu sangue corre até a menor das paisagens futuras, e a angústia do que terei que ver de novo é uma monotonia antecipada para mim.
E debruçado ao parapeito, gozando do dia, sobre o vo-lume vário da cidade inteira, só um pensamento me enche a alma — a vontade íntima de morrer, de acabar, de não ver mais luz sobre cidade alguma, de não pensar, de não sentir, de deixar atrás, como um papel de embrulho, o curso do sol e dos dias, de despir, como um traje pesado, à beira do grande leito, o esforço involuntário de ser.
Há sossegos do campo na cidade. Há momentos, sobre-tudo nos meio-dias de estio, em que, nesta Lisboa luminosa, o campo, como um vento, nos invade. E aqui mesmo, na Rua dos Douradores, temos o bom sono.
Que bom à alma ver calar, sob um sol alto quieto, estas carroças com palha, estes caixotes por fazer, estes transeun-tes lentos, de aldeia transferida! Eu mesmo, olhando-os da janela do escritório, onde estou só, me transmuto: estou numa vila quieta da província, estagno numa aldeia incóg-nita, e porque me sinto outro sou feliz.
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Bem sei: se ergo os olhos, está diante de mim a linha sórdida da casaria, as janelas por lavar de todos os escritórios da Baixa, as janelas sem sentido dos andares mais altos onde ainda se mora, e, ao alto, no angular das trapeiras, a roupa de sempre, ao sol entre vasos e plantas. Sei isto, mas é tão suave a luz que doura tudo isto, tão sem sentido o ar calmo que me envolve, que não tenho razão sequer visual para abdicar da minha aldeia postiça, da minha vila de província onde o co-mércio é um sossego.
Bem sei, bem sei... Verdade seja que é a hora de al-moço, ou de repouso, ou de intervalo. Tudo vai bem pela superfície da vida. Eu mesmo durmo, ainda que me debruce da varanda, como se fosse a amurada de um barco sobre uma paisagem nova. Eu mesmo nem cismo, como se estivesse na província. E, subitamente, outra coisa me surge, me en-volve, me comanda: vejo, por trás do meio-dia da vila toda a vida em tudo da vila; vejo a grande felicidade estúpida da vida doméstica, a grande felicidade estúpida da vida dos campos, a grande felicidade estúpida do sossego na sordidez. Vejo, porque vejo. Mas não vi e desperto. Olho em roda, sorrindo, e, antes de mais nada, sacudo dos cotovelos do fato, infeliz-mente escuro, todo o pó do apoio da varanda, que ninguém limpou, ignorando que teria um dia, um momento que fosse, que ser a amurada sem pó possível de um barco singrando num turismo infinito.
O céu negro ao fundo do sul do Tejo era sinistramente negro contra as asas, por contraste, vividamente brancas das gaivotas em vôo inquieto. O dia, porém, não estava tempes-tuoso já. Toda a massa da ameaça da chuva passara para por sobre a outra margem, e a cidade baixa, úmida ainda do pouco que chovera, sorria do chão a um céu cujo Norte se
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azulava ainda um pouco brancamente. O fresco da primavera era levemente frio.
Numa hora como esta, vazia e imponderável, apraz-me conduzir voluntariamente o pensamento para uma medita-ção que nada seja, mas que retenha, na sua limpidez de nula, qualquer coisa da frieza erma do dia esclarecido, com o fundo negro ao longe, e certas intuições, como gaivotas, evocando por constraste o mistério de tudo em grande negrume. Mas, de repente, em contrário do meu propósito literá-rio íntimo, o fundo negro do céu do Sul evoca-me, por lem-brança verdadeira ou falsa, outro céu, talvez visto em outra vida, em um Norte de rio menor, com juncais tristes e sem cidade nenhuma. Sem que eu saiba como, uma paisagem para patos bravos alastra-se-me pela imaginação e é com a nitidez de um sonho raro que me sinto próximo da extensão que imagino.
Terra de juncais à beira de rios, terreno para caçadores e angústias, as margens irregulares entram, como pequenos cabos sujos, nas águas cor de chumbo amarelo, e reentram em baías limosas, para barcos de quase brinquedo, em ribei-ras que têm água a luzir à tona de lama oculta entre as hastes verde-negras dos juncos, por onde se não pode andar. A desolação é de um céu cinzento morto, aqui e ali arre-panhando-se em nuvens mais negras que o tom do céu. Não sinto vento, mas há-o, e a outra margem, afinal, é uma ilha longa, por trás da qual se divisa — grande e abandonado rio! — a outra margem verdadeira, deitada na distância sem re-levo.
Ninguém ali chega, nem chegará. Ainda que, por uma fuga contraditória do tempo e do espaço, eu pudesse evadir-me do mundo para essa paisagem, ninguém ali chegaria
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nunca. Esperaria em vão o que não saberia que esperava, nem haveria senão, no fim de tudo, um cair lento da noite, tornando-se todo o espaço, lentamente, da cor das nuvens mais negras, que pouco a pouco se mergiam[sic] no con-junto abolido do céu.
E, de repente, sinto aqui o frio de ali. Toca-me no cor-po, vindo dos ossos. Respiro alto e desperto. O homem, que cruza comigo sob a Arcada ao pé da Bolsa, olha-me com uma desconfiança de quem não sabe explicar. O céu negro, aper-tando-se desceu mais baixo sobre o Sul.
Alastra ante meus olhos saudosos a cidade incerta e si-lente.
As casas desigualam-se num aglomerado retido, e o luar, com manchas de incerteza, estagna de madrepérola os solavancos mortos da profusão. Há telhados e sombras, ja-nelas e idade média. Não há de que haver arredores. Pousa no que se vê um vislumbre de longínquo. Por sobre de onde vejo há ramos negros de árvores, e eu tenho o sono da cidade inteira no meu coração dissuadido. Lisboa ao luar e o meu cansaço de amanhã!
Que noite! Prouvera a quem causou os pormenores do mundo que não houvesse para mim melhor estudo ou melo-dia que o momento lunar destacado em que me desconheço conhecido.
Durmo, e nem brisa, nem gente interrompe o que não penso. Tenho sono do mesmo modo que tenho vida. Só que sinto nas pálpebras, como se houvesse o que fazer mas pesar. Ouço a minha respiração.
Custa-me um chumbo dos sentidos o mover-me com os pés para onde moro. A carícia do apagamento, a flor dado
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[sic] do inútil, o meu nome nunca pronunciado, o meu de-sassossego entre margens, o privilégio de deveres cedidos, e, na última curva do parque avoengo o outro sonho [?] como um roseiral.
Lento, no luar lá fora da noite lenta, o vento agita coisas que fazem sombra a mexer. Não é talvez senão a roupa que deixaram estendida no andar mais alto, mas a sombra, em si, não conhece camisas e flutua impalpável num acordo mudo corn tudo.
Deixei abertas as portas da janela, para despertar cedo, mas até agora, e a noite é já tão velha que nada se ouve, não pude deixar-me ao sono nem estar desperto bem. Um luar está para além das sombras do meu quarto, mas não passa pela janela. Existe, como um dia de prata oca, e os telhados do prédio fronteiro, que vejo da cama, são líquidos de bran-cura enegrecida. Como parabéns do alto a quem não ouve, há uma paz triste na luz dura da lua.
E sem ver, sem pensar, olhos fechados já sobre o sono ausente, medito com que palavras verdadeiras se poderá des-crever um luar. Os antigos diriam que o luar é branco, ou que é de prata. Mas a brancura falsa do luar é de muitas cores. Se me erguesse da cama, e visse por trás dos vidros frios sei bem que, no alto ar isolado, o luar é de branco cin-zento azulado de amarelo esbatido; que, sobre os telhados vá-rios, em desequilíbrios de negrume de uns para outros, ora doura de branco preto os prédios submissos, ora alaga de uma cor sem cor o encarnado castanho das telhas altas. No fundo da rua, abismo plácido, onde as pedras nuas se arre-dondam irregularmente, não tem cor salvo um azul que vem talvez do cinzento das pedras. Ao fundo do horizonte será quase de azul escuro, diferente do azul negro do céu ao fun-do. Nas janelas onde bate, é de amarelo negro.
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De aqui, da cama, se abro os olhos que têm o sono que não tenho, é um ar de neve tornada cor onde bóiam filamen-tos de madrepérola morna. E, se o sinto com o que sinto, é um tédio tornado sombra branca, escurecendo como se olhos se fechassem sobre essa indistinta brancura. Desde antes de manhã cedo, contra o uso solar desta cidade clara, a névoa envolve, num manto leve, que o sol foi crescentamente dourando, as casas múltiplas, os espaços abolidos, os acidentes da terra e das construções. Chegada, porém, a hora alta antes do meio-dia, — começou a desfiar-se a bruma branda, e, em hálitos de sombras de véus, a cessar imponderavelmente. Pelas dez horas da manhã só um tênue mau-azular do céu revelava que a névoa fora. As feições da cidade renasceram do escorregar da más-cara do velamento. Como se uma janela se abrisse, o dia já raiado raiou. Houve uma leve mudança nos ruídos de tudo. Apareceram também. Um tom azul insinuou-se até nas pe-dras das ruas e nas auras impessoais dos transeuntes. O sol era quente, mas ainda umidamente quente. Coava-o invisi-velmente a névoa que já não existia.
O despertar de uma cidade, seja entre névoa ou de outro modo, é sempre para mim uma coisa mais enternecedora do que o raiar da aurora sobre os campos. Renasce muito mais, há muito mais que esperar, quando, em vez de só dourar, primeiro de luz obscura, depois de luz úmida, mais tarde de ouro luminoso, as relvas, os relevos dos arbustos, as palmas das mãos das folhas, o sol multiplica os seus possíveis efeitos nas janelas, nos muros, nos telhados, — [...] — quando ma-nhã [...] a tantas realidades diversas. Uma aurora no campo faz-me bem; uma aurora na cidade bem e mal, e por isso me faz mais que bem. Sim, porque a esperança maior que me traz tem, como todas as esperanças, aquele travo longínquo e
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saudoso de não ser realidade. A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete. Uma faz viver; a outra faz pensar. E eu hei sempre de sentir, como os grandes malditos, que mais vale pensar que viver.
Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superficie estagnada dos sentidos. Ê uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movi-mento indolente do pé à passagem.
Olha-se mas não se vê. A longa rua movimentada de bichos humanos é uma espécie de tabuleta deitada onde as letras fossem móveis e não formassem sentidos. As casas são somente casas. Perde-se a possibilidade de dar um sentido ao que se vê, mas vê-se bem o que é, sim.
As pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma estranheza próxima. Soam grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os ruídos das carroças pa-recem de dia em que vem trovoada. As vozes saem do ar, e não de gargantas. Ao fundo, o rio está cansado. Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, de es-quecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada, a não ser um automatismo cá embaixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha invo-luntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. A roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça.
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Parece uma constipação na alma. E com a imagem lite-rária de se estar doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a idéia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada. Pas-sa-se, conscientemente, a dormir só com a impossibilidade de dar ao corpo outra direção, a porta onde se deve entrar. Pas-sa-se tudo. Que é do pandeiro, ó urso parado? Leve, como uma coisa que começasse, a maresia da bri-sa pairou de sobre o Tejo e espalhou-se sujamente pelos princípios da Baixa. Nauseava frescamente, num torpor frio de mar morno. Senti a vida no estômago, e o olfato tornou-se-me uma coisa por detrás dos olhos. Altas, pousavam em nada nuvens ralas, rolos, num cinzento a desmoronar-se para branco falso. A atmosfera era de uma ameaça de céu covarde, como a de uma trovoada inaudível, feita de ar so-mente.
Havia estagnação no próprio vôo das gaivotas; pareciam coisas mais leves que o ar, deixadas nele por alguém. Nada abafava. A tarde caía num desassossego nosso; o ar refres-cava intermitentemente.
Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter! São como esta hora e este ar, névoas sem névoas, alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação. Mas há maresia no meu propósito, e o baixamar em mim deixou des-coberto o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro.
Tanta inconseqüência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações justapostas! Tanto en-redo da alma com as sensações, dos pensamentos com o ar e LIVRO DO DESASSOSSEGO 141
o rio, para dizer que me dói a vida no olfato e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de J ó , ' ' M i n h a alma está cansada de minha vida!''. Depois que o calor cessou, e o primeiro leve da chuva cresceu para ouvir-se, ficou no ar uma tranqüilidade que o ar do calor não tinha, uma nova paz em que a água punha uma brisa sua. Tão clara era a alegria desta chuva branda, sem tempestade nem escuridão, que aqueles mesmos, que eram quase todos, que não tinham guarda-chuva ou roupa de de-fesa, estavam rindo a falar no seu passo rápido pela rua lus-trosa.
Num intervalo de indolência cheguei à janela aberta do escritório — o calor a fizera abrir, a chuva não a fizera fechar — e contemplei com a atenção intensa e indiferente, que é o meu modo, aquilo mesmo que acabo de descrever com jus-teza antes de o ter visto. Sim, lá ia a alegria aos dois banais, falando a sorrir pela chuva miúda, com passos mais rápidos que apressados, na claridade limpa do dia que se velara. Mas, de repente, da surpresa de uma esquina que já lá estava, rodou para a minha vista um homem velho e mes-quinho, pobre e não humilde, que seguia impaciente sob a chuva que havia abrandado. Esse, que por certo não tinha fito, tinha ao menos impaciência. Olheio-o com a atenção, não já desatenta, que se dá às coisas, mas definidora, que se dá aos símbolos. Era o símbolo de ninguém; por isso tinha pressa. Era o símbolo de quem nada fora; por isso sofria. Era parte, não dos que sentem a sorrir a alegria incômoda da chuva, mas da mesma chuva — um inconsciente, tanto que sentia a realidade.
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Não era isto, porém, que eu queria dizer. Entre a minha observação do transeunte que, afinal, perdi logo de vista, por não ter continuado a olhá-lo, e o nexo destas observações in-seriu-se-me qualquer mistério da desatenção, qualquer emer-gência da alma que me deixou sem prosseguimento. E ao fundo da minha desconexão, sem que eu os ouça, ouço os sons das falas dos moços da embalagem, lá no fundo do escri-tório, na parte que é o princípio do armazém, e vejo sem ver os cordéis enfardadores das encomendas postais, passados duas vezes, com os nós duas vezes corridos, à roda dos em-brulhos em papel pardo forte, na mesa ao pé da janela para o saguão, entre piadas e tesouras.
Ver éter visto.
Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constante-mente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Medito, então, em uma modorra de físico, que se parece com volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ân-sias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder so-frer. Falta-me qualquer coisa que não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer.
O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram jun-tos, na composição da minha angústia. As flautas dos pasto-res impossíveis não são mais suaves do que não haver aqui flautas e isso lembrar-mas.
Os idílios longínquos, ao pé de riachos, doem-me esta hora análoga por dentro, (...)
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O poente está espalhado pelas nuvens soltas separadas que o céu todo tem. Reflexos de todas as cores, reflexos bran-dos, enchem as diversidades do ar alto, bóiam ausentes nas grandes mágoas da altura. Pelos cimos dos telhados ergui-dos, meio-cor, meio-sombras, os últimos raios lentos do sol indo-se tomam formas de cor que nem são suas nem das coi-sas em que pousam. Há um grande sossego acima do nível ruidoso da cidade que vai também sossegando. Tudo respira para além da cor e do som, num hausto fundo e mudo. Nas casas coloridas que o sol não vê, as cores começam a ter tons de cinzento delas. Há frio nas diversidades dessas cores. Dorme uma pequena inquietação nos vales falsos das ruas. Dorme e sossega. E pouco a pouco, nas mais baixas das nuvens altas, começam os reflexos a ser de sombra; só na-quela pequena nuvem, que paira águia branca acima de tudo, o sol conserva, de longe, o seu ouro rindo. Tudo quanto tenho buscado na vida, eu mesmo o deixei por buscar. Sou como alguém que procure distraidamente o que, no sonho entre a busca, esqueceu já o que era. Torna-se mais real que a coisa buscada ausente o gesto real das mãos visíveis que buscam, revolvendo, deslocando, assentando, e existem brancas e longas, com cinco dedos cada uma, exata-mente.
Tudo quanto tenho tido é como este céu alto e diversa-mente o mesmo, farrapos de nada tocados de uma luz dis-tante, fragmentos de falsa vida que a morte doura de longe, com seu sorriso triste de verdade inteira. Tudo quanto tenho tido, sim, tem sido o não ter sabido buscar, senhor feudal de pântanos à tarde, príncipe deserto de uma cidade de túmulos vazios.
Tudo quanto sou, ou quanto fui, ou quanto penso do que sou ou fui, — tudo isso perde de repente — nestes meus
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pensamentos e na perda súbita de luz da nuvem alta — o se-gredo, a verdade, a ventura talvez, que houvesse em não sei quê que tem por baixo a vida. Tudo isso, como um sol que falta, é que me resta, e sobre os telhados altos, diversamente, a luz deixa escorregar as suas mãos de queda, e sai à vista, na unidade dos telhados, a sombra íntima de tudo.
Vago pingo trêmulo, clareia pequena ao longe a pri-meira estrela.
Sim, é o poente. Chego à foz da Rua da Alfândega, va-garoso e disperso, e, ao clarear-me o Terreiro do Paço, vejo, nítido o sem sol do céu ocidental. Esse céu é de um azul esverdeado para cinzento branco, onde, do lado esquerdo, sobre os montes da outra margem, se agacha, amontoada, uma névoa acastanhada de cor de rosa morto. Há uma gran-de paz que não tenho dispersa friamente no ar outonal abs-trato. Sofro de a não ter o prazer vago de supor que ela exis-te. Mas, na realidade, não há paz nem falta de paz: céu ape-nas, céu de todas as cores que desmaiam — azul branco, verde ainda azulado, cinzento pálido entre verde e azul, va-gos tons remotos de cores de nuvens que o não são, amare-ladamente escurecidas de encarnado findo. E tudo isto é uma visão que se extingue no mesmo momento em que é tida, um intervalo entre nada e nada, alado, posto alto, em tonali-dades de céu e mágoa, prolixo e indefinido. Sinto e esqueço. Uma saudade, que é a de toda a gente por tudo, invade-me como um ópio do ar frio. Há em mim um êxtase de ver, íntimo e postiço.
Para os lados da barra, onde o ter cessado o sol cada vez mais se acaba, a luz extingue-se em branco lívido que se azu-la de esverdeado frio. Há no ar um torpor do que se não con-segue nunca. Cala alto a paisagem do céu. LIVRO DO DESASSOSSEGO 145
Nesta hora, em que sinto até transbordar, quisera ter a malícia inteira de dizer, o capricho livre de um estilo por des-tino. Mas não, só o céu alto é tudo, remoto, abolindo-se, e a emoção que tenho, e que é tantas, juntas e confusas, não é mais que o reflexo desse céu nulo num lago em mim — lago recluso entre rochedos hirtos, calado, olhar de morto, em que a altura se contempla esquecida.
Tantas vezes, tantas, como agora, me tem pesado sentir que sinto — sentir como angústia só por ser sentir, a inquie-tação de estar aqui, a saudade de outra coisa que se não co-nheceu, o poente de todas as emoções, amarelecer-me esba-tido para tristeza cinzenta na minha consciência externa de mim.
Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. É todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da lua emerge numa brancura elétrica parada, recortado a longínquo e a insensível. É toda a falta de um Deus verdadeiro que é o cadáver vácuo do céu alto e da alma fechada. Cárcere infinito — por-que és infinito, não se pode fugir de ti!
Nas vagas sombras de luz por findar antes que a tarde seja noite cedo, gozo de errar sem pensar entre o que a cidade se torna, e ando como se nada tivesse remédio. Agrada-me, mais à imaginação que aos sentidos, a tristeza dispersa que
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está comigo. Vago, e folheio em mim, sem o ler, um livro de texto intersperso [sic] de imagens rápidas, de que vou formando indolentemente uma idéia que nunca se completa. Há quem leia com a rapidez com que olha, e conclua sem ter visto tudo. Assim tiro do livro que se me folheia na alma uma história vaga por contar, memórias de um outro vagabundo, bocados de descrições de crepúsculos ou luares, com aléias de parques no meio, e figuras de seda várias, a passar, a passar.
Indiscrimino a tédio e outro. Sigo, simultaneamente, pela rua, pela tarde e pela leitura sonhada, e os caminhos são verdadeiramente percorridos. Emigro e repouso, como se estivesse a bordo com o navio já no mar alto. Súbito, os candeeiros mortos coincidem luzes pelos pro-longamentos duplos da rua longa e curva. Como um baque a minha tristeza aumenta. É que o livro acabou. Há só, na vis-cosidade aérea da rua abstrata, um fio externo de sentimento, como a baba do Destino idiota, a pingar-me sobre a cons-ciência da alma.
Outra vida, da cidade que anoitece. Outra alma a de quem olha a noite. Sigo incerto e alegórico, irrealmente sen-tiente. Sou como uma história que alguém houvesse con-tado, e, de tão bem contada, andasse carnal mas não muito neste mundo romance, no princípio de um capítulo: "A essa hora um homem podia ser visto seguir lentamente pela rua de..."
Que tenho eu com a vida?
LIVRO DO DESASSOSSEGO
Dia de chuva
O ar é de um amarelo escondido, como um amarelo pálido visto através dum branco sujo. Mal há amarelo no ar acinzentado. A palidez do cinzento, porém, tem um amarelo na sua tristeza.
No alto ermo dos montes naturais temos, quando che-gamos, a sensação do privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos montes. O máximo da Na-tureza, pelo menos naquele lugar, fica-nos sob as solas dos pés. Somos, por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o erguimento e o píncaro que somos. Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que te-mos, não a temos; não somos mais altos no alto do que a nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos, nos alça; e se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos. Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.
Grande, porém é o que considera que do vale ao céu ou do monte ao céu,'a distância que é diferença não faz dife-rença. Quando o dilúvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos como a de Èolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.
Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a negação de subir no conhecimento. Ele tem, 148 FERNANDO PESSOA
por visão, todos os montes; e tem, por posição, todos os va-les. O sol que doura os pincaros, dourá-los-á para ele mais [que] para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais belo ao que o contempla do vale que ao que o es-quece nas salas que o constituem de prisão.
Com estas reflexões me consolo, pois que me não posso consolar com a vida. E o simbolo funde-se-me com a reali-dade quando, transeunte de corpo e alma por estas ruas bai-xas que vão dar ao Tejo — vejo os altos claros da cidade es-plender, como a glória alheia, das luzes várias de um sol que já nem está no poente.
Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos vêem-se desa-tentamente, e construo em mim essa imagem áquea [sic] que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos. Ao escrever esta última frase, que para mim exatamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das "Errata" umas "Não-Errata", e dizer: a frase "a este incerto movimentos", na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjetivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo
em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo. À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos mó-veis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a fer-ro alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas
LIVRO DO DESASSOSSEGO
pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalha-dor. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos. E são sombras, sombras...
Vista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luiz de Sousa escrevia ' 'o comum com singularidade". Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem ra-zão, como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é de um azul umidamente esbran-quiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica. De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar dis-tante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.
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A ficção
de mim mesmo Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas ga-vetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me pare-cem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.
É freqüente eu encontrar coisas escritas por mim quan-do ainda muito jovem — trechos dos dezessete anos, trechos dos vinte anos. E alguns têm um poder de expressão que me não lembro de poder ter tido nessa altura da vida. Há em certas frases, em vários períodos, de coisas escritas a poucos passos da minha adolescência, que me parecem produto de tal qual sou agora, educado por anos e por coisas. Reconheço que sou o mesmo que era. E, tendo sentido que estou hoje num progresso grande do que fui, pergunto onde está o pro-gresso se então era o mesmo que hoje sou. 154 FERNANDO PESSOA
Há nisto um mistério que me desvirtua e me oprime. Ainda há dias sofri uma impressão espantosa com um breve escrito do meu passado. Lembro-me perfeitamente de que o meu escrúpulo, pelo menos relativo, pela linguagem data de há poucos anos. Encontrei numa gaveta um escrito meu, muito mais antigo, em que esse mesmo escrúpulo es-tava fortemente acentuado. Não me compreendi no passado positivamente. Como avancei para o que já era? Como me conheci hoje o que me desconheci ontem? E tudo se me con-funde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim. Devaneio com o pensamento, e estou certo que isto que escrevo, já o escrevi. Recordo. E pergunto ao que em mim presume do ser se não haverá no platonismo das sensações outra anamnese mais inclinada, outra recordação de uma vida anterior que seja apenas desta vida... Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou?
Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim? Afinal deste dia fica o que de ontem ficou e ficará de amanhã: a ânsia insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e outro.
O meu hábito vital de descrença em tudo, especialmente no instintivo, e a minha atitude natural de insinceridade, são a negação de obstáculos em que eu faço isto constantemente. No fundo o que acontece é que faço dos outros o meu sonho, dobrando-me às opiniões deles para, expandindo-as pelo meu raciocínio e a minha intuição, as tornar minhas e
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(eu, nâo tendo opinião, posso ter as deles como quaisquer outras) para as dobrar a meu gosto e fazer das suas persona-lidades coisas aparentadas com os meus sonhos. De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e per-sistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos ou-tros, na linha fluida da vida individualidade amorfa. Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcado, com as cintilações da água ao sol, o curso curvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.
Parecendo às vezes, à minha análise [?] rápida para-sitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Habito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, to-mando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andado no(s) seu(s) caminho(s). Em geral, pelo hábito que tenho de, desdobrando-me, seguir ao mesmo tempo duas, diversas operações mentais, eu, ao passo que me vou adaptando em excesso e lucidez ao sentir deles, vou analisando em mim o desconhecido estado da alma deles, fazendo a análise puramente objetiva do que eles são e pensam. Assim, entre sonhos, e sem largar o meu devaneio ininterrupto, vou, não só vivendo-lhes a essência requintada das suas emoções às vezes mortas, [ ?] mas com-preendendo e classificando as lógicas interconexas das várias forças do seu espírito que jaziam às vezes num estado simples da sua alma.
E no meio disto tudo a sua fisionomia, o seu traje, os seus gestos, não me escapam. Vivo ao mesmo tempo os seus sonhos, a alma do instinto [?] e o corpo e atitudes deles. Numa grande dispersão unificada, ubiquito-me neles e eu crio e sou, a cada momento da conversa, uma multidão de seres, conscientes e inconscientes, analisados e analíticos, que se reúnem em leque aberto.
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Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instru-mentos tange e range, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia. Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou nin-guém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubarám-me o poder ser antes que o mun-do fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e des-feita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.
Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emo-ções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direção, infinítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo — vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
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E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, ver-dadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosi-dade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda. E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura gras-nada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, dis-forme, anacrônico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.
Poder saber pensar! Poder saber sentir!
Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...
Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.
Não tendo que fazer, nem que pensar em fazer, vou pôr neste papel a descrição dum ideal — apontamento. A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira; sonhar como Verlaine no corpo de Horácio; ser Homero ao luar.
Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar muito se-
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não com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro para escrever justo; conhecer-se com fingimento e tática, natura-lizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar de novo e repor na montra como aquele caixeiro que de aqui estou vendo com as latas pequenas da graxa da nova marca.
Todos estes ideais, possíveis ou impossíveis, acabam agora. Tenho a realidade diante de mim — não é sequer o caixeiro, é a mão dele (a ele não vejo) tentáculo absurdo de uma alma com família e sorte [ ?] que faz trejeitos de aranha sem teia no esticar-se da reposição cá à frente.
E uma das latas caiu, como o Destino de toda a gente. "Sentir é uma maçada". Estas palavras casuais de não sei que conviva a conversa de uns minutos ficou-me sempre brilhando no chão da memória. A própria forma plebéia da frase lhe dá sal e pimenta.
Criar dentro de mim um estado com uma política, com partidos e revoluções, e ser eu isso tudo, ser eu Deus no panteísmo real desse povo eu, essência e ação dos seus cor-pos, das suas almas, da terra que pisam e dos atos que fazem. Ser tudo, ser eles e não eles. Ai de mi! este ainda é um dos sonhos que não logro realizar. Se o realizasse morreria tal-vez, não sei porque, mas não se deve poder viver depois dis-so, tamanho o sacrilégio cometido contra Deus, tamanha usurpação do poder divino de ser tudo.
O prazer que me daria criar um jesuitismo das sensa-ções!
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Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parágrafos meus há que me arrefecem de pavor, tão nitidamente gente eu os sinto, tão recortados de encontro aos muros do meu quarto, na noite, na sombra, (...) Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo — é impossível ocultar-lhes o som — é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente. Por que exponho eu de vez em quando processos con-traditórios e inconciliáveis de sonhar e de aprender a sonhar? Porque, provavelmente, tanto me habituei a sentir o falso como o verdadeiro, o sonhado tão nitidamente como o visto, que perdi a distinção humana, falsa creio, entre a verdade e a mentira.
Basta que eu veja nitidamente, com os olhos ou com os ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que eu sinta que aquilo é real. Pode ser mesmo que eu sinta duas coisas inconjugáveis ao mesmo tempo. Não importa. Há criaturas que são capazes de sofrer longas horas por não lhes ser possível ser uma figura dum quadro ou dum naipe de baralho de cartas. Há almas sobre quem pesa como uma maldição o não lhes ser possível ser hoje gente da idade média. Aconteceu deste sofrimento em tempo. Hoje já me não acontece. Requintei para além disso. Mas dói-me, por exemplo, não me poder sonhar dois reis em reinos diversos, pertencentes, por exemplo, a universos com diversas espé-cies de espaços e de tempos. Não conseguir isso magoa-me verdadeiramente. Sabe-me a passar fome. Poder sonhar o inconcebível visibilizando-o é um dos grandes triunfos que não eu, que sou tão grande, senão raras
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vezes atinjo. Sim, sonhar que sou por exemplo, simultanea-mente, separadamente, inconfusamente, o homem e a mu-lher dum passeio que um homem e uma mulher dão à beira rio. Vêr-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integra-ção nelas, um navio consciente num mar do sul e uma pá-gina impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto pa-rece ! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos. Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me apro-fundando-me. O mais pequeno episódio — uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz junta aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me à meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada im-pressão indefinida.
Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu. Criei em mim várias personalidades. Crio personalida-des constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que pas-sa a sonhá-lo, e eu não.
Para criar, destrui-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários atores representando vá-rias peças.
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Encontrar a personalidade na perda dela — a mesma fé abona esse sentido de destino [ ?].
Primeiro é um som que faz um outro som, no côncavo noturno das coisas. Depois é um uivo vago, acompanhado pelo oscilar rasco das tabuletas da rua. Depois, ainda, há um alto de súbito na voz lavada [ ?] do espaço, e tudo estremece, e não oscila e há silêncio no medo disto tudo com um medo surdo que só [...] quando passado.
Depois não há mais nada senão o vento — só o vento, e reparo com sono que as portas estremecem presas e as ja-nelas dão som de vidro que resiste.
Não durmo. Entressou.
Tenho vestígios na consciência. Pesa em mim o sono sem que a inconsciência pese... Não sou. O vento... Acordo e redurmo, ainda não dormi. Há uma paisagem de som alto e torvo para além de que me desconheço. Gozo, recatado a possibilidade de dormir. Com efeito durmo, mas não sei se durmo. Há sempre no que julgamos [ ?] que é o som um som de fim de tudo, o vento no escuro, e, se escuto ainda, o som dos pulmões e do coração.
Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à car-ta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais sutileza na minha desinteligência comigo.
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Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma — a palavra, o gesto, o hábito — me exprimem eu para os outros, e, atra-vés deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas pala-vras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respi-ração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer. Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verda-deira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao deus ou aos deuses que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido. Há quanto tempo não escrevo! Passei, em dias, séculos de renúncia incerta. Estagnei, como um lago deserto, entre paisagens que não há.
No entretanto, corria-me bem a monotonia variada dos dias, a sucessão nunca igual das horas iguais, a vida. Corria-
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me bem. Se dormisse, não me correria de outro modo. Es-tagnei, como um lago que não há, entre paisagens desertas. É freqüente o desconhecer-me — o que sucede com fre-quência aos que se conhecem... Assisto a mim nos vários disfarces com que sou vivo. Possuo de quanto muda o que é sempre o mesmo, de quanto se faz tudo o que é nada. Relembro, longínquo em mim, como se viajara para dentro, a monotonia, todavia tão diferente, daquela casa de província... Ali passei a infância, mas não saberia dizer, se quisesse fazê-lo, se com mais ou menos felicidade do que passo a vida de hoje. Era outro o quem sou que ali vivia: são vidas diferentes, diversas, incomparáveis. As mesmas mono-tonias, que as aproximam por fora, eram sem dúvida dife-rentes por dentro. Não eram duas monotonias, mas duas vidas.
A que propósito relembro?
O cansaço. Lembrar é um repouso, porque é não agir. Que de vezes, para maior descanso, relembro o que nunca foi, e não há nitidez nem saudade nas minhas memórias das províncias [ ?] onde estive como os que moram, tábua a tábua do soalho, oscilo o oscilo de outras, nas vastas salas onde nunca morei.
De tal modo me converti na ficção de mim mesmo que qualquer sentimento natural, que eu tenho, desde logo, des-de que nasce, se me transtorna num sentimento da imagi-nação — a memória em sonho, o sonho em esquecer-me dele, o conhecer-me em não pensar em mim. De tal modo me desvesti do meu próprio ser, que existir é vestir-me. Só disfarçado é que sou eu. E, em torno de mim, todos poentes incógnitos douram, morrendo, as paisagens que nunca verei.
Sabendo como as coisas mais pequenas têm com facili-dade a arte de me torturar, de propósito me esquivo ao toque
das coisas mais pequenas. Quem, como eu, sofre porque uma nuvem passa diante do sol, como não há de sofrer no escuro do dia sempre encoberto da sua vida?
O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranqüilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perder, mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.
As quatro paredes do meu quarto pobre são me, ao mesmo tempo, cela e distância, cama e caixão. As minhas horas mais felizes são aquelas em que não penso nada, não quero nada, não sonho sequer, perdido num torpor de vege-tal errado, de mero musgo que crescesse na superfície da vida. Gozo sem amargor a consciência absurda de não ser nada o ante sabor da morte e do apagamento. Nunca tive alguém a quem pudesse chamar "Mestre", Não morreu por mim nenhum Cristo. Nenhum Buda me indicou um caminho. No alto dos meus sonhos nenhum Apoio ou Atena me apareceram, para que me iluminassem a alma.
Ergo-me da cadeira com um esforço monstruoso, mas tenho a impressão de que levo-a comigo, e que é mais pe-sada, porque é a cadeira do subjetivismo. Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Então convivo com alegria e existo com cla-reza. Sobrenado. E é me agradável receber o ordenado e ir para casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica. Se medito, não penso. Nesses dias gosto mui-to dos jardins.
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Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civi-lização — uma modificação anônima da natureza. As plan-tas estão ali, mas há ruas — ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.
Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recan-tos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cômica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, a onde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo. Mas a ilusão não dura muito, tanto porque não dura como porque a noite vem. E a cor das flores, a sombra das árvores, o alinhamento de ruas e canteiros, tudo se esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem abre-se de repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço com os olhos a platéia amorfa e aguardo os primeiros atores com um sobressalto de criança no circo.
Estou liberto e perdido.
Sinto. Esfrio febre. Sou eu.
Nuvens... Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que o não olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens... São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos do meu destino. Nuvens... Passam da barra para o Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumul-to disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei quê; meio-negro outras, se, mais len-tas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria.
Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens... Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero! Nuvens... Estão passando sempre, umas muito grandes, parecendo, porque as casas não deixam ver se são menos grandes que parecem, que vão a tomar todo o céu; outras de tamanho incerto, podendo ser duas juntas ou uma que se vai partir em duas, sem sentido no ar alto contra o céu fatigado; outras ainda, pequenas, pare-cendo brinquedos de poderosas coisas, bolas irregulares de um jogo absurdo, só para um lado, num grande isolamento, frias.
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Nuvens... Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de útil nem farei de justificável. Tenho gasto a parte da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa ne-nhuma, fazendo versos em prosa às sensações intransmissí-veis corn que torno meu o universo incógnito. Estou farto de mim, objetiva e subjetivamente. Estou farto de tudo, e do tudo de tudo. Nuvens... São tudo, desmanchamentos do alto, coisas hoje só elas reais entre a terra nula e o céu que não existe; farrapos indescritiveis do tédio que lhes imponho; névoa condensada em ameaças de cor ausente; algodões de rama sujos de um hospital sem paredes. Nuvens... São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando, ale-grando brancas ou escurecendo negras, ficções do intervalo e do descaminho, longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu. Nuvens... Continuam passando, continuam sempre passando, passarão sempre continuando, num enrolamento descontínuo de meadas baças, num alongamento difuso de falso céu desfeito.
E por fim, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apoca-lipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre — o dia, a vida, a utilidade fictícia, a atividade sem remédio. É outra vez a minha per-sonalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as frinchas das portas das janelas — bem longe de herméticas, meu Deus! —, vou sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um des-