Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 23 de 44

Páginas do PDF

Livro do Desassossego

Livro do Desassossego

Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos. sonhando, intato.

O dinheiro é belo, porque é uma libertação. Querer ir morrer a Pequim e não poder é das coisas que pesam sobre mim como a idéia dum cataclismo vindouro. Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sá-bios do que se julgam — compram pequenos sonhos. São crianças no adquirir. Todos os pequenos objetos inúteis cujo acenar ao saberem que têm dinheiro os faz comprá-los, pos-suem-os na atitude feliz de uma criança que apanha cohchi-nhas na praia — imagem que mais do que nenhuma dá toda a felicidade possível. Apanha conchas na praia! Nunca há duas iguais para a criança. Adormece com as duas mais bonitas na mão, e quando lhas perdem ou tiram — o crime! roubar-lhe bocados exteriores da alma! arrancar-lhe pedaços de sonho! — choram como um Deus a quem roubam um universo re-cém-criado.

Pensar, ainda assim, é agir. Só no devaneio absoluto, onde nada de ativo intervém, onde por fim até a nossa cons-ciência de nós-mesmos se atola num lodo — só aí, nesse morno e úmido não-ser, a abdicação da ação competente-mente se atinge.

Não querer compreender, não analisar... Ver-se como a natureza; olhar para as suas impressões como para um cam-po — a sabedoria é isto.

FERNANDO PESSOA

Sociologia — a inutilidade das teorias e práticas polí-ticas.

O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.

Mais que uma vez, ao passear lentamente pelas ruas da tarde, me tem batido na alma, com uma violência súbita e estonteante, a estranhíssima presença da organização das coisas. Não são bem as coisas naturais que tanto me afetam, que tão poderosamente me trazem esta sensação: são antes os arruamentos, os letreiros, as pessoas vestidas e falando, os empregos, os jornais, a inteligência de tudo. Ou, antes, é o fato de que existem arruamentos, letreiros, empregos, ho-mens, sociedade, tudo a entender-se e a seguir e a abrir ca-minhos.

Reparo no homem diretamente, e vejo que é tão incons-ciente como um cão ou um gato; fala por uma inconsciência de outra ordem; organiza-se em sociedade por uma incons-ciência de outra ordem, absolutamente inferior à que empre-

LIVRO DO DESASSOSSEGO

cam as formigas e as abelhas na sua vida social. E então, tanto ou mais que da existência de organismos, tanto ou mais que da existência de leis físicas rígidas e intelectuais, se me revela por uma luz evidente a inteligência que cria e impregna o mundo.

Bate-me então, sempre que assim sinto, a velha frase de não sei que escolástico: Deus est anima brutorum, Deus é a alma dos brutos. Assim entendeu o autor da frase, que,é maravilhosa, explicar a certeza com que o instinto guia os animais inferiores, em que se não divisa inteligência, ou mais que um esboço dela. Mas todos somos animais inferiores — falar e pensar são apenas novos instintos, menos seguros que os outros porque novos. E a frase do escolástico, tão justa em sua beleza, alarga-se, e digo, Deus é a alma de tudo. Nunca compreendi que quem uma vez considerou este grande fato da relojoaria universal pudesse negar o relojoeiro em que o mesmo Voltaire não descreu. Compreendo que,' atendendo a certos fatos aparentemente desviados de um plano (e era preciso saber o plano para saber se são desvia-dos), se atribua a essa inteligência suprema algum elemento de imperfeição. Isso compreendo, se bem que o não acei-te. Compreendo ainda que, atendendo ao mal que há no mundo, se não possa aceitar a bondade infinita dessa inteli-gência criadora. Isso compreendo, se bem que o não aceite também. Mas que se negue a existência dessa inteligência, ou seja de Deus, é coisa que me parece uma daquelas estu-pidezas que tantas vezes afligem, num ponto da inteligência, homens que, em todos os outros pontos dela, podem ser su-periores; como os que erram sempre as somas, ou, ainda, e pondo já no jogo a inteligência da sensibilidade, os que não sentem a música, ou a pintura, ou a poesia. Não aceito, disse, nem o critério do relojoeiro imper-feito, nem o do relojoeiro sem benevolência. Não aceito o

 

FERNANDO PESSOA

critério do relojoeiro imperfeito porque aqueles pormenores do governo e ajustamento do mundo, que nos parecem lap-sos ou sem-razões, não podem como tal, ser verdadeiramente dados sem que saibamos o plano. Vemos claramente um pla-no em tudo; vemos certas coisas que nos parecem sem razão, mas é de ponderar que se há em tudo uma razão, haverá nisso também a mesma razão que há em tudo. Vemos a ra-zão, porém não o plano; como diremos, então, que certas coisas estão fora do plano que não sabemos o que é? Assim como um poeta de ritmos sutis pode intercalar um verso ar-rítmico para fins rítmicos, isto é, para o próprio fim de que parece afastar-se, e um crítico mais purista do retilíneo que do ritmo chamará errado esse verso, assim o Criador pode intercalar o que nossa estreita [razão?] considera arritmias no decurso majestoso do seu ritmo metafísico. Nem aceito, disse, o critério do relojoeiro sem benevo-lência. Concordo que é um argumento de mais difícil respos-ta, mas é-o só aparentemente. Podemos dizer que não sabe-mos bem o que é o mal, não podendo por isso afirmar se uma coisa é má ou boa. O certo, porém, é que uma dor, ainda que para nosso bem, é em si mesma um mal, e basta isso para que haja mal no mundo. Basta uma dor de dentes para fazer des-crer na bondade do Criador. Ora, o erro esencial deste argu-mento parece residir no nosso completo desconhecimento do plano de Deus, e nosso igual desconhecimento do que possa ser, como pessoa inteligente, o Infinito Intelectual. Uma coi-sa é a existência do mal, outra a razão dessa existência. A distinção é talvez sutil ao ponto de parecer sofistica, mas o certo é que é justa. A existência do mal não pode ser negada, mas a maldade da existência do mal pode não ser aceite. Con-fesso que o problema subsiste, mas subsiste porque subsiste a nossa imperfeição.

LIVRO DO DESASSOSSEGO

Ah, é um erro doloroso e crasso aquela distinção que os revolucionários estabelecem entre burgueses e povo, ou fi-dalgos e povo, ou governantes e governados. A distinção é entre adaptados e inadaptados: o mais é literatura, e má lite-ratura. O mendigo, se é adaptado, pode amanhã ser rei, po-rém: perdeu com isso a virtude de ser mendigo. Passou a fronteira e perdeu a nacionalidade.

Isto me consola neste escritório estreito, cujas janelas mal lavadas dão sobre uma rua sem alegria. Isto me consola, em o qual tenho por irmãos os criadores da consciência do mundo — o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, (...) e até, se a citação se permite, aquele Jesus Cristo que não foi nada no mundo, tanto que se duvida dele pela história. Os outros são de outra espécie — o conselheiro de estado Jo-hann Wolf gang von Goethe, o senador Victor Hugo, o chefe Lênin, o chefe Mussolini.

Nós na sombra, entre os moços de fretes e os barbeiros, constituímos a humanidade.

De um lado estão os reis, com o seu prestígio, os impe-radores, com a sua glória, os gênios, com a sua aura, os santos, com a sua auréola, os chefes do povo, com o seu domínio, as prostitutas, os profetas e os ricos... Do outro estamos nós — o moço de fretes da esquina, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o barbeiro das anedotas, o mestre-escola John Milton, o marçano da tenda, o vadio Dante Alighieri, os que a morte esquece ou consagra, e [a] vida esqueceu sem consagrar.

Muitos têm definido o homem, e em geral o têm defi-nido em contraste com os animais. Por isso, nas definições

FERNANDO PESSOA

do homem, é freqüente o uso da frase ' 'o homem é um ani-mal. . . " e um adjetivo, ou ' 'o homem é um animal que..." e diz-se o quê. ' 'O homem é um animal doente'', disse Rousseau, e em parte é verdade. "O homem é um animal racio-

nal", diz a Igreja, e em parte é verdade. "O homem é um animal que usa ferramentas", diz Carlyle, e em parte é ver-dade. Mas estas definições, e outras como elas, são sempre imperfeitas e laterais. E a razão é muito simples: não é fácil distinguir o homem dos animais, não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. As vidas humanas decor-rem na mesma íntima inconsciência que as vidas dos ani-mais. As mesmas leis profundas, que regem de fora os ins-tintos dos animais, regem, também de fora, a inteligência do homem, que parece não ser mais que um instinto em forma-ção, tão inconsciente como todo instinto, menos perfeito porque ainda não-formado.

' 'Tudo vem da sem-razão'', diz-se na Antologia Grega. E, na verdade, tudo vem da sem-razão. Fora da matemática, que não tem que ver senão com números mortos e fórmulas vazias, e por isso pode ser perfeitamente lógica, a ciência não é senão um jogo de crianças no crepúsculo, um querer apa-nhar sombras de aves e parar sombras de ervas ao vento. E é curioso e estranho que, não sendo fácil encontrar palavras com que verdadeiramente se defina o homem como distinto dos animais, é todavia fácil encontrar maneira de diferenciar o homem superior do homem vulgar. Nunca me esqueceu aquela frase de Haeckel, o biolo-gista, que li na infância da inteligência, quando se lêem as divulgações científicas e as razões contra a religião. A frase é esta, ou quase esta: que muito mais longe está o homem superior (um Kant ou um Goethe, creio que diz) do homem vulgar que o homem vulgar do macaco. Nunca esqueci a frase porque ela é verdadeira. Entre mim, que pouco sou na ordem dos que pensam, e um camponês de Loures vai, sem

LIVRO DO DESASSOSSEGO

dúvida, maior distância que entre esse camponês e, já não digo um macaco, mas um gato ou um cão. Nenhum de nós, desde o gato até mim, conduz de fato a vida que lhe é im-posta, ou o destino que lhe é dado; todos somos igualmente derivados de não sei quê, sombras de gestos feitos por ou-trem, efeitos encarnados, conseqüências que sentem. Mas entre mim e o camponês há uma diferença de qualidade, pro-veniente da existência em mim do pensamento abstrato e da emoção desinteressada; e entre ele e o gato não há, no espí-rito, mais que uma diferença de grau.

O homem superior difere do homem inferior, e dos ani-mais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou conscien-te. E a ironia atravessa dois estádios: o estádio marcado por Sócrates, quando disse "sei só que nada sei", e o estádio marcado por Sanches, quando disse "nem sei se nada sei". O primeiro passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós dogmaticamente, e todo o homem superior o dá e atinge. O segundo passo chega àquele ponto em que duvidamos de nós e da nossa dúvida, e poucos homens o têm atingido na curta extensão já tão longa do tempo que, humanidade, te-mos visto o sol e a noite sobre a vária superfície da terra. Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse "Conhece-t e " propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enig-ma mais negro que o da Esfinge. Desconhecer-se consciente-mente, eis o caminho. E desconhecer-se conscienciosamente é o emprego ativo da ironia. Nem conheço coisa maior, nem mais própria do homem que é deveras grande, que a análise paciente e expressiva dos modos de nos desconhecermos, o registro consciente da inconsciência das nossas consciências, a metafísica das sombras autônomas, a poesia do crepúsculo da desilusão.

258 FERNANDO PESSOA

Mas sempre qualquer coisa nos ilude, sempre qualquer análise se nos embota, sempre a verdade, ainda que falsa, está além da outra esquina. E é isto que cansa mais que a vida, quando ela cansa, e de que o conhecimento e meditação dela, que nunca deixam de cansar.

Ergo-me da cadeira de onde, fincado distraidamente contra a mesa, me entretive a narrar para mim estas impres-sões irregulares. Ergo-me, ergo o corpo nele mesmo, e vou até à janela, alta acima dos telhados, de onde posso ver a cidade ir a dormir num começo lento de silêncio. A lua, grande e de um branco branco, elucida tristemente as dife-renças socalcadas da casaria. E o luar parece iluminar acida-mente todo o mistério do mundo. Parece mostrar tudo, e tudo é sombras com misturas de luz má, intervalos falsos, desniveladamente absurdos, incoerência do visível. Não há brisa, e parece que o mistério é maior. Tenho náuseas no pensamento abstrato. Nunca escreverei uma página que me revele ou que revele alguma coisa. Uma nuvem muito leve paira vaga acima da lua, como um esconderijo. Ignoro, como estes telhados. Falhei, como a natureza inteira. Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informações de que havia revolu-ção. Estas notícias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau me-nor, porque menos incômodo, o são todos os reformadores. Revolucionário ou reformador — o erro é o mesmo. Im-potente para dominar e reformar a sua própria atitude para