Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 3 de 44

Páginas do PDF

Livro do Desassossego

Livro do Desassossego

E assim arrasto a fazer o que não quero, e a sonhar o que não posso ter, a minha vida (...), absurda como um reló-gio público parado.

Aquela sensibilidade tênue, mas firme, o sonho longo mas consciente (...) que forma no seu conjunto o meu privi-légio de penumbra.

O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jazo na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho. Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.

Tudo em meu torno é o universo nu, abstrato, feito de negações noturnas. Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma,e então os pormenores sem forma da vida quotidiana bóiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lan-çamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.

Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me

FERNANDO PESSOA

desconhecesse!... Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e ex-terno, movimento de ramos em aléias afastadas, tênue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva! .. Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a ma-deixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento — tudo que não fosse a vida...

E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o re-flexo longínquo dos candeeiros mudos da rua. Durmo e desdurmo.

Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o si-lêncio da casa toca no infinito. Ouço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisi-camente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contato de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematica-mente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na bran-cura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece — não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das

 

LIVRO DO DESASSOSSEGO 69

coisas, soa a meia-hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!

Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma pas-sam por mim.

Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, deveras, que canta segunda vez.

Do terraço deste café olho tremulamente para a vida. Pouco vejo dela — a espalhada — nesta sua concentração neste largo nítido e meu. Um marasmo, como um começo de bebedeira, elucida-me a alma de coisas. Decorre fora de mim nos passos dos que passam [...] a vida evidente e unânime. Nesta hora os sentidos estagnaram-me e tudo me parece outra coisa — as minhas sensações um erro confuso e lúcido, abro asas mas não me movo, como um condor suposto. Homem de ideais que sou, quem sabe se a minha maior aspiração não é realmente não passar de ocupar este lugar a esta mesa deste café?

Tudo é vão, como mexer em cinzas, vago como o mo-mento em que ainda não é antemanhã.

E a luz brota tão serenamente e perfeitamente nas coi-sas, doura-as tão de realidade sorridente e triste! Todo o mis-tério do mundo desce até ante meus olhos se esculpir em banalidade e rua.

Ah, como as coisas quotidianas roçam mistérios por nós! Como à superfície, que a luz toca, desta vida complexa 70 FERNANDO PESSOA

de humana [?], a Hora, sorriso incerto, sobe aos lábios do Mistério! Que moderno que tudo isto soa! E, no fundo tão antigo, tão oculto, tão tendo outro sentido que aquele que luz em tudo isto!

Tudo se me tornou insuportável, exceto a vida — o es-critório, a casa, as ruas — o contrário até, se o tivesse — me sobrebasta e oprime; só o conjunto me alivia. Sim, qualquer coisa de tudo isto é bastante para me consolar. Um raio de sol que entre eternamente no escritório morto; um pregão atirado que sobe rápido até à janela do meu quarto; a exis-tência de gente; o haver clima e mudança de tempo, a espan-tosa objetividade do mundo...

O raio de sol entrou de repente para mim, que de re-pente o vi... Era, porém, um risco de luz muito agudo, quase sem cor a cortar à faca nua o chão negro e madeirento, a avivar a roda de onde passava, os pregos velhos e os sulcos entre as tábuas, negras pautas do não-branco. Minutos seguidos segui o efeito insensível da penetra-ção do sol no escritório quieto... Ocupações do cárcere! Só os enclausurados vêem assim o sol mover-se, como quem olha para formigas.

Nos primeiros dias do outono subitamente entrado, quando o escurecer toma uma evidência de qualquer coisa prematura, e parece que tardamos muito no que fazemos de dia, gozo, mesmo entre o trabalho quotidiano, esta anteci-pação de não trabalhar que a própria sombra traz consigo, por isso que é noite e a noite é sono, lares, livramento. Quando as luzes se acendem no escritório amplo que deixa

LIVRO DO DESASSOSSEGO 71

de ser escuro, e fazemos serão sem que cessássemos de traba-lhar de dia, sinto um conforto absurdo como uma lembrança de outrem, e estou sossegado com o que escrevo como se estivesse lendo até sentir que irei dormir.

Somos todos escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos campos largos no meio de um café de vie-la; uma sombra no campo encolhe-nos para dentro, e abri-gamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um chegar da noite, até entre coisas do dia, alarga, como um leque [que] se abra lento, a consciência íntima de dever-se re-pousar.

Mas com isso o trabalho não se atrasa: anima-se. Já não trabalhamos; recreamo-nos com o assunto a que estamos condenados. E, de repente, pela folha vasta e pautada do meu destino numerador, a casa velha das tias antigas alberga, fe-chada contra o mundo, o chá das dez horas sonolentas, e o candeeiro de petróleo da minha infância perdida brilhando somente sobre a mesa linho, obscurece-me, com a luz, a vi-são do Moreira, iluminado a uma eletricidade negra infinitos para além de mim. Trazem o chá — é a criada mais velha que as tias que o traz com os restos do sono e o mau humor paciente da ternura da velha vassalagem — e eu escrevo sem errar uma verba ou uma soma através de todo o meu passado morto. Reabsorvo-me, perco-me em mim, esqueço-me a noites longínquas, impolutas de dever e de mundo, virgens de mistério e de futuro.

E tão suave é a sensação que me alheia do débito e do crédito que, se acaso uma pergunta me é feita, respondo sua-vemente, como se tivesse o meu ser oco, como se não fosse mais que a máquina de escrever que trago comigo, portátil de mim mesmo aberto. Não me choca a interrupção dos meus sonhos: de tão suaves que são, continuo sonhando-os por trás de falar, escrever, responder, conversar até. E atra-

 

72 FERNANDO PESSOA

vés de tudo o chá perdido finda, e o escritório vai fechar... Ergo do livro, que cerro lentamente, olhos cansados do cho-ro que não tiveram, e, numa mistura de sensações, sofro que ao fechar o escritório se me feche o sonho também; que no gesto de mão com que cerro o livro encubra o passado irrepa-rável; que vá para a cama da vida sem sono, sem companhia nem sossego, no fluxo e refluxo da minha consciência mis-turada, como duas marés na noite negra, no fim dos destinos da saudade e da desolação.

Encaro serenamente, sem mais nada que o que na alma represente um sorriso, o fechar-se-me sempre a vida nesta Rua dos Douradores, neste escritório, nesta atmosfera desta gente. Ter o que me dê para comer e beber, e onde habite, e o pouco espaço livre no tempo para sonhar, escrever — dor-mir — que mais posso eu pedir aos Deuses ou esperar do Destino?

Tive grandes ambições e sonhos dilatados — mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir conosco. Em sonhos sou igual ao moço de fretes e à costureira. Só me distingue deles o saber escrever. Sim, é um ato, uma rea-lidade minha que me diferença deles. Na alma sou eu igual. Bem sei que há ilhas ao Sul e grandes paixões cosmopo-listase (...).

Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para [a] Rua dos Douradores.

LIVRO DO DESASSOSSEGO

Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-li-vros, e a poesia ou a literatura uma borboleta que, pousando-me na cabeça, me torne tanto mais ridículo quanto maior for a sua própria beleza.

Terei saudades do Moreira, mas o que são saudades pe-rante as grandes ascensões?

Sei bem que o dia em que for guarda-livros da casa Vas-ques e Cia. será um dos grandes dias da minha vida. Seio corn uma antecipação amarga e irônica, mas sei-o com a van-tagem intelectual da certeza.

Hoje como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como ao sair eu [?], o criado verificasse que a garrafa de vinho fi-cara em meio voltou-se para mim e disse: "até logo, sr. Soa-res, e desejo as melhoras".

Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reco-nhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos bar-beiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma sim-patia espontânea, natural que não posso orgulhar-me de re-ceber dos que privam comigo em mais intimidade, impro-priamente dita...

A fraternidade tem sutilezas.

Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, com bens na Inglaterra ou Suíça e o chefe Socialista da aldeia — não há diferença de qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo [...] destes, nós, os amor-fos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mes-

FERNANDO PESSOA

tre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão me-tade do vinho.

O homem magro sorriu desleixadamente. Olhou-me com uma desconfiança que não era malévola. Depois sorriu novamente, mas com tristeza. Baixou, depois, outra vez, os olhos sobre o prato. Continuou jantando em silêncio e ab-sorção.

As carroças da rua ronronam, sons separados, lentos, de acordo, parece, com a minha sonolência. É a hora do al-moço mas fiquei no escritório. O dia é tépido e um pouco velado. Nos ruídos há, por qualquer razão, que talvez seja a minha sonolência, a mesma coisa que há no dia. Descobri que penso sempre, e atendo sempre, a duas coisas no mesmo tempo. Todos, suponho, serão um pouco assim. Há certas impressões tão vagas que só depois, porque nos lembramos delas, sabemos que as tivemos; dessas im-pressões, creio, se formará uma parte — a parte interna, tal-vez — da dupla atenção de todos os homens. Sucede comigo que têm igual relevo as duas realidades a que atendo. Nisto consiste a minha originalidade. Nisto, talvez, consiste a mi-nha tragédia, e a comédia dela.

Escrevo atentamente, curvado sobre o livro em que faço a lançamentos a história inútil de uma firma obscura; e, ao

LIVRO DO DESASSOSSEGO

mesmo tempo, o meu pensamento segue, com igual atenção, a rota de um navio inexistente por paisagens de um oriente que não há. As duas coisas estão igualmente nítidas, igual-mente visíveis perante mim: a folha onde escreve com cui-dado, nas linhas pautadas, os versos da epopéia comercial de Vasques e Cia., e o convés onde vejo com cuidado, um pouco ao lado da pauta alcatroada dos interstícios das tábuas, as cadeiras longas alinhadas, e as pernas saídas que sossegam na viagem.

(Se eu for atropelado por um bicicleta de criança, essa bicicleta de criança torna-se parte da minha história.) Intervém a saliência da casa de fumo; por isso só as per-nas se vêem.

Avanço a pena para o tinteiro e da porta da casa de fumo — [...] mesmo ao pé de onde sinto que estou — sai o vulto do desconhecido. Vira-me as costas e avança para os outros. O seu modo de andar é lento e as ancas não dizem muito [...] Começo um outro lançamento. Tento ver porque ia en-ganado. É a débito e não a crédito a conta do Marques (Vejo-o gordo, amável, piadista e, num momento, o navio desaparece [?]).

A vulgaridade é um lar. O quotidiano é materno. De-pois de uma incursão larga na grande poesia, aos montes da aspiração sublime, aos penhascos do transcendente e do oculto, sabe melhor que bem, sabe a tudo quanto é quente na vida, regressar à estalagem onde riem os parvos felizes, beber com eles, parvo também, como Deus nos fez, contente do universo que nos foi dado e deixando o mais aos que trepam montanhas para não fazer nada lá no alto.

FERNANDO PESSOA

Nada me comove que se diga, de um homem que tenho por louco ou néscio, que supera a um homem vulgar em muitos casos e conseguimentos da vida. Os epiléticos são, na crise, fortíssimos; os paranóicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos (se alguns) demagogos as agregam, e com uma força íntima que estes não logram dar aos seus sequazes. E isto tudo não prova senão que a loucura é loucura. Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores, que a vitória no meio dos desertos, cheia da cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada.

Que de vezes o próprio sonho fútil me deixa um horror à vida interior, uma náusea física dos misticismos e das con-templações. Com que pressa corro de casa, onde assim so-nhe, ao escritório; e vejo a cara do Moreira como se chegasse finalmente a um porto. Considerando bem tudo, prefiro o Moreira ao mundo astral; prefiro a realidade à verdade; pre-firo a vida, vamos, ao mesmo Deus que a criou. Assim ma deu, assim a viverei. Sonho porque sonho, mas não sofro o insulto próprio de dar aos sonhos outro valor que não o de serem o meu teatro íntimo, como não dou ao vinho, de que todavia me não abstenho, o nome de alimento ou de neces-sidade da vida.

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser com-preendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e natu-ralidade.

Nada poderia indignar-me tanto como se no escritório me estranhassem. Quero gozar comigo a ironia de me não estranharem. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. Quero a crucifixão de me não distinguirem. Há martírios