Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 41 de 44

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tiplo de todos os grandes propósitos, confluentes ou opostos, de cuja falência surgiu a era com que faliram. Vivemos um entreato com orquestra.

Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas sociologias? Tudo isto é-me sonho, como as princesas da Ba-bilônia, e o ocuparmo-nos da humanidade é fútil, fútil — uma arqueologia do presente.

Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo.

Vinha humana desprendida do sonho do muro e navio com ser supérfluo à tona de tudo.

Visto que talvez nem tudo seja falso, que nada, ó meu amor, nos cure do prazer quase espasmo de mentir. Requinte último! Perversão máxima! A mentira absur-da tem todo o encanto do perverso com o último e maior encanto de ser inocente. A perversão de propósito inocente — quem excederá, ó (...) o requinte máximo disto? A per-versão que nem aspira a dar-nos gozo, que nem tem a fúria de nos causar dor, que cai para o chão entre o prazer e a dor, inútil e absurda como um brinquedo mal-feito com que um adulto quisesse divertir-se!

E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos. E quando nos causar angús-tia, paremos, para que o sofrimento nos não signifique nem perversamente prazer...

Não conheces, ó Deliciosa, o prazer de comprar coisas que não são precisas? Sabes o sabor aos caminhos que, se os tomássemos esquecidos, era por erro que os tomaríamos? Que ato humano tem uma cor tão bela como, os atos espú-

 

FERNANDO PESSOA

rios — (...) que mentem à sua própria natureza e desmentem o que lhes é a intenção?

A sublimidade de desperdiçar uma vida que podia ser útil, de nunca executar uma obra que por força seria bela, de abandonar a meio-caminho a estrada certa da vitória! Ah, meu amor, a glória das obras que se perderam e nunca se acharão, dos tratados que são títulos apenas hoje, das bibliotecas que arderam, das estátuas que foram par-tidas.

Que santificados do Absurdo os artistas que queimaram uma obra muito bela, daqueles que, podendo fazer uma obra bela, de propósito a fizeram imperfeita, daqueles poetas má-ximos do Silêncio que, reconhecendo que poderiam fazer obra de todo perfeita, preferiram ousá-la [?] de nunca a fa-zer. (Se fora imperfeita, vá).

Quão mais bela a Gioconda desde que a não pudéssemos ver! E se quem a roubasse a queimasse, quão artista seria, que maior artista que aquele que a pintou! Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para o outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar para onde ninguém vai.

Quem dera a sua vida a construir uma estrada começada no meio de um campo e indo ter ao meio de um outro; que, prolongada, seria útil, mas que ficava, sublimemente, só o meio de uma estrada.

A beleza das ruínas? O não servirem já para nada. A doçura do passado? O recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem o pode ser — o ab-surdo, meu amor, o absurdo.

 

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E eu digo que isto — por que escrevo eu este livro? Porque o reconheço imperfeito. Calado seria a perfeição; es-crito, imperfeiçoa-se; por isso o escrevo.

E, sobretudo, porque defendo a inutilidade, o absurdo, (...) — eu escrevo este livro para mentir a mim próprio, para trair a minha própria teoria.

E a suprema glória disto tudo, meu amor, é pensar que talvez isto não seja verdade, nem eu o creia verdadeiro. A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ou-samos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida a ação, a ação, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem, e o que ex-prime o que sobrou do que teve.

A procura da verdade — seja a verdade subjetiva do convencimento, a objetiva da realidade, ou a social do di-nheiro ou do poder — traz sempre consigo, se nela se em-prega quem merece prêmio, o conhecimento último da sua inexistência. A sorte grande da vida sai somente aos que compraram por acaso.

A arte tem valia porque nos tira de aqui.

FERNANDO PESSOA

Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.

Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos mani-pansos assentes e obsoletos, também nos liberta das idéias generosas e das preocupações sociais — manipansos também. A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sen-timos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na ver-dadeira substância com que o sinto, é absolutamente inco-municável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a ou-trem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano tí-pico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.

Tudo quanto é abstrato é difícil de compreender, porque é difícil de conseguir para ele a atenção de quem o leia. Da-rei, por isso, um exemplo simples, em que as abstrações que formei se concretizarão. Suponha-se que, por um motivo qualquer, que pode ser o cansaço de fazer contas ou o tédio de não ter que fazer, cai sobre mim uma tristeza vaga da vida, uma angústia de mim que me perturba e inquieta. Se vou traduzir esta emoção por frases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mais a dou como propriamente minha, menos, portanto, a comunico a outros. E, se não há

LIVRO DO DESASSOSSEGO comunicá-la a outros, é mais justo e mais fácil senti-la sem a escrever.

Suponha-se, porém, que desejo comunicá-la a outros, isto é, fazer dela arte, pois a arte é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles; sem o que nem há co-municação nem necessidade de a fazer. Procuro qual será a emoção humana vulgar que tenha o tom, o tipo, a forma desta emoção em que estou agora, pelas razões inumanas e particulares de ser (um) guarda-livros cansado ou (um) lis-boeta aborrecido. E verifico que o tipo de emoção vulgar que produz, na alma vulgar, esta mesma emoção é a saudade da infância perdida.

Tenho a chave para a porta do meu tema. Escrevo e choro a minha infância perdida; demoro-me comovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobília da velha casa na província; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir — e esta evo-cação, se for bem feita como prosa e visões, vai despertar no meu leitor exatamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com infância.

Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da neces-sidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a lingua-gem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de pala-vras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movi-mentos da emoção e do pensamento, que as palavras forço-samente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que com a verdade, própria e intransmissível, se nunca po-deria fazer.

FERNANDO PESSOA

A arte mente porque é social. E há só duas grandes for-mas da arte — uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta. A primeira é a poe-sia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; a segunda começa a mentir na própria in-tenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, que mentem à inerência da fala; ou-tra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.

Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a pros-titua, a quem compremos, amou, ao menos, o comprarmo-la. Não fugimos, por mais que queiramos, à fraternidade uni-versal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agra-dável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entre-tém. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de

 

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idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém em-prega, pois que ninguém fala em verso.

[...] Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi... Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver. Há criaturas que sofrem realmente por não poder ter vivido na vida real com o sr. Pickwick e ter apertado a mão ao sr. Wardle. Sou um desses. Tenho chorado lágrimas ver-dadeiras sobre esse romance, por não ter vivido naquele tem-po, com aquela gente, gente real.

Os desastres dos romances são sempre belos porque não corre sangue autêntico neles, nem apodrecem os mortos nos romances, nem a podridão é podre nos romances. Quando o sr. Pickwick é ridículo, não é ridículo, porque o é num romance. Quem sabe se o romance será uma mais perfeita realidade e vida que Deus cria através de nós, que nós — quem sabe — existimos apenas para criar? As [...] parece não existirem senão para produzir arte e literatura; é, palavras, o que deles fala e fica. Por que não serão essas figuras extra-humanas verdadeiramente reais? Dói-me mal na existência mental pensar que isto possa ser assim... O ter tocado nos pés de Cristo não é desculpa para de-feitos de pontuação.

Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser [?] que o seu fígado sofre com isso respondo: o que é o seu fígado? é uma coisa