Livro do Desassossego
Livro do Desassossego
Até (que) um dia, no fim de vários séculos, de impérios a Igreja finalmente rua e tudo acabe...
Mas nós que não sabemos dela ficaremos ainda, não sei como, não sei em que espaço, não sei por que tempo, vitrais eternos, horas de ingênuo desenho pintado por um qualquer artista que dorme há muito sob um túmulo godo onde dois anjos, de mãos postas, gelam em mármore a idéia de morte. < ^ >
Não o amor, mas os arredores é que vale a pena... A repressão do amor ilumina os fenômenos dele com muito mais clareza que a mesma experiência. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa mas confunde. Possuir é ser possuído, e portanto perder-se. Só a idéia atin-ge, sem se estragar, o conhecimento da realidade. Ser puro, não para ser nobre, ou para ser forte, mas para ser si-próprio. Quem dá amor, perde amor. Abdicar da vida para não abdicar de si próprio. A mulher uma boa fonte de sonhos. Nunca lhe toques. Aprende a desligar as idéias de voluptuosidade e de pra-zer. Aprende a gozar em tudo, não o que ele é, mas as idéias e os sonhos que provoca. Porque nada é o que é: os sonhos sempre são os sonhos. Para isso precisas não tocar em nada. Se tocares o teu sonho morrerá, o objeto tocado ocupará a tua sensação.
Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida con-tém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aris-
FERNANDO PESSOA
tocracia é nunca tocar. Não se aproximar — eis o que é fi-dalgo.
Todo o homem de hoje, em quem a estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de charro, ama, quando ama, com o amor romântico. O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à se-qüência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe.
Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formamos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em quem o vestimos.
O amor romântico, portanto, é um caminho de desilu-são. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida. Dois, três dias de semelhança de princípio de amor... Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe cau-sa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos, se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas