Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 11 de 44

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meu sonho, aquela rapariga encontra o homem que vejo que é o marido ou o amante. Um romântico faria disto uma tra-gédia; um estranho sentiria isto como uma comédia: eu, po-rém, misturo as duas coisas, pois sou romântico em mim e estranho a mim, e viro a página para outra ironia. Uns dizem que sem esperança a vida é impossível, ou-tros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espetáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos — bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos descon-formes da cidade.

Sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. De-senrolo-me em períodos e parágrafos, faço-me pontuações, e, na distribuição desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me touco, como os lou-cos, de flores secas que continuam vivas nos meus sonhos.

E, acima de tudo, estou tranqüilo, como um boneco de serra-dura que, tomando consciência de si mesmo, abanasse de vez em quando a cabeça, para que o guiso no alto do boné em bico (parte integrante da mesma cabeça) fizesse soar qual-quer coisa, vida tinida do morto, aviso mínimo ao Destino. Quantas vezes, contudo, em pleno meio desta insatis-fação sossegada, me não sobe pouco a pouco à emoção cons-ciente o sentimento do vácuo e do tédio de pensar assim! Quantas vezes não me sinto, como quem ouve falar através de sons que cessam e recomeçam, a amargura essencial desta vida estranha à vida humana — vida em que nada se passa salvo na consciência dela! Quantas vezes, despertando de mim, não entrevejo, do exílio que sou, quanto fora melhor ser o ninguém de todos, o feliz que tem ao menos a amargura

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real, o contente que tem cansaço em ver de tédio, que sofre em vez de supor que sofre, que se mata, sim, em vez de se morrer!

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a ne-gro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me con-templa contemplá-lo.

Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. E assim, em imagens sucessivas em que me des-crevo — não sem verdade, mas com mentiras — vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reação, e de novo me resigno. Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas ai, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem porque foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir.

Reconheço hoje que falhei, só pasmo, às vezes, de não ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosti-

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casse um triunfo? Eu não tinha a força cega dos vencedores ou a visão certa [ ? ] dos loucos...

Era lúcido, triste como um dia frio.

Tenho elementos espirituais de boêmio, desses que dei-xam a vida ir como uma coisa que se escapa das mãos e a tal hora em que o gesto de a obter dorme na mera idéia de fazê-lo. Mas não tive a compensação exterior do espirito boêmio — o descuidado fácil das emoções imediatas e abandonadas. Nunca fui mais que um boêmio isolado, o que é um absurdo; ou um boêmio místico, o que é uma coisa impossível. Certas horas-intervalos que tenho vivido, horas perante a Natureza, esculpidas na ternura do isolamento, ficar-me-ão para sempre como medalhas. Nesses momentos esqueci to-dos os meus propósitos de vida, todas as minhas direções desejadas. Gozei não ser nada com uma plenitude de bonança espiritual, caindo no regaço azul das minhas aspirações. Não gozei nunca, talvez, uma hora indelével, isenta de um fundo espiritual de falência e de desânimo. Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detrás dos muros da minha consciência, em outros quintais, mas o aroma e a própria cor dessas flores tristes atravessavam intui-tivamente os muros, e o lado de lá deles, onde floriam as rosas, nunca deixaram de ser, no mistério confuso do meu ser, um lado de cá — esbatido na minha sonolência de viver. Foi num mar interior que o rio da minha vida findou. À roda do meu solar sonhado todas as árvores estavam no outono. Esta paisagem circular é a coroa-de-espinhos da mi-nha alma. Os momentos mais felizes da minha vida foram sonhos, e sonhos de tristeza, e eu via-me nos lagos deles como um Narciso cego que gozou a frescura próximo da água, sentindo-se debruçado nela, por uma visão anterior e noturna, segredada às emoções abstratas, vivida nos recantos da imaginação com um cuidado materno em preferir-se.

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Sei que falhei. Gozo a volúpia indeterminada da falência como quem dá um apreço exausto a uma febre que o enclau-sura.

Invejo a todas as pessoas não serem eu. Como de todos os impossíveis, esse sempre me pareceu o maior de todos, foi o que mais se constituiu minha ânsia quotidiana, o meu de-sespero de todas as horas tristes.

Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O po-bre quarto-alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de es-pera da estação de caminho de ferro onde gastei duas horas à espera do comboio — sim, mas as coisas boas da vida, quan-do as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos na-quele preciso e exato momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de Deus roça-me pela face lívida.

O tempo! O passado! [...] Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os Mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim-próprio, chorando como um men-digo o silêncio fechado de todas as portas. Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre crian-ça. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os LIVRO DO DESASSOSSEGO. 183

brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas comprimidas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, por que deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança no horror desprevenido do meu coração exausto. Dôo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passam usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

Na minha alma ignóbil e profunda registro, dia a dia, as impressões que formam a substância externa da minha cons-ciência de mim. Ponho-as em palavras vadias, que me deser-tam desde que as escrevo, e erram independentes de mim, por encostas e relvados de imagens, por aléias de conceitos, por azinhagas de confusões. Isto de nada me serve, pois nada me serve de nada. Mas desapoquento-me escrevendo, como quem respira melhor sem que a doença haja passado. Há quem, estando distraído, escreva riscos e nomes ab-surdos no mata-borrão de cantos entalados. Estas páginas são os rabiscos da minha inconsciência intelectual de mim. Tra-ço-as numa modorra de me sentir, como um gato ao sol, e releio-as, por vezes, com um vago pasmo tardio, como o de me haver lembrado de uma coisa que sempre esquecera. Quando escrevo, visito-me solenemente. Tenho salas especiais, recordadas por outrem, em interstícios da figura-ção, onde me deleito analisando o que não sinto, e me exa-mino como a um quadro na sombra.

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Perdi, antes de nascer, o meu castelo antigo. Foram vendidas, antes que eu fosse, as tapeçarias [d]o meu palácio ancestral. O meu solar de antes da vida caiu em ruina, e só em certos momentos, quando o luar nasce em mim de sobre os juncos do rio, me esfria a saudade dos lados de onde o resto desdentado das paredes se recorta negro contra o céu de azul escuro esbranquiçado a amarelo de leite. Distingo-me a esfinges. E do regaço da rainha que me falta, cai, como um episódio do bordado inútil, o novelo es-quecido da minha alma. Rola para debaixo do contador com embutidos, e há aquilo em mim que o segue como olhos até que se perde num grande horror de túmulo e de fim. Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimen-tos da vida; a ruptura, que procurei, do meu contato com as coisas — levou-me precisamente àquilo a que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas, sa-bendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contato, isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se fosse possí-vel cortar de todo o contato com as coisas, bem iria à minha sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que eu faça, respiro, por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os fatos mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes. Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incômodo, para o mesmo lugar onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali.

Nunca encarei o suicídio como uma solução, porque eu odeio a vida por amor a ela. Levei tempo a convencer-me

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deste lamentável equívoco em que vivo comigo. Convencido dele, fiquei desgostoso, o que sempre me acontece quando me convenço de qualquer coisa, porque o convencimento é em mim sempre a perda de uma ilusão.

Matei a vontade de analisá-la. Quem me tornará à in-fância antes da análise, ainda que antes da vontade! Nos meus parques, sono morto, a sonolência dos tan-ques ao sol-alto, quando os rumores dos insetos chusmam na hora e me pesa viver, não como uma mágoa, mas como uma dor física por concluir.

Palácios muito longe, parques absortos, a estreiteza das aléias ao longe, a graça morna dos bancos de pedra para os que foram — pompas mortas, graça desfeita, ouropel per-dido. Meu anseio que esqueço, quem me dera recuperar a mágoa com que te sonhei.

Quando vim primeiro para Lisboa, havia, no andar lá de cima de onde morávamos, um som de piano tocado em es-calas, aprendizagem monótona da menina que nunca vi. Descubro hoje que, por processos de infiltração que desco-nheço, tenho ainda nas caves da alma, audíveis se abrem a porta lá de baixo, as escalas repetidas, tecladas, da menina hoje senhora outra, ou morta e fechada num lugar branco onde verdejam negros os ciprestes.

Eu era criança, e hoje não o sou; o som, porém, é igual na recordação ao que era na verdade, e tem, perenemente presente, se se ergue de onde finge que dorme, a mesma lenta teclagem, a mesma rítmica monotonia. Invade-me, de o considerar ou sentir, uma tristeza difusa, angustiosa, mi-nha.

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Não choro a perda da minha infância; choro que tudo, e nele a (minha) infância, se perca. É a fuga abstrata do tempo, não a fuga concreta do tempo — que é meu, que me dói no cérebro físico pela recorrência repetida, involuntária, das es-calas do piano lá de cima, terrivelmente anônimo e longín-quo. É todo o mistério de que nada dura que martela repe-tidamente coisas que não chegam a ser música, mas são sau-dade, no fundo absurdo da minha recordação. Insensivelmente, num erguer visual, vejo a saleta que nunca vi, onde a aprendiza que não conheci está ainda hoje relatando, dedo a dedo cuidados, as escalas sempre iguais do que já está morto. Vejo, vou vendo mais, reconstruo vendo. E todo o lar lá do andar lá de cima, saudoso hoje mas não ontem, vem erguendo-se fictício da minha contemplação de-sentendida.

Suponho, porém, que nisto tudo sou translado, que a saudade que sinto não é bem minha, nem bem abstrata, mas a emoção interceptada de não sei que terceiro, a quem estas emoções, que em mim são literárias, fossem, — di-lo-ia Viei-ra — literais. É na minha suposição de sentir que me magôo e angustio, e as saudades, a cuja sensação se me mareiam os olhos próprios, é por imaginação e outridade que as penso e sinto.

E sempre, com uma constância que vem do fundo do mundo, com uma persistência que estuda metafisicamente, soam, soam, soam, as escalas de quem aprende piano, pela espinha dorsal física da minha recordação. São as ruas anti-gas com outra gente, hoje as mesmas ruas diversas; são pes-soas mortas que me estão falando, através da transparência da falta delas hoje; são remorsos do que fiz ou não fiz, sons de regatos na noite, ruídos lá embaixo na casa queda. Tenho ganas de gritar dentro da cabeça. Quero parar, esmagar, partir esse impossível disco gramofônico que soa