Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 38 de 44

Páginas do PDF

Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

 

treita; e a minha breve vida de campo, não sei já quando nem onde, tem árvores ao fim e sossego no meu coração, indis-cutivelmente menino. Passo uma rua. Transtorna-me, sem que eu espere, um cheiro aos caixotes do caixoteiro: ó meu Cesário, apareces-me e eu sou enfim feliz porque regressei, pela recordação, à única verdade, que é a literatura. Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação da vontade, mas de uma cedência dela. Co-meço porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha covardia. A razão por que tantas vezes interrompo um pensa-mento com um trecho de paisagem, que de algum modo se integra no esquema, real ou suposto, das minhas impressões, é que essa paisagem é uma porta por onde fujo ao conheci-mento da minha impotência criadora. Tenho a necessidade, em meio das conversas comigo que formam as palavras deste livro, de falar de repente com outra pessoa, e dirijo-me à luz que paira, como agora, sobre os telhados das casas, que pa-recem molhados de tê-la de lado; ao agitar brando das árvo-res altas na encosta citadina, que parecem perto, numa pos-sibilidade de desabamento mudo; aos cartazes sobrepostos das casas ingremadas, com janelas por letras onde o sol mor-to doura goma úmida.

Por que escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por infe-rior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspira-ção, porque tento realizar; não ouso o silêncio como quem

LIVRO DO DESASSOSSEGO

receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça. Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso dei-xar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos ne-cessários, e há-os sutilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, pa-poulas negras achadas ao pé das sepulturas [...], folhas lon-gas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.

Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, por-que tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais re-gressa ao mar.

Mesmo que eu quisesse criar, (...)

A única arte verdadeira é a da construção. Mas o meio moderno torna impossível o aparecimento de qualidades de construção no espírito.

Por isso se desenvolveu a ciência. A única coisa em que há construção, hoje, é uma máquina; o único argumento em que há encadeamento o de uma demonstração matemática. O poder de criar precisa de ponto de apoio, da muleta da realidade.

A arte é uma ciência...

Sofre ritmicamente.