Livro do Desassossego

Fernando Pessoa · Capítulo 39 de 44

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Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

Não posso ler, porque a minha critica hiperacesa não descortina senão defeitos, imperfeições, possibilidades de melhor. Não posso sonhar, porque sinto o sonho tão viva-mente que o comparo com a realidade, de modo que sinto logo que ele não é real; e assim o seu valor desaparece. Não posso entreter-me na contemplação inocente das coisas e dos homens, porque a ânsia de aprofundar é inevitável, e, desde que o meu interesse não pode existir sem ela ou há-de morrer às mãos dela ou secar.

Não posso entreter-me com a especulação metafísica porque sei de sobra, e por mim, que todos os sistemas são defensáveis e intelectualmente possíveis; e, para gozar a arte intelectual do construir sistemas, falta-me o poder esquecer que o fim da especulação metafísica é a procura da verdade. Um passado feliz em cuja lembrança torne a ser feliz; sem nada no presente que me alegre ou me interesse, em sonho ou hipótese de futuro que seja diferente deste pre-sente, ou possa ter outro passado que esse passado — jazo a minha vida, consciente espectro de um paraíso em que nunca estive, cadáver-nado das minhas esperanças por haver. Felizes os que sofrem com unidade! Aqueles a quem a angústia altera mas não divide, que crêem, ainda que na des-crença, e podem sentar-se ao sol sem pensamento reservado. Fazer uma obra e reconhecê-la má depois de feita é uma das tragédias da alma. Sobretudo é grande quando se reco-nhece que essa obra é a melhor que se podia fazer. Mas ao ir escrever uma obra, saber d'antemão que ela tem de ser im-perfeita e falhada; ao está-la escrevendo estar vendo que ela é imperfeita e falhada — isto é o máximo da tortura e da humi-lhação do espírito. Não só dos versos que escrevo sinto que

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me não satisfazem, mas sei que os versos que estou para es-crever me não satisfarão, também. Sei-o tanto filosofica-mente, como carnalmente, por uma entrevisão obscura e gladiolada.

Por que escrevo então? Porque, pregador que sou da renúncia, não aprendi ainda a executá-la plenamente. Não aprendi a abdicar da tendência para o verso e a prosa. Tenho de escrever como cumprindo um castigo. E o maior castigo é o de saber que o que escrevo resulta inteiramente fútil, fa-lhado e incerto.

Em criança escrevia já versos. Então escrevia versos muito maus, mas julgava-os perfeitos. Nunca mais tornarei a ter o prazer falso de produzir obra perfeita. O que escrevo hoje é muito melhor. É melhor, mesmo, do que o que pode-riam escrever os melhores. Mas está infinitamente abaixo daquilo que eu, não sei por quê, sinto, que podia — ou talvez seja, que devia — escrever. Choro sobre os meus versos maus da infância como sobre uma criança morta, um filho morto, uma última esperança que se fosse. Se algum dia me suceder que, com uma vida firmemente segura, possa livremente escrever e publicar, sei que terei saudades desta vida incerta em que mal escrevo e não pu-blico. Terei saudades, não só porque essa vida frusta é pas-sado e vida que não mais terei, mas porque há em cada es-pécie de vida uma qualidade própria e um prazer peculiar, e quando se passa para outra vida, ainda que melhor, esse pra-zer peculiar é menos feliz, essa qualidade própria é menos boa, deixam de existir, e há uma falta.

Se algum dia me suceder que consiga levar ao bom cal-vário a cruz da minha intenção, encontrarei um calvário nesse bom calvário, e terei saudades de quando era fútil, frusto e imperfeito. Serei menos de qualquer maneira.

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Tenho sono. O dia foi pesado de trabalho absurdo no escritório quase deserto. Dois empregados estão doentes e os outros não estão aqui. Estou só, salvo o moço longínquo. Tenho saudades da hipótese de poder ter um dia saudades, e ainda assim absurdas.

Quase peço aos deuses que haja que ma guardem aqui, como num cofre, defendendo-me das agruras e também das felicidades da vida.

Como há quem trabalhe de tédio, escrevo, por vezes, de não ter que dizer. O devaneio, em que naturalmente se perde quem não pensa, perco-me eu nele por escrito, pois sei so-nhar em prosa. E há muito sentimento sincero, muita emo-ção legítima que tiro de não estar sentindo. Há momentos em que a vacuidade de se sentir viver atinge a espessura de uma coisa positiva. Nos grandes ho-mens de ação, que são os santos, pois que agem com a emo-ção inteira e não só com parte dela, este sentimento de a vida não ser nada conduz ao infinito. Engrinaldam-se de noite e de astros, ungem-se de silêncio e de solidão. Nos grandes homens de inação, a cujo número humildemente pertenço, o mesmo sentimento conduz ao infinitesimal; puxam-se as sensações, como elásticos, para ver os poros da sua falsa con-tinuidade bamba.

E uns e outros, nestes momentos, amam o sono, como o homem vulgar que nem age nem não age, mero reflexo da existência genérica da espécie humana. Sono é a fusão com Deus, o Nirvana, seja ele em definições o que for; sono é a análise lenta das sensações, seja ela usada como uma ciência

 

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atômica da alma, seja ela dormida como uma música da von-tade, anagrama lento da monotonia.

Escrevo demorando-me nas palavras, como por mon-tras onde não vejo, e são meios-sentidos, quase-expressões o que me fica, como cores de estofos que não vi o que são, harmonias exibidas compostas de não sei que objetos. Es-crevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto. Encontrei-me neste mundo certo dia, que não sei qual foi, e até ali, desde que evidentemente nascera, tinha vivido sem sentir. Se perguntei onde estava, todos me enganaram, e todos se contradiziam. Se pedi que me dissessem o que faria, todos me falaram falso, e cada um me disse uma coisa sua. Se, de não saber, parei no caminho, todos pasmaram que eu não seguisse para onde ninguém sabia o que estava, ou não voltasse para trás — eu, que, desperto na encruzilhada, não sabia de onde viera. Vi que estava em cena e não sabia o papel que os outros diziam logo, sem o saberem também. Vi que estava vestido de pajem, e não me deram a rainha, cul-pando-me de a não ter. Vi que tinha nas mãos a mensagem que entregar, e quando lhes disse que o papel estava branco, riram-se de mim. E ainda não sei se riram porque todos os papéis estão brancos, ou porque todas as mensagens se adi-vinham.

Por fim sentei-me na pedra da encruzilhada como á la-reira que me faltou. E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado. Ninguém me quis acreditar, nem por mentiroso e não tinha lago com que provasse a minha verdade.

Palavras ociosas, perdidas, metáforas soltas, que uma vaga angústia encadeia a sombras... Vestígios de melhores horas, vividas não sei onde em aléias... Lâmpada apagada

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cujo ouro brilha no escuro pela memória da extinta luz... Palavras dadas, não ao vento, mas ao chão, deixadas ir dos dedos sem aperto, como folhas secas que neles houvessem caído de uma árvore invisivelmente infinita... Saudade dos tanques das quintas alheias... Ternura do nunca sucedido... Viver! Viver! E a suspeita ao menos, se acaso no leito de Proserpina haveria bem de me [?] dormir. Releio, em uma destas sonolências sem sono, em que nos entretemos inteligentemente sem a inteligência, algu-mas das páginas que formarão, todas juntas, o meu livro de impressões sem nexo. E delas me sobe, como um cheiro de coisa conhecida, uma impressão deserta de monotonia. Sinto que, ainda ao dizer que sou sempre diferente, disse sempre a mesma coisa; que sou mais análogo a mim mesmo do que quereria confessar; que, em fecho de contas, nem tive a ale-gria de ganhar nem a emoção de perder. Sou uma ausência de saldo de mim mesmo, de um equilíbrio involuntário que me desola e enfraquece.

Tudo, quanto escrevi, é pardo. Dir-se-ia que a minha vida, ainda a mental, era um dia de chuva lenta, em que tudo é desacontecimento e penumbra, privilégio vazio e razão es-quecida. Desolo-me a seda rota. Desconheço-me a luz e tédio.

Meu esforço humilde, de sequer dizer quem sou, de re-gistrar, como uma máquina de nervos, as impressões míni-mas da minha vida subjetiva e aguda, tudo isso se me esva-ziou como um balde em que esbarrassem, e se molhou pela terra como a água de tudo. Fabriquei-me a tintas falsas, re-sultei a império de trapeira. Meu coração, de quem fiei os