O Contrato
Capítulo 1
“Somos tentados a cometer erros quando o desespero é maior do que a consciência!”
–Bom dia, meninas e uma boa notícia. Chegou mais duas contas atrasadas: o cartão da Caroline e da loja de sapatos em que a miss Malvin passou a tarde. – Santana tinha uma maneira calorosa de nos dizer que o vermelho já estava mudando de tonalidade quando as contas chegavam.
– Eu entrei em um acordo com a loja. – Caroline falou colocando a cabeça para fora do banheiro, a boca suja de pasta de dente e a escova balançando de um lado a outro de maneira grosseira.
Santana passou por mim puxando o lençol da cama.
–Você está atrasada para o seu trabalho. – Avisou – E você está quinze minutos atrasada para o seu. – Apontou o dedo a Caroline – Eu vou fazer plantão hoje. Precisamos de dinheiro e eu espero ganhar bem. – Resmungou passando as mãos pelos cabelos negros.
Me arrastei até o banheiro, minha cabeça estava cheia e doendo graças a Caroline e sua mania de me arrastar as suas noitadas. Divido o apartamento com ela e Santana a mais ou menos quatro anos e meio. Nesse período presenciei noivados que terminaram antes mesmo da ficha cair, brigas, despedidas que tiveram voltas, mudanças e vermelhos como o de agora. Mas dessa vez as coisas realmente parecem não querer evoluir para uma situação melhor do que essa.
Caroline é do Texas e nem nos sonhos ela quer voltar para lá, de todas nós, a mais sem filtro, a que gasta mais do que pode. Caroline provavelmente é aquela que manda e-mails para marcas famosas pedindo patrocínio, sonha com lançamentos que nem aconteceram e está sempre divina em cima de um salto, uma skincare invejável e cabelos castanhos que daria inveja em qualquer mulher – sim, minha melhor amiga era o produto mais incrível da sociedade.
Santana é de Miami e apesar de parecer a mais cabeça, foi a única que fugiu de casa – isso a faz perder alguns pontos com as demais. Seus pais vieram de Cuba, por longos anos ela foi a filha de imigrantes que tinha um bar em uma cidade qualquer. Seu sonho sempre foi ir além, saindo das garras de uma família ditatória.
Ela costuma dizer que não quer ter o mesmo destino das irmãs mais velhas cheias de filhos e trocas de maridos. Santana tinha uma luz própria, a calma em pessoa, nosso cronograma pessoal, a morena com um metro e meio de pernas, longos cabelos negros e uma mistura latina que a Vogue está perdendo para capa de suas revistas. Com toda certeza não sobreviveríamos uma semana sem Santana em nossas vidas.
Eu sou de Phoenix, resolvi sair de casa em busca de um trabalho decente em Los Angeles e assim conseguir bancar minha faculdade, foi onde conheci minhas melhores amigas de apartamento. Onde descobri que não era tão louca assim. E no fim, nenhuma das três seguiu a profissão para a qual estudamos. Caroline trabalha em uma loja no centro da cidade de classe alta onde um vestido custa nosso aluguel, Santana trabalha em uma empresa de telemarketing – as vezes ela surta e não atende telefones com trauma do seu trabalho. Já eu, consegui um emprego temporário em um consultório de odontologia que está em seu prazo final de uma semana, depois de passar por enumeras tentativas de grandes empresas reconhecerem meu diploma de contabilidade. Então tenho uma semana para arrumar alguma coisa que dê dinheiro, já que anos de curso não está funcionando muito bem.
–Sara, você está atrasada. – Santana gritou novamente batendo a porta da frente.
–Eu já entendi – Gritei de volta.
Caroline bateu à porta se despedindo e correndo para alcançá-la. Encarei as paredes do nosso quarto, era como um templo com os dias contados. Não consegui tomar meu café da manhã e sabia que almoçar depois de ver todas aquelas pessoas saindo babando do consultório não me faria ter apetite por um longo tempo.
Nada de táxi, demorei uma semana para entender isso. Então eu precisava pegar um ônibus e tentar ao máximo não chegar amassada ao trabalho. Táxi é de luxo e peça a Deus para você não ter que morar na rua após pagar uma corrida – Santana sempre repetia isso. Meu pai cortou qualquer mesada depois que me mudei, primeiro porque foi uma escolha minha, segundo porque eu não fui uma boa garota quando sai de casa e admito isso. Eles não tinham culpa de ter uma filha consumista que queria muito ter sido rica para suprir suas necessidades, então precisei sair para supri-las.
Recebi a primeira chamada da manhã pelo meu atraso. Precisei engolir tudo com muita calma para não ser mandada embora cedo demais. Nosso primeiro cliente era um senhor de 70 anos com uma disposição incrível que eu não tinha de manhã. Ele sempre tinha uma história para contar, logo em seguida uma madame que arrastava um garoto mimado que tinha a mania de querer chutar minha canela até eu fazê-lo entender que eu chutaria a cabeça dele se continuasse. Eram sempre os mesmos rostos, as mesmas histórias e problemas.
Passar o dia ali era cansativo e tedioso a maioria das vezes além do salário não valer todo o estresse, mas o lema era: se uma moeda cair no chão, pegue-a. Qualquer coisa estava valendo.
– Boa tarde.
Encarei a garota ruiva e sorridente que havia entrado na sala sem eu perceber.
–Boa tarde. Consulta marcada? – Perguntei com um sorriso copiado.
–Oh, não. Sou a secretária que a doutora Gena estava esperando. Ela marcou a essa tarde para falar comigo.
Como?
Se eu sou a temporária logicamente a última secretária voltaria e não uma nova. Não é? Não. Forcei outro sorriso. Na verdade, queria chorar, nunca me senti tão rejeitada e inútil desde que entrei ali.
–Só um minuto – Arrastei minha cadeira com um pouco de raiva.
Empurrei a porta do consultório, Gena segurava um bisturi ou algo parecido com um enquanto uma garotinha de doze anos com os dentes altamente estragado esperava ser atendida.
–Sua mais nova secretária está te esperando aqui fora.
Seu olhar era um pedido de desculpas. Fechei a porta e voltei a meu lugar, a ruiva folheava uma revista e parei de encará-la, afinal eu era temporária e ela não tinha culpa. E se ela seria a mais nova secretária eu não fazia um bom serviço ali. Que ótimo, não?
–Eu sinto muito. – Sussurrou.
Dei de ombros vendo meu celular vibrar sobre a mesa. Caroline.
“Eu levo o jantar” - Carol
Que?
“Com que dinheiro comprou o jantar?”
“Ganhei três pizzas e pude escolher o sabor. Então, o jantar é por minha conta.” - Carol
“Estou furiosa e acho que vou perder o emprego antes do tempo. Explico quando eu chegar, beijos”
“Sabe que a Santana vai te matar, não sabe?” - Carol
“Eu tenho certeza que vai.”
A garotinha saiu da sala meia hora depois com raiva e Gena deixou a ruiva entrar. Entre risadas e sussurros eu já havia decretado o meu fim por ali e quando saíram tive a certeza disso.
– Então começo amanhã? – A ruiva perguntou.
Gena me encarou.
– Sim. Podemos conversar, Sara?
Juntei minhas coisas, furiosa. Meu jeito descontrolado não me permitia ser civilizada em certos momentos – os humilhantes principalmente.
– Vamos pular a parte em que vai me despedir. Só acho que seria mais humano da sua parte ter me avisado antes que iria me mandar embora mais cedo. Então vamos fazer assim, me paga tudo o que me deve de tempo trabalhado e eu saio daqui sem dizer tudo o que quero. – Sorri.
A ruiva me encarava segurando a porta.
– Tenham uma boa tarde. – Bati os pés para fora da sala, horas antes do expediente.
Eu devia voltar lá e dizer tudo o que queria. Não, eu não devia. Eu só preciso começar a achar um emprego urgente caso de despejo ou uma vida bandida – não havia nenhum look que combinaria com as roupas da prisão, era a única certeza que tinha. Caroline já estava em casa quando cheguei, Santana chegou minutos depois. Agora eu era a única desempregada e precisava arrumar um jeito carinhoso de dizer isso.
– Caroline disse que tem novidades. – Falou chutando os saltos para longe e fazendo uma careta.
–Péssimas, então não chamo de novidade. Chamaria de péssima notícia.
– Perdeu o emprego. – Santana me encarou.
– Dessa vez eu não fiz nada. Gena simplesmente me mandaria embora hoje mesmo, acredita que a nova secretária esteve lá? E elas já são íntimas o suficiente para a placa da despedida ser apontada a mim? – Falei sem parar.
Caroline me encarava meio assustada.
– O que vai fazer com as suas contas? – Perguntou.
– Não sei. Não posso pedir ajuda ao meu pai, ele disse que eu não estava preparada para morar sozinha e eu gritei dizendo que não precisaria mais dele. E olha que ironia, eu mais do que preciso dele agora depois de todos esses anos. – Segurei a cabeça ou ela explodiria. – Vocês podem me ajudar. – Sorri amarelo.
– Da última vez que te coloquei para trabalhar comigo, você gritou com clientes e foi despedida. – Santana me encarou.
– E você vai torrar todo o seu dinheiro na loja, amiga. Só eu sei como é difícil se controlar naquela tentação. Deus fica me provando naqueles corredores. – Caroline suspirou. – Então não, você não pode ir para lá. Podemos dar um jeito.
– Roubando um banco? Esse é o único jeito. Eu passei a minha vida em uma loja de sapatos. – Murmurei me lembrando – E aquele vestido que vocês me incentivaram a levar. – As encarei. – Vou vender um rim para pagar. Mas eu fico tão linda nele. – Suspirei.
Ficamos em silêncio por um tempo até o som do meu celular nos despertar. Eu não queria falar com ninguém, mas Caroline o jogou em mim em sinal de irritação. Número desconhecido.
– Atende, esse número liga há semanas. E todas as vezes você não está. Qual é o seu problema em atender telefonemas?
– Redes sociais. – Santana me chutou levemente com o pé enquanto encarava o teto.
Fiz uma careta antes de atender.
– Senhorita Sara Malvin?
– É ela. Quem está falando?
– Aqui é a secretária do senhor Foster. Só estou ligando para dizer que ele remarcou o encontro e que já depositou o dinheiro em sua conta.
Encontro?!Era uma piada ironizando minha falta de emprego e vida amorosa?
– Dinheiro? – Perguntei ganhando a atenção de Santana.
– Sim, senhorita Malvin. O combinado, não? Vinte mil.
– VINTE MIL? – Minha voz aumentou uma oitava. Santana e Caroline me encararam parando no meio do trajeto até a cozinha.
Que isso não seja uma dívida. Caroline murmurou para mim.
– Sim, o combinado não era esse? – A voz soou surpresa do outro lado da linha.
– Ah sim, claro. – Me recompus. – Era esse sim.
– Em que lugar desejam se encontrar?
Tentei ser rápida. Ela não pode estar falando sério. Eu deveria desligar e ligar para polícia. Mas eu não era muito inteligente para tomar atitudes de segurança
– Na cafeteria no Nilo’s. As três, pode ser?
Ela hesitou um pouco até confirmar.
– As três, o avisarei e não se atrase. Ele odeia atrasos.
– Não vou. – Prometi.
Poderia me dizer o que ele quer comigo? Uma parte do meu cérebro me mandava perguntar. A outra estava totalmente concentrada nos vinte mil. Desliguei.
– O que aconteceu? – Santana me encarou. – Não me diga que esse número totaliza suas dívidas.
– Uma mulher acabou de dizer que tenho vinte mil em minha conta. Se isso é de Deus, ou não, eu vou descobrir. Se for pegadinha, também.
Caroline correu até o quarto trazendo o computador.
– Um tal de Foster acabou de depositar esse dinheiro. – Falei quase automaticamente – Mas eu não sei o porquê ele fez isso. Mas tenho certeza que depositou na conta da Sara errada. – Falei andando pela sala. – Mas quantas Sara Malvin existem na América?
Caroline jogou a cabeça para trás.
– Liga de volta e diz que foi um engano. – Santana falou.
– Não posso. – Choraminguei.
– Por que não?!
– OH MEU DEUS! VINTE MIL! – Caroline gritou virando o computador. – Você tem vinte mil na sua conta depositado há duas horas.
– Por isso. – Apontei a Santana – Temos vinte mil na conta.
– O que você vai fazer? – Caroline me encarou – E se ele te comprou ou comprou essa Sara? E se for um louco desses que matam as mulheres atraindo-as com dinheiro? Já pensou que ele pode já conhecer essa Sara e te denunciar quando vocês se encontrarem?
Obrigada, Caroline, você sempre me reconfortando.
Eu não queria pensar nisso. Nem fui corajosa o bastante para dizer a verdade, fui automática em menos de três minutos com a mulher do outro lado da linha.
– Eu não sei, só sei que tenho um encontro com ele amanhã perto do seu trabalho. Eu digo que foi um engano. Não sei. Mas também eles podem nunca terem se visto. – A encarei.
– Isso é loucura demais. –Santana murmurou. – Isso é roubo.
– Não me deixe mais nervosa, são vinte mil! E não é roubo, eu não fui até ele e peguei esse dinheiro. Eles me ligaram, eles depositaram.
– Isso pode custar a sua vida, idiota. – Santana gritou.
– Vou morrer com as dívidas pagas. – Caroline bateu em minha mão – Eu só preciso de alguém que tenha um tempo livre para me acompanhar e vigiar. Qualquer coisa chame a polícia. São vinte mil!
– Se você repetir vinte mil mais uma vez, eu acabo com você. – Santana me apontou a almofada como se fosse sua arma.
Não consegui agir por uns quinze minutos, pensar que encontraria uma pessoa que depositou vinte mil na minha conta sem saber o porquê, me deixava mais assustada do que saber o tamanho da minha dívida.
°°°
Santana tentou me fazer mudar de ideia no café da manhã, mas eu apenas disse que ficaria tudo bem já que não podia repetir vinte mil dólares perto dela. Caroline estava com medo dele ser um cara louco que me mataria e me colocaria dentro de uma mala que seria jogada de uma ponte. Eram muitos pensamentos positivos destruindo minha coragem.
– Está combinado, Caroline foge do trabalho e me vigia. Se ele tentar alguma coisa é só chamar a polícia.
– Sério que sua vida vale vinte mil?
– Rá! Agora foi você que falou. – Me fuzilou com os olhos. –Não sei se ela vale, vamos dizer que é um sacrifício.
– O pescoço é seu, só me diga as flores que você gosta para eu colocar no seu tumulo.
Caroline fez o sinal da cruz.
– Vejo vocês mais tarde. Por Deus, deixem os celulares ligados. Me sinto morando com duas crianças.
– Você precisa de um namorado Santana. – Caroline segurou seus ombros.
– E vocês duas um cérebro. – Ela afastou suas mãos. – Não sabem o quanto isso me assusta e é sério!
Caroline arquitetou seu plano de jogo de tabuleiro e me vi envolvida nas idiotices que ela dizia. Então ela precisou ir trabalhar enquanto eu fiquei em casa quase cavando um buraco no chão que me levaria ao andar de baixo. Vai dar tudo certo. Tem que dar tudo certo, ninguém vai descobrir que você é uma fraude. E a culpa foi deles, então relaxa.
14h30 horas
– Mesa doze, estou bem atrás de você. – Encarei Caroline a algumas mesas. Ela estava mesmo disfarçada.
Oh Deus!
– Deseja alguma coisa? – Uma das atendentes me enxergou.
– Oh! – Abri a boca.
– Um suco, e um café forte.
Levantei o olhar encarando um homem... ele não é velho. Quase me virei para trás gritando isso a Caroline.
– Sim, senhor.
Ele se sentou na cadeira a minha frente. Cabelo colado de gel e uma cara de mal-humorado. Isso o envelhecia um pouco, também o deixa mais forte fisicamente – e atraente.
– Sara, não é? – Perguntou ajeitando o terno.
– Si-sim. – Bati a mão no suporte de guardanapos no meio do meu nervoso.
– Marcus Foster. – Estendeu a mão.
É, ele não é um velho!