O Contrato
Capítulo 13
Estava frio quando acordei, sozinha. Meus olhos pesados e eu já imaginava o monstro que eu deveria estar. Fiquei o que pareceu muito tempo na mesma posição decidindo me levantar, a segunda vez sempre seria pior que a primeira. Achei um moletom na mala, não ajudaria muito no frio que estava. Acho que tive o banho mais longo em toda minha vida.
Quando desci estava tudo quieto, nenhuma surpresa na cozinha e a varanda vazia. Encarei as ondas bravas por um tempo até me dar conta que o carro não estava parado a alguns metros da casa. Um misto de pânico e tristeza me tomou. Marcus não me deixaria sozinha. Voltei ao segundo andar empurrando a porta do seu quarto constatando que sua mala estava ali. Ele não iria embora e deixaria a mala. Mas Marcus sempre agiria de forma estranha e impulsiva porque ele não sabia controlar suas emoções.
Tentei calcular o tempo que ele deveria ter saído, mas apaguei o suficiente para me esquecer que ele esteve em minha cama a noite toda, ou metade dela ou só algumas horas. Uma hora havia se passado desde que acordei. Me sentei na varanda, já havia controlado as lágrimas. Só esperava vê-lo de novo, uma ligação talvez. Ir embora e me deixar era imperdoável, pensar nisso me fazia querer chorar novamente.
Um leve chuvisco começou, o céu estava cinza e era apenas meio dia, parecia seis da tarde com direito a tom horripilante. Três horas. Ele não me deixou. Começou a chover e a luz acabou mais uma vez. Entre ficar em casa e ficar na varanda, optei por me trancar no quarto. Eu odeio Marcus Foster e me odeio ainda mais por estar nessa por livre e espontânea paixão.
Em poucas horas o quarto ficou escuro, pensei em Santana e Caroline e meus planos para o natal. Se eu os tivesse seguido nada disso estaria acontecendo. Eu não teria me apaixonado ainda mais por um desgraçado bipolar e atormentado. Eu voltaria ao normal.
Ouvi a porta bater longas horas depois, o vento estava terrível assobiando pela casa. Meu corpo tremia e eu já não sabia se era por medo ou frio. Me levantei segundos depois, eu só precisava descer e fechar a porta. Ignorar o escuro e o vento. Abri a porta e encarei a escada. Me perguntei quando havia chegado ao porquê de um taco de beisebol na parede? Minha pergunta estava respondida quando o peguei. Contei cada passo, a luz da noite iluminando o primeiro andar e foi aí que ouvi o barulho. Não conseguia respirar, o ar havia travado junto com o soluço e sentia minhas pernas moles como gelatina. Eu odeio Marcus Foster!
Pisquei afastando as lágrimas e acabei travada no lugar, onde só mais um passo e eu estaria na escada. Apenas um passo e vi a sombra se aproximar calmamente, minhas mãos trêmulas. O vento pareceu gritar quando levei o taco para o alto de minha cabeça pronta para acerta-lo.
O grito escapou e ouvi o resmungo, meu coração batia em meus ouvidos enquanto o medo se transformava em tontura e o taco era arrancado de minhas mãos.
– Sou eu!
Não conseguia respirar. Marcus me abraçou quando as palavras se embolaram, eu queria soca-lo. Afasta-lo de mim, ao mesmo tempo que queria acorrenta-lo. Pensei que o ataque de choro nunca passaria.
– O... Onde esteve? – Empurrei seu peito molhado.
– Me desculpe. – Suas mãos tentaram me tocar.
– Não! Eu não te desculpo. Você é um idiota e eu te odeio. – Tudo o que conseguia era gritar. Deus, eu estava beira do desmaio de tanto medo.
Senti vontade de vomitar e me bater. E gritar. Marcus continuava me encarando com o taco em mãos. O empurrei tentando fazer meus pés ter senso de direção. Desci as escadas de dois em dois pelo simples fato de não conseguir enxergar. Eu nunca pensei que doeria como estava doendo. Me afastar era só a forma fácil que achei para não dizer tudo o que queria. As coisas já não estavam ruins o bastante? A ideia de que ele havia me deixado estava fazendo efeito contrário no meu cérebro. Meu medo era meu estado de choque.
Eu fiquei com medo! Pensei que tivesse me deixado, pensei que fui seu brinquedinho novamente que no primeiro “eu não quero mais brincar”, foi descartado.
– Onde vai? – O ouvi falar.
Encarei a sala e segui para a porta, seus passos mais próximos agora e deixei a porta bater. Até que a noite não estava tão assustadora do lado de fora.
– O que está fazendo? – Me puxou.
– Eu... quero ficar longe de você. – Gritei.
– Me desculpa!
Neguei. Eu já o havia desculpado porque era idiota. Não era pelo seu sumiço, era pôr tudo e mais uma pouco. Eu idealizei momentos e o homem a minha frente.
– Só me deixe, certo?
Ele piscou algumas vezes contra a água da chuva, mas ainda segurava meu braço.
– Sara, olha o tempo. Estava chovendo, trovejando. Eu precisei sair, não queria acorda-la...
– Você me deixou. – Maldição! Eu conseguia ser pior do que ele descontrolada. – Todo esse tempo. – Abracei meu corpo, a chuva não estava sendo boa para minha temperatura corporal.
– Eu não deixei! – Marcus gritou. – Vamos para casa, Sara. Vamos sair da chuva.
– Deixou... eu... eu fiquei desesperada. – O soquei – Culpada, eu... pensei coisas horríveis.
– Você não tem culpa de nada. Eu precisei ir, mas o carro quebrou e demorou para chegar ajuda... – Tentou me fazer olha-lo.
– Todo esse tempo?!
– Todo esse tempo – Falou como se tivesse explicando a uma criança. – Eu não ia te deixar sozinha. A estrada ficou ruim para voltar, inferno! Não me deixaram passar. Eu não deixaria você, Sara. Juro que não.
O empurrei.
– Mas eu preciso... ficar sozinha, por um tempo.
Seu olhar era tão familiar e no segundo seguinte Marcus me puxava de volta para a soleira. Não era carinhoso ou delicado, era firme e decidido. Tentei fazê-lo me soltar, mas ele não soltou. Bateu a porta e a trancou jogando a chave em algum lugar.
– Me solta.
–Eu queria acreditar que está bêbada porque está agindo como uma. – Falou me arrastando pela escada e me assustando. – Você age como uma quando está assustada.
– O que está fazendo?
– Tentando fazê-la não morrer de hipotermia. É possível os lábios gangrenar? Os seus estão quase.
– Você está me machucando. – Fisicamente agora também.
Empurrou a porta do banheiro e me soltou. Encarei meu braço.
– Me...
– Não peça desculpa. – O empurrei batendo a porta.
Eu entendi porque as crianças se debatiam no chão. É a forma mais fácil de afastar a dor emocional, tanto é que quando surge a física elas se esquecem do verdadeiro motivo por estar chorando e o foco da dor é outro. Elas voltam a quem as machucou em um pedido de conforto. Eu não podia voltar. Estava ficando descontrolada como ele. Sim, Sara, essa não é a vida e a posição emocional que você está acostumada. Você não chora pelos homens, você não implora por eles. Você não se apaixona na mesma facilidade que usa um cartão de credito. Mas se arrepende da mesma forma. Marcus é via de mão dupla, dê o fora.
Liguei o chuveiro me esquecendo que o aquecedor parou, tirei a roupa molhada e me enrolei na toalha. Algum tempo depois antes que congelasse eu saí do pequeno banheiro ainda em silêncio. Entrei em meu quarto pegando a primeira roupa que achei, me arrependendo de tudo. De não me escutar, de procrastinar, de fazer tudo por impulso confiando na minha cabeça fraca.
Terminava de colocar a camisa quando o vi parado, agora com roupas secas. Segurava um casaco e me encarava. Eu não sei por quanto tempo ele esteve ali.
– Você...
– Eu não sabia... não quis assusta-la. – Falou. – Só... ia deixar isso – Estendeu o casaco.
– Não precisa.
– Que droga! Seja menos egoísta – Gritou.
– Eu não estou sendo egoísta!
– Está e estou tentando não ser também.
– Você ainda não percebeu que não está dando certo? – As lágrimas de novo – Eu... quero ir embora.
Negou em desespero. Se pôs contra a porta quando a fechou.
– Não!
– Você não pode me prender aqui. – Cruzei os braços.
Deu de ombros encarando o chão.
– Você me ouviu?
Me encarou. Por dentro estava em convulsão, isso era horrível.
– Temos seis dias.
– Não temos... não mais.
– Você não vai embora. – Gritou jogando o casaco no chão. Eu podia ver seu rosto ficar vermelho.
– Por que? – Cortei a distância socando seu peito. Eu queria vê-lo reagir e não ser um maldito infantil.
– Eu não sei, mas você não vai.
– Eu vou.
Segurou meus pulsos.
– Não. – Frio, era como estava. – Você não vai.
– Eu não sou...
– Você não é ela. Não é a Maggie! – Gritou – Eu sei disso, eu sabia ontem, eu sempre soube. Estou tentando esquecer então pare de me lembrar. – Gritou – Não percebe que estou tentando... por você... por estar aqui!
Engoli o ar por vários segundos.
– Você estava bêbado.
– Eu disse que eu sabia. Eu não sei o que está acontecendo... estou tentando entender.
– Não sou um step, Marcus.
Seu olhar era frio novamente.
– Acha que eu a trouxe aqui... – Gargalhou. – Eu poderia ter quem eu quisesse na rua. Me desculpe se seus clientes te tratam assim ou se você se dá ao luxo de servi-los assim...
Minha mão ardeu quando a choquei em seu rosto. O silêncio varreu tudo por um longo tempo.
– Eu não me presto a isso – Murmurei. – Nunca mais suponha isso. Nunca mais! Você não me conhece.
– Não? O que você é? – Perguntou sua mão esfregando o rosto vermelho.
– Alguém melhor do que você, seu cretino esnobe.
– Sério? – Se aproximou. – O quanto é melhor do que eu? – Perguntou tão perto que podia ver as cores brincando em seus olhos.
– Você é louco.
– Talvez eu seja. – Mais perto.
– Idiota. – Muito perto.
– Muito.
– Desgraçado... maldito. – Solucei sentindo a cama ser o meu limite.
– Você não sabe nada sobre mim. Mas sabe que não somos tão diferentes assim, não é?
– Sai do meu quarto. – Sussurrei tão baixo que mal acreditava ter dito alguma coisa.
Marcus estava fazendo coisas estranhas acontecerem comigo. Sua mão me puxou com força o cabelo em minha nuca. Segurei sua camisa.
– Responde. – Seus lábios rasparam os meus.
– O que você... quer comigo?
O quarto estava mais abafado, como se o aquecedor tivesse sido ativado no máximo. Marcus não respondeu, nenhuma das perguntas ganharam respostas. Um segundo depois ele estava sobre mim. Ele sabia que eu não era ela, isso tornava as coisas mais fáceis? Ser usada se tornava mais fácil? Talvez não, mas eu não precisava ver da mesma forma que ele.
– Sai... – Murmurei contra seus lábios.
– Egoísta. – Ele riu sem humor. – É isso que você é, uma maldita egoísta quando quer.
Quase gargalhei. Eu não acreditava que ele poderia me achar egoísta. Seria isso enquanto ele não descobrisse o que queria comigo. Essa brincadeira masoquista.
– Se eu sair...– Sussurrou contra meu pescoço, puxando meu cabelo com força. – Eu não volto... não volto pra você.
Não volta pra mim!
O puxei para mim, presa em seus olhos, no que ele estava tornando cada segundo desde que voltou, não havia um nome para o momento. O deixaria fazer o que quisesse, poderíamos chamar apenas de momento. Me proibia de qualquer outro significado, porque sempre que chegávamos a um, tudo se perdia. Aceitar seu beijo foi o sim que não consegui dizer em palavras.
Enquanto o deixava se desfazer de suas roupas, me dei um tempo. Apertei os olhos com força e tentei me lembrar de algo que eu não tivera controle na vida que eu pudesse comparar ao momento. E não havia nada para colocar no lugar – nem meus gastos. Não houve tempo para procurar mais, em algum lugar dentro de mim um novo eu havia acordado. Só precisava esquecer que o amanhã viria. Que poderia não ser bom. Mas não importava. Eu queria pertencer a ele por uma noite, como um maldito contrato – mesmo não sendo um. Eu queria Marcus Foster como amante agora, meu corpo ansiava por isso que doía minha alma.
Senti seus dedos finos na pele de minha barriga, seu peso considerável sobre mim. Seu beijo era diferente, talvez não fosse, mas eu sentia como se fosse. Quando se afastou por um segundo eu pensei que sairia dali e nunca mais voltaria. Pensei em todas as possibilidades negativas e como se um clique tivesse sido dado em sua cabeça ele voltou, mais rude. Isso não me incomodava. Enquanto me beijava com força, suas mãos me marcando, apertando, arranhando minha pele como se dissesse para si mesmo que era real.
E foi como imaginei, a sempre algo que machuque mais do que um simples beijo ou um toque. A entrega sempre será mais torturante. Eu queria fechar meus olhos, mas os mantive abertos, mesmo sob as lágrimas eu o deixei ver. Queria vê-los também. Queria mostrar o que essa entrega estava me causando, queria que ele visse e eu não tivesse que esconder ou falar nada depois. Ele saberia o quanto mexeu com minha cabeça desde que voltamos de suas férias em família, o quanto cada palavra cresceu em mim enraizada. Todo seu jeito havia corrompido minha mente.
Ele tinha que saber.
– Preciso de você... – Murmurou em minha orelha, mordendo meu pescoço. – Por Deus, eu preciso, não é de uma forma doce, Sara. – Seus dedos seguraram meu cabelo longe de meu rosto. – Não é nada doce e agradável porque você... você está acabando com o resto de mim.
Sem aviso, Marcus me preencheu. Quase me derreti em minha cama conforme meu corpo recebia uma parte do seu. Meus dedos se fecharam em seu cabelo em desespero, esperava por isso, ansiava por isso e ele era naquele momento além do que imaginava.
Seus movimentos se tornaram mais desesperados e rápidos, poderia vê-los como palavras, como um pedido para que eu me calasse mesmo sem dizer uma palavra. Deixei que me marcasse, no dia seguinte poderia ver o que aconteceria, mas no momento eu daria minhas certezas e ele lutaria com as suas dúvidas. Suas mãos prenderam as minhas, olha-lo pelo ângulo em que estava agora fez meu corpo bater no limite. Seus olhos deixaram os meus para olhar onde começava nossa ligação, isso queimava nossos corpos. Queimava profundamente, porque Marcus Foster era quente como o inferno e eu sempre soube disso. Antes mesmo de chegar perto, sabia que ele era o próprio demônio quando queria ser um. Estávamos queimando agora.
Marcus ficou mais calmo, me beijou lenta e demoradamente, o sentia me levar para o melhor caminho que poderia existir, sentia se atrasar tentando me proporcionar o prazer que já havia alcançado. Ele estava se preocupando comigo ao mesmo tempo em que a súplica em meus lábios parecia diverti-lo, quando se mexia lentamente me fazendo lembrar quem estava no controle ali.
Sorri contra seus lábios, senti como se milhares de borboletas estivessem me erguendo, como se meu sangue tivesse correndo dentro de mim mais rápido que o normal enquanto seu corpo se chocava contra o meu, rápido e coordenado. Marcus sabia o que estava fazendo, ele era bom nisso, malditamente bom nisso.
– Marcus!
– Sim, Sara.
Seu corpo me prendeu contra o seu, quando de maneira assustadora atingimos o, máxima de felicidade. Não importava mais. Respirei fundo algumas vezes, abracei suas costas, sentindo seu perfume. Não importava o quanto parecia íntimo, não importava se isso estava errado. Só estava aproveitando, sentindo. O soltei quando seu corpo caiu de lado, o fitei sem saber de onde havia vindo a coragem para isso. Seus olhos me avaliavam, não havia motivo para me envergonhar.
Sem que dissesse nada seu dedo tocou meus lábios, fiquei tentada a envolve-lo. Marcus me puxou para ele e ouvi seu coração. Se era um sonho, era o melhor sonho que já tive. Não falamos nada.