O Contrato

DM Pager · Capítulo 14 de 28

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O Contrato

Capítulo 14

 

Tinha a leve sensação de que já era mais que uma da tarde. Encarei o teto por um tempo deixando meu corpo se acostumar com o próprio peso. Certo Sara, saia dessa cama e enfrente mais um dia. Era um pensamento válido, mas não saí do lugar ao vê-lo ainda ao meu lado. Marcus me encarava sem expressão, não estava bravo, também não apostaria que estivesse feliz.

Respirei fundo.

– Está com fome? – Sussurrou.

O que? Eu queria gargalhar ao ouvir isso, era a última coisa que esperava que dissesse.

– Marcus...

– Vou preparar alguma coisa. – Se levantou sem a droga da roupa.

Você está acordada, se quer dizer algo, diga agora.

– Eu estou com fome. – Falei quando colocou a calça da noite passada. – Mas acho que temos que conversar.

– Depois...

– Agora. – Falei firme. – Pare de agir como um idiota assustado! Vamos falar sério.

Me encarou.

– Certo, quer começar? – Cruzou os braços.

– Não aja como se nada tivesse acontecido. Por que está assim?

Deu de ombros.

– Eu não sei como devo agir.

– Nunca teve uma noite casual? – Tentei engolir o amargo – Apenas aconteceu.

Eu sabia que não.

– Nunca tive... não acordando com a pessoa do meu lado. Nos últimos anos ninguém acordou do meu lado, Sara. Me certificava disso sempre.

– Da próxima vez eu mudo de quarto.

– Sara...

– Estou brincando. – Tentei um sorriso. – Você queria, aconteceu e fim.

– Você não queria? – Uma ruga se formou em sua testa.

Eu queria rir dessa pergunta também, mas sairia amarga demais.

– Eu quis então não se culpe e não precisa me tratar como um vidro que a qualquer deslize irá quebra. – As palavras saíram duras, totalmente sem intenção.

Assentiu da porta.

– Você... vai querer ficar, não vai?

– Isso tudo foi para me manter aqui?

– Não seja absurda! Claro que não. Eu dormi com você porque eu quis dormir com você, desejei estar com você, em você. Satisfeita ou vou ter que pensar em algo mais para faze-la entender?

– Tudo certo. – Ergui as mãos.

– Não parece certo pra você. – Ele estava duro de novo.

– Marcus...

– Eu queria dormir com você, te desejei e você me tirou do sério. Eu desejei Sara Malvin, não era Maggie, nem bebida e muito menos loucura. Então por favor, acredite em mim. – Passou as mãos pelo cabelo.

– Eu acredito.

– Você sabe que não. – Deixou o quarto.

Eu não tinha culpa de termos sempre algo para rebater as ações. Só voltei ao normal quando ele deixou o quarto, havia um sorriso idiota na minha cara. Contentamento, Marcus Foster me desejou? Sim, foi isso que ele disse, mesmo tendo medo das horas seguintes, ele me disse isso por duas vezes. Ele queria. Respira e solta, repeti isso até terminar meu banho. Quase meia hora depois eu desci e me surpreendi por termos visitas. Estava chovendo de novo.

Marcus me observava se aproximar, a seu lado um casal sorria ao me ver.

– Sara. – Chamou. – Esses são Regina e Fernando.

Os cumprimentei com um aceno de cabeça.

– A chuva os pegou de surpresa, eles vão ficar aqui até que possam seguir viagem.

– Então ela é a Sara? – Fernando falou.

– Sou. –Apertei sua mão.

– Marcus falou bastante de você.

Encarei Marcus, ele estava tenso.

– Certo, alguém já tomou café? – Brinquei, mas a pergunta era séria. Eu estava morrendo de fome.

Segui para cozinha sendo seguida por todos. Marcus me explicaria a pequena tensão que senti assim que os vi. Fernando me olhava de um jeito estranho, não era malicioso, mas também não era apenas amigável. Uma atração à primeira vista?

– Estão a quantos dias por aqui? – Fernando perguntou.

– Três – Marcus respondeu.

– Vão ficar para o natal? – Regina perguntou.

– Não. – Falei – Vou passar com minha família.

– Mas vocês... – Ela me olhou sem entender.

– Somos apenas amigos. – Falei.

Marcus deixou o copo cair e xingou baixinho. Peguei um pano para tentar ajuda-lo, mas ele queria fazer sozinho. Depois disso qualquer e toda ação de Marcus era estranha. Eu não sabia se era por Regina e Fernando ou se era por ter caído na real sobre tudo. Eu não sabia de mais nada. Regina pediu para descansar e a levei para o quarto de Marcus. Ela parecia mais quieta agora. Fernando estava na varanda ao telefone quando desci e Marcus fazia o almoço.

– Eles vão ficar aqui? – Perguntei.

– Breve. – Falou me encarando pela primeira vez.

– Os conhece? – Me apoiei na bancada o encarando.

– Fernando me ajudou ontem quando o carro deu problema.

Encarei o balcão.

– Eles parecem legais, mas... tem algo acontecendo, certo?

– Eles estão se separando ou se separaram. – Marcus falou – Ela não aceitou bem isso.

A porta se abriu e fui pega pela voz grave de Fernando.

– Essa chuva que não passa. – Comentou – Marcus cozinhará? – Perguntou descontraído.

– Estou tentando – Marcus comentou com uma falsa animação.

Tentei me sentir mais confortável, mas o clima estava tenso por algum motivo que ninguém me disse.

– Se precisar de ajuda.

– Consigo me virar.

Fernando continuou alheio ao maltrato de Marcus – ou era educado o suficiente para relevar. Uma nova música começou e ele me tirou para dançar, Fernando era legal e não havia motivo para participar da tensão. Aceitei sua mão.

– Eu não sei dançar. – Avisei.

– Apenas me siga – Falou brincalhão.

Segui seus passos sem deixar de pisar em seus pés vez ou outra. Ele não parecia abusado nem nada do tipo, era gentil e amigável, agora. Encarei Marcus uma vez faltando menos de um minuto para o fim da música e ele nos encarava. Me encarava na verdade.

– Você não é tão ruim – Fernando nos separou – Só precisa de mais treino. Marcus sua panela está queimando. – Avisou quando a fumaça começou a subir.

Marcus xingou baixinho jogando a panela na pia. Dei a volta no balcão com Fernando me seguindo.

– Deixa que eu faço isso. – Desliguei o fogo.

– Não precisa. – Falou.

– Marcus. – O encarei – Eu posso fazer isso.

O arroz já era, os dois me encaravam enquanto eu procurava algo de útil na geladeira. Achei o frango que havia tirado para descongelar um dia antes e acabamos não comendo nada. Fernando não entendeu que eu poderia fazer tudo sozinha e em segundos estava me ajudando. Ele cozinhava porque era chefe de cozinha, também gostava de jazz e morou na Itália por sete anos. Marcus continuava nos encarando sem mexer um músculo. Por que ele estava com raiva? Por ter queimado a comida? Por que um cara dançou e foi gentil comigo?

O silêncio ficou desconfortável quando Regina voltou, Fernando parecia chateado com a presença dela ao contrário de Marcus que durante todo o almoço/jantar ousou tocar em assuntos que não devia. Arranquei a taça de vinho de sua mão.

– Você já bebeu demais. Vou te levar para o quarto. – Avisei.

– Quer ajuda? – Fernando perguntou.

– Eu não quero sua ajuda. – Marcus não escondeu a grosseria agora.

– Ele é péssimo bêbado. – Sorri para descontrair.

Marcus não estava totalmente bêbado, mas usaria isso para ser grosseiro o suficiente. Subimos nos arrastando até meu quarto, eu sabia que Regina e Fernando ficariam em seu quarto.

– Você está sendo ridículo – O joguei na cama. Ele me encarou, mas o deixei.

Fernando estava sozinho na sala.

– Vou pegar algum cobertor para você caso queira se deitar agora...

– Posso dormir aqui. – Falou com um meio sorriso. – Marcus já deve ter dito.

– Sim, ele falou, sinto muito.

– Não sinta. Está tudo bem. – Tentou um sorriso.

Me aproximei.

– Ela ainda gosta de você...

– Ela não pensou assim quando me traiu. – Havia mágoa em sua voz. – O preço que se paga por ser um bom marido. – Sorriu sem humor.

– Entendi..., mas você não sente mais nada por ela? – Eu e minha curiosidade.

– Pena. Apenas isso. Isso vai parecer meio abusado, mas Marcus tem sorte de ter alguém como você por perto e ser bem idiota por não se dar conta. Eu gostei de você.

Senti meu rosto corar.

– Obrigada. – Sorri – Bom, se precisar de companhia é só chamar. Tem cobertor ali. – Apontei a estante – Até amanhã.

– Até amanhã, Sara. Durma bem.

Marcus estava acordado quando entrei no quarto. A aliança estava em seu dedo novamente. Um ato rebelde. Encarava o teto.

– Pensei que ia dormir na sala. –Falou.

– Não seria uma má ideia. Estava sendo muito bem tratada. – Me ajeitei a seu lado puxando o cobertor.

– Devo imaginar.

– Você já foi idiota o suficiente por hoje. – Avisei.

– Eu?

Dei de ombros.

– Não fui eu quem estava aceitando ser despida só com o olhar, nem fui eu quem dançou uma música romântica ou dividiu a cozinha...

– Não termina – O fitei – Só me diz que consegue manter a droga da boca fechada por um tempo Marcus. Não estrague as coisas.

– Não estou estragando as coisas. Só estou comentando, até a mulher dele percebeu.

Me sentei.

– Ela o traiu.

– E por causa disso ele se acha no direito de dar em cima de você? – Cruzou os braços me encarando. Seria uma cena bonitinha se ele não estivesse me irritando.

– Ele não está dando em cima de mim!

Se sentou.

– Eu vi. – Apontou o dedo – Eu sou homem sei dessas coisas. E vocês são cegas.

Soquei seu peito.

– Você está bêbado. Deite-se.

– Mas não estou louco. Ele deu em cima de você. Ele perguntou o que éramos e você colocou tudo a perder dizendo que somos amigos. – Resmungou.

– O que somos, hein?!

– Eu não sei! – Gritou. Tapei sua boca.

– Você está gritando e sim, somos amigos. Não foi isso que você pediu para sermos?

Assentiu.

– Vai parar de gritar?

Assentiu.

– Certo. Eu sei me cuidar e sou livre, não precisa se preocupar comigo.

Me puxou para o seu colo me assustando. Senti sua respiração em meu pescoço.

– Você não vai embora.

– Por que não me deixa ir? – Tentei fazê-lo me olhar. – Se não tem nenhuma intenção...

– Porque eu não quero. Eu vou manda-los embora. Ele é um idiota traído que agora acha que pode entrar na minha casa... e faze-la segui-lo.

Puxei sua cabeça o fitando.

– O que você realmente quer Marcus? – Toquei seu rosto, era um desgraçado mimado, perfeito e lindo. Queria abraça-lo como uma criança abraça um urso com muita força.

– Quero que fique comigo.

– Por que?

– Pare de fazer perguntas. – Resmungou – Apenas fique.

– Eu não vou aceitar essas respostas. – Tentei sair de seu colo, mas ele me segurou.

– O que quer que eu diga? Que eu quero ficar com você? Quer que eu te magoe? É isso?

– Qualquer coisa... – Sussurrei.

Escondeu o rosto em meu pescoço.

–Eu só quero ficar com você. Pelo tempo que eu tenho antes de tudo voltar ao normal. – Murmurou.

Você só precisa me pedir para ficar – pensei – realmente ficar.