O Contrato
Capítulo 12
Demorei a dormir como consequência acordei tarde. Controlei minha pulsação, só de saber que teria de encará-lo, não havia como fugir e pior não saber como estava seu humor. Me dei mais alguns longos minutos até me arrastar ao banheiro e fazer minha higiene, voltei ao quarto pegando um casaco porque o tempo estava mudando. Isso é, caminhar não seria mais uma opção de desculpas.
A sala estava silenciosa, girei no lugar e segui para cozinha tendo um pequeno ataque ao vê-lo parado em frente ao fogão. Moletom preto, pés descalços e cabelo bagunçado. Acho que suspirei alto porque ele ouviu.
– Bom dia. – Falou com um sorriso.
Ele estava sorrindo? A noite passada foi um sonho? Qual é?
– Bom dia. Que horas são? – Perguntei para quebrar o clima que criei na minha cabeça.
– Onze, fiz ovos mexidos.
Continuava parada feito uma idiota tentando entender. Ele estava fingindo que nada aconteceu e se eu fosse inteligente faria a mesma coisa.
– Fiz café também.
– Claro. – Dei alguns passos até a bancada.
Marcus virou os ovos em um prato e continuou fazendo seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Então só eu tive uma noite do cão sendo torturada pelos meus sonhos. Ele dormiu na maior paz divina.
Sim, ele dormiu.
– Eu esperava sol – Comentou encarando a neblina.
– Eu gosto do frio.
– Queria um pouco do sol antes do frio que nos espera.
Me servi.
– Talvez melhore.
Fez careta. E acho que perdi o ar pelo que pareceu muito tempo porque estava me engasgando com um pedaço de ovo.
Quando terminei, lavei a louça. Marcus me ajudou secando e guardando. Ele realmente era bom em fingir as coisas. Já no meu caso, era péssima. No fim tudo o que parecia aceito era assistir TV. Marcus se aproximou arrastando um cobertor e sorriu.
– Clima estragando meus planos. – Resmungou.
–Não está tão ruim assim.
Ficamos em silêncio por um tempo encarando a TV em um seriado idiota. Meu estômago parecia abrigar um mundo de borboletas, estava me sentindo uma viciada em drogas porque conseguia sentir o perfume de Marcus em tudo – não só o perfume nas últimas horas.
– Droga. – Resmungou se levantando. Observei correr em direção a porta e janelas de vidro as fechando.
O dia estava cinza e não parecia uma da tarde. A chuva de vento estava assustadora, puxei o cobertor até o pescoço e a TV desligou, assim como todo o resto mergulhamos na escuridão.
– Sara? – Marcus chamou. Ouvir sua voz chamando meu nome me desligou por um tempo.
Da segunda vez eu sai do modo idiota ativo.
– Estou bem. Nem me movi.
Ouvi sua risada baixa. Ele não precisava saber do meu pânico de escuro. Odiava o escuro desde que meu melhor amigo me prendeu em um armário quando eu tinha cinco anos. Foi horrível. Assustador. Nunca o perdoei por isso.
Marcus sumiu, tudo o que se ouvia era o som da chuva agora mais forte, não sei o resto do mundo, mas tenho tendências a pensar em filmes de terror e coisas assustadoras saindo de tudo quanto é buraco e me matando. Isso fez meus olhos se arregalarem tentando enxergar alguma coisa. Encarei o cinza nas portas de vidro, sabendo que minha pequena fonte de luz uma hora acabaria.
Me lembrei do último filme que Caroline me obrigou a assistir e comecei a respirar como um peixe fora d'água. Contei até dez mentalmente pronta para gritar Marcus, então ele apareceu me assustando. Sua risada era linda e harmoniosa, mas tudo o que eu queria era chutar a cara dele e chorar como fiz com cinco anos. Encarei a lanterna balançando em suas mãos. Respirava fundo sentindo a cabeça latejar.
– Me desculpe. – Falou me apontando a lanterna.
Eu não queria desculpar, estava furiosa demais para isso. Percebi que segurava meu pé, o mesmo que o havia dado um leve chute.
–Você está chorando?
Virei de lado segurando o cobertor. Tudo o que precisava era de um tempo para a cabeça parar de latejar. Marcus manteve a lanterna em mim por mais alguns segundos antes virá-la para a parede. Sua mão ficou tanto tempo em meu pé que até havia esquecido. Só me toquei quando ele começou a fazer círculos.
– Eu tinha cinco anos quando meu melhor amigo me prendeu dentro do armário. – Ele virou a lanterna para mim novamente. – Eu entrei em pânico, afinal era uma criança medrosa. Nunca superei isso completamente. E estar sozinha levando susto só piora.
Ele sorriu.
– Nunca mais faço isso. – Parou os círculos – Eu prometo.
– Nunca mais mesmo, não vamos nos ver depois daqui não é mesmo?
O senti ficar tenso mesmo não estando tão perto assim. E o silêncio se arrastou quase me fazendo dormir. Quando se mexeu a tensão pareceu ter ido embora.
– A luz não vai voltar nem tão cedo e eu estou com fome. – Colocou a luz em seu rosto e suspirei. – Está com fome?
Assenti me ponto de pé. Marcus jogou seu lado do cobertor no sofá e me aproximei. Sua mão estava fria quando pegou a minha, todo meu corpo havia ganhado vida e uma euforia me fez imaginar jogá-lo de volta no maldito sofá. Mas a realidade era outra.
Marcus soltou minha mão quando chegamos na bancada. Com a lanterna investigou a geladeira em busca de alguma coisa para comer, acabou optando pela sobra da noite passada. A noite passada. Em silêncio, o vi recolher mais algumas coisas como queijo e tomate. Virou todo o macarrão em uma forma colocando em seguida o queijo e o tomate.
– Está frio. – Falou se sentando no chão. Ao lado do forno – Nosso aquecedor por um tempo. – Virou a lanterna.
Deslizei até o chão e abracei as pernas. Diante daquele silêncio, eu devia dizer alguma coisa? Sei lá contar uma história idiota do meu acervo de histórias idiotas.
– Onde está a garota que amava fazer perguntas? – Sussurrou.
Não queria falar porque no fim estragaria tudo.
– Desistiu de fazer perguntas. – Murmurei contra meu joelho.
Marcus não disse mais nada por um longo tempo. Ouvi um leve bipe e nosso almoço estava pronto. Me levantei saindo do conforto quentinho, peguei os pratos. Ele deixou me servir primeiro, arrastei uma cadeira e embalamos no silêncio.
E mais silêncio, estava odiando isso. Antes das quatro da tarde a luz voltou, eu não sabia se ficava feliz ou triste com isso. Marcus escolheu um filme e me contou o final porque ele era um filho da mãe.
– Maggie adorava esse filme, ela sempre chorava.
Quem não chora em filmes com cachorro? Até o filme acabar, ouvi muito sobre Maggie a ponto de odiar saber sobre ela por um tempo. Era idiota da minha parte, ridículo na verdade. Mas ele estava falando dela, ele a amava. Doía nele perde-la, doía em mim perde-lo sem sequer tê-lo tido. Eu admiti isso? Sim, Marcus não era como os outros caras que me chama atenção, não seria por uma noite ou algumas semanas e chegar a conclusão disso não era bom.
– Chega! Saber de sua mulher não é importante pra mim. Por favor, não aguento mais. – Deixei escapar. Seus olhos estavam surpresos. – Não aguento suas comparações.
Pensei em pedir desculpas ou qualquer coisa parecida. Mas não havia desculpas, ele sabia que eu estava irritada porque nem querendo eu conseguia parecer diferente. Me arrastei escada acima e para piorar deixei a porta bater. Era o gran finale do "Eu estou morrendo de ciúmes!". Eu não estou. Eu não devia ter aceito essa viagem.
Voltou a chover, me enrolei no cobertor e contei até cem repetidas vezes. Marcus não fazia barulho, ele nunca fazia. Devia estar me odiando agora. Você queria tanto ouvi-lo, agora o mandou se calar? Que grande jogada, Malvin.
Sequei uma lágrima idiota, não pretendia descer então troquei de roupa optando por um conjunto de dormir não tendo nada do além de uma calça jeans para frio. Contei até cem de novo e cheguei ao cinquenta e sete na segunda vez. A luz se apagou. O aquecedor iria desligar e eu estaria sozinha.
Recontar...
100...
108...
213...
256...
A chuva voltou mais forte, eu não sabia se sentia frio, medo ou raiva. Só conseguia ver seu olhar me acusando. Droga!
358...
372...
Encarei a janela e as gotas se chocando contra o vidro. Marcus não fazia um maldito som no primeiro andar. Encarei as paredes por um tempo perdendo a contagem e recomeçando. Só quando um trovão pareceu rachar a casa ao meio e o vento me assustar que me cobri até a cabeça. Eu amo o sol e o tempo bom. Amo o calor e o suor. Não, eu não amava, mas preferia.
218...
246...
300...
Senti um lado da cama afundar e meu coração sufocar. Fechei os olhos com força parando de contar, então senti a mão fria deslizar embaixo do cobertor e tocar a pele descoberta em minha barriga. A respiração pesada em minha nuca. Me virei tão rápido quanto podia e encarei Marcus com a lanterna, mesmo na luz da noite. Seus olhos estavam vermelhos e irritados. Ele estava chorando? Por que diabos, Marcus estava chorando?
– Eu... vou dormir aqui – Falou firme – Não precisa ter medo.
–Você bebeu? – Perguntei tentando me sentar, mas seu braço me segurava firme.
–Uma taça ou duas – Fechou os olhos – Mas eu sei quem você é... e onde estamos. Não sou idiota.
Ótimo.
– Eu estou bem. – Menti.
Sorriu.
– Você estava assustada.
Segurei seu braço, seus olhos se fecharam controlando meu ato de tirar suas mãos de mim. Eu queria beija-lo, queria ser Maggie por um segundo só para repetir o que minha mente insana conseguiu horas atrás. A morte era tão injusta.
– Me desculpe...
– Pelo que? –Tentei fingir não saber de nada.
Seus olhos me engoliram.
– Por enche-la com meu passado. Só pensei que... alguém queria realmente me escutar.
– Marcus...
– Shhh... Eu não vou mais falar. Só não saia de perto de mim. – Me puxou tão perto.
– Por que?
– Eu... não sei. Apenas continue aqui. Até o natal, lembra? Não me deixe me sentir vazio de novo.
Assenti.
–Pode me soltar – Avisei. Mas ele não o fez. Me trouxe para mais perto. Nossas pernas se entrelaçaram e meu coração parecia ridículo batendo alto o suficiente para ser ouvido das costas. – Marcus não. – Sussurrei.
Ele ainda me fitava quando tocou meus lábios, devagar. Recuava e me estudava. Repetiu três vezes e não consegui mais lê-lo depois disso. Por que você está fazendo isso? Queria perguntar, queria gritar.
Sua manobra sobre mim não me assustou. Seus lábios tocaram os meus de novo, lento, lento... rápidos. Onde estava minha sanidade quando eu queria? Onde estava o Marcus apaixonado pela esposa falecida quando eu precisava? Se ele estava tentando destruir nossos dias, ele estava conseguindo. E se fosse para terminar ali, então eu iria pegar tudo o que estava me sendo oferecido. Puxei seu corpo para o meu entrelaçando sua cintura com as pernas. Suas mãos seguravam meus cabelos com um pouco de força, não havia delicadeza e parecia não haver ideia para ter.
Senti o frio em meu pescoço quando o beijou. Marcus parecia estar me memorizando e isso soaria estranho se não fosse bom.
– Marcus...– Ofeguei quando sua mão entrou pela minha blusa e xinguei baixinho.
Droga!
– Vamos... parar –Sussurrei –Você vai se arrepender.
Ele nada disse. Voltou a me beijar e me tocar. Estava segurando um fio muito fino, ele iria se romper muito em breve e toda a calma iria para o espaço. Ele está bêbado. Ele ama a ex mulher. Você não está bêbada e não é a ex mulher. Ele está brincando com você, apenas isso.
Ele estava chorando. Chorando por ela. Pela falta dela. Estalei no lugar segurando sua mão. Ele está procurando por ela. Senti a lágrima, eu não sou ela.
– Marcus! Para! – Mandei e ele me fitou, parecia tão são. Mas não estava. – Não. – Murmurei.
Me virei de costas a ele e chorei baixinho, não sei se dormiu ou se ainda estava acordado isso também não importava. Pela primeira vez, eu o queria longe.