O Contrato
Capítulo 18
– Sara, aonde vai? – Mamãe me encarava da escada.
– Vou sair... com uns amigos.
Sorriu.
– Amigos? – Havia surpresa e felicidade em sua voz.
– Sim, Mike, alguns meninos e garotas da cidade. Não sei se todos tão jovens quanto Mike..., mas não estou tão velha assim. – Fiz uma careta.
– Ah sim, apenas divirta-se.
– Victor vem me pegar.
– Victor?
Assenti.
– Mas ele é só minha carona. – Me apressei em dizer.
– Victor é legal.
– Eu sei.
As oito em ponto estava pronta e apesar de não querer realmente sair não havia nada que me impediria afinal eu não poderia simplesmente me proibir de diversão. Mantive o celular desligado por segurança.
– Pequena Sara.
– Olá, Victor.
Papai apareceu.
– Cuide dela.
– Pai.
– Claro que cuido. Podemos ir agora? – Victor me deu o braço.
– Sim. – O empurrei para porta.
Victor abriu a porta do carro para mim, só então percebi que não estávamos sozinhos.
– Sara essa é Becky. Becky essa é a pequena Sara.
– Oi Sara. Nova namorada do meu irmãozinho? – A morena ocupando a janela sorriu. Ela se parecia com Victor. Seu enorme cabelo escuro estava jogado em seu ombro, ela tinha o mesmo sorriso e o mesmo olhar que o cara sorridente a meu lado.
– Não, somos amigos.
Victor sorriu.
– Ela sabe, mas disse que faria isso.
Paramos algumas vezes durante o trajeto até Ville e o carro estava completo. Victor me encarava e me lembrava sempre de sorrir para dizer que estava tudo bem.
Não levamos muito tempo até a casa de festas no centro da cidade, que estava cheia. Victor segurou minha mão me arrastando para dentro e avisando aos outros que nos veríamos depois. O segui empurrando algumas pessoas até um sofá. Havia me esquecido de como eram esses ambientes desde que Marcus entrou na minha vida me fazendo pular dos vinte e seis para os trinta anos.
– Pensei que esperaria os outros. – Gritei.
– Oh não, encontro de casais me enjoa. Becky é a pior de todos.
Sorri. Victor pediu dois coquetéis.
– Eu também sei que sua animação não está como gostaria.
– Por que?
– Você é um livro aberto, conte-me seus problemas – Se sentou mais perto. Ele fez uma cara engraçada e isso me fez rir.
– Melhor não.
– Pequena Sara, somos amigos a oito horas. Vamos lá, vamos fazer uma troca. Conta o seu e eu conto o meu.
Estávamos no segundo coquetel quando comecei meu desabafo. Eu não acreditava muito que estava fazendo isso, mas estava.
– Eu conheci uma pessoa.
Victor sugou o canudo do seu copo fazendo barulho.
– Desculpa, prossiga.
– Certo, eu conheci uma pessoa. Era para sermos só amigos, nem isso na verdade e da parte dele, estávamos sendo, mas eu comecei a ver de outra maneira. Criei um laço idiota e sentimental mesmo sabendo que não deveria. Sabe porquê? Porque ele ama outra pessoa, uma pessoa morta. Ele não ama só com o coração, tem esse lance de alma e amor eterno, sentimento de culpa e tudo mais.
Victor sorriu.
– Por isso fugiu pra Phoenix?
– Nós acabamos nos envolvendo, eu não me arrependo, só me odeio porque o deixei destruir todo o meu autocontrole. Desde então eu não sou mais a mesma. Sabe, eu odeio o amor.
– Não odeie o amor, odeie quem você ama.
Se fosse fácil assim.
– Isso é um resumo bonitinho da situação. Não queira saber a parte ruim dela.
– O cara não te procurou?
Neguei. Susan no máximo queria que eu o controlasse, mas era ela não ele.
– Complicado, Phoenix tem caras legais, você não precisa dele.
– Bom saber. – Deixei uma risada triste escapar.
Victor ficou em silêncio por um tempo.
– Eu tenho uma filha. Sandy, mora no Texas com a mãe, há um mês. Eu também tenho um amor que não me merece – Divagou – Eu sinto falta delas todos os dias.
– Eu sinto muito.
Batemos nossos copos.
– Igualmente.
Becky apareceu, trazendo todo o seu grupo junto. Victor não saiu do meu lado e conversamos sobre tudo. Eu sabia que estava bebendo mais do que o normal, mas eu precisava. Era uma saída. Depois que fomos para a pista de dança, desliguei minha mente para tudo o que pudesse estragar minha noite. Eu precisava voltar ao normal.
Não me lembro que horas cheguei em casa, não ouvi mamãe bater na porta nem meu pai, não conseguia sair da cama e minha cabeça estava pesada.
– Droga! – Resmunguei – Luz!
Sol, que belo dia para aparecer. Me sentei encarando as paredes do quarto tentando fazer meus olhos não pularem para fora nem minha cabeça sair rolando pelo chão. Certo, eu bebi demais e alguém me trouxe. Minha mãe ou meu pai ou os dois viram a cena de sua única filha e vergonha, bêbada.
Acabo de perder um dia de trabalho.
– Sara! – Mamãe bateu na porta me obrigando a tapar os ouvidos. –
Telefone.
Droga! Não grita mãe! Me arrastei até a porta pegando o telefone e voltando a cama sem dar chance de deixá-la me ver.
– Bom dia, Sara adormecida.
– Oi Mike, eu sei. Perdi a hora, chego em... algum momento.
– Relaxa, Kate está no seu lugar. Inventei uma desculpa para o meu pai. Como está?
– Não me lembro a última vez que estive pior. Minha cabeça está abrigando uma guerra.
– Eu sei. – Ele riu.
– Por que não está assim também?
– Apesar da minha pouca idade eu tenho experiência. – Falou orgulhoso.
– Certo, pode me dizer se aproveitei ontem?
Gargalhou.
–Você disse que está livre e desimpedida. Não acho que beijar o Victor tenha sido um problema...
– O que?! – Gritei sentindo minha cabeça doer mais forte.
Droga!
– Vocês se pegaram a noite toda.
– Mike, fala sério!
– Eu estou falando sério. Becky te deixou em casa. Vocês realmente se pegaram.
Não! Não! Não!
– Droga! Eu estava bêbada.
– Isso era óbvio. Victor é um cara legal, não se preocupe.
Eu tinha certeza que era.
– Bom, só liguei para dizer que está de folga hoje, melhoras.
Tá legal, eu não preciso de mais nada por hoje. A noite fui pega de surpresa, prometi não atender mais telefonemas, mas atendi.
– Marcus? – Número desconhecido. Não apostava minhas fichas nele.
– Victor.
Legal!
– Oh me desculpe... Oi?
– Não fala assim. Liguei para saber se está tudo bem, Mike já te contou, não é?
– Sim e peço desculpas... eu estava bêbada. – Fechei os olhos com força. Estava morrendo de vergonha e isso era irracional para todos os efeitos.
Riu.
–Tudo bem Sara. Eu também estava, éramos duas pessoas carentes em uma noite de casais. Está tudo bem.
– Eu não quero que pense...
– Já se esqueceu do que eu disse? Eu também gosto de uma pessoa e por mais que eu tenha gostado de te beijar, não foi proposital.
– Então... as coisas não vão ficar estranhas?
– Não por mim, podemos nos pegar de vez em quando...
– Victor!
Riu.
– Brincadeira.
Formamos uma bela dupla na noite de casais, nada sério além do sério dos bêbados onde tudo voltava ao normal no dia seguinte. As semanas se passaram e fiquei mais próxima de Victor, ele estava sendo como um irmão, amigo e namorado. Mas tudo no seu tempo, me esquivei das piadinhas de Becky e Mike. Até comecei a falar com Kate, mas ela não gostava muito das pessoas que frequentavam a loja. Então falar com ela e as paredes, era quase a mesma coisa.
°°°
– Aqui está, tudo o que conseguimos com a venda das roupas.
– Tirou o seu, mãe?
Ela me encarou.
– É seu, querida. Não quero nada.
– Mãe...
– Está tudo bem. Já decidiu se vai ficar? Você trabalha para o Tom, Victor te conseguiu um trabalho extra na cafeteria, isso não está bom?
– Eu não sei mãe. Talvez, Washington. Eu gosto de Seattle.
– Não se esqueça que sua família está aqui.
– Não vou.
UM MÊS E DUAS SEMANAS DEPOIS...
Meu voo chegou às oito da manhã, esperava que Santana ou Caroline tivesse lido minha mensagem de última hora quando resolvi voltar. Até a saída de táxi não havia visto nenhuma delas, então aquele grito agudo veio em seguida. Caroline e seu sapato novo, ela voltou a gastar.
– Meu Deus, você voltou! – Agarrou meu pescoço – Eu senti tanto sua falta.
– Também senti a sua.
– Mais de um mês, Malvin! Onde estava com a cabeça?
– Me desculpe, consegui dois empregos. Paguei a maior parte da minha dívida, eu não gastei um centavo se quer. Só que precisava voltar para vê-las, moro em Phoenix agora, não está sendo tão ruim.
– Você não vai voltar. – Caroline sapateou.
– Eu quero voltar.
– É por causa desse Victor? Você disse que não era nada sério.
– É por vários motivos. Agora vamos para casa, estou com fome e sono.
– Santana foi trabalhar, mas preparei um banquete incrível. Consegui um novo emprego, agora trabalho de atendente naquela loja de celulares no centro. Não está sendo tão ruim, não com tanto colega de trabalho perfeito.
Caroline sendo Caroline. Voltar para casa era bom e ruim, bom porque estava me sentindo em casa, ruim porque estava perto do que me afastei. Contei como havia sido Phoenix, não escondi nenhum detalhe e esperei para saber se alguma coisa havia acontecido. Mas não houve nada, Caroline ficou comigo até depois do café da manhã, então precisou sair.
Aproveitei para desfazer minha mala e levou algum tempo até eu dormir realmente cansada. Estava sentindo falta do tempo de Los Angeles, dos carros e táxis buzinando. Senti falta da minha cama, da mistura dos meus perfumes caros, das minhas amigas.
Estava em casa.
Acordei com o telefone tocando, mamãe. Isso foi uma hora ao telefone dando um relatório de minha chegada, depois troquei mensagens com Mike e Becky e antes de voltar para a cama para mais um cochilo falei com Victor. Fomos breves. A segunda vez que acordei já era noite.
– Já vai! – Gritei ajeitando o cabelo.
Chutei algumas coisas no caminho antes de chegar na porta. Santana sempre esquecia a chave.
– Você e sua mania de... Marcus? – Sim, parado em minha porta.
Seu olhar era uma mistura de raiva, surpresa e saudade?
– Sara.
Isso não podia estar acontecendo.
– O que você quer? – Tentei não acabar com meu controle.
– Você voltou – Falou.
Marcus estava com barba, mais magro. Não parecia estar tendo uma, boa noite de sono, seu cabelo estava maior. Seu olhar era o mesmo, alguma coisa ele teria de manter.
– E já estou saindo. Eu não tenho o que falar com você, então pode ir embora. De preferência não me procure mais ou te denuncio por perseguição.
Sorriu.
– Certo, espero poder fazer minha queixa de falsa identidade, realmente se chama Sara? – Apontou irritado.
– Faça o que você quiser, vai lá e me denuncie. Você de alguma maneira tirou tudo da minha conta, não é?
– Como?
Sorri.
– Você é um bom ator, mas fingir não saber de nada não colou. Não te devo nada, adeus Marcus.
Empurrou a porta entrando.
– Vá embora. – Mandei.
– Depois de me explicar o que está dizendo.
– Que você pegou todo o seu maldito dinheiro de volta. Sem teatro Marcus, você sabe o que estou dizendo. Agora vá embora.
– Eu não tirei nada da sua conta.
– Tirou a quase dois meses. Eu trabalhei duro todos os dias durante todo esse tempo, paguei minhas dívidas, único motivo pelo qual entrei nisso. Acho que aprendi, não te devo nada, posso mandar as roupas que comprou depois ou se quiser levar agora...
– Eu não quero nada, quero entender.
– Entender o quê? Que eu era uma farsa? Sim, eu era. Pergunte a sua secretária o resto da história, afinal o erro foi dela.
Santana e Caroline nos encarava da porta.
– Agora você pode ir. Não te devo mais explicação.
Santana arrastou Caroline para o quarto nos deixando a sós de novo. Marcus parecia confuso, mas de alguma maneira ele sabia o que aconteceu.
– Sara – Caroline me encarava segurando meu celular – Victor quer falar com você.
Obrigada, Caroline.
– Quem é Victor? – Marcus me encarava.
Desliguei.
– Isso não é da sua conta – O empurrei para fora.
– Não terminamos.
– Nos vemos na delegacia caso me denuncie, não foi isso que disse? Me esquece Marcus. Dessa vez é para sempre, acabou.
Seu olhar era incrédulo, foi a coisa mais difícil que fiz na vida. Mas era isso ou sofrer por um amor doentio.