O Contrato

DM Pager · Capítulo 5 de 28

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O Contrato

Capítulo 5

 

Quando acordei, Marcus não estava mais em seu sofá. Minha cabeça estava doendo e por algum motivo me senti doente. Peguei meu celular perdido embaixo do travesseiro e tinha uma mensagem do Instagram, Caroline havia postado a foto de seu café com o meu nome e uma carinha feliz. Essa era a primeira manhã que não acordava com ela enchendo a paciência. Respondi com um: estou com saudades e me levantei.

Da janela consegui ver Lucio, Marcus e Leslie na praia. Pareciam se divertir, Marcus estava sorrindo e dessa vez podia dizer que não era fingimento. Tomei um banho demorado me desfazendo da escova que durou bons longos dias. Achei uma aspirina em uma caixa de primeiros socorros no armário da pia e acreditava que ficaria um pouco melhor agora.

Encontrei Sandra na cozinha, era muito eu acordar tarde e dessa vez não foi diferente. Me senti um pouco sem jeito com isso, mas estava com fome e muita fome para deixar a vergonha me fazer esperar até a hora do almoço – isso se eu já não estivesse perdido.

–Como dormiu? – Perguntou com um sorriso devoto.

–Tentando me acostumar com o clima. –Sorri. –Um pouco de dor de cabeça, mas dormi bem.

–Se quiser eu posso pegar um remédio...

–Já tomei. Não se preocupe.

–Deve estar com fome. –Seguiu para geladeira. –Posso fazer um lanche para você...

Percebi sua bolsa em cima da mesa.

–Está de saída?

–Estou sim, mas posso fazer isso... – Continuou procurando coisas na geladeira.

–Eu me viro. Pode deixar comigo. –A parei.

–Tudo bem. Tem mais coisas no armário caso não ache tudo aqui.

Assenti.

Ela deu uma última olhada ao redor, como se para se certificar que tudo estaria ao meu gosto e se retirou. Fiz um lanche simples, sanduíche de peito de peru e suco de laranja. Meu pão estava esmigalhado quando vi a sombra de Marcus entrando pelos fundos. Me encarou e seguiu para a geladeira, senti como se pregos tivessem sendo pregados em minhas costas. Devia pedir desculpas por não ter acordado na hora?

–Nora vai te chamar para sair.

–Já sei. Devo dizer não. – Encarei meu prato.

–Isso. Deve dizer não. – Seu tom estava mais calmo agora.

Me virei para encará-lo.

–Não estou muito bem. Então não será total fingimento.

–Precisa de alguma coisa? – Me olhou de verdade pela primeira vez e eu não estava preparada para isso.

–O que vou fazer o dia todo já que não posso me socializar com sua família? – Cuspi.

Pegou o celular no bolso, discou alguma coisa e o guardou. Marcus era o tipo de pessoa que por mais boa que você fosse, você nunca chegaria perto o suficiente para conhecê-lo.

–Não sei. Apenas não saia com ela. Gosta de livros ou seu hobby é apenas cartões de credito? Ha livros no escritório. – Avisou se afastando. Fiquei parada absorvendo o que disse.

É Sara, ele te chamou de perua ignorante. É isso que pensa de você.

Voltei ao quarto depois disso, uma hora depois Nora estava me chamando para sair e eu disse que não até de maneira rude. Na verdade, eu queria ir, mas Marcus não confiava em mim o suficiente para isso. Santana me ligou e contei tudo a ela, e mais uma vez ela insistiu para eu voltar depois de uma crise de choro que até eu mesma me assustei.

–Estou pensando seriamente em fazer isso. Ele é frio demais comigo e perto da família ele sorri. Estou me sentindo um objeto e bipolar.

–Mas é isso que você é enquanto estiver aí. Deixa isso para lá Sara, volta para casa. Eu te ajudo a arrumar um emprego e esquece esse dinheiro.

Encarei o teto.

–Me dê mais três dias, se as coisas não melhorarem eu vou embora. Não sei como, mas vou.

–Certo. Me ligue. Te amo, Carol também.

– Amo vocês. Sinto saudades.

O calor foi se adaptando ao espaço e acabei cochilando, acordei algumas vezes com Marcus entrando no quarto pegando alguma coisa ou mexendo em um livro. Quando saiu, acabou deixando o mesmo cair. Me levantei segundos depois apenas para fazer a gentileza de colocá-lo no lugar, foi aí que ele entrou novamente o puxando da minha mão.

–Não mexa nas minhas coisas! –Gritou. –Não toque em nada do que é meu. Entendeu?!

Meu coração perdeu algumas batidas, e minhas pernas tremeram. Quando senti sua mão me largar, quase cai. E com o susto comecei a chorar da maneira mais ridícula que um ser humano pode chorar. Ele não pediria desculpas, isso estava estampado em seu rosto. Engoli em seco tendo tempo apenas de pegar meu celular e sair do quarto. Minha cabeça estava dando voltas, ignorei Lucio na sala quando disse alguma coisa e devo ter quebrado a porta quando sai.

A areia fina entrava pelos meus dedos, causavam um certo incomodo, mas continuei a caminhar ouvindo a onda quebrar. Por que eu fui entrar nessa? Isso é castigo. Castigo de quem não ouve e não faz as coisas certas. Talvez essa Sara fosse dura e arrogante o suficiente para enfrentá-lo, mas eu não sou assim. Se uma criança gritar comigo, no fundo sou capaz de me rebaixar a ela pelo simples fato de não conseguir ser a “controlada emocionalmente” o tempo todo.

Quando olhei para trás, vi o quanto me afastei da casa. E em fim estava perto da casinha que conseguia ver pela janela. Fiquei a encarando por um tempo, era tão pequena e simples que quase a comparei a uma casa de boneca. Me aproximei da soleira e subi o primeiro degrau, observei a porta, o chão de madeira estalou quando pisei e consegui chegar até a porta espremendo meu rosto na janela. Não dava para ver com uma lona tampando tudo.

Forcei a maçaneta, sem sucesso. Olhei para cima e vi um chamuscado de fumaça preto. Um incêndio? Poderia ser uma relíquia na qual eu estava preste a destruir se ela estivesse à beira de desmoronar. Forcei a maçaneta mais uma vez para ver se abria e nada. Preferi deixar como estava e voltei a areia me sentando a alguns metros onde a água quase tocava meus pés. Não sei quanto tempo passei ali, não sei nem se o tempo passou.

Quando voltei o céu já estava escurecendo. Lucio saia e me abraçou preocupado, gritando um: ela está aqui. E vi Marcus aparecer na soleira com Leslie e Sandra. Isso tudo era por minha causa? Por algumas horas longe?

–Onde esteve? – Marcus perguntou me conferindo.

–Por aí. –Falei fria. Ele queria que eu fosse fria? Pois eu seria com ele e com quem ele mais quisesse.

Eu queria um banho e um coma, não queria ter que olhá-lo, apenas me preparar para encarnar de uma vez o personagem. Seria do jeito que ele queria. Empurrei a porta do quarto e desejei que a força que usei para fechá-la pelo menos quebrasse seu nariz perfeito, quando me dei conta que estava logo atrás de mim, nem isso eu consegui.

–Pode parar um segundo? –Segurou meu braço. Meu corpo se desiquilibrou e bati no dele.

Podia ver as gotas brilhantes de suar brincando em sua testa, seus olhos procurando algo de errado em mim e isso fez meu coração perder algumas batidas.

–Não! Eu não quero te ouvir, eu não quero olhar na sua cara. –Puxei o braço. –Só preciso de um banho e dormir.

–Você vem jantar com a gente.

–Não quero. –O encarei.

–Eles ficaram preocupados. – Segurou a cintura.

–Devo ser fria o suficiente para não me importar com o como eles ficaram, não é isso? Estou encarnando a personagem, me deixe em paz.

Bati a porta do banheiro.

–Me desculpe. –Sussurrou contra ela. Quando a abri ele não estava mais.

Me desculpe? Era tudo o que ele tinha a dizer. Vai se ferrar, era o que eu tinha a dizer também.

As onze ouvi Marcus mandar Nora ir para o seu quarto porque estava cansado e eu provavelmente já estava dormindo, fingi que realmente estava dormindo só para ver o que ele faria. Seguiu para o guarda-roupa e pegou uma camiseta e uma bermuda, pensei que iria para o banheiro, mas se trocou ali mesmo. Como toda mulher, eu parei para observa-lo. Ele nunca mudava a cara feia.

Respirei quando o vi tirar a bermuda e trocar por uma mais leve. Os músculos das suas costas se contraíram quando ergueu os braços para passar a camiseta e percebi um sinal em sua costela. Parecia uma cicatriz na verdade e voltei a encarar seu rosto quando o vi me encarar de volta. Não sei se ele percebeu que eu estava o observando. Soltei a respiração lentamente e tentei não me mexer mais. Minutos depois, ele estava em seu sofá com seu livro de mais cedo.

Livro que aprendi a odiar.

Ele não estava lendo, não nos primeiros dez minutos. Parecia encarar uma página, voltou a me fitar respirando fundo, só então o vi folhear o livro. Foram algumas páginas até eu pegar no sono. Minha curiosidade por saber o que tinha naquele livro era tão grande quanto saber o porquê de eu estar ali realmente.

Eram quase três da manhã quando acordei com vontade de ir ao banheiro e me assustei ao ver Marcus de pernas cruzadas encarando o nada. Às vezes ele me assustava, eu não sabia que tipo de louco ele era e não queria descobrir também.

Me encarou.

–Te acordei? –Perguntou em um fio de voz. Seus olhos estavam vermelhos.

–Como se está em silêncio? –A menos que estivesse chorando alto.

Deu de ombros.

–Está sem sono? – Perguntei.

Voltou a me encarar.

–Estou, mas não quero companhia.

–Não estava nos meus planos perder meu sono te fazendo companhia. Só vou até o banheiro. – Apontei.

Seu maxilar travou e vi o quanto isso o irritou. Segui para o banheiro e me demorei lá mesmo já tendo feito o que queria fazer. Quando sai, ele não estava no quarto e muito menos o seu livro. Me debrucei na janela e ele descia pela soleira, comecei a perceber que minha presença realmente o incomodava a ponto de tirar o seu sono. Mas não me importava, não ia perder o meu por causa dele.

Acordei mais cedo, não queria ser mais uma vez a última a acordar. Não estava tão quente como no dia anterior. Sandra e Leslie mais uma vez mandavam na cozinha, Nora devia estar em alguma loja na cidade.

–Bom dia. –Falei.

–Bom dia, querida. –Sandra me cumprimentou.

–Bom dia, Sara. Marcus está lá fora. – Leslie avisou.

–Ele disse que vão sair hoje. – Sandra me deu um olhar cumplice.

–Ele não me disse nada. – Na verdade ele não me diz nada.

–Bom, estava indo agora mesmo levar esse suco para ele. Pode levar por mim? Aproveita e conversam.

Peguei o copo, mas quase disse para ela mesma fazer isso. Seu filho e eu não somos o que podemos chamar de falantes. Marcus estava a uns seis metros da casa perto da água. Ele nunca relaxava, via pelas suas costas tensas e podia jurar que seu olhar era sério.

Fui contando os passos e chutando a areia até me aproximar. Ele viu que eu estava do seu lado, mas não se virou. Minha vontade foi de jogar o suco em sua cabeça, mas preferi bebê-lo. Que se dane que era para ele.

–Isso era meu. –Falou ainda encarando a água. Engoli em seco. –Não te ensinaram a não beber as coisas dos outros?

Me sentei.

–Se você realmente quisesse teria me olhado e dito: obrigado, você trouxe. –Ele sorriu. Não foi um sorriso, mas um esboço dele. –Sua mãe disse que vamos sair. Isso tudo é para eu ficar longe deles?

–Não. –Me fitou. – Meu primo me questionou. Ele acha que você é mais uma contratada.

Houve outras então?

–E o que você disse?

–Que não era. Ele já contou a todos, quando você saiu ontem. Eles precisam acreditar que não é.

–Por que tudo isso, Marcus?

Senti um frio na espinha quando me encarou. Mesmo com os óculos eu podia ver a interrogação em seus olhos. Eu não sabia se já havíamos tocado nesse assunto antes – ou se ele já havia dito para Sara verdadeira o motivo disso tudo. Se bem que Susan não me disse nada.

–Susan disse que você não se importava. E que seu trabalho era apenas me acompanhar, estou enganado?

–Só quero te ajudar.

– Ha uma diferença muito grande entre estar curioso e querer ajudar. Não quero a sua ajuda. Quero apenas que faça seu trabalho e seu trabalho e ser minha acompanhante sendo uma boa atriz. Quero que confiem em mim e me deixem em paz.

Eu queria jogar areia nos olhos dele. Mas deixei para lá e encarei o mar. Ele não queria falar, e agora provavelmente reclamaria com Susan a péssima atriz que ela havia contratado. O que poderia ser de tão grave assim para ele ser tão grosseiro, idiota e frio?

–Não farei mais perguntas senhor excelentíssimo Foster.

Ouvi sua respiração sair lentamente.

–Certo. Gosta de caminhar? –Perguntou ainda encarando o mar.

Caminhar não era a coisa mais legal do mundo para uma pessoa de coordenação duvidosa, mas a areia me dava a certeza de que seria amortecida.

–De verdade, do fundo do meu coração e com todo o sedentarismo que meu corpo possui, não. Por que?

Apontou com a cabeça o outro lado da praia, uma pequena ilha.

–Quer me afastar da sua família ou me isolar dela literalmente? – Perguntei usando a mão livre para proteger meus olhos do sol encarando a ilha.

–Um pouco de cada. –Sorriu. Dessa vez ele sorriu que até esqueci da vontade repentina de socá-lo. –Vamos fazer hora.

–Caminhando.

–Caminhando. –Confirmou.