O Contrato

DM Pager · Capítulo 20 de 28

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O Contrato

Capítulo 20

 

 

Ouvi Caroline e Santana chegar, não fazia noção da hora, mas tinha a certeza de que era bem tarde. Continuei fingindo estar dormindo e não me lembro que horas realmente dormi. Acordei com o barulho de Santana, me arrastei até o banheiro. Péssima era até um elogio para as minhas olheiras. Banho frio era tudo o que me acordaria, Caroline bateu na porta, era a sua vez.

– Pensei que não ia... tudo bem? – Me encarou.

– Tudo ótimo.

– Mentiu mal, o que aconteceu? – Entrou na minha frente.

– Você não está atrasada? – Perguntei tentando fugir.

– Estou, mas tenho tempo para você.

Respirei fundo.

– Eu estou bem.

– Foi o Foster?

– Não – A deixei para trás.

Passei meia hora no quarto depois de me arrumar e dispensei conselhos da Santana. Eu só queria entender tudo o que estava acontecendo, não devia ser tão difícil. Eu também não queria estragar meu primeiro dia de trabalho, então forcei um sorriso e segui em frente.

Savanna me recebeu bem, me explicou tudo o que precisava e me deixou no caixa como primeiro dia. Não sabia como agradecer tamanha gentileza. Tentei não me distrair, apesar de não ser uma coisa fácil. Uma hora de trabalho e tudo parecia estar indo bem, o movimento era intenso, conseguindo manter minha mente longe de qualquer pensamento perturbador e assim durante seis horas consegui passar pelo primeiro dia.

Quando cheguei encontrei Caroline em casa, enrolada no sofá com um pote de pipoca assistindo Friends, seu "clássico" favorito. Beijei seu cabelo me jogando a seu lado. Meu celular vibrou, Victor.

– Que sorriso é esse?

Dei de ombros.

Victor: "Pequena Sara, onde está? Sumiu: ("

Sempre dramático.

Sara: "Acabei de chegar do trabalho, está frio. E não sumi, apenas estava sem cabeça para ser sociável :/"

Caroline me encarou.

– Victor?

Assenti.

Três minutos depois a mensagem chegou.

Victor: "Quem dessa vez?"

Bufei.

Sara: "O de sempre, mas estou no controle."

Não, eu não estava. Não ainda. Outra mensagem.

Victor: "Você no controle? :p"

Sara: "Obrigada por confiar em mim."

Guardei o celular no bolso e ignorei o vibrar. Caroline ainda me encarava, ela sempre fazia isso.

– Como foi o primeiro dia?

– Bom, ainda é cedo para reclamar – Sorri.

– Victor é mesmo um grande amigo?

– Sim, é.

Encheu a mão de pipoca.

– E o Foster?

– Foi um contrato que acabou e a vida segue.

– Por que seus olhos estão brilhando? E por que está mordendo os lábios?

– Não começa, Caroline.

Sorriu.

– Ele me deu uma carona.

A encarei.

– Como?

Suspirou.

– O encontrei na volta para casa, ele foi simpático. – Seus olhos não desviaram da TV.

– Não, ele não foi. – Falei dura.

– Foi sim, apesar de soar bipolar e problemático, ele me parece legal.

– Ele está me cercando.

– E se não estiver? – Me fitou.

– Ele está. Ele esteve aqui... – Droga.

Caroline soltou seu pote e se virou para me encarar, ela tinha um sorriso maior agora.

– Ele esteve aqui? De novo?

– Esteve.

– Brigaram? Se pegaram? Não esconda nada.

– Brigamos... eu não vou te contar tudo, você não é normal, Caroline.

– Ele te beijou? Ah Deus, ele te beijou. Você está corando e pare de morder os lábios ou vai arrancá-los.

– Abby descobriu que não sou a Sara.

Seus olhos se arregalaram.

– Ela tirou de alguma maneira todo o dinheiro da minha conta. Por isso ele sumiu, porque estava me odiando.

– Mas se ele te procurou é porque as coisas estão boas.

– Estariam se ele não fosse tão idiota. Ele acredita em tudo que ela diz, Marcus não aceita escutar outra opinião que não seja a dela. Eles são muito amigos, eu sou o contrato. Por favor, só diz que entende.

– Eu entendo um pouco porque sei que gosta dele, mas se acha que assim as coisas vão se resolver, não vou mais me meter.

– Obrigada.

Passamos o resto do dia vendo filmes e comendo porcarias, minha vida havia saído de pauta e isso era bom. O restante da semana se resumia em trabalho, ligar para casa, trocar mensagens com Victor e Mike. Estava sendo produtivo, não havia Marcus até a manhã de quinta.

– Sara?

– Nora?

– Graças a Deus, você atendeu.

– Me desculpe, andei ocupada, aconteceu alguma coisa? – Não tenha acontecido nada. Não tenha acontecido nada. Não tenha acontecido nada.

– Marcus está com você?

Droga.

– Não. Não vejo seu irmão desde que terminamos.

Nora ficou em silêncio por um tempo.

– Então é por isso que ele está nervoso. Ele te ligou?

– Não Nora, faz uma semana que não o vejo e ele deve estar com a Abby.

– Não está. Papai já tentou o celular dele e ele não apareceu no escritório. Já ligamos para todo mundo. Ninguém sabe onde ele está – Choramingou.

– Ele deve ter viajado a negócios.

– E não avisar na empresa? Ele não faz isso Sara!

– Tudo bem – Encarei o relógio, sete da manhã – Eu vou encontra-lo, talvez eu perca o emprego por isso.

– Onde trabalha?

– No Caffe's é no centro. – Caminhei até o quarto –Te ligo mais tarde – Desliguei.

Certo Marcus, eu nem devia me importar com mais uma de suas cenas, mas você é louco. Não quero ser uma das pessoas a receber a notícia que encontraram seu corpo. Puxei uma mochila esportiva de Caroline do seu armário, coloquei apenas um casaco, alguma comida leve. Deixei o apartamento vinte minutos depois peguei um táxi.

Mais vinte minutos até o aeroporto. Eu podia voltar para casa, ou melhor, ir para o trabalho e deixar isso de lado, seguir em frente e pensar o que dizer ao idiota quando o visse, tentar falar com Abby mesmo isso me causando repulsa e avisar onde ele poderia estar. Afinal, ele confia mais nela no que na família acabei escolhendo a opção mais irracional.

– Bom dia. Preciso de um voo fretado.

– Quem gostaria? – A mulher na recepção me encarou.

– Sara Malvin, namorada de Marcus Foster.

– Pode esperar um segundo?

Esperei sentada em um dos bancos de espera até o piloto aparecer. Ele sorriu simpático, estive ali antes de ir passar uma temporada isolada com Marcus e ele se lembrou disso.

– Senhorita Foster, como vai?

–Bem, obrigada. E talvez um pouco atrasada, Marcus está me esperando. – Menti.

– Oh sim, tenho um avião pronto. – Apontou a saída e o acompanhei.

Falar em Marcus parecia intimidador.

Em pouco estava sendo guiada para o pequeno mini motor como se todos já soubessem onde Marcus se escondia – ou ele já esperava que eu fosse a sua procura deixando todos cientes disso.

Segui no fundo do avião, não confiava no piloto para fechar os olhos. Minha cabeça estava cheia demais, ao mesmo tempo em que tudo parecia certo, também parecia irracional. Ele pode estar bem, como também pode ter encontrado algo cortante. Marcus não usa a sanidade com frequência. Na verdade, ele não pensa com frequência. Somos tão idiotas quando estamos apaixonados.

Essa é a primeira vez que consigo admitir isso. Era só a verdade, não dava mais para esconder. Não vi as horas passar, quando pousamos estava nublado e um carro me esperava.

– Sei que ia precisar.

– Obrigada.

O senhor do carro parecia mais gentil e me arrisquei a fechar os olhos sabendo que demoraria mais uma hora até a casa. O plano era acha-lo, avisar Nora e voltar. Esse era o plano, não o que provavelmente seria seguido. O carro parou uns vinte metros da casa, depois das árvores eu a veria melhor. Agradeci ao senhor silenciosamente e me afastei.

Tirei o sapato sentindo a areia nos meus pés, acho que senti falta disso. É eu senti. Contei meus passos até a soleira, bater ou entrar? Dane-se eu teria de fazer alguma coisa. A madeira rangeu embaixo dos meus pés, segurei a maçaneta e forcei.

Eu sabia, aberta.

A primeira coisa que vi foi a taça de vinho na mesa, mais à frente a garrafa com um pouco mais da metade. Deixei a mochila no meio do caminho e subi para o quarto, nostalgia passou bem longe. A porta de um dos quartos estava aberta e foi a que entrei. Eu sabia que ele estaria ali, só não sabia o porquê, mas ele estaria ali.

Me assustei com a mancha no lençol até ver que era vinho, outra garrafa virada no chão. Marcus estava atravessado na cama, sem camisa e de calça social, tinha caco de vidro pelo chão e algumas coisas reviradas. Depois do choque, alívio e sensibilidade, dei a volta na cama me ajoelhando a seu lado, ele não tirou a barba, toquei seu cabelo, queria puxá-los, mas me contive.

A foto dela, Marcus segurava a foto dela como quem segura a corda para não se arrebentar. Ele fazia isso todas as vezes que se sentia sozinho. Seus olhos se abriram, sem expressão por um tempo até cair em si.

– O... que faz aqui? – Perguntou chateado.

– Estão todos desesperados atrás de você. Por que sumiu? – Me levantei o vendo ter trabalho para fazer o mesmo.

– Vai embora. – Mandou.

– Eu vou mesmo, já sei onde está. Foi por isso vim. Sua família está desesperada por notícias.

– Isso não importa. Eu quero ficar sozinho droga! É difícil de você entender isso? – Me encarou.

Neguei.

– Sabe o arrependimento? Ele pesa. – Me deu as costas.

– Quando tiver um pouco de vergonha na cara, liga para os seus pais ou para sua amiga. Talvez ela dê o recado.

Sorriu encarando o teto.

– Eu farei isso – Puxou a garrafa de vinho do chão e a virou na boca. Esperava dois goles, mas ele bebia como água.

– Chega, Marcus.

Me mostrou o dedo. Como? Avancei sobre ele lhe arrancando a garrafa.

– Eu disse chega. – A tomei.

– Você disse muitas coisas Malvin. Uma delas era "saia da minha vida".

– Você disse que não acreditava.

– Pois é eu não acredito. Mas olha que lindo, estou respeitando. Sabe por quê? Porque pensei em várias coisas que queria fazer com você. Eu até quis caçar esse Victor. Quis sequestra-la quando deixou aquele maldito emprego. Mas estou respeitando seu espaço e eu não estou são, então te aconselho a ir embora enquanto há tempo. Eu fiz tudo errado... não estou conseguindo pensar, você está fazendo isso comigo. – Fungou. – Estou me odiando, estou vazio...

– Você está bêbado – Joguei a garrafa no chão. Ele ainda me encarava, ele ainda conseguia mexer comigo de forma assustadora – Onde estão os planos de sermos amigos?

Marcus parecia estar em um estado de choque porque não agia. Respirei fundo decidindo dar o fora.

– Eu te amo – Falou. Parei a um passo da porta – Eu te amo..., mas não posso, porque é errado... com você... comigo. Porque eu sou... uma bagunça. – Sua voz pesava.

O encarei.

– Porque ... não se pode amar duas pessoas. Porque eu quero estar com você... ao mesmo tempo me sinto culpado por ela. Porque te desejo e ao mesmo tempo sinto por não a ter mais... – Fechou os olhos – Com ela era como um dia de sol, você é uma tempestade... intenso a ponto de me fazer perder o controle. De querer machucá-la para fazê-la entender. Eu machuco você, Sara...

Meu coração batia tão rápido que já não o sentia mais.

– Se você ficar, se continuar parada aí me olhando desse jeito... eu juro que não serei bonzinho, porque estou a malditos dois meses me controlando e todos nós temos um limite. O meu está no fim.

Marcus me amava, mas também a amava, sou como a tempestade e ela a calmaria. Mas ele me amava, só não aceitava. Ele me amava. Pisquei e a lágrima se foi.

– Isso é... Demais para mim.

Sorriu.

– Eu sei. Espero que seja feliz com Victor? Não é?

Assenti.

– Eu vou ser.

– Vai embora. – Mandou.

Senti a dor se alojar em minha cabeça antes de me virar e sair dali. Ele estava bem e eu precisava de um carro, devia ter pedido ao motorista para esperar. Ele me ama, mas nutre um sentimento de culpa por ela.

Resgatei minha mochila na mesa e sai, se eu fizer o mesmo caminho que o carro eu chego em algum lugar. Mas eu precisava sair dali. Estava a três passos da soleira quando o ouvi gritar, esperei que saísse, mas Marcus não apareceu e eu voltei. Estava deitado no chão segurando a mão, a garrafa de vinho quebrada.

– Que droga Marcus. Você caiu da escada? – Deslizei pela sala. Seu rosto estava vermelho. – Acha que quebrou alguma coisa?

Se manteve em silêncio de olhos fechados. Sua respiração irregular e eu não sabia se doía o corte na mão ou se ele quebrou alguma coisa.

– Eu vou te ajudar a levantar.

– Me deixa...– Resmungou.

– Eu quero te deixar droga, mas corro o risco de vê-lo se matar.

– E você se importa? – Me encarou.

– Acha que eu estaria aqui se não me importasse? Levanta.

Consegui arrastá-lo até o sofá, Marcus estava meio torto, jogou a cabeça para trás evitando olhar o sangue na mão. Odeio sangue.

– Sabe se tem alguma coisa aqui de primeiros socorros?

Negou.

– Eu vou procurar, se mantenha vivo até eu voltar.

Revirei o armário do banheiro até achar algo que servisse, peguei uma camisa em seu quarto e a toalha. Marcus encarava o teto quando voltei e não se voltou a mim.

– Espero que não chore com o álcool. – Depois de me mostrar o dedo pensei que faria o gesto de novo. Mas ele não fez.

Limpei o machucado que agora não parecia tão grande assim, eram apenas cacos com o peso do corpo. Enfaixei sua mão e ele continuava a encarar o teto.

– Pronto. Você... precisa trocar essa roupa e...

– Está dormindo com ele? – Me encarou. Seu rosto de uma tonalidade pálida e olhos vermelhos pelo excesso de choro e álcool.

– Não, mas não vai faltar oportunidade. – Provoquei. Que se dane!

Virou os olhos.

– Gosta dele?

Assenti.

– Eu quero ouvir da sua boca.

– Eu gosto dele Marcus. Do mesmo jeito que você gosta da Maggie. Victor é meu sol, não é assim?

Vi a lágrima descer por seu rosto. Se havia alguma dor ali, eu gostaria que fosse como a minha.

– Está mentindo.

– É só o seu ponto de vista, não a minha realidade. Eu preciso ir, mas preciso de um rádio... um carro poderia me buscar.

Apontou a escrivaninha. Levantei sentindo seu olhar queimando minhas costas, abri a gaveta achando um rádio, é claro que ele usaria um. Quando me virei, Marcus se levantava rumo às escadas, não queria vê-lo cair de novo se ele não conseguir chegar ao segundo andar.

– Certo – Sussurrei. Chamei no rádio algumas vezes, mas tudo o que ouvia era um chiado, nada além disso.

Eu só precisava sair dali.