O Contrato

DM Pager · Capítulo 21 de 28

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O Contrato

Capítulo 21

 

Tentei mais algumas vezes o rádio, mas ninguém respondeu do outro lado, na sexta vez consegui pedir um carro, mas me avisaram que demorariam. Sem informar o tempo. Marcus não desceu, talvez dormiu ou simplesmente não queria me ver.

Assim que voltasse para casa ligaria para Nora e avisaria que o achei, depois salvaria meu emprego com um falso atestado médico e tudo voltaria ao normal. Senti a brisa trazer um leve cheiro de queimado, não era Marcus colocando fogo na casa.

Me arrastei até os fundos da casa, encarando o buraco na areia, cavado com as mãos muito provavelmente. Aos poucos o vento trouxe alguns pedaços de papel, deixei o rádio no chão e me agachei ao lado do buraco, cinzas e mais cinzas. Cutuquei até conseguir algo que me desse uma resposta. Fotos, alguns pedaços de pano, roupas, fotos de Maggie? Marcus estava queimando as coisas dela? Sim, várias coisas dela. Não sei por quanto tempo ele ficou ali vendo essas coisas queimando.

Não sei o quanto ele queimou, mas ele estava se livrando dela. Isso não era impossível? Ele não disse que era? Tentei o rádio mais uma vez quando voltei para casa. Passei muito tempo encolhida no sofá esperando outra resposta.

– Porcaria de rádio.

Santana ou Caroline deveria estar louca atrás de mim, não havia sinal no celular e nossa única comunicação era um rádio. Mas tínhamos que esperar a boa vontade de alguém nos responder. Vi o tempo voar sentada no sofá, acendi as luzes uma a uma. Não subiria para ver se ele estava vivo, ele estaria. Peguei no sono por alguns minutos, acordei com o barulho na cozinha.

Meia hora depois Marcus se deitava no sofá a frente, encarava o teto em silêncio. Ainda tinha o curativo que fiz.

– Eles me mandaram esperar – Avisei.

– Tudo bem – Murmurou.

Fechei os olhos.

– Não avise ninguém. – Pediu.

O encarei.

– Eles estão preocupados com você.

– Só diga que estou bem. – Sua voz estava morta.

– Como se não fossem querer vir atrás de você.

– Apenas diga.

Voltei a fechar os olhos e me encolher. Agora eu não poderia dormir, não com ele ali. Queria perguntar o que aconteceu, mas isso era aumentar mais uma dúvida na lista. Deixei que ele o quebrasse.

– Comeu alguma coisa?

– Não estou com fome – Menti.

– Posso fazer alguma coisa.

– Não precisa.

– Não precisa se negar a comer só porque posso ser eu a fazer – Me encarou.

Respirei fundo.

– Eu realmente não estou com fome, Marcus.

– Tudo bem. – Brincou com o cordão em sua calça. –Você viu?

Assenti.

– Isso é bom, não é? – Perguntou.

– Eu não sei. Isso é?

Suspirou se sentando. Passou um tempo encarando o chão antes de falar.

– Eu não quero parecer um louco. Disse a mim mesmo que não poderia mais passar como um.

– Marcus...

– Disse a mim mesmo que não poderia mais levar isso adiante porque ela se foi e se todos aceitaram eu também tinha, apesar de saber que no fundo eu aceitei só não queria acreditar. Passei a semana queimando algumas coisas, Leslie já havia me incentivado a fazer isso, mas eu nunca fiz. Era como se isso fosse me desligar dela. As coisas aconteceram muito rápido, mudaram muito rápido, então eu vi que estava perdendo tudo. Mas não parei até perder.

– Você não precisa fazer isso porque a Leslie disse que tinha que fazer...

– Eu fiz porque quero viver. Quero outra pessoa, eu não preciso morrer também. Tentei de todas as maneiras entender isso por três longos anos, mas Maggie não vai voltar nem meu filho. Eu não tenho que ficar esperando, porque ela não me esperaria... porque todo mundo quer viver, temos tão pouco tempo.

– Quando foi que chegou a essa conclusão?

– Quando percebi que não era mais a Maggie que eu havia perdido – Me encarou, seu olhar era uma mistura de dor e medo. – Era você.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, bateram na porta. Isso me assustou. Marcus se levantou e o segui, meio zonza pelas novidades. O mesmo senhor que havia me trago nos encarava.

– Pediram um carro.

– Fui eu – Passei a frente de Marcus.

Senti seu olhar em minhas costas, voltei para pegar minha mochila.

– Vê se come e não se mate – Avisei descendo a soleira – E não vou dizer onde está contanto que apareça em algum momento, vivo de preferência.

Consegui sinal no celular assim que saímos da zona fechada, havia mensagens e ligações perdidas de Santana e Caroline. Umas dez de Nora. Mandei mensagens apenas avisando que estava tudo bem. Nora ligou logo em seguida e inventei a melhor mentira da minha vida. Ela não atormentaria, mas também não sabia se era o certo deixar Marcus sozinho.

Me desliguei na volta para casa, fechei os olhos e dormi por algum tempo acordando minutos antes de pousar. Santana me esperava com um olhar preocupado.

– Meu Deus, onde se enfiou?

– Posso explicar em casa? – Perguntei.

– Com certeza você terá de explicar.

Caroline esperava na porta quando chegamos ao corredor do nosso andar. Antes de começar a falar, tomei um banho e fiz algo para comer. Então as duas se irritaram com minha demora.

– Fui atrás do Marcus. – Despejei.

Santana bufou.

– Pela família dele!

– O que aconteceu?

– Ele sumiu a dias. Nora me ligou essa manhã querendo saber se Marcus disse onde ia, porque não estava sendo encontrado. Então eu fui atrás dele, o encontrei alcoolizado, casa destruída. Ele caiu da escada e eu não sei como conseguiu. Queimou as coisas de Maggie, ameaçou o Victor... depois disse que não está mais na sombra da falecida. Não com essas palavras e eu sou o motivo. – Falei sem respirar.

Caroline gritou.

– Meu Deus, e vocês não se pegaram? Essa coisa intensa e selvagem não acontece comigo.

– Não nos pegamos. Nem vamos, Marcus é uma caixinha de surpresa. Não quero brincar disso.

– Se ele queimou as coisas da falecida e está com ciúmes do Victor, com toda certeza eu brincaria. Judiaria dele até vê-lo se arrastar.

– Ele já está se arrastando – Santana falou

– Nada mudou então? – Caroline segurou meus ombros.

Suspirei.

– Eu ainda o amo e acho que ele gosta de mim. Porém vamos seguir cada um com o seu sol.

– Como?

Sorri.

– Sou a tempestade dele. E será sempre assim.

– Furacão Sara – Caroline gargalhou – Um agito na vida de vez em quando faz bem. Avisa isso a ele e antes que me esqueça, chegou uma carta para você. Deixei no seu quarto. Agora eu preciso ir.

– Também preciso ir – Santana se levantou – Se for sumir amanhã, deixe um bilhete ou algo assim. Isso evita nosso desespero e o pensamento de chamar a Interpol.

– Pode deixar. – Tentei um sorriso.

Victor e eu voltamos a trocar mensagens, contei tudo a ele quase automaticamente, não estava nos planos. Esperava algo negativo como resposta, mas ele apenas me incentivou a me escutar mais, isso não era um siga em frente ou pare por aí.

Fiz minha higiene antes de me trancar no quarto, achei a carta que Caroline havia me dito. Ela não abriu, o que era estranho, porque ela não dispensava nem carta de cobrança. Me enrolei nos cobertores e rasguei o envelope em mil pedaços. Eu conhecia aquela caligrafia.

 

De: Marcus

Para: Sara

 

08/01/2014

Hoje faz quase três semanas que passamos o Natal juntos. Ainda tenho em mente a imagem que tive quando acordei, não era a que eu esperava ter... que esperei todos os dias. Eu não sabia o que senti quando te vi, mas queria voltar e me deitar a seu lado e abraça-la para sentir melhor isso. Mas fui covarde deixando de novo o sentimento de culpa me tomar, medo de que aceitando o que eu estava sentindo, eu estaria traindo a mulher que dividi boa parte da minha vida. Não é Maggie que me prende a isso, sou eu mesmo. Ela não vai voltar e eu ainda estou aqui, estou perdendo mais uma chance e culpa é inteiramente minha.

 

De: Marcus

Para: Sara

 

20/01/2014

 

Faz dias que não a vejo, que passo as horas na porta do seu prédio esperando que você apareça. Eu não consigo dormir e me sinto um completo idiota por tudo o que fiz. Simplesmente posso esquecer todas as mentiras que nos envolve, todos os erros se você me deixar tentar de novo. Queria poder ter dito naquele momento em que me pediu para ficar que eu também a amo, isso não é um blefe, não é posse. Eu simplesmente sei que a amo, de um jeito que estou tentando colocá-lo como certo. Já tentei outras vezes, fiz estragos irreparáveis e prefiro me machucar a te machucar. Antes eu chamava por ela, hoje minhas noites em claro é falando com ela, pedindo ajuda para tê-la de volta. Para te ter de volta.

 

Ps: quero que leia isso... um dia.

 

De: Marcus

Para: Sara

 

28/01/2014

 

Onde você se enfiou? Por que não volta? Você não sente a minha falta como sinto a sua? Você não me ama mais? Esperou realmente eu descobrir isso para sumir? Tenho tantas perguntas para fazer, coisas para dizer. Mas não sei como, porque sinto que você me odeia agora.

 

De: Marcus

Para: Sara

 

04/02/2014

 

Quero acreditar que lá no fundo ainda exista algo por mim, que talvez você não me odeie o tanto que pareceu quando a vi pela primeira vez depois de todo esse tempo. Não mereço nada além do que estou ganhando. Mas eu queria poder ter uma chance de dizer que sinto que não posso continuar do jeito que as cosias estão, que eu posso estar te amando agora e sempre, não é nada relacionado a perda. A perda só nos ajuda a enxergar, senti tanto a sua falta que meus braços ficaram moles quando a vi. Queria sorrir feito um idiota e apertá-la, em meus braços, tive a vontade de despejar tudo o que guardei por todo esse tempo começando pelas mentiras, você contaria a sua e eu contaria a minha. Diria que a amo e que estava disposto a seguir com isso. Mas as coisas não aconteceram dessa maneira porque você me tira o controle quando consigo juntá-lo. Senti que perdi tudo quando você me mostrou outra pessoa, quando me mostrou que está melhor do que eu, porque eu estou péssimo. Passei tanto tempo me agarrando em algo sem vida, que posso me agarrar a algo que não é meu. Fiz planos, meu aniversário é daqui a duas semanas e fiz planos. Meus últimos três aniversários passei sozinho, os demais me entendem, pelo simples fato de eu não gostar de comemorar, mas eu fiz planos. Pensei em quando voltaria, se voltaria a tempo, pensei que talvez eu pudesse fazer um pouco mais de bolo de caneca de chocolate com muita calda. Assistir um filme ou simplesmente conversar com alguém além dos meus pensamentos, pensei nisso muito antes de saber que estava apaixonado por você. Mas sempre fui um covarde, não seria diferente agora. Eu queria que fosse diferente, esperei muita coisa acontecer na minha vida, mas não esperava você, seria cômico se não houvesse todo um drama entre nós. Não há mais planos, não com você. Porque a perdi também e vi que dói mais agora, porque está viva. Eu posso vê-la, mas não posso tocá-la. A única coisa em comum com tudo isso é que mais uma vez sou obrigado a deixar ir. No fim nunca me deram escolhas, acho que podemos tentar com pessoas diferentes, pelo menos eu. Porque você já começou.

Se havia algum sinal de sono em mim ele havia ido embora depois de ler as cartas de Marcus. Não sabia se isso me deixava feliz, assustada ou triste por ele não ter dito isso antes. Vi a manha chegar, me arrastei para o banheiro e tentei ajustar os pensamentos. Falar com minha gerente, dar uma explicação e simplesmente tentar passar o dia.

Na minha cabeça ficava martelando datas e a semana se passou com tudo de volta ao lugar. Nora me ligou na quarta, eu não sabia o que ela queria, se queria me dizer alguma coisa. Victor me deu mais conselhos sobre o que fazer da vida e isso era cômico porque nem ele mesmo sabia o que fazer com a dele. Victor não era meu estepe, eu não poderia torna-lo um.

– Quando a teremos de volta? – Perguntou.

– Em um mês. Só preciso saber como contar isso as minhas amigas. Elas vão surtar.

Ouvi sua risada grave.

– Tem certeza que vai mesmo voltar?

– Tenho. Minha mãe conseguiu usar um computador sem entrar em pânico e me inscreveu em uma vaga em uma empresa na cidade vizinha.

– E se a vaga não for sua?

– Cala essa boca, ela será. Obrigada pelo apoio.

– Não está fugindo está? – Perguntou sério.

– Não. Estou bem.

Pelo menos eu queria estar. O resto da semana voou e a data se aproximou. Era sábado e estava chovendo, meu dia de folga e preferia estar trabalhando, era uma desculpa válida. Eu não sabia se Marcus havia voltado, eu não queria saber. Mas me arrumei as seis da tarde e fiquei sentada encarando a TV desligada por quase uma hora antes de me levantar e seguir para saída. Devia voltar para casa e dormir, mas não queria pensar muito depois que entrasse em um táxi

Tenha sempre um segundo de loucura em você quando sua consciência manda-la parar. Oito horas, havia subido pela escada todos os andares até a porta de Marcus. Patético. Ele deveria saber que li suas... cartas. Tá mas para que? Toquei a campainha me arrependendo, isso estava começando a oscilar quando ele a abriu pouco tempo depois. Esperava fielmente não o ver ali, mas ele havia retornado.

Um sorriso surgiu em seus lábios, seus olhos pareciam cansados, usava moletom e meias, os cabelos bagunçados, mais baixo e não havia mais barba. Apenas me encarava como se eu fosse um presente de natal. Entendi que o espaço que havia me dado era um convite para entrar, a casa estava escura exceto pela luz baixa que vinha da cozinha e da enorme TV. As palavras haviam sumido e tudo o que sentia era meu coração batendo rápido e a pressão subir para minha cabeça.

Me virei pronta para desejar meus parabéns, mas Marcus foi mais rápido me abraçando. Senti sua respiração em meu pescoço. Então me dei conta que apesar de tudo, eu sentia falta dele quase constantemente.

– Parabéns – Sussurrei me afastando.

Ele sorriu secando uma lágrima com a manga do casaco.

– Você...

– Li. – Enfiei as mãos no bolso do casaco. –Acho que deveria vir e te desejar felicidades... eu não sei, só queria vir, eu nem sabia...

– Não importa, fiz bolo de caneca, é a única coisa que aprendi a fazer sozinho...

– Não precisa só vim... – Parou me encarando. – Só vim lhe dar os parabéns, eu vou ter que ir.

– Eu fiz muito bolo... pode levar um pouco... se quiser.

Droga!

– Tudo bem.

O segui até a cozinha, a casa estava diferente só não sabia dizer de que forma. Ele me encarou algumas vezes quando retirou duas canecas grandes de dentro do micro-ondas e as colocou na mesa. Pegou alguns potes no armário, confetes. O deixei trabalhar sozinho, observando da bancada. Ele sorria de alguma piada interna.

– Estava esperando alguém? – Perguntei pegando um canudo de chocolate.

Negou.

– Por que não foi ver seus pais?

– Eu fui. – Continuou trabalhando.

– Isso é bom.

Ficamos em um silêncio incomodo por um tempo.

– Estou indo a um psicólogo – Me encarou passando minha xícara – Tem alguns dias.

– Está?

Assentiu. Me sentei a seu lado quando voltamos a sala.

– Não é tão ruim, estou aprendendo a não guardar tudo para mim. De verdade dessa vez.

– Isso está te fazendo bem?

– Está. – Encarou sua caneca.

– Está conseguindo dormir?

Negou me fitando.

– Por que?

– Porque preciso aprender a me acostumar. Sabe, sem nada ao que agarrar. Me livrei de tudo. Para começar do zero.

Senti a pressão aumentar em minha cabeça.

– Vai ficar tudo bem, no fim.

– Você vai estar aqui? – Seu olhar era um pedido de segunda chance. – Quando me odiar menos... eu vou ficar aqui e esperar. Colegas, eu posso tentar ser legal e até consigo fazer as pessoas sorrirem, é sério – Sorriu, o melhor sorriso que Marcus Foster já havia me dado.

Senti o aperto no peito. Ele estava implorando para que eu voltasse?

– Você pode me contar como sua vida vai estar... daqui um tempo.

– Posso – Falou colocando uma colher de seu bolo na boca – E você vai poder me contar... sobre a sua. Só volta... um dia. Eu sinto sua falta, Sara. Todos os dias. – Confessou, seus olhos me queimando por dentro.

Não havia muito o que falar enquanto a sombra de todos os acontecimentos existisse, então passamos as horas seguintes assistindo a um filme, senti meu celular tocar algumas vezes embaixo de mim, mas não consegui pegá-lo. Marcus havia dormido em cima de mim, dormia tão profundamente que quase me assustava. Essa era a primeira vez que o via dormir tranquilo, não havia aquele semblante de que algo ruim fosse acontecer a qualquer momento, nem pesadelos. Simplesmente dormia. Ele havia a deixado ir, Maggie não existia mais.