O Contrato
Capítulo 25
Minha mãe passou a me investigar. Foi fácil sorrir para o meu pai e ele acreditar que eu estava bem, mas com minha mãe era bem mais difícil. Passei então a maior parte do dia com Mike. Victor me pegou no dia seguinte, ele queria me apresentar uma pessoa. Uma pessoa de um metro com os traços mais lindos que já pude ver em uma criança. Mais tarde conheci a mãe, Victor estava feliz, elas estavam de volta.
Voltar para casa não era bem o que queria, mas também não estava a fim de me aventurar no centro da cidade. Jantei com meus pais e falei o mínimo possível, sempre que mamãe começava seus assuntos eu me esquivava. No dia seguinte meus olhos inchados mostravam o quanto passei a noite em claro. Passei a trocar e-mails com Santana e Caroline, eram dez por segundos todos os dias esperando que alguma delas me desse a notícia do tipo: ele está procurando você, mas nada disso era dito.
Na sexta fui até Ville para a entrevista e passei as duas horas seguintes em uma sala de espera. Estava em um daqueles momentos onde minha bipolaridade estava em crise. Eu não sabia se realmente queria estar ali, se queria estar em Phoenix, se queria – provavelmente – morar perto dos meus pais. Senti a falta de afogar minhas tristezas sem responsabilidade alguma em uma loja. Não usar o cérebro e ter como única paixão uma placa de liquidação. Mas aprendi com meus erros e não consigo mais, nem mesmo querendo. Meu pai me buscou, fez perguntas automáticas, mas me assustou quando paramos a duas quadras de casa.
– Certo, quem foi? – Desligou o rádio.
– Como?
– Quem era o cara que você ia trazer? – Coçou o bigode e tentou não parecer um cara pronto para atirar.
– Ninguém. – Menti encarando a rua.
Bufou apoiando as mãos no volante, ele fazia muito disso quando estava sem paciência.
– Sua mãe está a um ponto de pagar um investigador. Sabemos que não está bem Sara, está mostrando isso e só você acha que está escondendo alguma coisa – Respirou fundo – Eu sempre tive medo dessa parte de ser pai de uma garota. Talvez agora entenda o porquê de não ter gostado que você fosse embora, ao mesmo tempo em que queria deixá-la ir para não ter que passar pelas partes difíceis. É fácil, eu acho, se sentar com um garoto e falar de garotas. O que ele deve saber, o que não deve fazer, dar conselhos baseados em mim, mas você é uma garota e mulheres por si só já nascem sensíveis. Mesmo forte você sempre foi sem filtro, Malvin. Não puxou sua mãe e muito menos a mim, seu avô dizia que você daria um belo problema – Sorriu– Lembra quando roubou meu carro dizendo que ia a Paris? Você só tinha treze anos. Sempre precisamos controla-la em tudo e hoje eu não me importo que você entre em uma loja e ataque tudo o que ver pela frente com todo o seu exagero que conheço desde que nasceu. Meu maior medo era de que seu descontrole estivesse aqui – Tocou meu coração – Porque esse eu não posso controlar, nem sua mãe. Então eu prefiro vê-la sofrer por um cartão de crédito do que por um idiota que provavelmente não sabe que sei atirar.
Sorri em meio as lágrimas.
– Isso é demais para mim e eu queria ter os melhores conselhos que um pai possa dar, mas eu estou assustado com tudo isso, você veio para dar diversão à minha vida. Sara Malvin é como minha montanha russa, sempre vai me deixar com aquele frio na barriga mesmo quando nada acontecer. Eu sempre vou me preocupar com você Sara, então não precisa me esconder nada. Posso enrolar sua mãe depois.
– Obrigada pai, eu só estou tentando acertar dessa vez.
– Eu também posso acertar o idiota sem problemas – Me abraçou– Só não quero que magoe a minha filha.
– Eu aceitaria, mas como o amo não quero que o mate. Você fez essa proposta um pouco tarde demais – Sorri.
– Mas já sabe, quando precisar.
Consegui passar pelo olhar de minha mãe direto para o quarto, tomei um longo banho para aliviar a dor de cabeça. Acabei pegando no sono e acordando para o jantar, meu celular estava desligado desde que havia chegado e para não ter que chorar na mesa, eu preferi deixar para liga-lo depois do jantar.
– Vamos passar o fim de semana na casa do lago com o Tom.
– Eu não vou. – Falei encarando meu prato meio cheio.
– Sara...
– Deixe, ela – Meu pai piscou para mim – Ela precisa se concentrar na entrevista que teve.
– Mas se distrair seria bom, Mike e os meninos vão estar lá.
– Obrigada mãe, mas quero ficar em casa. Papai tem razão, vão se divertir eu posso ser chamada a qualquer momento – O que era uma mentira – Quando vão? – Tentei parecer empolgada.
– Amanhã à tarde, mas deixá-la uma semana sozinha não é uma boa ideia John. – Mamãe o encarou.
– Ela já é bem grandinha e sabe atirar.
– É mãe, eu sei atirar. – Talvez eu atire na minha própria cabeça, não se preocupe.
Ajudei na louça e preenchi o máximo de tempo que tinha antes de voltar ao quarto, então foi a hora de me torturar ligando o celular e esperando para ver se meu sumiço de quase duas semanas havia dado efeito. O encarei em cima da cômoda piscando por quase cinco minutos antes de se apagar e me arrastar até ele para pegá-lo. Havia algumas mensagens de Santana e Caroline antes do contato por e-mail e várias mensagens de Marcus. Pensar nelas me doía mais do que achei possível, mas me mantive calma e li a maioria e ouvi algumas.
“Sara, por Deus onde você está? Eu estou feito louco atrás do endereço dos seus pais, mas você o levou. Eu sei que está magoada e irritada comigo que acha que quebrei minhas promessas, mas eu preciso falar com você. Me explicar...”
...
“Sara, tem dois dias que não te vejo e você não me responde. Eu sei que está com raiva de mim, mas por favor me diga onde está ou rodo Phoenix inteira até te achar...”
...
“Certo, cinco dias é muito tempo. Eu preciso de você, preciso que me diga onde está e eu não vou me explicar por telefone. Eu juro que tentei pegar nosso voo, mas cheguei tarde desde então estou tentando contato. Me ligue.”
...
“Aconteceu umas coisas, graves e eu não pude falar naquela hora. Eu pedi para Eleonor responder por mim, mas ela não fez isso e eu não sei o porquê. Mas isso não importa mais, eu preciso apenas que me ouça.”
...
Outra mensagem chegou pouco depois:
“Quando eu disse que nunca a magoaria, eu falei sério. Quando eu disse que te amava, nunca falei tão sério na minha vida nos últimos anos. Jamais pense que brinquei com seus sentimentos, porque não fiz isso, talvez nada justifique e nem seja tão importante assim para você o que aconteceu, mas foi para mim. Só quero que saiba que eu te amo e que não vou desistir até que me diga onde está.”
...
Como já imaginava não preguei os olhos a noite toda, acordei com meus pais discutindo sobre o que levar para a semana na casa do lago. Tentei não me envolver, apenas os observava indo de um lado a outro.
As duas, Mike estava na porta de casa esperando sua carona e mais uma vez precisei mentir meus motivos para não ir. Eu não queria ter que fingir que estava animada, eu não estava me privando de diversão apenas não havia clima para isso. Liguei para Santana e ele esteve lá, isso me deixava feliz, porém não muito. Ele estava com ela.
O dia estava escuro quando acordei e já era quase meio dia. Subi para um banho rápido e voltei com batidas na porta e a voz que ouvi me pegou de surpresa. Kate? Kate parecia ter um ódio incrível por mim.
– Pode ser mais rápida, está chovendo – Gritou. Saltei os últimos dois degraus e corri para a porta. Como sempre ela estava com aquele sorriso amargo – Ainda bem, sua mãe mandou avisar que deixou o dinheiro para o caso de querer comprar alguma coisa no armário e esse cara está procurando por você. – Apontou.
Dei um passo para a frente encarando Marcus encostado na porta.
– Não tenho mais nada para fazer aqui. Tchau. – Kate fingiu um sorriso nos deixando.
Acho que não ouvi as últimas palavras que disse desde que havia visto Marcus parado em minha porta. Havia gelo em meu sangue e uma sensação de estar sufocando. Despertei com o som da moto de Kate que se afastava.
– Oi.
– O que está fazendo aqui? – Perguntei, mas tudo o que tive como resposta foi Marcus me beijando.
Minhas costas bateram contra parede enquanto sentia seus lábios nos meus. O que parecia ser a única coisa que me salvaria no momento. A falta que senti por todo esse tempo longe sumiu e por alguns segundos esqueci todo o meu ódio. Até empurrá-lo.
– O que está fazendo? Que droga Marcus! Vai embora. – Mantenha sua mente, querida. Não caia nessa!
– Eu não vou a lugar nenhum enquanto não me ouvir.
– Eu não quero te ouvir. Já se esqueceu tudo o que eu disse? Acha que eu sou alguma idiota que você vai fazer de boba!? – Não chore, enfrente isso de cabeça erguida. Não foque no olhar dele.
Não faça isso!
– Não, você não é idiota e eu não me esqueci de nada do que disse.
– Então por que está aqui?
– Porque eu te amo e preciso explicar o que houve naquele dia. – Segurou as mãos atrás da nuca.
– Quer saber da novidade? Eu não quero ouvir, seja lá o que for. Porque eu esperei por respostas e você não deu a mínima para as minhas perguntas.
– Eu estava no hospital.
– Que se dane...
– O pai da Abby morreu! – Gritou. – Eu estava com ele e precisei esperar Abby aparecer, foi tudo muito rápido e ninguém sabia onde ela estava. Eleonor apareceu e discutimos por causa da Abby. Eu disse que não tínhamos nada, portanto não era minha culpa ela ter sumido, eu fiquei sozinho com ele no hospital sem minhas coisas que estavam com Eleonor, era ela que estava com meu celular. Tá, eu sei que deviria estar comigo, mas já esteve em um hospital antes com um homem que você conviveu por muito tempo morrendo na sua frente? Eu dirigi até o hospital com ele desmaiado no banco de trás e precisei carrega-lo até dentro do hospital. Estive com ele por três horas até ele morrer e Abby só foi aparecer horas mais tarde. Eu não deixei o hospital até o dia seguinte, avisei aos meus pais e eles foram para lá. Eu disse que íamos viajar e que tinha que voltar para casa. Eu fui para casa e me lembrei que deixei minhas coisas com Eleonor e ela não estava mais no hospital. Só consegui meu celular quando voltei para casa depois de perder o voo. Eu não respiro desde então, se não acredita liga para minha mãe, para qualquer um, para o hospital. – Se abaixou ficando a minha altura. – Por favor.
– Você está mentindo. – Um soluço.
– Por Deus, Sara! Acha que inventaria uma coisa séria assim?
– Eleonor disse que você estava com a Abby. – Falei.
– Eu não estava com ela, estava resolvendo as coisas para ela. Eleonor adoraria ajudar a prima te magoando. – Marcus estava se esforçando.
– Se lembrou de mim nesse meio tempo?
– O tempo todo. Eu pensei que Eleonor tinha dado o recado. Eu dei um voto de confiança a ela e ela fez tudo errado.
– Dado o recado, ela não deu. Ninguém deu porcaria de recado nenhum. Eu tomei minhas decisões depois disso.
– Que decisões Sara?
Engoli o nó.
– Vou ficar em aqui mesmo que eu não passe nessa entrevista. Eu vou ficar.
– Eu também vou. – Se levantou.
– Não. Você vai voltar, vai decidir o que quer para você.
– Eu já decidi, eu quero você e será você. Nem que para isso eu precise sequestra-la e fazê-la entender que minha vida não será mais a mesma sem você. Que nas últimas semanas eu não sei o que é respirar. As vezes fazemos o certo para uns e esquecemos que o certo do hoje pode ser o errado de amanhã. Se você precisa de um tempo para entender ou aceitar, eu vou aceitar. Eu te dou esse tempo, eu vou embora e vou te esperar. Só não demora muito para entender que eu te amo e que não fiz nada por maldade, por amar outra pessoa ou por não te amar. Porque eu te amo, não se esqueça disso. Tudo bem para você?
Todo meu corpo estava temendo. Uma parte de mim queria gritar e bater nele por ter me tornado uma pessoa medrosa.
– Eu não quero tempo Marcus – Agarrei sua camisa para não ir ao chão – Eu sei o que sinto e droga eu te amo demais. Você não tem ideia do que pensei durante todo esse tempo, eu estou com muita raiva de você muita, mesmo. Mas eu te amo e eu não quero que vá, mesmo com raiva eu te amo seu maldito desgraçado – Me agarrei a ele como um bote salva vidas.
Estar nos braços de Marcus era o lugar mais perfeito do mundo, chegava a doer pensar em deixá-lo passar por aquela porta e ao mesmo tempo parecia ser o certo a fazer até eu conseguir assimilar tudo. O pai da Abby havia falecido e ele não ficou com ela, isto é uma prova de que ele me ama e quer estar comigo. Ele está aqui comigo.
– Casa comigo – Sussurrou contra minha boca – Agora.
– Marcus...
– Esse é o único jeito de não deixá-la fugir de mim.
– Meu pai vai querer te matar. – Avisei.
– Eu não estaria diferente, mas eu vou me explicar e ele vai compreender. Posso andar faltando alguma parte do corpo se ele me deixar ficar com você.
– Ele não vai fazer nada, no máximo te ameaçar. Ele já sabe que te amo. – Segurei seu rosto perfeito em minhas mãos.
– Terei que repetir isso a ele. E dizer que em breve terá de leva-la ao altar, quero o quanto antes acordar todos os dias ao lado da senhora Foster.
– Eu ainda estou com raiva de você.
– Mas me ama, já é um bom começo.
– Não conte com isso.
– Sara... – Me tirou do chão – Eu senti a sua falta, anjo.
Se fosse um sonho era bom me acordarem logo, eu estava começando a me acostumar com ele.