O Contrato
Capítulo 9
Havíamos andado muito, meus chinelos carregavam uma tonelada de areia cada passo que eu dava – isso me lembrava porque odiava areia. Marcus continuava em silêncio encarando o chão. Sua grande bolha impenetrável.
– Já teve algum relacionamento sério? – Sussurrou a pergunta.
– Já. – Sorri.
– Como era?
– Como são os relacionamentos? – Perguntei. – Todos iguais. –Talvez não, o meu foi um fracasso. Um fracasso que durou dois anos e meio.
– Não são todos iguais. – Me encarou.
– Como era o seu? Você já teve um, não?
Seu olhar era tão vazio. Às vezes eu queria abraça-lo e sei lá dizer, algo que preste.
– Bom.
– O meu não, isso me faz mudar de opinião. – Divaguei.
– Por que não foi?
– Éramos diferentes, pressão demais. Ambos tentando o impossível.
– Você gostava dele mesmo assim?
Sorri. Meu ex-namorado era na minha visão de cara mais perfeito no mundo. Mesmo com todos os seus defeitos.
– Eu achava que sim. – Admiti.
– Como virou acompanhante?
Essa é fácil.
– Necessidade. Perdi meu emprego e precisava com urgência de um emprego novo. No começo eu tive medo, eu não sabia o que estava me esperando. – Era a maior verdade que contava em tempos.
– Muitos caras loucos? – Sorriu.
– Problemáticos.
Voltamos para casa em silêncio depois que o assunto morreu. Marcus não fazia muita questão de sustentar momentos. Eu senti falta de algo aquela noite e eu sabia o que era.
°°°
–Vamos Sara, vai ser legal. – Nora repetia pela decima vez.
Marcus estava do meu lado encarando as ondas em silêncio enquanto sua irmã insistia para uma viagem até a cidade.
– Pode ser menos chata, Nora? – Marcus resmungou.
– Faz duas semanas que estão aqui e a Sara nem pode sair. – Resmungou. –Isso são férias, Marcus. Você não pode prende-la aqui com você só porque é antissocial.
– Eu posso sair, Nora. Mas quero ficar com Marcus. –Menti, em parte.
– Com essa cara emburrada que ele está? – Apontou. – Eu duvido.
O fitei. Ele tentou disfarçar.
– Vá com ela. Pega o cartão na minha mochila. – Mandou.
– Não precisa.
– Por favor. – Pediu. – Apenas a leve para longe de mim com esse falatório descontrolado.
Eu não sabia se isso era para ser engraçado ou ele realmente estava nos mandando sumir de suas vistas.
Nora me arrastou de volta para casa. Troquei de roupa e em poucos minutos estávamos indo para a cidade, era para ser divertido, mas não consegui focar muito em ter um cartão de credito em mãos quando o vi na mesma posição quando deixamos a casa. E de verdade, não era uma boa ideia me deixar com um cartão.
– Vocês conversaram? – Nora perguntou enquanto experimentava um sapato. Eu não estava com a cabeça no mesmo mundo que o dela dessa vez.
– Sim.
– Eu sei que você o ama. – Me fitou com um sorriso genuíno.
Não, Nora. Eu não o amo.
– Marcus tem aquele brilho com você, eu sei. – Se virou para o espelho. – Há muito tempo que não víamos isso.
– Que brilho?
– Alguém disposto a ser melhor, não sei explicar essas coisas clichê, mas Marcus tem vida nos olhos. Eu o vejo seguro perto de você. Até Leslie percebeu. E você também tem o brilho. – Sorriu.
Não, eu não tenho.
– Ele ficou com medo que você fosse embora. Até ficou carinhoso.
– Marcus precisa da família. – Falei.
– Não, ele precisa de alguém que o ajude a superar e você está sendo essa pessoa.
Paramos em uma loja de lingerie. Tudo o que eu havia comprado eram sapatos e duas bolsas o que já havia ficado muito caro, graças as lojas.
– Leva essa. – Nora me jogou um conjunto.
Eu não ia usar um lingerie com Marcus. Isso nunca. Eu queria dizer isso a ela.
– E essa. – Me jogou um novo conjunto de renda.
Almoçamos em um restaurante dentro do conjunto de lojas. Eu não me cansava de entrar em lojas e passar o cartão. Era quase automático. Nora resolveu voltar quando já era quase seis da tarde. No caminho para casa falei com Santana. Tentei resumir tudo sem que Nora percebesse. Marcus estava no quarto quando cheguei. Falava ao telefone e estava chorando. Deixei as sacolas na cama e esperei, ele sussurrou alguma coisa e desligou.
O silêncio se arrastou por um tempo e fui a primeira a quebra-lo.
– Está tudo bem?
Assentiu.
– Eu acho que gastei um pouco demais. – Entreguei seu cartão. – Posso devolver... eu só...
Ele continuou em silêncio me encarando. E aquelas poças de lágrimas em seus olhos, fui em sua direção, eu não sabia o que deu em mim, apenas segurei seu rosto.
– Fala comigo, Marcus. – Acariciei seu cabelo. Droga! Que sensação maravilhosa em meus dedos – Pode confiar em mim.
Foi o que bastou para ele chorar de verdade. O abracei sentindo suas lágrimas em meu pescoço quando enterrou o rosto no mesmo. De repente algo dentro de mim se revirou e o apertei com mais força. Minhas costas estavam doendo pela posição depois de alguns minutos, mas não me importei de segura-lo. Ele não chorava mais, mas eu sabia que era uma questão de tempo. Nora disse que estávamos perto da data de falecimento de Maggie e eu não sabia o quão perto essa data estava.
Quando se afastou, seu rosto estava vermelho. Sequei suas lágrimas com a ponta dos dedos e sorri. Isso era o mais próximo do perto, realmente, que Marcus me deixou ficar dele. Sem cara de nojo, sem olhar acusatório, isso me assustava um pouco. Marcus ia do céu ao inferno em meio segundo.
– Está tudo bem.
– Obrigado. – Fungou tímido. – Nora te torturou muito? – Tentou um sorriso mudando de assunto.
– Digamos que eu a entendo. – Apontei para a cama e ele riu brevemente.
Marcus precisou de alguns minutos para se recompor totalmente e então descer para o jantar. Ele não me disse nada sobre a ligação ou como agiu ao aceitar meu abraço – e ele não faria isso de qualquer forma, seria uma mudança muito rápida e brusca para alguém como ele. Segurei sua mão macia e ele não protestou.
– Já ia chamá-los de novo. – Lucio falou quando nos viu.
Todos perceberam que ele havia chorado, mas ninguém questionou. Comemos em silêncio, Nora resolveu deixar para falar do nosso passeio na hora da sobremesa.
– Estava falando com a mamãe sobre o natal, falta um mês, certo?
Encarei Marcus.
– Podemos ir todos para casa. Eu gosto do clima frio. Já está decidido.
– Devia perguntar se Marcus vai querer. – Leslie comentou nos encarando.
– Não vamos fazer nada na casa dele. – Nora fez uma careta. – Pensei em fazer na casa da mamãe. Está fechada a tanto tempo.
Marcus a encarou.
– Por favor. – Nora o encarou de volta. – Eu sinto muito, mas é natal.
O telefone tocou. Lucio quem atendeu, Marcus levantou seu olhar para ele com expectativa, como se soubesse que era para ele.
–Abby. – Lucio falou.
Marcus se levantou as pressas. Sandra chamou sua atenção pelo ato, mas ele não se importou. Pegou o telefone e subiu. Eu devia estar envergonhada, afinal, não fiquei tanto tempo assim com todos os Foster e, eu não sabia quem era Abby. Nora afagou minha mão pragmática e isso me assustou.
Marcus não voltou, seu pai parecia estar cronometrando esse tempo quando deixou a mesa e o seguiu. Ajudei Sandra com as coisas na cozinha para fazer um tempo, mesmo queimando de curiosidade e vontade de ir para o quarto. Depois de tudo limpo e conferindo – por mim mesma – subi para vê-los, encontrei Tony no meio do caminho com um olhar que gritava pedidos de desculpas. Marcus estava encarando o chão em silêncio. Ele não me diria nada muito menos quem era Abby.
Dois dias depois acordei sozinha no quarto, eram oito da manhã. Troquei de roupa depois de fazer minha higiene, a casa estava silenciosa. Leslie estava sentada a alguns metros da casa. Não nos falamos muito, de todas, ela era a mais silenciosa. Apesar da simpatia e sorrisos, eu conseguia dizer que existia um pouco de Santana nela.
– Bom dia. – Falei me sentando seu lado.
– Bom dia. –Sorriu.
Queria perguntar se ela o viu, mas ela leu meus pensamentos antes disso.
– Marcus viajou. – Falou.
– Viajou? – A surpresa saltou em minha voz.
Assentiu ajeitando os cabelos loiros em um coque no alto da cabeça.
– Ele sempre a visita. – Havia um humor ácido em sua voz.
– Abby?
Virou os olhos deixando um bufar escapar.
– Não. Maggie.
Cheguei a pensar que Leslie tinha uma queda por Marcus. Isso sempre passava por minha cabeça. A troca de olhares, a forma como agiam, a dívida entre eles justificadas em ações programadas. Era estranho para mim, mas não parecia estranho para o resto da família.
– Eu ainda acho que você é mais uma contratada. – Não havia raiva em sua voz. Leslie escorria certeza. – Mas as vezes acho que não, porque você está durando e porque Marcus está mais confortável. Se você realmente o conhece, sabe que ele não é uma pessoa confortável nem com a própria família. Ele já falou sobre Maggie? – Me fitou.
– Nora pode ter dito. Mas ele não sabe porque parece ser um segredo. – Admiti.
Leslie tirou os óculos de sol e me encarou.
– Segredo? Não acho. – Sorriu sem humor. – Talvez eu não devesse contar, mas não vejo nada demais. Marcus está pior que um garoto mimado.
Pensei em repreendê-la, mas ela tinha razão.
– Marcus era meu melhor amigo. Fui sua madrinha de casamento. – Sorriu – Ele e Maggie se amavam. Ela era legal, um dia eles fizeram planos diferentes. Marcus insistiu para que ela fosse visitar seus pais, eles estavam presos em decisões o tipo de casal que fazem tudo juntos. – Riu. – Ela foi para o sul e Marcus veio para cá. Eles se encontrariam aqui, ele estava terminando a casa. – Apontou para casinha. – Ela chegaria em uma semana, só que antecipou a viagem.
Leslie fazia círculos na areia com a ponta dos dedos.
– O carro bateu, ela foi levada ao hospital, mas não resistiu. E foi um choque. Ele não queria acreditar, porque além dela a morte também levou o seu bebe. Maggie estava de sete meses. O bebê era a vida deles, sabe a Nora? Pensa na Nora como uma família o tempo todo. – Ela riu divertida. – Eles eram assim, você não conseguiria encaixar os dois Marcus nisso que estou te contando. Maggie era a sua vida, seu bebê era sua vida.
Meu queixo estava no chão.
– Depois do enterro Marcus virou outra pessoa. E tínhamos que estar sempre de olho nele. Ele tentou se matar algumas vezes. – Seu rosto estava branco como papel. – Se culpava por tê-la feito mudar de ideia e fazer essa viagem, se culpava por ela ter a cabeça dura e ter pego um carro sozinha para viajar. Todo o peso, ele pegou para si.
– Está falando sério? – Minha voz era um sussurro.
– Ele jogou o carro contra uma árvore, bebeu por semanas, sumia por semanas. Tony conversou muito com ele, mas não adiantou. Acordamos uma noite com a casinha em chamas. Marcus tentou se matar de novo. E pensamos que vir para cá o faria bem e quase o perdemos também. Pessoas, destroem pessoas, Sara. – Me fitou. – Maggie o destruiu pelas suas escolhas, não isso não é culpa dela. Não estou querendo dizer isso, mas quando tomamos decisões ela sempre afetará alguém seja de uma maneira boa ou não. A escolha dela de quebrar o combinado o afetou, deixou a culpa para ele carregar sozinho.
A cicatriz.
– Foi aí que deram um basta e o levaram para uma clínica. Ele passou um ano nessa clínica. Me sinto falha como amiga, mas ele não queria ajuda. Ele a amava e não aceitava. Quando saiu de lá, se mudou para Los Angeles, voltou ao trabalho depois de passar uma temporada com Abby e eu a odeio. Ela não é boa coisa, então vieram as falsas namoradas. Ele usa isso para dizer a nós que está bem, mas ninguém é burro, coloquei algumas contra parede. Outras causaram problemas quando foram contrariadas saindo de encontros em família gritando o quanto ele era um doente e que deveria paga-las o dobro pelo serviço. Foi aí que percebemos que ter esse tipo de camuflagem era mais comum do que gostaríamos.
Vimos como elas o explora, como ele não enxerga que gasta horrores com isso, Nora viu o site de acompanhantes aberto em seu computador e o que ele pagava para passar dias ou semanas era um absurdo, claro o site era como um Hollywood. Agora veio você e isso nos confunde. Ele segura sua mão e demonstra o mínimo de carinho, coisa que ele não fazia antes com as outras. Está sendo diferente. Eu só queria que ele superasse e que todos parassem de trata-lo como um indefeso. Ele nunca vai acordar assim.
As palavras de Leslie ainda estavam em minha mente. Marcus voltou na hora do almoço, ele não estava com Abby. Abby era irmã de Maggie por sinal. Ele não a trouxe, de repente eu estava incomodada, não estava no meu direito saber tudo o que ele fazia. Mas só o fato de ter a ideia, isso me irritava.
Nossa volta para casa estava marcada para dois dias e minhas coisas já estavam prontas. Não me sentia culpada por saber de toda a história. Mas concordava com Leslie. É difícil, mas ele precisava superar, tentar, se esforçar, alguma droga do tipo.
– Está calada. – Falou.
– Só quero ir para casa.
– Sobre o natal...
– Não vou participar. Tenho meus amigos, minha família. Não parece, mas tenho e vou passar com eles. – Tentei ser firme.
– Sara...
– Não Marcus. Você inventa uma desculpa. Vamos terminar assim que voltar para casa. Cumpri minhas semanas com você.
– Você está estranha o dia inteiro. O que aconteceu? – Se sentou à minha frente. Ele estava novamente diferente.
Gostava da versão casual de Marcus Foster, podia vê-lo claramente dessa forma.
– Nada. Só quero voltar para casa. – Passei os dedos pelo cabelo.
Agora ele baixava a guarda? Era um pouco tarde para sermos amigos de conversa quando você me deixou passar todas essas semanas entre comer, dormir, usar seu cartão como gentileza e repetir todo o ciclo no dia seguinte. Não vou mais alimentar isso em você, Marcus. Acabamos por aqui. A viagem para casa havia sido silenciosa. Ele voltou a fingir que eu não existia e isso me dividiu, ele seria legal se eu aceitasse algum novo plano para o natal? Era isso, ele não quer sua amizade, ele quer seu serviço e porque não ser gentil para ter isso?
Marcus chamou um táxi para me levar. Eu não sei o que deu em mim, assim que vi Santana na porta as lágrimas vieram. Eu queria me socar porque era muito idiota da minha parte estar chorando, eu achei que teríamos um até logo – não estou falando de trabalhar para ele – ou um aperto de mão, mas ele foi embora sem olhar para trás. Contei tudo quando Caroline chegou. Não deixei nada passar. Elas se olharam por um tempo.
– Você está gostando dele? – Carol me perguntou.
– Como? Não! Marcus e eu fomos duas coisas estranhas tentando ser um casal, mal houve um contato físico real... eu não sei. Eu... – Desisti. – Preciso beber.
– Você está preocupada com ele. – Santana começou. – Está falando dele como uma pessoa com sentimentos.
– Não comece, eu não tenho sentimentos por ele. Só fiquei chateada por ter sido usada até na hora de ir embora.
– Não é como se você não soubesse disso. – Caroline me encarou. – Isso quer dizer que você não soube separar as coisas, e deixou algo crescer aí. Despedidas são uma merda, você acaba vendo coisas que não queria.
– Ele é apaixonado por uma morta! Entendam isso foi demais para mim. Eles agem mecanicamente e o espirito dentro de mim não consegue acompanhar aquelas ações de porcelana. Sabe... – Massageei as têmporas. – Não aguentaria um segundo round sem surtar de vez. Sim, me preocupei com ele, esse é o meu jeito com as pessoas, gosto delas e me preocupo, mas foi apenas isso. Pensei que os momentos em que ele não foi um iceberg se repetiriam. Mas agora acho que tudo isso era apenas para me manter um pouco mais de tempo.
Elas não disseram mais nada por duas horas. Foi o tempo que pedi paz. Marcus não ligou. Terminamos, então ele não ligaria. Santana trouxe pizza e tivemos a noite das garotas. Minha mãe ligou antes de eu ir para a cama, contei uma mentira qualquer e ela engoliu. Precisava de um emprego sério com urgência, passei a semana atrás de um.
Marcus ligou na sexta, Santana ficou quieta, já Caroline quase me obrigou a atender. Precisava de um número novo. No sábado Susan conseguiu falar comigo, ela estava estranha e marcou no mesmo café no mesmo lugar do primeiro encontro. As duas ela já estava lá. Sorriu ao me ver. Eu não queria repetir tudo, mas me via obrigada.
– Como está? – Perguntou desligando o celular e o colocando a sua frente. Ela parecia muito bem.
– Bem eu acho, ele te mandou aqui? – Respirei fundo.
– Não.
– Não? – Duvida brilhava em minha testa.
Negou, pediu dois cafés.
– Eu sei que você não é a Sara. – Falou pausadamente fazendo meu estomago se revirar.
Meus olhos se esbugalharam.