O Contrato
Capítulo 16
Marcus ainda dormia quando acordei. Tive um pequeno ataque do coração quando me dei conta de tudo o que estava por vir, teríamos alguma coisa por alguns dias. Ele chamaria de apoio, eu daria outro nome. Não conseguia julgá-lo por mais que eu gritasse na cara dele a situação real. Era fácil ver isso.
Minhas mãos coçaram para tocar seu cabelo e puxá-lo para mim, mas apenas o observei em silêncio. Minutos depois ele se levantava assustado e ouvir meu nome foi perfeito, mesmo soando assustado.
– Estou aqui. – Falei.
Sorriu afundando o rosto no travesseiro.
– Está aqui – repetiu.
– Estou.
– Quer que eu prepare o café? – Perguntou para desviar a atenção do ocorrido, segundos antes.
– Posso fazer isso, só hoje? – Saí da cama. Marcus me encarou por um tempo antes de me acompanhar.
Eu queria rir, mas iria parecer idiota demais. Feliz demais. Ele me esperou na porta do banheiro, depositou um leve beijo em meu pescoço antes de fechar a porta atrás de mim. Sussurrei um: te espero lá embaixo. No caso dele sofrer um acidente por descer correndo as escadas me procurando em um de seus surtos – ri.
A cozinha estava uma bagunça, tinha um prato quebrado, uma gaveta fora do lugar, talheres espalhados na mesa e vinho pelo chão. Certo, ele não sabia controlar seu nervosismo ou ansiedade. Ouvi seus passos e seu olhar era envergonhado minutos mais tarde enquanto eu pensava por onde começar na bagunça que ele fez.
– Eu vou limpar – Falou, as mãos enfiadas no bolso do moletom.
– Eu te ajudo, cuidado com os cacos. – Lhe dei um sorriso.
Enquanto limpava sua bagunça ele sussurrava uma música e parava sempre que era pego de surpresa. Mais uma vez me peguei com vontade de abraça-lo e como se soubesse disso, ele veio até mim e me abraçou. Seu perfume me enlouquecendo.
– Obrigado.
– Pelo que?
– Ainda estar aqui mesmo eu sendo um idiota.
– Você está conseguindo ser um idiota legal. – Sorri. Beijou minha testa e se afastou.
– Bom saber.
Tomamos café na varanda. Marcus parecia mais relaxado, seus dedos brincavam com os meus em silêncio, ele não me olhava. Verdadeiramente envergonhado.
– Te assustei muito ontem? – Sussurrou.
Um pouco.
– Não. – Menti.
Me fitou.
– Eu não sei o que deu em mim. – Pisca, Sara, pisca. – Medo de ficar sozinho, medo que você fosse embora mesmo... Medo de não... significar nada para você.
– Vou ficar até onde eu aguentar. – Suspirei. – O que estamos fazendo é perigoso, Marcus. Você entende, não é? Vamos fingir por um segundo que não temos nada no meio disso, mas até que ponto?
Seus olhos deixaram os meus.
– Eu tenho medo de estragar as coisas.
– Não deveria, isso quer dizer que tentou de alguma forma. – Respirei. – Não quero ser a única a não entender isso tudo... eu não sei. E sim, você significa algo para mim e me afastar de você é a proteção que eu preciso.
– Pode me ligar quando não aguentar mais. – Sorriu pequeno encarando a praia. – Uma carta talvez.
– Vou pensar nisso. – Afaguei seu queixo.
Marcus me puxou para seu colo.
– Eu quero colocar tudo para fora, mas preciso fazer isso aos poucos.
Afaguei seu cabelo.
– Acho que estou aqui para ouvir.
Suas mãos brincaram com o cós da minha blusa.
– Eu fui para uma clínica depois que Maggie morreu a pedido do meu pai. Passei seis meses trancado como um louco. – Riu sem humor. – Depois mais seis meses em uma porcaria de SPA que só levou meu dinheiro, continuei frustrado e irritado com tudo.
Leslie havia me dito isso, bem resumido. Tentei não me entregar com o olhar de culpa.
– Sabe quando nada faz sentido? Quando você quer que a dor passe, mas não faz ideia de onde ela vem? Eu só sabia que doía. Tentava aceitar todos os dias, fingi aceitar, mas é como um viciado em drogas, você tem um tempo, mas sempre volta.
– Você a ama tanto assim? – Tentei soar o mais normal possível.
Assentiu. Tentei sorrir sem sucesso, prometi que ouviria então depois de um tempo voltei ao meu lugar quando tudo pareceu desconfortável.
– As cicatrizes... eu não tentei me matar. Eu bebi demais, pensei em fumar e não me lembro de mais nada. Só de ter acordado no hospital. Naquele momento eu queria ter morrido, seria perfeito. – Sorriu sem humor – Mas estava ali e teria de enfrentar tudo de novo. A casa na praia era dela, a vendi para meu primo, ela nem chegou a entrar nela. Minha curiosidade me fez te levar lá, porque eu não tinha coragem de ir sozinho. Mas eu fiz tudo errado, parecia errado tê-la levado ali.
Suspirou.
– Tudo parece errado quando você está por perto.
O encarei.
– Me sinto sendo um traidor. – Confessou.
– Marcus...
– Loucura, eu sei. Mas eu não quero dar ouvidos a isso quando você também me faz bem.
Eu devia ficar feliz com isso?
– Mas uma hora você vai se cansar e essa hora chegou e eu percebi tarde demais. Você vai embora e eu vou precisar achar uma nova pessoa para não ter que conhecer as que me apresentam. Minha mãe tem medo que eu me afunde, todos têm. Isso é terrível porque eles têm toda razão no fim.
– Uma hora eles terão que entender.... Talvez se você disser.
– Se eu disser tudo que acontece no momento, eles vão além de me achar louco, um desgraçado.
– Por que?
– Porque sim. – Desviou o olhar. – Eu acabei de te afastar.
– Não...
Sorri.
– Tudo bem. Sou eu que preciso de você, eu tenho que me esforçar para tê-la de volta.
– Eu não me afastei. – Menti.
– Não quero esconder nada. Mas as vezes a verdade afasta. Isso responde muita coisa, não?
– Eu prefiro ouvir a verdade.... Mesmo que ela afaste.
Assentiu.
Passamos o resto da tarde falando sobre a vida, por um momento me senti mal por não poder contar a minha verdade quando silenciosamente eu insistia por ouvir as suas. Tentei não me importar com a lista de mulheres que havia tentado sua atenção, mas conclui que sou péssima nisso. Levando em consideração que Abby havia ganhado.
Marcus passou o dia tentando me levar para perto dele novamente e em uma das tentativas ele me roubou um beijo. Eu não esperava, minha atenção estava voltada a um filme bobo que passava na TV quando ele me puxou para seu colo, um dos melhores lugares do mundo. Ganhei um vermelhão no ombro depois de sua mordida. Por Deus, quanto mais o tempo passava mais fundo eu ia. Mais curiosa eu ficava. Mais vulnerável ele me deixava
– O que quer fazer? – Afagou meu cabelo enquanto assistíamos a outro filme.
Me virei para encará-lo.
– O que você quer fazer?
Suspirou.
– Eu não sei. Estou me sentindo tão bem assim.
– Então, não vamos fazer nada – Voltei minha atenção a TV.
Senti sua respiração em meu pescoço, sua barba já crescida me arrepiando. Suas mãos se afundaram embaixo do lençol apertando minha cintura.
– Pensei que quisesse fazer nada. – Sussurrei.
– E estou fazendo nada.
Me virei para fita-lo.
– O que você quer?
Fez careta.
– Nada.
– Pode parar de mexer as mãos em minha barriga? – Pedi contendo um sorriso.
Parou.
– Eu quero uma coisa...
Me virei.
– Diz.
Poucas vezes eu vi Marcus Foster envergonhado, seu olhar procurando um ponto fixo e não achando. Segurei seu rosto para me olhar. Suspirou.
– Quero te beijar – Sussurrou.
– Desde quando você pede isso? – Deixei uma risada escapar.
Me sentei de joelhos puxando seu rosto, seus olhos estavam escuros. Se você sabe que vai para o inferno, aproveite ao máximo o paraíso. Segurei seu cabelo o beijando de leve, esperando alguma reação. Sou péssima em sedução, a última vez que tentei estava bêbada e vomitei. Dessa vez eu tinha noção do ridículo.
Suas mãos ganharam vidas em uma fração de segundos, eu não queria ter que dizer que queria a mesma coisa que ele, éramos dois adultos pisando em ovos. Não era nada casual o que havia entre nós dois ali, então partimos para o que realmente queríamos jamais aconteceria de forma natural. Seus dedos frios subiram por minhas costas, um olhar de satisfação surgiu em seu rosto quando percebeu que ainda estava sem sutiã – não havia sido intencional.
Dois segundos foi o limite que meu cérebro deu antes de eu mesma fazer o que ele estava pensando se era uma boa ideia, arranquei minha blusa sentindo o vento frio se chocar contra meu peito, era quase um grito da natureza me dizendo que era ir longe demais e que já tive a leve ideia de como as coisa eram – e que ideia. Que se dane o aviso da natureza.
Empurrei suas costas de encontro ao sofá. Caroline chamaria isso de tacada de vadia, que se dane a opinião de Caroline também. Eu odeio quem inventou camisas de botão, mas vamos lá. Senti seus dedos brigarem com os meus, mas enfim nos desfizemos da maldita camisa de botões. Não era hora de fazer observações, mas eu fiz. Ainda montada em Marcus observei suas cicatrizes, tentei imaginar o quanto havia doido.
Havia algo em seu olhar que não consegui identificar, envergonhado talvez, eu não me importava de vê-las, tudo nele lembraria ela e eu queria ter a chance de fazê-lo esquecer. Era isso que nos impedia, que me impedia de ir adiante. Eu não queria me lembrar de Marcus quando fosse embora, porque seria como se matar. Ele não poderia partilhar do mesmo pensamento.
– Sara...
Toquei seus lábios, seu olhar passou de envergonhado para surpreso quando me abaixei o suficiente para tocar a pequena marca vermelho vivo em sua costela. Era possível sentir o relevo em meus lábios. Marcado. Lentamente toquei cada uma delas, beijando demoradamente. Levantei o olhar para encará-lo, ele me fitava, desejo e luxuria estavam ali agora. Subi até seu ombro onde devolvi a mordida que havia ganho mais cedo e sua mão se fechou em meu cabelo.
– Quer que eu pare? – Murmurei, minha voz carregada de desejo enlouquecedor. Eu não queria que ele quisesse parar.
Negou.
– Quero ouvir – Sussurrei contra seus lábios. Vamos lá, diga. Você não está fazendo nada demais. Não a está traindo. Está comigo.
– Não quero que pare, Sara.
Sorri puxando seus lábios. Eu não vou parar.
Sentia meu coração bater em meus ouvidos e a temperatura subir. Marcus mantinha as mãos em minha cintura apertando com força a ponto de machucar, fazendo nossos tecidos nos dar prazer. Seus olhos estavam escuros e isso me fazia deseja-lo mais. Era bom estar no controle, vê-lo se perder com o que eu tinha para dar. Ver como se contorcia em meus dedos, seus olhos perdendo o foco, sua respiração acelerada, seu peito arfante. E era eu fazendo isso com ele, apenas eu.
Me abaixei puxando seus lábios para os meus, euforia controlada o tomou quando ele percebeu o próximo passo. Eu precisava dele agora, estava queimando por isso tanto quanto ele – eu acho. Afaguei seu cabelo, olhei dentro dos seus olhos, e o envolvi a mim, o sentindo me preencher de todas as formas e me manter ali. Iriamos ao inferno se aquele momento fosse dado com um pecado da carne, iriamos sorrindo.
Eu não queria deixar o sentimento me controlar, mas ele havia tomado o controle e não era apenas sexo, não comigo pelo menos. Eu estava amando Marcus, me entregando a ele isso sendo inteligente ou não. Seus dentes mordiscaram meu pescoço, seus braços me apertando com tanta força que sufocava, enquanto nossos corpos dançavam lentamente. Um looping de emoções e descontrole começou, Marcus estava querendo tudo para ele, o aperto em meu cabelo dizia isso, os sons em seus lábios inchados e vermelhos gritavam isso.
Estava pronta agora.
A sensação pulsante se acelerou dentro de mim e me ergui sobre ele, Marcus me segurou a ele com força. A respiração descontrolada, queria ter a oportunidade de manter isso vivo em sua mente. Parada sentindo a sensação tomar cada parte do meu corpo, era tão...lindo? Eu realmente estava apaixonada para ter esses pensamentos. Eu realmente amava essa pedra de gelo impenetrável que me propôs um momento.
Marcus se movimentou, um pedido silencioso para que eu o seguisse, mas ainda estava presa em nossa cena. Suas mãos me puxaram de volta e seus lábios agrediram os meus. Soltou meus cabelos, afundando os dedos em minha cintura, me segurando ali sem quebrar nosso momento. Me sentia tão perto a cada segundo.
Seus olhos encontraram os meus em uma fração de segundos, meu corpo não estava tão diferente de uma gelatina. Tudo o que me mantinha ali para não cair daquele sofá eram seus braços me envolvendo. Seu coração batendo forte, nossos corpos pulsando. As palavras formigavam na ponta da minha língua, mas estragaria tudo se as dissesse. Senti sua mão traçar desenhos por minhas costas até chegar em meu cabelo e acaricia-lo e em um piscar de olhos, Marcus me levou ao abismo derretendo meu corpo sob o seu. Já sentia o sono me envolver, mas eu não podia. Pegar tudo o que conseguir, lembra?
°°°
Abri os olhos, estava no quarto. Não pode ter sido um sonho, grunhi. Demorei alguns segundos para ter a certeza de que não havia sido um sonho, Marcus dormia a meu lado. Tinha a mão enfiada em meu cabelo, sua respiração profunda. Encarei o estrago que fiz em seu pescoço, viemos para o quarto em algum momento da noite, a garrafa de vinho estava virada no chão do meu lado da cama e havia manchado o tapete. Tinha a leve impressão de ter escutado meu nome essa noite.
Me virei para ele, toquei seu rosto, seus lábios. Sorri. Eu queria, queria que ele me amasse assim tão intenso a ponto de querer se matar. Seus olhos se abriram lentamente. Minha mão parou em sua nuca pega de surpresa. Sem dizer uma palavra Marcus se aproximou afundando o rosto em meu peito, voltei a mexer em seu cabelo, senti o beijo depositado entre meus seios. Isso me fez tremer levemente.
O silêncio se arrastou por um tempo.
– Eu odeio o silêncio. – Sussurrou.
Sorri.
– Pensei que gostasse dele.
– Não com você.
Suspirei.
– Não sei o que dizer. O que quer que eu diga? – Sussurrei. Sua mão desenhou círculos em minhas costas.
– Você está bem? – Perguntou.
– Melhor impossível.
– Arrependida?
Virei os olhos.
– Eu que deveria fazer essa pergunta.
– Não.
– O que?
Me fitou.
– Não estou arrependido.
Abri o sorriso mais idiota que consegui.
– Você fica bonita sorrindo.
– Tá legal, você bebeu demais. – Fiz menção em me levantar, mas ele me puxou para cima dele.
Não era desconfortável, só estranho estar fora do surto de adrenalina. Estávamos nus.
– Está fugindo.
– Não. Estou mantendo o limite.
– Temos um limite? – Uma ruga se formou em sua testa.
Me sentei sobre ele.
– Eu tenho.
Seu olhar era confuso.
– Por que?
– Sou a mulher, o sexo frágil. – Brinquei. –Preciso saber meu limite.
Marcus não disse nada, mas isso não pareceu incomodá-lo. Abafei o grito de felicidade no banho. Quando sai, ele esperava na porta, usava uma boxer preta e um sorriso provocador que não havia antes.
– Todo seu. – Avisei sendo pega de surpresa com seu beijo surpresa.
Marcus desceu vinte minutos depois, encarou a mesa de café da manhã/tarde e sorriu enfiando as mãos nos bolsos da calça de moletom. Ele parecia iluminado.
– Eu ia fazer alguma coisa.
– Posso me aventurar de vez em quando. – Falei.
– O que temos de bom?
Encarei a mesa.
– Torradas com geleia de pêssego, suco e café.
– Parece bom.
– Está bom. – Garanti. – Por que demorou?
– Estava checando meu e-mail – Falou sem vontade – Leslie disse que a temperatura está despencando.
– Parece que estamos em outro mundo. Aqui está apenas frio.
– Não conte muito com isso. Dá para congelar legal só com um mergulho. – Sorriu.
– Que horas vamos embora? – Era o nosso último dia ali.
Marcus mudou de uma vez.
– Noite.
– Não seria a tarde? – Mordi um pedaço da minha torrada.
– Já quer se livrar de mim? – Perguntou sem humor.
– Você sabe que não. Foi apenas uma pergunta.
– Já sabe agora.
Encarei meu copo.
– Vai mudar o humor? Voltar atrás com o combinado?
– Não.
Mas ele mudou.
Eu não conseguia acreditar que seu celular tinha um maldito sinal e o meu não. Marcus andava pela praia falando com sabe-se lá quem. Ele sorriu algumas vezes, seja lá quem fosse o fazia bem. Me encolhi no sofá ignorando seu momento encarando a TV em um seriado quase empolgante. Voltou quando começou a chover, se sentou na ponta do sofá longe de mim.
Eu pensei que isso fosse apenas impressão minha, mas não foi. Dormi no sofá e acordei no sofá. Eu estava ciente de que não foi pela nossa noite. Foi depois da ligação. Eu não sabia com quem Marcus falou, a única certeza era que fizeram sua cabeça. Xinguei baixo, encarei o rádio relógio, uma da tarde. Já havia me esquecido o quão ruim era assistir TV até tarde.
Marcus não estava quando acordei. Achei um bilhete avisando que havia ido abastecer e que voltaria em breve. Aproveitei o tempo para arrumar minha mala e tentar algum sinal. Ligaria para casa e avisaria que estaria chegando na manhã de natal. Mas nada.
Marcus não demorou, trouxe comida, mas estava sem fome não suportando olhar para a cara dele. Uma mistura de culpa e arrependimento. Ele havia estragado tudo mesmo, mas preferi dar o silêncio.
– Já arrumou sua mala?
Assenti.
– Não vai comer?
– Estou sem fome.
Voltei a andar pela casa atrás de sinal até que desisti. Tinha que procurar alguma coisa para fazer, sei lá conversar com as paredes talvez. As quatro comecei a me arrumar, procurar minha passagem e meus documentos. Era a terceira vez que eu fazia isso. Desci as cinco, Marcus terminava de colocar nossas coisas no carro. Seu humor parecia estar melhor, mas eu não estava a fim de ser legal agora.
– Já estou pronta.
– Só preciso checar se peguei tudo.
– Você já pegou tudo. – Avisei.
– Eu não tenho certeza.
Estávamos atrasados, e quando pensei em sair do carro ele voltou.
– Eu falei que havia pego tudo.
Deu de ombros. O vidro do carro começou a embaçar quando entramos na cidade, a chuva agora e tinha trânsito. Por Deus era véspera de Natal.
– Eu não queria esse clima. – Falou sem tirar os olhos da direção.
– Ah não? Legal saber. –Encarei os carros a meu lado.
– Estou falando sério, Sara.
– Eu não me importo.
Bufou socando o volante de repente sem o controle que fingia ter segundos antes.
– Bate a cabeça também. – Mandei puxando meus fones de ouvido.
– Qual é o seu problema?
–Você. Você é o meu único problema. Você é um bipolar cheio de problemas e que estraga as coisas. Eu só quero ir para casa, já me enchi dos seus porquês. Eu tentei fazer isso funcionar, Marcus, mas parece que só damos certo no sexo e na briga. Eu não quero dar “meio” certo.
Pegamos o mesmo pequeno avião da vinda três horas depois. Dormi as outras duas. Marcus me acordou quando chegamos ao aeroporto, já era onze da noite e me sentia esgotada de viagens. Ele me seguiu até a recepção.
– Boa noite, tenho um voo pra Phoenix. – Entreguei meus documentos a mulher. Marcus estava frio a meu lado.
– O voo saiu as dez.
– Não, meu voo é o das onze. – Entreguei minha passagem.
– O voo das onze foi cancelado pelo mal tempo.
Xinguei baixinho.
– Qual é o próximo voo?
– Seria para amanhã as dez da manhã.
– Amanhã as dez não dá! Já vai ser natal e eu preciso viajar.
– Eu sinto muito. – Ela pediu.
Respirei fundo sentindo a dor de cabeça apertar.
– Tudo bem. – Me afastei.
Perdi me voo. Se Marcus tivesse parado de divagar em nossa viagem eu não teria perdido.
– Vem comigo. – Chamou.
– Acabou Marcus. Nossos oito dias se esgotaram, vai embora. – Puxei minha mala em direção a saída de táxis.
– Para onde vai?
– Minha casa.
– Eu te levo.
– Não precisa.
– Precisa. – Puxou minha mala a arrastando para seu carro.
Manteve a porta aberta para que eu entrasse.
– Eu posso pagar um táxi.
– Não tenho dúvida, agora entra. – Mandou.
Estava chovendo, eu odeio a chuva, agora. Marcus me levou para casa, mas não subiu, apenas me ajudou com as malas. Seu celular tocou umas cinco vezes.
– Vai ficar bem?
– Ótima. – Menti.
– Passo aqui amanhã.
– Eu não quero te ver mais. Estou um pouco cansada do seu jeito de me tratar. E não ouse dizer que vai melhorar. Tentamos e não deu certo.
Seu olhar caiu um pouco.
– É natal, vamos mudar os planos e nosso último dia pode ser amanhã.
– Vou sobreviver.
– Sara...
– Não!
– Última... Vez. Passo para te pegar as sete. – Avisou entrando no carro.
Era a primeira vez que dormia sem Marcus depois de oito dias. Não consegui pegar no sono com a mesma facilidade que já tive um dia. Acordei com o clique do aquecedor. Estava chovendo muito, mas poderia ser pior, poderia ser neve, mas já causava um estrago no dia. Liguei para casa pela manhã, inventei a desculpa do tempo o que não era uma mentira completa.
O resto da manhã se arrastou, a tarde não foi diferente. Quando decidi ir para o jantar dos Foster percebi que estava um pouco atrasada. Escolhi um dos vestidos que comprei e nunca usei. Era preto e tinha um sobretudo branco que roubei de Santana. As sete Marcus estava esperando no hall. Eu devia manter minha palavra de vez em quando.
– Você está linda.
– Obrigada. Alguma restrição?
– Não contei a eles.
Parei um passo do carro.
– Como?
– Não contei a eles. Mas Leslie fez um bom trabalho dizendo que estamos em crise. Eles não vão fazer perguntas.
– Mais alguma coisa? – Cruzei os braços.
– Talvez eu diga no caminho.
– Por que não agora?
Abriu a porta.
– Procurando as palavras certas.
A viagem até a casa da família Foster não passou de vinte minutos. Tinha uma decoração bem bonita, me lembrava a casa em Ville. Marcus segurou minha mão, vejo isso como um costume que ele adquiriu com as semanas. Paramos na porta.
– Certo – Apertou os olhos – Temos visitas.
– Ótimo. Mais alguém da família que não conheço?
Fez uma careta.
– Quem Marcus?
– Abby.
Abri a boca pronta para manda-lo ir ao inferno de trenó e dar meia volta para casa.
– Eu não sabia. Quando cheguei ontem ela já estava. Eu não sabia que ela realmente viria.
Você a convidou, claro que viria...
– Ela é uma amiga. Apenas isso.
– Desde quando me deve explicação? – Perguntei cruzando os braços para não socá-lo e ele estava lindo para ganhar de natal um olho roxo. Queria voltar para casa literalmente.
– Está com raiva?
– Não.
– Tem mais uma coisa.
Me virei o encarando.
– Abby é bem... presente.
Não o questionei. Ouvi Lúcio gritar que havíamos chegado e abrir a porta o máximo que conseguiu. Sandra foi a primeira a me abraçar antes de ser seguida pelo restante da família e Leslie que não tinha um semblante muito animado. Mas não era comigo, como as vezes parecia ser.
Encarei a loira em pé ao lado da mesa de centro. Encarei Marcus e voltei a ela. Tá legal, devia haver uma explicação para isso. Abby era a cópia perfeita de Maggie.
Abby e Maggie eram gêmeas!