O Contrato

DM Pager · Capítulo 3 de 28

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O Contrato

Capítulo 3

 

– Ei, Sara, levanta. Você está atrasada. – Caroline me sacudiu algumas vezes até eu abrir os olhos de verdade. – Cara, você está mais do que atrasada. Você está muito atrasada.

– Para que?

– Encontrar Marcus Foster, levanta daí mulher! – Me empurrou.

As palavras vieram devagar até meu sistema. Então em dois segundos estava dentro do banheiro me matando afogada no chuveiro. Ouvi Santana gritar para não molhar o cabelo e consegui evitar isso a tempo. Encarei o relógio algumas vezes, até conseguir me enfiar em um vestido azul tomara que caia. O tempo estava ensolarado e eu não acreditava nisso, eu suaria até que me acalmasse. Minhas malas estavam prontas e por um segundo pensei em desistir. Então meu celular tocou.

– Susan. – Santana apontou para mim.

– Atende.

– Você deve morar sozinha. Atende você.

– Ela me viu com vocês. – Santana continuou com o aparelho para mim. Respirei e atendi. – Sim.

– Está atrasada. – Ela estava seria pela primeira vez. – O senhor Foster odeia atrasos.

Aí vai uma novidade não muito empolgante: EU SEMPRE ME ATRASO. O que esperar de uma pessoa que até para nascer se atrasou?

– Chegarei em dez minutos. – Assim que eu inventar uma máquina do tempo. Desliguei, chamei um táxi e desci às pressas com Santana e Caroline atrás de mim.

– Por favor, liga se qualquer coisa der errado. Coloquei o número da polícia como o primeiro da lista de emergência. – Santana falava como se eu tivesse cinco anos. – Isso é sério Malvin.

– Tudo bem. – Eu acho.

– O que eu digo se seus pais ligarem?

– Que estou viajando a trabalho. Não deixe Caroline atender, ela pode dar com a língua nos dentes.

Caroline bufou virando os olhos.

– Boa sorte. – Desejaram-me.

Eu esperava mesmo ter sorte com tudo isso. Fechei os olhos parando de encarar a paisagem, tinha que considerar todas as possibilidades como reais. Ele poderia ser um louco sádico, uma pessoa solitária ou realmente um louco sádico. Pensar dessa maneira não estava ajudando muito, então parei de pensar também. Esperava que seu humor que presenciei estivesse pior em razão do meu atraso.

Dez minutos depois estava no local combinado com Susan segurando uma pequena caderneta. Ela sorriu ao me ver e falou com o motorista para colocar minhas malas no carro parado logo atrás e me pediu para segui-la.

Me assustei com o meu tagarelar ao ver Marcus sentado no banco de trás com óculos escuros, cabelo no lugar mexendo em seu celular que por sinal, eram um ano de salário, ou melhor, antigo salário meu. Tentei ser superior também, eles me trataram como uma pessoa arrogante no primeiro encontro. Sara devia ser assim, mas eu tinha certeza que essa pose não duraria muito tempo. Sou uma pessoa falha, muito falha e desligada.

– Desculpe o atraso, estava ocupada.

Deu de ombros e sussurrou algo a Susan. Certo, ignorada por ser educada. Quando o carro começou a se afastar, meu coração começou a bater mais rápido e minhas mãos a suarem. Susan ficava me observando e isso me dava medo.

– Passou tudo a ela Susan? – Me assustei ao ouvi-lo falar.

Susan sorriu.

– Sim. Ela sabe o que terá de fazer.

Fingi não prestar atenção. Porque eu não sabia o que teria de fazer, eu não sabia nem quem era ele além do que o Google me disse, quanto mais o que eu teria de fazer e onde faria isso. Pensei em me levantar e dizer que não durmo por dinheiro, mas a coragem só estava na mente.

Vinte minutos depois estávamos no aeroporto, Susan voltou a se aproximar de mim quando Marcus se afastou e acordei dos pensamentos enquanto o observava.

– Ainda se lembra do que conversamos? – Assenti –Mas vou repetir mesmo assim. Nada de beijos, apenas esteja ao lado dele. Vocês se conheceram aqui mesmo em Los Angeles e estão juntos a um ano. Marcus é alérgico a pasta de amendoim e qualquer coisa que o tenha, não mexa nas coisas dele por nada nesse mundo e muito menos o questione. Sua família é um pouco investigativa demais e como você mesma disse, nenhuma passagem pela polícia.

Sorri. Eu tenho sim, mas ninguém precisava saber disso agora, não é?

– Não se esqueça, vocês não são um casal de verdade. Você foi muito bem recomendada. Estamos entendidas?

Balancei a cabeça nervosa.

Então eu seria a namorada dele? Mas por que? Pensei em perguntar, mas provavelmente – Sara – já teve essa conversa antes. Marcus não me esperou para irmos juntos ao avião. Quando cheguei o encontrei já acomodado.

– Estamos fazendo essa viagem juntos? – Deixei escapar. Me encarou sem responder. – Espero que se lembre disso quando desembarcamos ou te deixo no meio disso tudo e volto para casa.

Volto não, porque não tenho dinheiro para isso.

– Vamos evitar conversas, preciso fazer uma viagem tranquila.

Fresco, isso o que você é. Me encostei na janela sentindo o avião subir, em pouco tempo eu dormiria, eu sabia disso. Esqueci Marcus do meu lado e toda a sua pose de soberano. Dispensei os amendoins que passavam servindo e quase o mandei pegar um só para vê-lo me suplicar ajuda.

Acordei meia hora antes de desembarcarmos. Marcus estava de olhos fechados, a cabeça reta encostada no banco. Ele era bonito, mais bonito agora observando melhor, mesmo parecendo dormir, ele ainda tinha as feições duras. Seu maxilar estava travado, ele tinha o perfeito queixo inglês. Seu nariz era afilado com uma pequena – quase imperceptível – depressão nas laterais. Seus cabelos eram uma mistura de cores entre castanho claro quase um loiro escuro e castanho, prova de que já havia sido muito loiro quando mais novo. Seus lábios eram finos e dariam um belo sorriso, se ele sorrisse. Todo seu rosto parecia ter sido desenhado.

Parei de observá-lo quando percebi que a loira siliconada do lado fazia a mesma coisa. Quando anunciaram o pouso, ele abriu os olhos um pouco assustado, mas sem fazer o drama que eu ou qualquer pessoa normal faria. Ele apenas continuava a encarar o nada, passou as mãos no rosto e me encarou. Pensei em dizer que já havíamos chegado, mas ele percebeu isso sozinho. Permaneceu sentado até conseguirmos sair, pegou nossas malas quando passamos pela fila das malas. E andou na frente – mais uma vez – em direção a algum táxi disponível.

Já deviam ser quase três horas. Mais uma vez fomos automáticos ao entrar no carro, Marcus sussurrou o endereço, recolocou os óculos e se manteve afastado de mim. Me sentia estranha, não saberia explicar se me perguntassem como, mas tudo o que eu queria era o colo das minhas melhores amigas e chorar. Você está sendo renegada, Malvin. Sua beleza não era nada para ele, nenhum olhar de aprovação, nenhum olhar diferente. Era isso, ego ferido. Acontece. Me sentia em um outro mundo, mas era esse o preço que se paga quando não se é honesto e eu não fui, em nenhum momento.

– Meus pais estarão em casa. Talvez mais tarde minha irmã e meu primo estejam.

– Está falando comigo? – Perguntei irônica.

– Estou pagando para sair tudo certo. Você me cobrou caro por algumas semanas, acho certo da sua parte trabalhar direito. – Falou rude. – Como disseram, você é uma classe A.

Dei de ombros encarando a janela, no máximo eu era uma classe C em breve. Você é um problemático e eu não sou a Sara arrogante que talvez gostasse desse seu jeito, se você continuar me tratando assim eu vou chorar cara, e vou desabafar com a primeira pessoa da sua família que vier. Encarei a placa dizendo onde eu estava. Bem-vindo a Flórida.

Outro carro nos esperava, Marcus ainda estava em silêncio quando nos acomodamos. Coloquei meus fones de ouvido e fechei os olhos, em nenhum momento ele disse o quão longo tudo isso seria. Muito tempo depois entramos em uma pequena estrada, era um condomínio fechado de apenas uma casa, o céu alaranjado fazia a paisagem ficar bonita. Era enorme, dois andares e me lembrava aquelas casinhas do Japão, só que a circunferência era um pouco mais campal.

Encarei Marcus, ele segurava o celular, mas logo o desligou e enfiou no bolso. Quando o carro parou vi que uma mulher nos observava da soleira, ela tinha os cabelos repicados até o ombro, um olhar angelical e parecia feliz em ver o desgraçado que saiu do lado contrário ao meu. Ouvi a porta se bater e continuei no meu lugar apenas assistindo a cena e me dei conta de que já devia ter saído também.

– Oi, filho. – Falou calorosa.

Filho? Ela parecia tão nova para ser mãe de um rabugento. Marcus estava sorrindo e comprovando minha tese sobre seu sorriso ser bonito. E era, ele devia sorrir mais vezes, mataria muitas mulheres e mudaria o mundo de quem estivesse do seu lado. Sua energia era carregada demais.

– Senti sua falta. – Segurou seu rosto depositando outro beijo.

– Eu também.

Me posicionei a alguns passos atrás e ela encontrou meu olhar.

– Então essa é a Sara? – Seus olhos castanhos brilharam para mim.

– Sim. – Marcus segurou minha mão com um pouco de luta. Isso estava claro demais em seus olhos. Me puxou para frente.

– Você é linda, sou Sandra – Me abraçou – Mãe do Marcus. Ele não deve ter falado muito sobre mim. – Riu. – Seja bem-vinda querida.

– Muito prazer, sou Sara, namorada do Marcus. – Não sabia o quão interessante saiu minha mentira. – Marcus não é muito falante. – O encarei.

Sandra o fitou e voltou a mim. Ele logo manteve a pose de apaixonado e feliz a fazendo bater palmas voltando para a casa e chamando alguém. Então Marcus se afastou e voltou à cara emburrada de antes pegando o maldito celular no bolso. O que tanto ele vê ali? Fiquei parada na soleira esperando que pegasse as malas e só então o segui para dentro.

Era grande, mas aconchegante, as paredes eram de uma tonalidade quente, laranja e um toque de marrom, tinha uma lareira e me perguntei porque lareira ali, uma TV enorme de dar inveja. Caroline adoraria isso, deixei um sorriso escapar.

Sandra voltou trazendo uma loira com ela. Leslie era seu nome, ela sorriu e me abraçou, passou um tempo encarando Marcus até ele abraçá-la com um braço só de um jeito envergonhado. Trocaram algumas palavras e ela se afastou dizendo que estava na cozinha.

– Devem estar cansados da viagem. Seu pai foi até a centro com Lucio e Nora, parece que Peter não pôde vir.

Marcus bufou.

– Já arrumei o quarto de vocês. Venham ver.

Marcus me encarou e acho que agradeceu por estar com as mãos ocupadas com malas. Perdi a conta de quantos degraus haviam sido até pisar em chão firme. Era um corredor que chamei de mão dupla, pegamos o lado direito onde haviam duas portas que segundo Sandra, uma era um banheiro de emergência e a outra porta era o nosso quarto.

– Nora insistiu para ficar com ele, mas como Peter não pode vir, ela ficou com o do outro corredor. – Sandra abriu a porta. Era um quarto grande, uma cama de casal com lençóis branco e preto, as paredes eram de um amarelo quase branco. A brisa balançou as cortinas e gostei.

Marcus soltou as malas as deixando cair de propósito. Voltei a posição de sentido e o encarei com um meio sorriso.

– Coloquei toalhas novas no armário. – Sandra avisou – Agora vou deixá-los se ajeitarem, qualquer coisa estamos na cozinha.

Assenti louca para que ela saísse e eu ficasse com o ignorante, pelo menos não estaria mais fingindo. Voltei a janela, a praia estava ali do lado, ao longe a alguns belos metros, tinha outra pequena casa. Não sabia ao certo se realmente era uma casa.

– Eu vou dormir aqui – Apontou para o sofá – Pode ficar com a cama.

– Tudo bem. Aquilo é uma casa? – Perguntei.

Marcus não me respondeu. Abriu sua mala e tirou algumas peças indo em direção ao guarda-roupa. Não importava, uma hora eu poderia ir até lá e descobrir sozinha.

– Se quiser tomar um banho, sinta-se à vontade. – Apontou para a porta do banheiro.

– Pode me avisar quando terei de ser excelente? – Perguntei um pouco irritada com sua mudança de humor.

– Todo o tempo. – Frieza escorria de sua voz.

– Certo. – Me levantei indo até minha mala. Peguei o primeiro vestido longo que achei e segui para o banheiro.

O banheiro era dois do meu, encarei a banheira, mas como era o primeiro dia me senti intimidada para usufruí-la, optei pelo chuveiro mesmo. Marcus parecia não estar no mesmo ambiente que eu, ele agia como um gato. Tentei não demorar muito, quando sai do banheiro ele estava parado encarando o nada na janela. Estava com uma bermuda branca e uma camisa polo preta, seus cabelos ainda estavam arrumadinhos. Engomadinho por inteiro. Pigarreei e ele se virou lentamente.

– Pode me olhar um pouco melhor? – Pedi – Estou me sentindo estranha com esse seu olhar de enojado.

Sorriu sem humor.

– Não diga como eu tenho que agir.

– E você pode dizer como eu tenho que agir?

Se afastou da janela.

– Tem uma grande diferença entre nós dois. – Calçou os chinelos indo em direção a porta. – Eu estou pagando e você obedecendo.

Senti um soco no estômago e meus olhos cheios demais, me afastei indo até a janela. Era um sinal de que não o seguiria e ele pareceu entender, ouvi a porta se bater atrás de mim.