O Contrato

DM Pager · Capítulo 19 de 28

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O Contrato

Capítulo 19

 

– O que foi isso? – Santana perguntou.

– Ele não vai embora. – Caroline falou da janela.

– Eu preciso ficar sozinha.

– Sara...

– Por favor.

Ainda não conseguia acreditar que Marcus havia me procurado muito menos que passou quase uma hora dentro de seu carro em frente ao meu prédio. Seria sempre assim? Eu seria cruel por dizer não? E ele o coitado cheio de problemas? Ele precisa se socializar mais e saber que o mundo gira para todos.

Santana mexia em meu cabelo quase me fazendo dormir e foi a última lágrima que me fez cair na real e contar tudo o que aconteceu, cada detalhe. Até a falsa ida a Phoenix que na verdade passei com ele. Caroline gritava a cada nova descoberta e comemos pizza para embalar as novidades.

– Você e o Foster transaram? Oh Meu Deus, devo dizer que estou com inveja.

– Caroline! – Santana lhe deu um olhar duro.

– Sara, ele te levou para passar oito dias com ele, se abriu para você. Vocês dormiram juntos pelo que entendi, ele queria. Ele só é idiota, mas está apaixonado.

– Claro que está, mas então por que sumiu? – A encarei.

– Ele te levou para passar o natal com ele.

– E o que isso muda?!

– Tem uma mulher que é a cara da ex dele. Ela se diz amiga, mas ela o quer também. No máximo ela encheu a cabeça dele contra você. Se ele é vulnerável assim, é fácil de ser manipulado.

– Marcus não tem cinco anos. – A encarei.

– Mas ele perdeu a mulher e o filho! Ele se sente sozinho Sara e com medo de errar. Tá que ele age como idiota, mas... vocês deviam tentar se entender, parar de gritar por dentro e por para fora. Nem que para isso ele se magoe mais. O faça ir ao limite.

– Caroline, você conseguiu me assustar. – Santana falou. – Conseguiu entender a função do seu cérebro?

Caroline lhe mostrou o dedo. Talvez ela tenha razão, mas tudo sempre será mais fácil em palavras.

– Isso nunca vai dar certo. Vai ser melhor assim.

– Tudo bem, estamos aqui para qualquer coisa, podemos bater nele. Três contra um, ele tem força e nós temos unhas. – Balançou as longas unhas vermelhas.

– Preciso de um emprego temporário enquanto fico por aqui.

– Estão precisando de gente na cafeteria – Santana avisou – Aparece lá.

– Me acorde – Gritei antes de ouvir a porta de seu quarto bater quando me deixaram.

As sete da manhã já estava de pé, Caroline me encarava tentando achar algo de anormal, Santana por mais curiosa que estivesse, não tentava a mesma investida.

– Com quem eu falo? – Perguntei disposta.

– No cartaz diz com o gerente, boa sorte.

– Obrigada.

Santana como sempre foi a primeira a deixar o apartamento, Caroline logo em seguida, me fazendo prometer ligar para ela assim que deixasse a entrevista. Não havia mais roupas chiques em meu guarda-roupa, o mês em casa fez eu me acostumar com jeans e camiseta. Ainda era estranho não estar de salto, os cardigãs da moda, mas estava superando.

Andando, eram cinco quadras e não foi tão ruim. Na verdade, foi sim, mas era o único jeito. Procurei o aviso na porta e não achei, pensei em dar meia volta e ir para casa, mas entrei. Uma ruiva sorriu ao me ver.

– Bom dia. Uma mesa? – Perguntou simpática.

– Não, na verdade quero saber sobre a vaga.

Ela sorriu.

– Ah sim, ainda estamos precisando.

– Estou interessada.

– Vem, vamos conversar na minha sala.

Passei meia hora com Savanna, tudo o que eu teria de fazer era atender no caixa e servir mesas quando preciso. Eles não aceitavam atrasos e era proibido comer qualquer coisa fora do horário. Não parecia tão ruim assim, então fechamos o acordo. Começaria no dia seguinte.

Liguei para Caroline e deixei uma mensagem a Santana, estava feliz, pela primeira vez me sentia bem. Limpei o apartamento quando voltei para casa, estava um verdadeiro lixão. As seis Caroline chegou, feliz demais para quem passou a tarde trabalhando.

– Vamos sair?

– Não.

– Sara!

–Trabalho amanhã cedo e não quero ir parecendo um zumbi para o meu primeiro dia.

– Por favor, apenas uma hora.

Neguei.

– Meia?

– Nem dez minutos. Você está atrasada.

Santana foi breve também, em pouco tempo as duas corriam para a porta não sem antes insistir para acompanha-las mais uma vez.

– Estou bem.

– A casa dos seus pais te deixou uma velha. – Caroline me jogou um beijo.

Acenei.

– Qualquer coisa liga.

– Claro.

Fechei a porta. Mudei de canal para uma série sobre médicos, esperava não ver nada que me fizesse ir para o banheiro. Com vinte minutos de seriado a campainha tocou. Me arrastei até a porta, esperava ser uma delas ou o porteiro qualquer coisa, menos ele. Mas era ele.

– Precisamos conversar. – Disparou.

– Fala.

– Aqui? – Apontou.

Respirei fundo.

– Eu não quero conversar com você Marcus. – Choraminguei cansada. – Sério, eu preciso de um tempo para mim. Fiz planos e sua presença não está nele.

– Está mentindo.

– Pareço estar? – cruzei os braços. Tinha que parecer confiante.

– Só me escuta.

– Eu te procurei... para me escutar – Controle a voz –Você não quis me escutar.

Afastei quando sua mão estendeu em minha direção. Não era uma rejeição, era apenas me manter segura dos meus próprios sentimentos, que estavam começando a me perturbar novamente.

– Se eu sair, juro que não volto nunca mais.

– Então acho que podemos dizer adeus agora.

– Que droga! – Gritou me assustando – Você não parece estar me escutando.

– Eu estou escutando. Fala.

Respirou.

– Por que sumiu?

– Como? – Sorri – Eu não estou ouvindo isso. – Ri.

– Você sumiu, mais de um mês...

– Estava me vigiando?

Negou.

– Marcus...

– Não estava... porque não sabia onde estava.

– Certo, vamos ao que interessa. O que quer saber? – Perguntei calmamente.

– Por quê mentiu?

– Não perguntou a sua secretária ainda?

– Sim. Mas se lembra... das nossas conversas, de exigir a verdade e mentir? – Ele estava sério agora. Isso me acertou um nervo.

– Eu não podia contar.

– Mas podia me usar? – Seu olhar presunçoso estava lá.

– Você deu liberdade para isso. Poderia ser qualquer outra, Foster!

– Marcus, me chame de Marcus. – Apontou.

– Foster! Eu prefiro Foster. Só fiz o que fiz porque precisava de dinheiro, qualquer um no meu lugar faria a mesma coisa. Estava prestes a ter que sair daqui ser presa por dívidas que só Deus sabe como farei para pagar e não farei com o seu dinheiro. Me sinto bem por isso, aprendi que o que vem fácil, vai fácil. Eu quis te contar no começo, mas você foi tão rude e idiota que a culpa de "roubo" saiu das minhas costas. Então você voltou e ela voltou também. Era só um maldito contrato. Era para ser apenas isso, você não se afastou e eu me deixei levar. Quanto mais alto voar, maior a queda. Eu caí e acordei, já deu.

– Eu não fugi – Sussurrou.

– Que bom saber.

– Abby me ligou... naquela manhã. – Respirei fundo. Minhas mãos estavam suando. – Ela disse que você era uma farsa.

Sorri.

– Eu disse que ligaria depois, mas ela insistiu para que eu visse meu e-mail. Depois marcou um encontro. De repente eu não sabia quem você era.

– E ainda não sabe e não vai saber.

– Eu deveria saber.

– Não há nada para saber. Sou uma pessoa completamente idiota, que se arriscou na maior loucura de sua vida para a nada. Que se apaixonou por um cara problemático que vive a sombra da mulher morta, que tem uma "amiga" encarnada no demônio que faz sua cabeça, decide seus atos, que joga o jogo que ela quer e o faz de fantoche, e pior de tudo você permite isso. Você é um babaca.

– Cala a boca. – Sua expressão era dura quando mandou magoa escorrendo por sua voz. Era como se eu tivesse lhe acertado com um tapa.

– Não! Não calo! – Gritei.

– Você não sabe o que está dizendo.

– Foi ela não foi? Foi ela que retirou todo o dinheiro da minha conta. Ela agiu por você, porque não se impôs. Você deve ter mexido seus pauzinhos, porque eu sei o quanto é bom nessas coisas de invadir contar, ensinou a ela porque não teve coragem de fazer você mesmo?

– Ela fez para o meu bem.

– Claro que fez. Ela faz qualquer coisa por você, inclusive investigar minha vida da noite para o dia. Precisa que eu escreva uma carta dizendo que sua presença não me importa? Que Marcus Foster não passou de um contrato?

– Por Deus! – Andou de um lado a outro – Me deixa pensar.

– Pensar em que Marcus? Não tem o que pensar. E não adianta muito fazer isso quando qualquer decisão que você tomar outra pessoa passará na frente.

Me encarou com as mãos na cintura e o olhar duro, ele estava ficando vermelho. Sua barba lhe deixava um pouco mais velho e isso o deixaria ainda mais poderoso. Seus olhos começaram a marejar.

– Quem é Victor?

– Alguém.

Gargalhou.

– De Phoenix?

– Provavelmente. – Me afastei.

– Seu amigo. – Segurou meu braço.

– Não tente. – O encarei.

Se aproximou, sua testa estava manchada de gotinhas brilhantes. Marcus estava suando.

– Você disse que me amava. – Havia tristeza em sua voz.

– Também te mandei esquecer. – Puxei meu braço.

– Eu não esqueci. – Me encarou – Você pelo jeito já. Tem certeza que era amor? – Zombou.

– Pensou que eu te esperaria para sempre? – Tentei não desmaiar na frente dele.

– Usar uma pessoa para esquecer a outra é errado Malvin.

– Está estudando essa frase? Porque você é bom nisso, em usar as pessoas para ter algum conforto psicológico.

– Eu não te usei! – Segurou meu rosto com força – Você sabe que eu não te usei.

– Isso não importa mais. Eu estou bem agora – Tentei afastá-lo.

– A quem está enganando?

– A quem está tentando mudar Marcus?

Muito perto. Meu coração estava batendo em meus ouvidos, a temperatura havia aumentando.

– Foi só um mês.

– Foi o suficiente.

– Mentira!

– Não posso fazer nada se não acredita.

– Você dormiu com ele? Com esse Victor?

Segurei sua mão o afastando.

– E se eu tiver? – Ri.

Seus olhos estavam nadando em lagrimas, mas não caia uma. Seu rosto estava vermelho e vi puro ódio em seus olhos. Devia me alegrar com isso?

– Você é uma idiota. – Gritou magoado.

– Eu sei.

– Uma completa idiota.

– Fui todo esse tempo. E agora resolvi viver a minha vida. Como era antes disso tudo me estacionar e me tornar uma pessoa frustrada.

– O amor não acaba assim. – Sussurrou contra meus lábios – Não é assim que funciona.

– Você vive um amor... de anos – Tentei controlar minhas lágrimas, mas elas estavam vindo.

– E se eu disser que ele não existe mais?

Neguei contra seus lábios, que estavam apenas se tocando.

– Me escuta, se eu disser que ele não existe mais, Sara?

– Terá que provar.

Sua mão afundou em meu cabelo puxando minha nuca. Senti a dor latejar ali, seus lábios nos meus urgentes. Havia um descontrole que nunca presenciei em Marcus. Isso não podia ser amor, ainda conseguia ver que não era, talvez saudade. Eu não queria ver saudade, afeto, queria ver amor da mesma forma que o amo e se não fosse para ter isso, preferia não ter nada. Mas aproveitei cada pequeno instante.

O afastei levemente ouvindo o telefone tocar, seu olhar irritado voltou e isso me fez querer rir sem motivo algum.

– Você precisa ir.

– Não.

O empurrei para porta.

– Sim. Agora.

– Você não quer isso. – Tentou me parar.

– Eu não sou um estepe.

Segurou a porta me prensando contra a parede.

– Eu sei que você não é a droga de um estepe. Então pare de agir assim, pare de fingir que não se importa.

– Talvez seja porque não me importo.

– Isso é o que você diz – Me soltou indo em direção ao elevador. O observei soltar a gravata irritado – Não é o que eu acredito – A porta se fechou.

Maldito! As lágrimas vieram sem controle, mas eu jurei não chorar por ele. Enquanto Marcus Foster não souber andar com as próprias pernas, ele não terá o menor sentimento que parta de mim. Isso é uma promessa... E ele não disse que me amava também. Porque ele não me ama e eu não sei o que sou para ele.