O Contrato
Capítulo 7
Marcus voltou a criar uma bolha só dele, tentei acompanhá-lo sem ser comida por mosquitos ou escorregar em alguma pedra ou nos meus próprios pés. Ele não parecia ser o cara que pararia para conversar.
– Como está seu joelho? – Perguntou sem olhar para trás.
– Superando o atentado e como está o seu humor? – Brinquei.
Bufou.
– O de sempre. – Conclui. –Certo, falando sério agora, por que tudo isso?
– Por que você ganha a vida assim? – Rebateu minutos depois.
Eu não ganho a vida assim. Você que entrou na minha vida.
– Também tenho os meus segredos. – Joguei.
– Lembre-se disso quando me questionar.
Um ponto para ele.
O resto da caminhada ele fez praticamente sozinho, eu não queria mais segui-lo e nem me importava com isso. Acabamos voltando para a praia, Marcus deixou seus chinelos sobre uma pedra, tirou a camisa e caminhou em direção a água e lá estava a cicatriz mais uma vez, era uma mancha vermelha poderia ser de nascença e não necessariamente uma cicatriz.
Um flash se formou em minha cabeça. A casinha parecia ter sido tomada pelo fogo, Marcus tem uma cicatriz que poderia ter sido causada pelo fogo. A família dele o trata como louco, pelo menos é o que parece; Marcus tentou se matar? O perdi de vista quando mergulhou, me sentei ao lado de suas coisas ainda remoendo o que havia me dito até tomar coragem e decidir entrar na água também. Tentaria tocar sua cicatriz, contudo por hoje evitaria perguntas.
A água estava fria demais para o meu gosto e esperei que chegasse a meu umbigo até que ele emergiu a minha frente. Fingi ter me assustado com isso.
– Muito gelada – Disfarcei.
– Está boa. – Sorriu de lado. – Você realmente não sabe nadar?
Neguei. Em parte, porque bater os pés e as mãos para uma pessoa altamente descoordenada como eu levaria ao afogamento.
– Por mais que minha vontade seja de ir mais longe eu evito, poderia não voltar. – Cruzei os braços.
Mergulhou e emergiu metros depois mais longe.
– Não precisa se aparecer. – Fiz uma careta.
– Não estou me aparecendo. Estou fazendo o que pessoas que sabem nadar fazem na água. Me divertindo.
Continuei no meu lugar, às vezes dava alguns passos atrás quando a água me levava e isso foi fazendo as horas se arrastar.
– Vem, vou te mostrar que não é tão fundo. – Chamou. Isso era o mais perto de agradável que ele estava se tornando.
– Está sendo legal comigo?
– Estou tentando. Não quero criar laços, entende?
Entendo e até deveria dizer não. Mas segurei sua mão e deixei que me levasse, a água foi subindo e subindo e só segurar sua mão não me deixava tranquila. Mas agarrá-lo não soaria bem.
– Marcus está ficando fundo. – Meus dedos dos pés estavam fincando na areia. E você me parece louco para colocar toda minha confiança em suas mãos.
– Aqui está bom para você? –Perguntou.
– Está perfeito.
Meus lábios estavam tremendo. Segurei seu ombro, onde parte da cicatriz poderia ser tocada. Sem querer me peguei passando muito tempo a encarando e ele percebeu. Tinha uma certa textura.
– Mancha de nascença?
– Parece uma? – Seu humor foi levado embora.
– Não sei, apenas perguntei. – Desviei o olhar.
– Não é uma mancha de nascença.
– Acidente ou suicídio? – Deixei escapar meus próprios pensamentos. Segurou minha mão a tirando de seu ombro. Seu olhar fez a água ficar mais fria.
– Não tente investigar minha vida. – Mandou. Podia ver a força que usava em seu maxilar.
–Não estou investigando. – Em parte.
– Está sim. Por isso saiu com minha irmã. – Gritou.
– Não...por que está dizendo isso?
– Porque Nora é fácil de ser enrolada. Porque é assim que todas tentam me compreender e conseguir algo em troca seja financeiro ou psicológico.
–Qual é o seu problema? – Gritei.
Suas mãos me apertaram com força me fazendo lembrar que tinha um braço em volta de mim. Marcus estava tão perto que eu não sabia se era realmente meu corpo tremendo ou o seu.
– Fique longe da minha vida. – Sussurrou cada palavra, seu hálito quente batendo em meus lábios.
– Um pouco tarde demais, você me colocou nela. –Não vi mais nada. A onda me pegou desprevenida e por um instante me levou.
Meu corpo girou e não senti nada amplo sob meus pés. Tentei me lembrar de como se nadava. O ar havia se evaporado e meu nariz queimou quando sem querer respirei. Pensei que morreria ali.
Areia. Marcus segurava minha cabeça e me encarava, seu rosto estava vermelho e pequenas gotas d’água caiam de seu cabelo.
– Graças a Deus, quer me matar? – Sussurrou segurando minha cabeça em seu peito.
Falando em cabeça, a minha estava doendo, pesada e meu nariz queimando.
– Essa função é sua. – Resmunguei sentindo as lágrimas, tentei me soltar, mas ele já me carregava. Tentei me soltar, mas ele não queria a mesma coisa.
– Pare ou a deixo aqui mesmo. – Mandou.
Fechei os olhos, eu não queria respirar fundo, mas seu perfume era forte e não parecia ter estado em água salgada. Ouvi o barulho da porta e o vento quente nos receber. Estava na cama e estava sem a parte de cima do biquíni.
– Como...
– Deve ter saído com a onda... – Virou o olhar.
– Mas...
– Não se preocupe, eu não perderia meu tempo tirando sua roupa. – Continuou encarando a janela.
Me sentei sentindo a cabeça pesar de novo. As coisas com Marcus aconteciam muito rápido, não tinha tempo para concluir os pensamentos e um segundo virava uma vida inteira.
– Quero voltar. – As lágrimas vieram. Uma mistura de magoa, medo, tristeza e sanidade.
– Ainda não. – Falou preso em seus próprios pensamentos.
– Eu quero voltar. – Gritei. – Que se dane seu dinheiro, eu quero voltar.
– Voltar para onde Sara? – Me encarou.
– Para minha casa. Eu quero voltar para minha casa, Marcus. – Apertei meus braços contra meus seios ainda a mostra.
– Temos um acordo. – Falou. Puxei a camisa de sua mão.
– Que se dane seu acordo. – A vesti. – Não vou esperar que me mate para eu voltar para casa dentro de um caixão. Isso se você não esconder o corpo.
Meu queixo estava tremendo, de repente tudo o que sentia realmente era frio. Eu não devia me importar com ou como Marcus agia. Isso era uma farsa, mas algo estava mexendo comigo de uma hora para outra. A necessidade de atenção e a preocupação se sobressaindo a curiosidade. Eu sabia o que eu estava fazendo, não era inteligente.
– Me desculpe. – Segurou meus ombros.
– Desculpas não salvam minha vida. – Encarei seu peito para não o olhar nos olhos.
– Sara… – Segurou meu braço.
– Me solta, você está me tratando mal desde que cheguei, sinto muito se suas outras acompanhantes aceitavam isso, você devia recompensá-las muito bem...
– Não fale o que não sabe. – Sua voz era dura. Como se eu tivesse cinco anos.
Bufei.
– Isso parece meio óbvio. – Ri sem humor.
– Não durmo com pessoas como você.
O encarei. Seu olhar me cortou em um milhão de pedaços.
– Me sinto muito bem por saber disso, a intenção aqui era trabalhar. Mas não trabalho mais para você e quer saber, deve ser por isso que você é assim, sozinho. Você não merece ter companhia, você nem sabe o que isso.
Sua respiração ficou lenta e sua mão soltou meu braço. Depois disso o vi sair e de todas as loucuras que fiz, essa me mandaria para o inferno porque além da mentira, eu acrescentaria uns três, ou quatro pecados capitais que possuo.
Santana sempre tem razão e esse é um dos motivos pelo qual eu gosto quando ela fica calada. É quase uma premonição do que vai acontecer. Você vai se arrepender, você vai chorar, você vai se machucar, vai presa ou para o inferno. Ela tem razão. Isso sempre acontece, todas às vezes. Mas dessa vez eu fiz sozinha toda a merda e nem podia culpar Caroline, bem em parte podia, mas essa parte era muito pequena.
Agora metade de mim queria ir embora e a outra mais egoísta queria desencavar o passado de alguém. Era uma versão de CSI leve, sem corpos, pelo menos ainda.
Estava escurecendo quando a porta se abriu e o vento gelado bateu em meu rosto. Estive encolhida como um feto na cama por um longo tempo. Eu não perdi tanto tempo assim pensando ou perdi? Isso não importava.
Marcus me encarou, sem pedidos de desculpas ou qualquer droga do tipo. Eu não esperava nenhuma gentileza vindo dele. Continuei encolhida em meu lugar.
A porta se fechou com o vento e minha cabeça doeu. Ele se sentou em uma das cadeiras perto da janela e praguejou baixinho. Meus olhos de repente estavam nadando em lágrimas e a sensação que tive ao analisar a situação foi a mesma que tive quando tinha seis anos e tentava fazer a garota popular da sala me aceitar. Eu tentei de todas as maneiras, mas ela me menosprezava até que um dia me cansei e fui expulsa da escola.
Com Marcus não era diferente. Eu não podia exigir que confiasse em mim, mas ser gentil de vez em quando, sorrir e tentar conversar ajudaria muito no nosso convívio. Essa é a lei para ser sociável.
– Quando vamos voltar? – Perguntei.
Me encarou
– O tempo está ruim.
– Não está me prendendo aqui, está?
–Não. –Voltou a encarar o nada. –Estamos presos em um contrato.
–Você não pode me prender em nada. Sou livre.
– Você leu as letrinhas no fim dele? Se quebrar o contrato além de te caçar, te faço pagar uma bela multa. – Ameaçou.
Acho que cuspi em um ato de nervoso. As lágrimas desceram, ficamos em silêncio por muito tempo até meus olhos se fecharem. Não sei por quanto tempo dormi, acordei com Marcus me encarando antes de se voltar para o seu relógio. Sua mão se aproximou e pensei em me afastar até senti-la contra minha testa.
– Como se sente? – Perguntou me analisando.
– O que fez comigo?
– Te passei febre por telepatia. – Resmungou irônico. – Você dormiu por três horas e sua febre vem e vai. Precisamos voltar.
– Vai lá Deus e faz a chuva passar. – Resmunguei.
Eu acho que vi um sorriso. Marcus se afastou mexendo uma panela no fogão, se demorou por um tempo antes de voltar a mim com um pote de plástico, estava nas coisas que Leslie mandou. Me fitou o estendendo.
–O que é? – Encarei a coisa.
– Veneno, pretendo te matar e enterrar seu corpo por aqui mesmo.
Não revide você está com fome. E não era bem mentira eu estava mesmo. Peguei o pote queimando minha mão e tentando me sentar, mas me sentia um trapo. Nada além disso, então ele o tomou de mim.
– Eu posso fazer isso!
– Se queimando?
– Qual é a possibilidade de você me engasgar ou me der sopa quente? – O encarei.
Arrastou uma cadeira até o lado da cama.
–Se você não abrir a boca? Todas.
Abri a boca apenas para comer, nada de assunto. Não que eu tivesse medo de que me queimasse. Apenas porque ele parecia outra pessoa assim e era um ciclo, não daria mais do que dez minutos para mudarmos.
– Vou tentar levá-la a costa pela manhã. Consegue não morrer até lá? – Perguntou sério.
Bufei.
– Farei o meu máximo. E você consegue não me matar até amanhã?
Deu de ombros.
A chuva não cessou. A natureza me odiava de alguma maneira. Marcus estava sentado em sua cadeira vendo os raios pela janela e acho que conseguiu ouvir meus dentes se batendo. Sua mão estava fria quando tocou minha testa.
– Droga!
– Estou fazendo meu máximo. – Resmunguei com um sorriso.
Marcus me encarou por alguns segundos antes de se afastar novamente e fechar a janela. O quarto estava escuro e frio. Pensei em protestar, talvez ele achasse que fossemos vagalumes, mas me calei quando entrou debaixo do lençol fino e lentamente deixou seu braço me envolver. Ele estava quente, muito quente. Não respire. Me obriguei um pouco tarde demais. Marcus cheirava bem, perfeitamente bem.
Certo, eu estava delirando em febre, nada além disso.
– O que está fazendo? – Murmurei.
– Não te deixando morrer.
– Mas...
– Por favor, não diga nada. Apenas durma.
Estávamos passando o perímetro de Marcus. Marcus estava me deixando entrar em seu perímetro.
– Não estou com sono, estou com frio.
– Foi uma péssima ideia trazê-la. – Falou consigo mesmo.
Estiquei minha mão até tocar sua pele. Seu corpo ficou rígido.
– Devo concordar. – Murmurei.
– Foi uma ideia minha trazê-la para cá em geral.
– Podemos ir embora.
– Não dá agora.
– Por que?
Suspirou.
– Chega de perguntas por hoje.
– Do que você tem medo Marcus? – Fechei meus olhos.
Ele não disse mais nada e pouco depois fingi que estava dormindo apenas sentindo sua respiração bater em meu rosto e seus braços me apertarem com mais força. Eu não esperava essa reação de Marcus Foster. Medo ou trégua? Eu nunca saberia sem causar uma guerra em cima de minhas perguntas. Mas não desistiria.