O Contrato
Capítulo 15
Acordei com Marcus sentado a meu lado, os cabelos molhados e de moletom diferente do que havia dormido noite passada. Senti meu ombro doer um pouco me lembrando que ele dormiu apoiado em mim.
– Bom dia. – Falou.
– Ainda é de manhã?
– Sim, são dez horas agora. Fiz o café da manhã.
Sorri.
– Está comestível?
– Não sou nenhum chefe de cozinha, mas sei fazer um café da manhã – De repente era o senhor mal-humorado. Chutei sua perna de leve.
– Sei que pode fazer um café da manhã. Estava apenas te provocando.
Encarou o teto antes de me encarar.
– Isso é meio perigoso. – Se levantou – Vamos tomar café – Chamou.
Segui para o banheiro me apresentando melhor. Troquei a roupa de dormir e calcei meus chinelos, a casa estava silenciosa de novo e havia sol. Não era um sol entre nuvens, era sol forte e quente bem estranho para a época em que estávamos. Marcus estava terminando de ajeitar os pratos na mesa.
– Dois?
– Sim.
– Onde estão Fernando e Regina? – Olhei ao redor.
– Foram embora – Falou com desdém.
Foram embora ou ele os expulsou? Conhecia muito de Marcus para saber que sua gentileza era para poucos.
– Marcus. – Cruzei os braços.
– Eles foram embora. Há duas horas atrás. – Falou tranquilamente.
– Simplesmente foram?
Me encarou cruzando os braços também.
– Não, eu os teletransportei.
– Engraçadinho, acordou de bom humor. Você os mandou embora?
– Acha que os mandei embora?
– Pelo menos você disse que faria isso.
– Mas eu não fiz. Fernando disse que o tempo estava bom e foram. Ele... talvez tenha deixado seu número. – Encarou o prato – Mas não consegui anotar. Sou péssimo para gravar as coisas, então...
Sorri arrastando minha cadeira.
– Já pode parar de mentir.
– Por que sempre acha que estou mentindo? – Perguntou ofendido.
– Quer mesmo que eu diga? – Ergui uma sobrancelha para ele.
Ovos mexidos era o cardápio, Marcus me observava comer esperando um elogio como uma criança mimada. Eu sabia que ele estava tentando ser bom em tudo, tudo o que Fernando se mostrou ser em pouco tempo. Em um espaço de tempo tão curto que eu nem me lembrava mais.
– Podemos caminhar – Desistiu de esperar meu elogio – Se quiser, claro.
– Claro. Antes que o tempo se revolte.
O ajudei com a louça, vi que havia jogado o que restou do jantar fora, mas não o questionei. Me espantei quando segurou minha mão me arrastando para fora de casa. Deveria manda-lo se acalmar antes que tivesse uma crise de infantilidade? Eu não estava escolhendo alguém, ele parecia agir como se eu estivesse.
– Eu não os mandei embora. Estou falando sério. – Me fitou.
– Eu acredito em você.
– O que achou de Fernando?
Seu braço passou por meu ombro. Menos possessivo e mais amigável.
– Ele me pareceu um cara legal. Uma pena a mulher dele não ter visto isso. Ele não parece o tipo de cara que mereça uma traição.
– Por que?
– Hum, ele é cavalheiro. Não um Don Juan barato. Parece o tipo de cara que se joga aos pés da mulher amada.
Marcus riu baixinho.
– O que foi?
– Nada.
– Você não acredita que ele possa ser um cavalheiro? – O encarei.
Marcus chutou a areia como que para relaxar.
– Eu não disse isso. – Se defendeu.
Dei de ombros.
– Claro que não.
– Se encantou por ele?
– Não. – Andei um passo à sua frente já sentindo a ondas quebrando em meus pés. A água estava congelando.
– Eu gravei o número dele. – Falou.
Parei nos trombando.
– Eu não quero.
– Você parece encantada, só isso.
– Se eu estivesse encantada por ele eu teria dormido na sala. Nada me impediria já que ele estava separado. – Voltei a caminhar. Dois segundos depois ele estava atrás de mim.
– Está falando sério?
– Pareço estar brincando? Seria tipo, saia de férias antidepressiva com o Foster e ganhe um príncipe encantado que sabe cozinhar. – Ergui as mãos.
Marcus ainda me encarava com as mãos na cintura. Eu queria rir da sua expressão, mas ele merecia seja lá o que estava se passando.
– De todos os absurdos, nesse você se superou. – Falou.
– Onde está o absurdo? – Imitei sua posição.
– Você nem o conhece. – Falou um tom mais alto.
– Eu também não te conhecia.
– Agora nos conhecemos e muito bem. Consegue se lembrar?
– Talvez, quem sabe? – Joguei.
– Eu sei, por sinal, ainda me lembro dos sons que fazia enquanto eu estava dentro de você. – Ergueu uma sobrancelha em desafio.
Corei.
– Enfim, isso não é um absurdo. – Voltei a caminhar.
– Vai atrás dele.
– Deus me deu pernas, não asas. – Acenei me afastando.
– Posso te levar.
Parei o encarando.
– Sério? Faria isso por mim? – Continuei alimentando sua ira.
Resmungou fazendo o caminho de volta e consegui alcança-lo.
– Você é um idiota.
Seu olhar estava focado no chão. Precisei me enfiar em sua frente para que pudesse me ver.
– Acha mesmo que eu iria te deixar sozinho?
– Não temos objetos cortantes – Resmungou. O parei com as mãos.
– Fernando não faz o meu tipo. Porém só o fato de cozinhar bem já ajuda.
Estalou a língua encarando o céu. Ri.
– Mas eu não iria com ele se me convidasse. – Segurei seu rosto abaixando sua cabeça, para me encarar. Maldita altura.
– Por que?
– Por que não sei qual de nós dois é o mais idiota. Então eu ficaria.
Sorriu quando não conseguiu segurar por muito mais tempo. Mesmo assim, encarava o nada. Eu ficaria com ele, porque era a mais idiota.
– Não vamos mais falar nele, pode ser?
Assentiu.
– Abraço de amigos? – Perguntei teatralmente, Marcus Foster corou. – Vamos lá. – Continuei de braços abertos até ele tirar as mãos dos bolsos do moletom e me abraçar.
O balancei.
– Isso, está mais calmo? – Perguntei dando tapinhas em suas costas.
– Não sabia que existia essa parte super humorada em você.
Ri me afastando.
– Você precisa sorrir mais. Não levar as coisas tão a sério.
– Vou anotar isso.
Seu braço voltou ao meu ombro e caminhamos em silêncio. Não era assim tão ruim.
– Quanto tempo irá ficar fora? – Perguntou tempo depois.
– Eu não sei, mas um longo tempo. – O que não era mentira.
– Por que?
Me sentei fazendo buracos na areia com os pés.
– Eu preciso.
– Por que?
– Porquê sim.
Encarou o mar, um milhão de perguntas passando em seus olhos.
– Eu vou sentir a sua falta.
O fitei.
– Não.
– Vou. – Suspirou.
– Por que?
– Porquê sim – Sorriu e empurrei seu ombro.
– Isso é surreal. Tudo o que eu não esperava. – Começando por me apaixonar e constatando que era a primeira vez que isso acontecia.
– Nem eu...Sabe. – Respirou fundo – Eu não devia ter me apegado tanto a você. Acho que já disse isso. – Me fitou – Mas aconteceu... e isso só havia acontecido com uma pessoa.
– Maggie?
Negou.
– E parece errado de novo.
– Por que seria? A quem você deve uma explicação? A alguém que já morreu?
O silêncio se arrastou por longos minutos.
– Eu não vivo um eterno luto.
– Claro que não. Você nem aceitou a morte ainda.
– Não fale como se fosse fácil – Resmungou irritado.
Dane-se.
– O que há de errado em sermos amigos, Marcus?
– Não estou dizendo que não podemos ser.– Se exaltou – Estou dizendo que sabemos o que está acontecendo.
– E o que está acontecendo?
Fechou os olhos.
– Estamos sentindo uma atração...
Bufei.
– Atração. Que bela classificação.
Sorriu sem humor.
– Da última vez que isso aconteceu... foi exatamente assim.
O fitei.
– E deu errado... e tudo voltou ao normal.
– Eu não sou seja lá quem é que você esteja falando...
– Abby. – Soou baixo e culpado.
– Abby? Irmã...
– Sim. Estava em um péssimo momento e passamos muito tempo juntos e isso estava me fazendo bem... ela estava ali.
– De verdade, a minha vontade é de socar a sua cara – Me levantei.
– Por que? – Me seguiu.
– Você me deu uma cruz para carregar. Quase me fez me sentir culpada por Maggie e me diz na maior tranquilidade que ficou com a irmã dela. Isso sim é uma falta de respeito, Marcus.
Me puxou.
– Eu sei que é, mas isso é passado.
– Vamos falar de passado e que tal acrescentarmos superação! – Gritei. – Machuca? Claro. Mas você não precisa deixar de viver. E lembre-se todas as vezes que se opor contra os outros sobre a memória de Maggie não se esqueça que você já esteve com a irmã dela "superando" – O empurrei.
– Por que está irritada?
– Você não está me perguntando isso!
– Eu estou. – Falou.
O encarei.
– Você a tratou como me tratou, Marcus? – Perguntei engolindo o nó em minha garganta. – Como imaginei.
Ele não me seguiu. Não estava com raiva por ele me tratar mal quando falava de Maggie. Estava com raiva por ele ter feito me sentir a pior pessoa e se achar no direito de se sentir atingido quando o que fez nem estava no mesmo nível que minhas ações. Anotar que já odeio Abby, de maneira egoísta não por Maggie, mas por se aproveitar da situação. A odeio pelo modo como ele fala dela, como se fosse uma santa e me tratar como o lado mau da coisa toda.
Quando deixei meu quarto, o vi na varanda em uma das cadeiras. Segui para cozinha a fim de preparar alguma coisa para comer, mas tudo o que fiz foi pegar minha comida da noite passada e requentar no micro-ondas.
Lavei meu prato e me refugiei no sofá, ele entrou seguindo para o segundo andar, mudei os canais cinco vezes até que ele voltou. Ficou na cozinha por quinze minutos, lavou alguma coisa na pia e voltou se sentando a meu lado. Encarava a TV desligada.
– Agora vai me odiar? – Perguntou.
– Não estou te odiando.
– É por isso que não me abro com as pessoas... elas nunca ouvem até o fim.
O encarei.
– Qual seria o fim? A que eu conheci? – Tentei controlar meu tom.
– Se você não é capaz de escutar, então não faça perguntas. – Se levantou indo para fora de novo. – Eu não me arrependo de nada do que fiz. Ela pelo menos foi diferente.
Isso é para você deixar de ser idiota!
– Vai para o inferno Foster.
Tentei dormir e acabei cochilando por três vezes em períodos de vinte minutos a meia hora. E chorei nesse tempo também porque era muito bom saber que minha ajuda de nada valia, que eu era o céu, por enquanto, pois muito em breve seria o inferno.
As cinco decidi que não ficaria mais trancada. Estava com fome. Engoli a raiva e o orgulho o encontrando na cozinha. Fingi não o ver pegando um copo e seguindo para cafeteira, ele não podia estar bêbado. Encarei a meia taça de vinho e a garrafa, ele não disse nada enquanto mexia uma panela. Marcus bêbado nunca parecia estar bêbado até dizer alguma coisa.
Me arrastei para varanda e me encolhi em uma das cadeiras. Minhas mãos se queimaram com o café quente, mas não me importei, vi as seis da tarde parecer dez da noite ao escurecer muito rápido. Me assustei ao vê-lo parado na porta. Há quanto tempo estava ali? Me levantei tentando não cair com o pé dormente e ele me seguiu, orgulhoso demais para falar primeiro. Lavei meu copo e esperei que me desse passagem. A mesa para dois estava arrumada.
O empurrei levemente conseguindo passar. Que droga! Ele não devia parecer tão "pobre coitado". Precisava de uma dose de amor próprio.
– Aonde vai? – Perguntou. O encarei da escada.
– Dormir. – Respirei fundo.
Lá estava ele parecendo uma criança, uma mão no bolso a outra apoiada na mesa como se tivesse preparado uma mesa de café da manhã para a mãe e esperando um elogio. Eu não sabia quem havia o ensinado a ser tão malditamente mimado, mas isso era encantador.
– Não vai... jantar?
– Não. – Subi o mais rápido que minha coordenação permitia.
Eu quero jantar com você. Até gosto da sua companhia, mas você precisa aprender o poder que as palavras têm! Digo mentalmente a porta. Me encolhi na cama ouvindo o barulho proposital no andar de baixo. Minutos depois um barulho de vidro, pensei em todas as coisas negativas possíveis até ouvir sua voz. Pelo menos não se matou, sequei as lágrimas no cobertor e me ajeitei melhor em minha posição fetal preferida até ouvir dois toques na porta.
– Sou eu. – Sussurrou.
Quem mais seria?
– Não vou pedir desculpas... você parece não as aceitar.
Sempre aceito.
– Eu não quero jantar sozinho... pensei a manhã toda em um prato especial.
Respirei fundo.
– Eu fiz um...para você. Melhor do que a do seu amigo. Não sou um chefe. – Cuspiu a palavra. – Mas... posso ser bom também.
Sorri.
– Me desculpe, sei que não gosta, mas eu preciso pedir.... Eu tento ser menos idiota, eu pensei que aceitaria ouvir tudo. Se soubesse que estragaria as coisas... eu... eu nem teria dito.
Continuei encarando a porta.
– Eu preciso confessar que... foi irracional o que fiz e sim, eu me arrependo. Não me senti tão bem como me sinto com você e.... você vai me obrigar a dizer isso... – Ficou em silêncio por um tempo. – Eu prefiro a sua companhia e prefiro todos os momentos que tivemos juntos. – Sua voz estava embargada. – Eu odeio esse seu silêncio maldito. – Choramingou e isso me fez rir. –E eu não estou bêbado, se não abrir essa porta eu acabo com essa droga de jantar.
Demorei a processar suas palavras até me apressar para atendê-lo. Seus olhos estavam marejados e segurava uma bandeja com dois pratos. Sua camisa estava suja de vinho.
– Oi.
Lhe dei passagem. Deixou a bandeja na cômoda.
– Por que está chorando? – Segurou meu rosto. Bêbado. Mas são de alguma forma, Marcus parecia enxergar uma mosca a um quilometro. – Não vai comer? Eu que fiz.
Me sentei na cama quando me arrastou até lá entregou meu prato e se sentou a meu lado esperando uma resposta.
– Foi um arroz que minha mãe me ensinou. Nunca fiz para ninguém.
Exclusividade para mim?
– Está ótimo. – E não era mentira. – Melhor que o meu.
Sorriu. Comemos em silêncio, o vi juntar nossos pratos e deixar o quarto pouco depois. Escovei os dentes nesse tempo e coloquei um pijama, ele estava em meu quarto ainda com a mesma roupa suja de vinho parado em minha porta.
– O que foi? – Perguntei.
– Eu tenho uma coisa para dizer... Se for absurda demais me ignore.
– Por que não vai dormir? – Antes que eu cometa uma loucura.
Entrou fechando a porta e caminhando a passos lentos até mim. Se sentou em minha cama e me fitou.
– Me desculpe.
– Já desculpei.
– Certo. – Fechou os olhos. – Quanto tempo temos?
– Quatro.
– Não era para falar. – Resmungou.
– Você perguntou.
– Era uma pergunta interna, mas tudo bem, poderia se sentar?
Me sentei a seu lado esperando que falasse.
– Eu não quero dormir sozinho também... eu durmo sempre sozinho. – Me fitou – Mas não é isso que quero dizer.
O ajudei com sua camisa suja enquanto esperava que continuasse. Seu casaco ainda estava em meu quarto, mas ele não me deixou pegá-lo.
– Pode me escutar? – Perguntou.
Assenti.
– Eu gosto de você. – Fechou os olhos. – Não sei dizer a forma correta... eu não sei. Não quero que veja isso como abuso... nem me interprete mal, mas eu quero ficar... perto. Entro em pânico quando penso que a qualquer momento você não vai estar aqui... odeio nossas divergências, e estou tentando deixar de ser um idiota com você. – Me olhou. Meu coração havia feito um tour dentro de mim. – Temos quatro dias... preciso tê-la perto de mim.
– Eu estou perto...
– Não estou falando assim... estou falando... tocá-la, abraçar... não brigar. Droga – Murmurou – Pode me entender?
– Você... quer ficar comigo?
Assentiu.
– Se quiser também.
– Por que?
Me puxou para seu colo me apertando em um abraço quase sufocante. Respirando em meu pescoço.
– Porque você me faz bem... e eu gosto de me sentir bem com você. Eu não peço mais nada, só diz sim... e tudo termina quando voltarmos – Me fitou, seus lábios brincando nos meus, me inebriando.
Era outra grande burrada na minha vida.
– Temos quatro dias. – Sussurrei contra seus lábios.
– Eu prometo... juro que não vamos brigar.
– Tudo bem. – O beijei com vontade. Com toda a vontade que guardei um dia inteiro.
Fingir ser um casal por alguns dias, saber que ele gostava de mim, mas que não teríamos chance juntos era um tanto quanto masoquista, mas quem se importa?
– Vou pegar uma camisa para você. – Sussurrei tentando me levantar. Seu corpo pesou para trás e ele me levou junto.
Senti sua respiração em minha nuca e sua mão mexer em minha barriga.
– Não preciso... apenas fique aqui.
– Eu não vou fugir.
– Eu não deixaria.
Sorri.
– Certo. Boa noite, Marcus.
– Boa noite, Sara.
Eu não dormiria, até acordar desse sonho. Onde estava o Marcus Foster que conheci?