O Contrato
Capítulo 10
Eu sabia que tudo isso uma hora ia vir à tona – e veio bem rápido. Enquanto encarava a mulher a minha frente imaginava a hora em que a polícia romperia pelo café me levando dali. Eu devia ter escutado, Santana.
– Eu...
Ela sorriu.
– Não precisa se assustar. – Sorriu.
– Não? Eu me passei por uma pessoa... – Falei nervosa. – Mas a culpa não foi minha.
– O erro foi meu. Como foi com Marcus? – Sua voz calma me dava nos nervos. Eu gostaria que ela estivesse no mesmo nível que eu.
Encarei meu café quando o garçom nos serviu. Eu não conseguia pensar, não conseguia parecer calma diante disso tudo. Ela poderia me usar, extorquir o que não tenho. Minhas mãos estavam suando, cada parte do meu corpo estava suando agora.
– Bem. – Sussurrei. – Vai contar a ele?
– Não. – Respondeu ofendida.
– Por que não? Olha, se você acha que vou fazer isso com você, não somos uma dupla. Eu vou dizer a ele que a culpa foi sua e uma parte minha e...
Bebericou seu café.
– Marcus não está cem por cento bem. – Calma. – Mas está melhor e me surpreendeu por ter ficado até o prazo final da viagem, ele geralmente não fica. Nos últimos dias ele me mandou tentar contato com você.
– Eu não vou mais trabalhar para ele. – Falei. – Nem para você.
– Já soube sobre a Maggie? – O semblante em seu rosto mudou.
– O suficiente para não alimentar esse modo de escape que ele usa. Marcus é arrogante e idiota a maior parte do tempo.
Ela sorriu.
– Ele precisava de alguém como você.
– Eu não sou um alguém legal nem sinônimo de ajuda. Nem psicóloga, tá legal, eu preciso de um. O que me levou a aceitar isso tudo foi minha situação financeira. Eu estou devendo até meus órgãos no mercado negro se duvidar. Marcus e eu não nos damos bem, ele não quer ser ajudado.
– Não é tão fácil quanto parece. – Ela me encarava com autoridade.
– Já estou encrencada demais quando ele descobrir.
– Quando ele pediu para arranjar alguém eu não queria. Conheci muitas mulheres mesquinhas nessa seleção. A maioria só queria o dinheiro, outras até se interessaram por ele e por esse motivo ele voltava para casa frustrado, não queria se envolver com ninguém. Ele tenta mostrar para a família que tem controle sobre sua vida, mas não precisa de muito para saber que ele está errado.
– Está!
– Quando entrei em contato com Sara ela não foi diferente das demais. Ela exagerou em tudo o que pediu. Marcus só queria que ela aparecesse e cumprisse com tudo. Eu já tentei fazê-lo parar com isso, sabe? Mas ele não me ouve. Pedi para minha auxiliar depositar o dinheiro, mas perdemos o número de Sara. E achamos tê-la encontrado na nossa central de dados. Entramos em contato com o banco e fizemos tudo o que tinha que fazer, algumas coisas batiam com seus dados. Nossa primeira conversa pareceu diferente da que eu realmente tive e nosso encontro revelou isso.
– Por que não me entregou? – Perguntei tentando fazer minhas mãos pararem de suar.
– Você era diferente, não havia poder e superioridade e estava assustada. Eu não havia gostado de Sara então arrisquei. Já estava feito e não havia tempo de voltar atrás. Passei todo esse tempo as cegas, Marcus não ligou e não reclamou. Sabe quando foi a última vez que ele fez isso? Nunca. Ele sempre ligava. E me surpreendi agora quando ele quis vê-la de novo. Claro que investiguei sobre sua vida, seu onde mora, seus antigos trabalhos, precisei me atentar a tudo para que desse certo.
– Como acharam meus dados em sua central?
– Alguns meses atrás você se inscreveu em nossa central de vagas.
Santana! Ela fez isso por semanas para que eu conseguisse algo melhor. Ah claro.
– O natal está chegando. – Ela foi direta. – Eu sei que não quer, mas ele está desesperado. Marcus não é ruim, ele está se abrindo de novo.
– Eu não posso. Vou devolver tudo o que ele depositou, nem tive tempo de gasta-lo.
– Talvez não pudesse, mas ele acha que pode. Ele quer sua ajuda de novo. E você não precisa devolver nada, posso me resolver quanto a isso.
– Mas eu não posso! E isso é roubo.
Me fitou.
– Talvez eu seja como elas como algumas delas. – Encarei meu copo. – Talvez eu goste um pouco dele, e do dinheiro também. –Levantei meu olhar.
Sorriu.
– Pense e acredite eu nunca o vi assim. Querer tanto a companhia de alguém. Eu não vou dizer que me encontrei com você, só queria que soubesse que ele vai se comportar.
– Isso é se torturar. Ele gosta de me torturar psicologicamente.
– Às vezes não, foi um prazer revê-la, Sara.
Passei o resto da semana pensando e pensando. Estava sentindo falta de Marcus, não havia um motivo para isso ser levando em consideração o educado que ele era, mas eu estava. Desejei bater nele, ao mesmo tempo dizer que tudo estaria bem. E a parte egoísta de mim não queria que ele tivesse um amor tão grande por Maggie – porque talvez isso o colocasse novamente no centro da terra.
Agora estava com ciúmes de uma pessoa morta? Por Deus, Sara, desde quando começou a idealizar Marcus Foster na sua cabeça?! Pare agora. Me esquivei das perguntas de Santana e da curiosidade de Carol. Os planos para o Natal começaram e tentei não os fazer importantes para mim, mas acabei cedendo e os fiz.
– Sara. – Caroline me chamou. Estava terminando de fazer minha mala. – Telefone para você.
– Quem é? – Perguntei.
– Não sei, particular.
Peguei o telefone.
– Não fique ouvindo atrás da porta. – Avisei.
– Eu não ia. – Resmungou com um sorriso divertido.
– Alô?
– Sara?
Respirei fundo. Marcus.
– Não desliga. – Pediu.
– O que você quer, Marcus? – Tentei soar rude.
– Conversar.
– Estou ocupada. Não dá.
– Eu sei que não está. – Falou presunçoso.
– Colocou câmeras em mim e eu não sei? – Zombei.
– Posso busca-la? – Fingiu não escutar.
– Qual a parte do "estou ocupada" você não entendeu? Eu não quero vê-lo. A única coisa que quero de você é o número da sua conta. Vou devolver seu dinheiro.
– Seu drama não me comove.
Eu quase desliguei, mas...
– O que você quer? – Fechei os olhos com força. – Estou ocupada agora, de verdade, não estou a fim de jogar conversa fora.
– Apenas conversar. Eu preciso conversar com você... infelizmente.
– Infelizmente? Que ótimo saber disso, Foster. – Diga não e desligue. – Vou estar no café em vinte minutos. – Avisei.
– Chego em dez.
Desliguei.
Não acreditava que estava saindo para reencontrá-lo. Era muita falta de amor próprio ir se torturar, porque não havia explicação para isso e ele em algum momento perceberia que tem algo de errado... comigo. Nunca consegui esconder meus sentimentos seja ele, positivo ou não.
– Vai sair? – Caroline entrou na minha frente.
– Vou, não vou demorar. – A abracei.
Sem mais perguntas deixei o prédio. Consegui um táxi mesmo sabendo que não devia me gabar indo em um. Minhas mãos estavam suando e meu coração batendo nos ouvidos. Vamos lá Sara, é só Marcus Foster que você fez o papel ridículo de namorada por algumas semanas e ele simplesmente te deixou no fim sem nem ao menos dizer “até logo”. Desci uma quadra antes, andar me faria pensar. Quando entrei notei que ele segurava duas sacolas e estava próximo ao balcão, assim que ele me notou agradeceu a atendente e veio em minha direção segurando meu braço e me levando para fora, ele realmente chegou em dez minutos.
– O que está fazendo? – Perguntei.
– Não vamos conversar aqui. – Falou ainda sem soltar meu braço ou me olhar.
Paramos ao lado de um Jeta prata. Ele abriu a porta esperando que eu entrasse.
– Quer que eu vá a algum lugar com você? Primeiro, seja educado usando palavras como: por favor e fazendo perguntas para eu ter certeza se eu quero ir. – Falei o encarando e ele olhava para o nada além da minha cabeça. Maldita altura. – Segundo, destrave esse maxilar. – Mexi em seu queixo sentindo um choque em meus dedos. E ele o relaxou. – E pare de ser infantil. – Cruzei os braços. – É você que precisa de mim aqui.
Marcus soltou o ar lentamente. Eu não estava trabalhando dessa vez.
– Certo. – Fechou os lutando para pelo que viria a seguir. – Sara, você pode me acompanhar? – Ele parecia preferir a morte como primeira opção.
– Para onde?
Me encarou.
– Meu apartamento.
Não!
– Marcus...
– Por favor? – Pediu.
– Eu acho...
– Eu usei a droga da educação. O que quer mais, porcaria!? – Encarou o céu.
– Abaixe o tom e olhe para mim que estou à sua frente, não há um raio de dez quilômetros ou voando. – Cutuquei seu peito. – Não posso demorar. – Segurei a porta de seu carro.
– Outro compromisso? – Voltou a mim.
– Sim. Vou viajar. – Entrei, carro cheiroso e confortável.
Marcus ficou tenso depois que disse que iria viajar. A viagem foi rápida até o prédio de classe média alta, eu sabia que ele estava sendo humilde morando ali, ele poderia morar em um lugar muito melhor.
Abriu a porta para mim e me chamou. Pegamos um elevador até o seu andar.
Ele estava tão silencioso que isso estava começando a incomodar. Quando abriu a porta do seu apartamento me deixou entrar primeiro. Não era grande, era acoplado cozinha, sala e um corredor que talvez daria para o quarto e banheiro. Me assustei com o barulho das chaves sendo postas na mesa. Marcus deixou as sacolas ali também e me fitou.
– Comprei um lanche. – Falou.
– Gentil da sua parte.
– Obrigado. – Fez uma careta.
Semicerrei os olhos para ele, o estudando.
– O que vamos conversar? – Perguntei.
– Pode se sentar.
Me sentei no sofá e ele fez o mesmo a meu lado. Marcus voltou a ficar tenso, percebi pela força que usava em seu maxilar. Ou como respirava, me fazia querer explodir também.
– Vai viajar para onde? Com quem? – Havia autoridade em sua voz.
– Não foi para falar sobre mim que vim.
Cruzou os dedos. Não mesmo, mas a forma como me olhava e falava me faria despejar tudo a sua frente e me tornaria uma submissa bizarra em dois tempos.
– Por que sumiu? Mudou o número?
– Porque sim. E sim, mudei.
– Porque sim, não é resposta. – Me encarou. Aqueles olhos, eu me lembrava de como me sentia idiota.
– É tudo o que terá.
Sorriu de lado.
– Não queria mais me ver? – Umedeceu os lábios rosados.
– Não é assim com todas? Não sei lidar com seu humor. – Abri a sacola pegando um café. Marcus fez o mesmo pouco depois. – Passamos quatro semanas juntos, eu estar aqui tendo essa conversar depois de tudo não faz sentindo algum na minha cabeça. Eu mal sabia se você ainda se lembrava do meu nome, ou sua secretaria conseguiu lembra-lo?
– Sara...
– Não fomos amigos, Marcus. Não tivemos um longo tempo de diálogos para isso. Soaria normal, se fosse profissional, mas não é... estou em seu apartamento como... pessoa comum?
O silêncio se arrastou quando ele não me respondeu. Ele sabia que eu tinha razão, de todas as pessoas a qual tive um convívio, Marcus era o que mais sabia que esse momento não era normal.
– Por que não quer o dinheiro?
– Apenas não quero. – Desviei meu olhar.
– Não precisa? – Questionou.
– Eu só não quero...isso tudo foi um erro. – Admiti. – Um erro que fiz sem pensar.
Se encolheu.
– Eu sei que não sou legal.
– Que bom.
– Mas isso não quer dizer que eu nunca tenha sido. – Me fitou. – Ou que não posso mudar as vezes.
Marcus não estava ajudando as coisas dentro da minha cabeça. Não era possível um homem mexer tanto comigo como ele estava fazendo, depois de me dar tantas coisas negativas a seu respeito. Acho que era possível ouvir meu coração do outro lado da rua só com a forma como ele me deixou.
– Quer me dizer o que o tornou esse ser desprezível? –Me defendi das suas ações.
Deixando seu copo de lado, Marcus se levantou indo em direção ao corredor, voltou com seu livro. Aquele livro que me assustou. Se sentou e o abriu, pegou uma foto e me entregou. Eu sabia quem era. A loira era Maggie, ela era linda. Seu sorriso e seus olhos expressivos me confirmava o porque ele era completamente apaixonado por ela, Maggie era vida.
– Maggie. – Sussurrou. – Minha esposa. –Eu queria filtrar a dor em sua voz. Mas ela estava ali. – Ela morreu em um acidente de carro. Eu a amava. – Falou segundo o queixo com uma mão enquanto observava a foto.
Você a ama.
– Tínhamos planos, éramos felizes. Maggie era tudo o que tinha de mais importante, tudo o que eu fazia era bom para ela. Ela estava sempre ali...para tudo. E tudo o que tenho como lembrança é um sorriso e um volto logo. E, ela não voltou.
Soltei o ar.
– Esse livro estava no carro. Dei a ela de aniversário. Ela parou aqui. – Abriu a página. – Estava aberto...quando o acharam. Ela o adorava. – Sorriu – Tentei de todas as maneiras, mas eu não consigo esquecer. Eu vivo uma farsa. – Seu tom perdeu o humor. – Me sinto uma bagunça ambulante, tentando ser o mais teatral possível para todos.
– Você precisa aceitar.
– É tão fácil falar. – Riu sem humor. – Parece fácil para mim, Malvin? – Meu nome brincou em seus lábios.
O silêncio voltou.
– Você foi diferente...você se importou.
– Sou apenas curiosa.
Fechou o livro o deixando na mesa. Ele estava chorando em silêncio, as bordas de seus olhos vermelhas. Ele as secou e suspirou. Eu não devia mostrar o quanto me importava, mas eu me importava, estava me importando nas últimas semanas quando ele se tornou mais do que uma curiosidade para mim.
– Você só precisa se abrir mais. – Sussurrei. – Procurar ajuda... também ajuda.
– Não sou do tipo falante. – Deu de ombros. – Terapias são inúteis, ninguém cura a dor da alma. Nem algumas horas de conversas com alguém que as vezes nem está realmente se importando.
– Que seja, apenas tente. Há pessoas que realmente querem te escutar.
– Você quer? – Perguntou me encarando. Deus, o manda parar de me olhar desse jeito. Assenti. – Eu não durmo. – Sussurrou. – Sempre tento, mas acabo acordando no meio da noite.
– Por que?
– Eu sinto falta...um vazio. E revivo tudo e isso me perturba. Eu nunca sei se é bom ou ruim. Então bebo e relaxo.
– A quanto tempo não dorme?
– Dois dias. As porcarias dos remédios queimam em meu sistema antes de fazer efeito.
Era possível ver o cansaço em sua fisionomia, as olheiras escuras, o olhar parado, a pele. A irritação.
– Remédios?
– Sim, as porcarias que causam dependência. Eu parei. – Respirou fundo. – E acho que já tenho problemas demais para mais um.
– Consciente pelo menos.
Mais silêncio.
– Vai viajar a trabalho? – Perguntou baixinho, sua perna tocando a minha mesmo sob panos, conseguia sentir o calor de sua pele.
– Não. Vou para casa dos meus pais até o Natal. – Confessei.
Voltou a encarar o nada e ficamos assim. Seus olhos se fecharam e lhe dei um tempo. Se eu fosse embora eu não voltaria mais.
– Marcus? – Se assustou. – Está dormindo sentado. – Avisei.
– Me desculpe.
– Pedindo desculpas? Gosto disso. – Brinquei.
Sorriu.
– Está com muito sono?
– Não.
– Está mentindo. – Passou as mãos no rosto. – Quer que eu te faça companhia?
Cala a droga da boca Sara!
– Você precisa dormir. – Sussurrei – Ou podemos só...ficar em silêncio.
Sorriu, era inocente e doce.
– Me desculpe por isso. –Se levantou. – Não é sempre que acontece.
– Tudo bem, eu entendo.
– Já que ofereceu sua ajuda, não vou nega-la. – Falou levemente. – Acho que você estava certa. – Falou.
– Sobre?
Me encarou.
– Eu preciso de você.
O segui para o corredor onde uma porta estava aberta. No quarto de Marcus tinha uma estante repleta de livros, uma cama enorme e uma poltrona. Encarei tudo isso por um tempo antes de me mexer. As paredes eram de um tom claro, seu jogo de cama combinava entre tons escuros e leves.
Marcus tirou o sapato e se sentou na beirada da cama. Fiz o mesmo, esperando que se deitasse o que aconteceu longos segundos depois. Fiquei encostada apenas encarando a parede branca a minha frente.
Quando o fitei, seus olhos encaravam o teto, as mãos sobre a barriga. Então tomei a liberdade de me deitar a seu lado. Uma lágrima dolorosa e silenciosa descia no canto de seu olho. Me virei de lado e sequei com a ponta do dedo e isso o pegou de surpresa, ele fechou os olhos. Era tudo tão estranho, que estava tentando me lembrar se bebi antes de sair de casa.
Levei a mão em seu cabelo, como desejei isso novamente. Seus olhos se abriram e fecharam mais uma vez e continuei a acaricia-los lentamente. Ele se aproximou mais seu corpo de lado, sua respiração em meu pescoço, quente. Encostei o queixo em sua cabeça.
– Me desculpe por antes. – Pediu. – Quando a levei comigo para conhecer minha família... eu não esperava que você fosse assim... eu só... Você não me pareceu assim.
Meu corpo ficou tenso.
– Seu julgamento foi apenas adiantado.
– Eu costumo fazer isso... e não me arrepender. Mas agora... abrindo uma exceção eu me arrependi.
Contive um sorriso.
– Tudo bem, Marcus. Pode dormir agora. – Sussurrei – Eu não vou a lugar algum. – Ainda.
Acordei sozinha e não era sonho, dormi na mesma cama que Marcus. Pior, dormi de um jeito íntimo para duas pessoas que até então não pareciam dividir o mesmo santo. Passei as mãos no cabelo o ajeitando – ou tentando desatar os nós. Calcei meu sapato e saí do quarto entrando no banheiro ao lado. Lavei o rosto e usei sua pasta de dente, eu não precisava mostrar a versão fera em plena manhã. Mesmo ele já tendo visto, eu acho. O encontrei na cozinha, as manhãs sempre serão as partes constrangedoras do dia. Pigarreei e ele me viu. Ótimo.
– Bom dia. – Sussurrei.
– Bom dia.... eu...fiz o café. – Falou tímido. Encarei suas roupas de flanela e seu cabelo fora do lugar antes de me voltar à mesa para dois.
– Obrigada. – Sorri, meu estomago dando sinal de vida. – Como dormiu?
– Ótimo. – Encarou a mesa.
Sorri. Ele dormiu bem.
– Podemos conversar? – Perguntou afastando uma cadeira na mesa para mim sentar.
Assenti em dúvida. Marcus deu a volta e se sentou. Me serviu antes de se voltar a ele.
– Pode falar.
Respirou fundo.
– Sei que não vai passar o natal comigo. – Havia um toque decepcionado em sua voz. – Queria fazer uma proposta.
– Qual?
Girou a xícara em sua mão.
– Quer ser minha amiga?
Deixei a risada escapar.
– Me desculpe. Essa é a proposta?
– Mais ou menos. – Fez uma careta.
– Qual é a proposta? – Matei meu humor.
Fechou os olhos e os abriu.
– Eu não contei a minha família que “terminamos” – Fez aspas – Pela primeira vez quero estar com eles de alguma forma, sem pressão, sem dor de cabeça e sem farsa. – Falou – Me dei um tempo livre.
– Isso é bom. – Bebi meu café.
–Estava pensando em ir para o norte. Voltaria dois dias antes do natal. Você poderia remarcar sua viagem, o plano não mudaria. – Divagou.
– Marcus. – Me encarou – Está me propondo outra viagem? – Soltei minha xícara.
Assentiu.
– Da primeira...
– Vai ser diferente. – Se apressou. – Eu não quero Nora ou meus pais. Ou outra pessoa. Eles já me conhecem e me sondam. Eu só preciso de um pouco de tempo. Estou pagando pela minha língua, mas a única pessoa que conseguiu me manter de uma forma aceitável por um tempo foi você. Não estaria aqui se não soubesse disso. Só preciso da sua companhia, de alguém que realmente tenha aceitado a mim.
– Pensei que odiasse minha companhia.
– Eu também. – Fez uma careta.
Você vai se arrepender disso.
– Quando?
– Amanhã, voltamos em oito dias, te deixo no aeroporto e você...viaja. Isso não é um segundo contrato, mas podemos fazer outro caso queira – Estendeu a mão. – Fechado?
– Fechado, sem brigas, sem surtos, sem se isolar e não. Eu não quero um novo contrato, Marcus. Isso me limita um pouco eu ser quem eu sou. Sem estragar as coisas e sem me arrepender.
– Esse é o plano. – Sorriu. Isso era o que eu desejava.