O Contrato

DM Pager · Capítulo 17 de 28

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O Contrato

Capítulo 17

 

Encarei Marcus depois que entramos, Abby tinha um sorriso nos lábios, mas não era para mim.

– Ei parece que viu um fantasma – Falou.

Nora segurou minha mão me arrastando para o sofá.

– Sara, essa é Abby... Irmã da Maggie, acho que você já percebeu.

– Um pouco óbvio. – Cuspi.

– Muito prazer Sara – Falou em uma falsa animação antes de seguir para Marcus.

Leslie se sentou a meu lado mexendo na aliança em seu dedo.

– Assustada? – Perguntou me fitando.

– Um pouco... eu não esperava. Na verdade, um monte de coisas estão se passando na minha cabeça agora.

– Abby é tipo um encosto – Murmurou.

– Vá até lá e traga meu irmão. – Nora ocupou o lugar vago a meu lado.

Não era tão fácil assim, Abby sabia de toda a farsa porque seu irmão contou. Eu não poderia simplesmente chegar lá e puxa-lo. Eu não sabia o que ela poderia fazer. Marcus se afastou depois de um tempo indo falar com o restante da família, foi a minha deixa para ir até ele. Abby me encarou antes de seguir para cozinha.

– Sara – Lúcio me abraçou.

– Olá, eu posso roubar seu amigo um segundo?

– Claro, mas vão para um quarto. – Lúcio piscou um sorriso nos deixando.

Esperei até que se afastasse.

– Tá legal, por que não me disse antes?

– Eu não queria confundi-la.

– Mais do que já estou? É por isso que é tão difícil ser alguém normal?

Me encarou.

– Vai querer discutir isso aqui? – Fingiu tirar alguma coisa do meu cabelo.

– Quer saber. – Respirei fundo – Isso não importa mais. Eu vou ficar até a ceia apesar de não estar com fome não quero fazer desfeita e sair por aí sem explicação. Mas vou embora logo em seguida.

– Não tem mais táxi a essa hora.

– Eu vou andando.

Sorriu.

– Você não vai a lugar nenhum. – Sussurrou em minha orelha me fazendo arrepiar.

– Eu nem devia ter vindo.

Encarei a janela e fui pega de surpresa ao senti-lo me abraçar.

– Não seria a mesma coisa sem você. – Deitou a cabeça em meu ombro, respirando contra meu pescoço.

– Quanta diferença eu iria fazer quando a cópia da mulher que você ama está aqui. – O encarei.

– Ela não é a Maggie. – Havia mágoa em seus olhos.

– Prova isso para você, não para mim.

Me apertou.

– Hoje não, você ainda é minha namorada. – Sorriu.

– Mas ela sabe...

Me beijou.

– Isso não importa.

Marcus passou o resto da noite a meu lado, segurando minha mão e tirando algumas taças – que conseguia – de champanhe que alguém me dava. Abby passou boa parte do jantar falando em Maggie, procurei algum sinal em Marcus que o tirasse da terra, mas ele estava ali do meu lado. Ele não estava se importando com ela dessa vez, mas me perguntei até quando. Tudo o que eu queria era faze-la calar a boca, me sentia sufocar. Era minha segunda taça de vinho.

– Por que você não cala a maldita boca sua vaca? Quer leva-lo pra sua cama novamente? Você não é ela! – Falei sem controle.

Estava tudo girando quando me levantei, eu só queria sair dali e meu grito havia sido muito alto – e eu pensei que ele não soaria assim em minha cabeça. Eu não queria gritar, não para eles ouvirem, mas eu gritei. Leslie segurou meu rosto me afastando.

– Cala a boca Abby! – Mandou. – Você bebeu um pouquinho demais, Sara.

– Quero ir para casa. – Pedi. Marcus entrou na frente.

– Eu cuido dela. – Me segurou.

– Me solta... eu não tenho mais nada... com você. Volte pra ela... não é isso que ela gosta? De fingir ser a irmã dela. – Ri. – Vocês sabiam disso? Ela faz a cabeça desse... idiota! Me solte, Marcus!

– Eu vou te levar para casa. – Falou firme.

O empurrei.

– Me leva para casa, Leslie?

– Eu vou te levar. – Me segurou novamente.

– Você vai levar ela. – Encarei Abby. – Ela esta louca por isso. – Gargalhei. – Te dar um presente de natal privado. Você se veste de Maggie? Coitada da sua irmã.

– Eu a levo. – Peter falou – Marcus pode te levar Sara.

Marcus me arrastou da casa dos seus pais. Eu não sei como cheguei até ao carro, mas estava lá, chorando ridiculamente com um "eu te amo", travado na garganta depois de passar horas ouvindo alguém tentando afasta-lo de mim da maneira mais baixa possível. eu estava sim com ciúmes, com raiva de saber que elas eram iguais e ela deveria morrer para ele ficar um pouco melhor. Estava com raiva de mim e da minha insanidade por estar pensando com Marcus em tudo. Perdendo minha maldita cabeça como ele quando não conseguia controlar as coisas.

– Por que está agindo assim? – Perguntou.

– Porque eu a odeio. Odeio tanto que sou capaz de voltar lá e matá-la.

– Por que a odeia? – Ajeitou meu cinto.

– Porque ela gosta de você.

– Somos amigos.

Gargalhei.

– Amigos que dormem juntos?

Ouvi um baque no volante.

– Você as vezes age como uma idiota.

– Por que eu sou uma – Gritei para ele.

Cochilei por um tempo, quando acordei estava no estacionamento do apartamento de Marcus. Ele estava em silêncio a meu lado, seu casaco estava jogado sobre mim. Pisquei algumas vezes.

– O que estamos fazendo aqui? – Estava tudo girando ainda.

– Você deixou sua chave na casa dos meus pais.

Minha cabeça estava doendo.

– Droga!

– Vamos subir.

– Não, Marcus.

Ele abriu a porta desligando o aquecedor. O observei dar a volta no carro e abrir minha porta.

– Aqui está melhor.

– Temos uma cama lá em cima. – Sussurrou me ajudando a sair.

Da última vez que bebi assim, Caroline passou a noite segurando minha cabeça dentro da privada. Pegamos o elevador e me mantive com a cabeça contra seu peito. Agradeci quando a porta se abriu, nos arrastamos até sua porta e ouvi as chaves balançar.

Marcus me levou para dentro e deixou a porta bater, soltei um grunhido até sentir o sofá. Só queria dormir.

– Vou pegar alguma coisa para você beber.

– Eu vou vomitar na sua cara. – Avisei. Me sentia uma droga.

Se sentou agachado, afastando meu cabelo.

– Por que ainda está chorando?

– Porque quero ir para casa. – Menti. – Isso tudo está ferrando comigo, cara.

– Está com ciúmes de mim, Malvin?

Fechei os olhos.

– Pode me dizer.

– Para aumentar o seu ego?

– Não. Mas gostaria de saber. – Colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

– Eu estou com ciúmes Marcus. Muito. Eu tenho ciúmes da Maggie, da Abby e de todas as mulheres que queriam estar com você. Eu tenho ciúmes de você e sou idiota por isso. Porque eu não devia, porque eu não posso – Tentei segurar as lágrimas ou diminui-las. – Eu me arrependo de ter entrado nessa... porque não sou mais a mesma. Porque...

Ele apenas me encarava. Suas mãos queimavam em minhas coxas e eu queria puxá-lo para mim. Queria fazê-lo sentir a dor que estava sentindo.

– Porque?

– Eu... gosto de você..., mas não quero gostar. – Murmurei.

– Você...

– Te amo.

– Mas...

– É impossível – Afaguei seu cabelo – Eu sei.

– Sara, você está bêbada.

Segurei seu rosto o puxando para mim. Havia jogado tudo pro ar, o que estava perdendo se não tinha nada mesmo?

– Posso pedir uma coisa de natal? – Murmurei contra sua boca. Seus olhos estavam escuros. – Duas na verdade.

– Sara...

– Posso? – Fechei os olhos e o ouvi sussurrar um "sim". –Esquece o que eu disse e fica comigo essa noite... última noite.

– Sara...

– Apenas aceite.

Sua cabeça repousou em meu ombro por um tempo até senti-lo depositar um beijo ali. Isso era um sim, nós teríamos por uma última noite.

 

°°°

 

– Oi mãe. – Encarei o relógio – Já estou no aeroporto. Meu voo acabou de ser chamado, vejo vocês em breve. –Mamãe já chorava do outro lado da linha. – Eu também amo vocês, até daqui a pouco – Desliguei.

Uma semana, Marcus me ignorava a uma semana. Depois do natal, nossa primeira manhã juntos ele disse que tinha algo a me dizer e estou esperando há uma semana. Ele não atende no escritório e quando tentei, mandou dizer que estava ocupado. Era só a forma de dizer que estava tudo terminado. Em tese, concordamos com isso.

 

Uma semana depois...

– Sara.

– Oi mãe.

– O que está acontecendo? Desde que chegou anda distraída, sei que seu pai não presta atenção nessas coisas, mas andou chorando, não é?

A encarei.

– Não.

– Sara, filho nenhum engana uma mãe.

– Eu estou bem. – Menti. Antes que o assunto se alongasse o telefone tocou e papai entrou na cozinha.

– É para você, parece que é uma de suas amigas.

Saltei da cadeira pegando o telefone de sua mão e seguindo para escada. Eles sabiam que não queria ser seguida, esperava que não fosse.

– Onde está? – Caroline perguntou.

– Phoenix.

– O que você fez?

– Até agora nada, por que?

Caroline resmungou do outro lado antes de se voltar a mim.

– Certo, você andou meio estranha desde que saiu com o Foster. Eu sei também que não quer nos contar o que está acontecendo...

– Vamos pular para a parte séria da coisa. – Adiantei.

– Eu sei que não é da minha conta, mas com que necessidade você tirou todo o seu dinheiro da conta?

Encarei meu notebook aberto na cama.

– Eu não mexi na minha conta. – Avisei.

– Nem você, nem eu e muito menos Santana. Estava vendo algumas coisas aqui, a última vez que usou meu computador para ver sua conta e estava prestes a entrar na minha quando o saldo negativo me chamou atenção. Não há nada, Santana é testemunha disso.

Apoiei o telefone no ombro e digitei minha senha do banco. Meus dedos eram rápidos e em uma fração de segundos minha conta estava aberta. Não havia nada como disse.

– Sara... – Caroline chamou – Você devia avisar a polícia.

Agora sim eu estava chorando e não era pela conta zerada.

– Não... não precisa.

– Mas, Sara...

– Eu sei o que está acontecendo – Ou pelo menos acho que sei – Eu consegui um dinheiro com meu pai e já depositei na conta da Santana. Eu não sei quando volto.

– O que está acontecendo, Sara? O que aquele maldito Foster fez?

– Ele não fez nada. Eu fiz, agora eu preciso desligar.

– Por favor, quando quiser conversar, eu vou estar aqui e Phoenix não será para sempre.

– Obrigada – Desliguei sem ao menos lhe dar uma chance de voltar a falar.

Nada, não havia nada em minha conta. Todo o dinheiro havia sido retirado as dez da manhã, três dias atrás. Não desci para almoço, agradeci ser o dia da pesca e a casa ficar sozinha. Eu não devia estar chorando, chorar por alguém sem o mínimo de consideração era burrice. Nunca fiz isso e não seria a primeira vez. Não por ele.

Ouvi no jantar como as coisas ocorreram, como o sol ajudou e quantos peixes cada um pegou. Era fácil passar despercebido por meus pais quando estão empolgados com alguma coisa. E foi fácil ir para o quarto sem ter que narrar meu dia. Que foi péssimo desde que começou.

Não sonhei.

Estava chovendo, mas isso não era novidade. Meu pai havia batido em minha porta algumas vezes. Eu não queria atender a nenhum telefonema, consegui ficar embaixo dos cobertores até as dez. Então eu precisava me levantar.

– Pensei que não sairia nunca.

– Bom dia, pai.

– Preciso te deixar no centro da cidade.

Parei minha xícara de café no meio do caminho.

– Por que?

– Consegui o emprego que você tanto queria.

– Jura?

Assentiu.

– Onde?

– Na loja de um amigo. Não se preocupe, são todos legais por lá.

Alguma loja de pesca ou coisas para carro. Subi para me trocar e tentar parecer um ser humano normal. O caminho até o centro foi embalado por músicas de M83, não me via muito no clima tolerante para elas. Havia puxado meu pai o gosto para músicas deprimentes.

– Não gosta mais? – Perguntou abaixando o som.

– Sem paciência.

– Quer me contar o que está acontecendo?

Sorri.

– Mamãe te obrigou a isso? – Tentei um sorriso.

– Talvez.

– Bom, eu estou bem.

– Certeza?

– Absoluta. – Menti.

Estávamos em frente à loja de pesca de Tom. Meu pai me encarou em uma pergunta silenciosa se eu havia gostado. Não estava nos planos escolher um emprego, eu nem podia escolher apenas aceitar.

– Tom já deve ter chegado, boa sorte, querida. – Beijou meu rosto.

– Obrigada.

– Quer que eu busque você?

– Não precisa. É melhor você ir, está atrasado – Bati a porta do carro.

Era meu possível primeiro emprego em Phoenix. Assim que entrei na loja fui recebida por Mike que da última vez que vi, era um garoto chato e pirracento. Agora ele estava mais para um adolescente popular da escola.

– Bom dia, em que posso ajuda-la?

– Oi Mike, sou a Sara, filha dos Malvin. Acho que não se lembra de mim. Vim falar com o Tom sobre a vaga disponível...

– Pai! – Gritou – Sara Malvin está aqui. – Chamou voltando sua atenção ao caixa.

Todos se viraram em nossa direção e agradeci por Tom não demorar. Ele me abraçou apertado com um sorriso amigo. Mike estava parecido com ele, o cabelo como se nunca tivesse visto um corte de cabelo antes, muitos centímetros mais altos que uma pessoa normal e sorriso de covinhas.

– Estava falando com seu pai.

Claro que estava.

– Ele disse algo como: não explore minha filha.

– Não ligue para ele. Estou apta a qualquer coisa.

Tom me explicou como a loja funcionava e o que eu precisava fazer. Em meia hora Mike já havia me dado uma prateleira para arrumar, entendi que era um trabalho dele, mas não reclamei. Tinha uma hora de almoço e entre voltar para casa e comer os legumes da mulher de Tom, eu optei por não comer nada até o jantar.

– Por que voltou pra Phoenix? – Mike me encarava do corredor. Ele colocou seu boné para trás lhe dando uma feição infantil.

– Vim para o ano novo.

– E já passamos dele. – Sorriu – Eu adoraria sair de Phoenix, mas não posso sair até ser maior de idade e conseguir pagar minhas contas.

– Aproveite bastante a responsabilidade que seus pais têm com você, porque as coisas se complicam quando eles não têm mais essa obrigação.

Até as três da tarde não havia entrado mais do que seis turistas em busca de equipamentos para se aventurar na reserva. As seis o fluxo ficou mais forte, mas Tom já havia me liberado. Pensei se voltar para casa era uma boa ideia, não era. Mas eu precisava voltar, passar algumas horas com minha mãe até pegar no sono.

– Até amanhã.

– Até amanhã, Sara. Traga algo para comer, é melhor do que a comida da minha mãe.

– Que ela não escute isso. – Ri.

Depois de uma caminhada de dez minutos consegui um táxi. Não estava chovendo ainda. Mamãe terminava de pôr a mesa quando entrei pelos fundos, meu pai não havia chegado.

– Você chegou. Acabei de pôr a mesa, vá lavar as mãos.

– Não sou mais criança mãe. – Avisei.

Precisei de um banho, coloquei a roupa mais confortável que tinha e desci com meu pai já falando alto na cozinha.

– Como foi lá? – Perguntou.

– Oi para você também pai. Foi legal, Mike é um bom companheiro.

– Então o emprego é seu?

– Sim, por tempo indeterminado. Mãe – Ela me encarou – Sabe a loja daquela sua amiga em Ville?

– O que têm?

– Ela ainda quer comprar algumas de minhas roupas, ela pareceu se interessar. – Qualquer pessoa se interessaria se um casaco custasse quinhentos dólares.

– Vai vender suas roupas? – Mamãe estava entre surpresa e desconfiada me obrigando a desviar o olhar.

Só duas malas, pensei.

– Acho que tenho roupas demais. Quero me desfazer de algumas peças nesse fim de semana.

– Ela vai... adorar. Tem certeza que vai vende-las?

– Absoluta.

Eu não queria vender minhas coisas, mas minhas dividas estavam crescendo a cada segundo. Demorei a pegar no sono e me arrependi de ter tentado dormir, eu sonhei com ele. Era um daqueles sonhos sem sentido, que você não entende porque o teve, simplesmente sua mente não tinha nada produtivo.

As sete estava saindo de casa, fiz sanduíche de patê de peru. Fiz uns a mais para o caso de Mike querer. Ele já estava atrás do balcão quando passei pelas portas duplas.

– Bom dia.

– Oi Sara. John acabou de sair daqui.

– Meu pai...

– Ele só veio ver se as varas de pesca dele chegaram. Não teve uma noite muito boa?

– Está tão na cara assim?

Assentiu.

– Sua mãe disse a mamãe que acha você está sofrendo de amor.

O encarei.

– Minha mãe não disse isso!

– Ah, ela disse. Eu prefiro sofrer por comida – Riu.

– Eu também.

Vi Kate pela primeira vez desde que havia chegado em Phoenix, havíamos sido amigas um dia quando nossos pais iam a passeios em família. Mike disse que ela só aparecia para pedir dinheiro e depois voltava para casa, ou ia para a casa do futuro marido. Pelo jeito ninguém morria de amores por ele ali.

Meu celular tocou me assustando. Santana. Nos falamos por quase uma hora no corredor dos fundos. Esperava não ter câmeras ali. Eu não podia voltar, não ainda. Consegui voltar ao normal antes do almoço me recusando a comer a comida servida mais uma vez.

– Olá.

Me levantei encarando o homem parado no balcão. Mike não estava.

– Mike precisou sair e....

– Quem é você? – Perguntou se apoiando tranquilamente e me dando sorriso grandioso.

– Victor! – Mike gritou, ficaram se batendo por um tempo antes de se voltar a mim.

– Ninguém trabalha aqui? – Victor perguntou batendo algumas vezes no sino no balcão.

– Às vezes eu preciso ir ao banheiro. – Mike brincou. – Já conhece a Sara?

Victor me encarou. Ele era alto e moreno, tinha um sorriso encantador e seu tom brincalhão seria facilmente confundido com um tom metido ou rude em algum momento.

– Não. Mas sou Victor e você Sara, certo? – Me estendeu a mão.

– Sim, Sara. – A aceitei.

–Sara é filha do John. – Mike revelou.

Victor voltou a me encarar.

– A pequena Sara?

Meu Deus, meu pai não me chamava assim.

– Acho que sim – Encolhi a mão.

– John falava muito sobre você, nunca entendi se você foi rebelde ou não por ter saído de Phoenix.

– Rebelde – Sorri.

– O que faz aqui? – Mike perguntou. Victor bateu em sua cabeça.

– Dando uma volta. Pensei que estivesse em seu horário de almoço.

– Não, esse agora é o horário da Sara.

– Lavagem da sua mãe? – Victor perguntou apontando ao meu pote no balcão.

– Sanduíche. – Avisei. – Isso é meu...

– Sorte sua, então já que o grande Mike perdeu a vez, quer me fazer companhia?

– Ele vai te pagar o melhor Starbucks de Phoenix.

– Mike. – O encarei.

– Eu posso pagar e eu mesmo faço.

– Você?

Assentiu.

– Trabalho no Starbucks cinco lojas acima. E bom, estamos perdendo nosso almoço. Aceita?

Eu precisava sair dali.

– Eu só preciso da minha bolsa.

– Bolsa em mãos – Mike me passou a bolsa – Me traga um shake.

Victor apontou para direção do Starbucks e subimos a rua passando pelas cinco lojas até lá. Agora ele parecia mais calado, isso durou até passarmos pela porta. Não era como os Starbucks de Nova York ou Los Angeles, mas o cheiro era o mesmo, uma mistura de café forte e... doces.

– Pode ficar naquela mesa – Apontou para o canto – Volto já.

Me senti uma colegial o obedecendo, tirei meus sanduíches da bolsa e o esperei voltar. Se minha vida não estivesse tão desgraçada, e se eu fosse a mesma, não perderia meu tempo pensando o quanto Victor poderia ser legal. Já estaríamos em um lugar fechado. Mas eu não sou mais a mesma.

– Terra chamando pequena Sara.

Despertei.

– Me desculpe.

– Aqui está, o melhor Starbucks da cidade.

– Obrigada. Sanduíche?

– Não. Muffins?

– Não.

– Então, o que a trouxe de volta a Phoenix? – Me fitou.

Essa era a pergunta mais frequente.

– Vim para o ano novo.

– E agora tem um emprego.

Encarei meu almoço.

– Não sei quando vou voltar, então preciso de um emprego temporário.

– Fugindo? – Apoiou as mãos no queixo.

– Pareço estar?

Sorriu.

– Não. Mas é um dos motivos para as pessoas voltarem para a cidade mais parada do mundo.

Talvez eu esteja.

– Eu gosto de Phoenix. Não é tão ruim assim.

– Cite uma coisa legal.

– O centro.

– O que há de legal no centro? – Me encarou lambendo os dedos.

– É um lugar bom de se explorar.

– Lojas. Sei, coisa de mulher. – Fez careta.

Sorri.

– Phoenix é legal e ponto. Poucas lojas caras, pouco consumo. Eu consigo sobreviver

– Consumista?

– Se comprar mais do que seu salário permite é ser consumista, eu sou uma. Estou encrencada por isso. Phoenix é uma terapia.

– Certo, vou te fazer um convite. Vamos a uma festa mais tarde, quer vir?

– Vamos, quem?

– Garotos da cidade baixa, garotas da cidade.

– Isso me parece...

– Legal. Diga ao John que vou respeitar as leis de trânsito, passo para te pegar as oito.

– Mas eu não disse se ia.

– Você está fazendo de Phoenix uma terapia e tenho minhas dúvidas sobre ser só pelo fato de você ser consumista. – Fez uma careta. – Vai ser legal.

– Isso não é um encontro é?

– Acredite, eu sou bem direto quando o assunto é encontro. – Piscou. – Eu já teria feito o pedido se fosse. Vamos como amigos.

– Bom saber disso, eu aceito. – Apertei sua mão. – Mas, acabamos de nos conhecer.

– E qual é o problema? Seu pai sabe todos os meus rastros. – Riu. – E sobre encontros, isso não me proíbe de um convite futuro.

– Victor.

– Brincadeira. – Riu mostrando sua fileira de dentes bem cuidados.

Passei o resto do meu almoço falando da minha vida fora de Phoenix até minha hora de voltar ao trabalho. Victor era realmente legal, e não, não havia sido um pedido indireto para sair. Mike fez perguntas, muitas delas, e quando eu achei que estava tudo bem, eu voltei para o começo de tudo.

– Você deixou seu celular, uma tal de Susan ligou.

– Mike.

– Ela não deixou recado, disse que ligava depois. É sua amiga?

– Não – Conferi as mensagens – Não é ninguém.

– Certo. Está tudo bem? – Seu olhar curioso me fez desviar o meu.

– Estou sim. Eu vou... voltar ao trabalho.

Eu não ia voltar, ela não conseguiria dessa vez. Marcus não me teria mais. Ele não precisava de mim.