O Contrato

DM Pager · Capítulo 2 de 28

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O Contrato

Capítulo 2

 

Minha primeira intenção foi olhar para trás e acenar a Caroline que provavelmente estava de queixo caído. Então ele não era velho, faltava as opções maníaco ou um sádico louco para surrar alguém. Isso ainda me assustava. Seu olhar era sério demais, isso deixaria seu maxilar firme como se estivesse com alguma dor. Uma dor bem sexy para ser mais exata. Terno caro, sapato caro, perfume estupidamente caro. Então percebi que perdi tempo demais prestando atenção em suas qualidades caras que não vi quando falou comigo.

– Desculpe, me distraí.

– Falei que minha secretaria está a sua disposição para suas compras. – A carranca em seu rosto aumentou. –Não foi essa uma das suas exigências no contrato? Por sinal, estou te pagando bem para ter essa exigência, não acha?

Como? Contrato? Que contrato? Oh céus, compras?! Deus só pode estar sendo muito bom comigo.

– Quando posso começar as compras? – Me fingi de desentendida.

Ele pegou um pequeno bloco no terno e anotou alguns números, então deslizou a folha até minhas mãos.

– Aqui estão. Comunique Susan se algo não estiver como planejado, ela vem te ajudar.

– Até quanto posso gastar? – Encarei os números. Sua testa se vincou até relaxar.

– O suficiente para a viagem. Não esqueça de roupa de calor. Te garanto que casacos de pele não serão uma boa ideia. – Cuspiu entediado.

Viajar? Para onde? Respire, Sara! Minha vontade foi de perguntar se eu havia exigido mais alguma coisa e até onde esse contrato ia, mas desisti.

– Quando vamos viajar mesmo? Andei ocupada demais para me ligar as datas. – Estava sendo uma péssima atriz.

– No próximo fim de semana. Te pego na cafeteria ao lado do teatro.

Não! A verdadeira Sara pode estar lá.

– Prefiro que seja aqui, pode ser? Tenho um encontro com uma amiga no mesmo dia ... aqui.

Marcus Foster umedeceu os lábios finos e voltou a relaxar. Era como se eu fosse um inseto e ele quisesse me matar, mas não conseguia.

– Tudo bem, você pode qualquer coisa, contanto que faça seu serviço direito. Escolhi um perfil diferente dessa vez e seu discurso foi muito profissional, espero que saiba realmente fazer isso.

– Ou o que? – Perguntei para aquietar minha barriga.

– Ou nunca mais ganhará dinheiro dessa forma. – Guardou a caneta em seu bolso do terno.

Claro, deveríamos conversar mais sobre isso, mas ele voltou a falar da minha conta. Respirei fundo algumas vezes tentando não desmaiar e parei de entender o que ele dizia todas as vezes que dinheiro era citado, a conversa seria um pouco longa. Me sentia uma ladra, literalmente. Alguém compulsivo com vinte mil na conta a ponto de não ser honesta. Mas quem é honesto com vinte mil na conta!? Marcus Foster parecia algum tipo de louco sem causa e ele queria tudo do jeito dele, um viciado em acompanhantes, talvez para suprir sua vida rica e fútil. Sim, eu estava prestes a ser sua acompanhante segundo o que suas palavras indicaram.

– Certo, entendi tudo – Estendi a mão para apertar a sua – Prometo que não irá se arrepender. – Queria acreditar nisso.

Ele apertou minha mão e senti quão grande e quente era. Então a soltei e fiquei vendo-o se levantar, deixar o dinheiro sobre a mesa e sair sem olhar para trás como se há longos minutos antes ele não estivesse falando comigo. Quando ouvi o sino da porta tocar, Caroline levantou as mãos como se estivesse em um jogo de beisebol comemorando um ponto. Saltou de sua cadeira e correu se jogando a minha frente.

– Quem era aquele homem? – Sua empolgação quase me fez rir quando tirou um fio de cabelo castanho escuro de sua boca.

Bebi meu suco como uma doente. De verdade, eu estava tentando me sufocar com ele.

– O Foster. Marcus Foster. Sério que ele tinha que ser bonito assim? Estava quase aceitando roubar vinte mil se fosse um velho.

Caroline pegou o papel um pouco amassado na minha mão.

– O que é isso?

– Número da sua secretária. Temos um dia de compras para fazer. Exigência de Sara. E vamos viajar.

Seus olhos se arregalaram.

– Para onde? Como assim viajar?

Bufei empurrando meu copo.

– Não faço a mínima ideia. Só sei que faz calor, ele disse: nada de casacos de pele. – Tentei imitá-lo sem sucesso – No que estou me metendo?

– Não importa. O importante é vinte mil salvando nossas vidas. E com ele, eu faria esse favor até de graça. – Piscou.

Bati em sua mão.

– Precisamos passar pelo sermão da Santana. Depois ligamos para essa secretária.

– General Santana, primeiro.

 

°°°

 

– Santana, são vinte mil!

– Estou falando sério sobre partir a cara das duas se repetirem vinte mil de novo. – Caroline se encolheu. Santana massageava as têmporas. E nos encarou. – O cara é rico, novo e parece um mafioso.

Encarei Caroline.

– Ele parece – Se defendeu.

– Se ele descobrir que está com a pessoa errada para sabe-se lá o que, provavelmente vai te denunciar ou fazer algo pior se for do tipo que se vinga com as próprias mãos.

– Você quer realmente me assustar? Estou fazendo isso por nós! Eu não tenho um emprego, as contas estão aumentando, moramos em vários lugares diferentes e ainda podemos ficar na rua, eu não quero isso. Só precisava de um pouco de apoio para confiar em mim mesma a ponto de dizer que vai dar tudo certo. Sua ajuda é importante. Caroline e eu agimos sempre por impulso e não conseguimos parar quando é preciso, você sabe disso. – A vi respirar fundo por um longo segundo. Então abriu os olhos.

– Tudo bem, não foi um futuro atrás das grandes que sonhei para mim, quem sabe escrevo um livro contando essa aventura vendo o sol nascer quadrado em macacões laranjas que nada combinam com meu tom de pele. Espero realmente que isso dê certo Sara Malvin ou eu acabo com você.

Caroline gritou alto o suficiente para levar um soco no braço.

– Ai!

– Certo. Preciso ligar para esse número e fazer compras. – Falei com um sorriso genuíno.

– Oi? – Santana se voltou a mim.

– Sara exigiu isso. Então eu preciso fazer compras, podemos gastar com o que quiser, que ele vai pagar. Faz parte do teatro. – Me defendi.

– Poderia ser um pouco humilde e ter dito que não queria mais.

– Isso estragaria o disfarce. É só uma bolsa italiana, o que há de mais? – Caroline perguntou quase inocente.

Não contive o riso e Santana estava colada ao celular nos fuzilando. Afastou o aparelho: – Marcus Foster não te reconheceu. E se a secretária dele sabe quem é você?

Senti o sangue gelar.

– Desliga – Mandei um pouco tarde demais.

Santana marcou para nos encontrarmos em uma das lojas no shopping, movimentação nos ajudaria a fugir. Caroline estava empolgada e eu comecei a temer esse encontro. As três da tarde, a única mulher que parecia esperar alguém chegou. Era um pouco mais alta do que eu, os traços eram uma mistura oriental e americana. Nos encarou por alguns segundos e se aproximou. Havia me esquecido que Santana disse que estaríamos em três e deu nossas características principalmente como estaríamos vestidas.

– Sara?

Recebi dois olhares até conseguir falar.

– Eu.

– Susan – Estendeu a mão com um sorriso simpático – Muito prazer.

– O prazer é todo meu.

– Já decidiu por onde começar? – Perguntou seguindo na frente nos fazendo apressar os passos para acompanhá-la.

Não, no momento estou pensando seriamente em voltar para casa. Deixei tudo para Caroline, então ela nos arrastou para uma de suas lojas favoritas, algumas moças nos cumprimentaram afinal já éramos conhecidas ali.

– Ela parece inofensiva. – Caroline murmurou em um dos provadores.

– Ela não para de me encarar. –Sussurrei. – Será que ela vai chamar a polícia? – Perguntei a encarando pelas cortinas.

– Acho que ela já teria feito isso.

– E se a outra Sara era arrogante, metida ou algo do tipo? Marcus Foster não parecia muito fã dela, eu não sei de mais nada.

– Tenta ser também.

– Sabe que eu não consigo.

Fechou meu vestido.

– Obrigada, ainda dá tempo de desistir?

– Não. Entrega nas mãos de Deus, sorria e arrase. – Me empurrou para fora do provador.

Susan se aproximou e deu uma conferida. Voltou a sorrir para mim fazendo minha pose de falsa arrogância sumir. Eu não conseguia e ponto.

– Experimente esses – Saiu da frente me apresentando mais uns vinte vestidos.

Vamos lá Malvin, só dessa vez. Seguimos para umas cinco lojas, de sapatos a cabelo. Consegui arrumar algumas coisas para Santana e Caroline e elas ficaram felizes com isso. Mesmo assim, eu ainda não estava cem por cento confortável. Via policiais na entrada e por todos os lados me prendendo como via na televisão.

– Bom, vai querer ver mais alguma coisa? – Perguntou anotando em um bloco de notas.

– Não obrigada.... Quer dizer, estou satisfeita com tudo o que comprei. Te ligo se precisar de mais alguma coisa.

Ela devia se encolher com meu tom, mas sorriu como se eu tivesse cinco anos e estivesse aprontando – e talvez tivesse razão.

– Ficarei à disposição. Paguei um lanche para as três, só precisam pedir.

A vi pegar o telefone e discar um número enquanto se afastava. Meu estômago pesou.

–Sacolas. Muitas sacolas.

–Cala a boca, Caroline. –Dessa vez foi eu.

Não consegui comer nada, o pânico me tomando lentamente.

 

20 min depois em casa...

 

–SACOLAS, SACOLAS E MAIS SACOLAS! BOLSAS, VESTIDOS, BIQUÍNIS! SACOLAS! PARAÍSO. MEUS PRECIOSOS!

Santana me encarava pular na cama fazendo meus pertences saltarem para o chão.

– MAIS VINTE MIL NA MINHA CONTA! – Cantarolei com um sorriso enorme.

Bufou batendo a cabeça na parede e me mostrando o dedo antes de sair. Fiquei encarando o teto. Vai dar tudo certo. Você consegue.

 

Três dias depois...

 

– Sara seu celular está tocando. – Caroline me balançou algumas vezes na cama até eu abrir os olhos.

– Quem é?

– Número desconhecido.

Me sentei atendendo a ligação sem realmente estar me ligando nela até reconhecer a voz de Susan do outro lado. Ela falava como se estivesse sorrindo.

– Bom.... Bom dia.

– Está atrasada. – Avisou.

– Atrasada? – Encarei o relógio. Quase onze.

–Seu dia no SPA. Marcus assinou um contrato e ele deve ser seguido também, nunca se sabe.

Ela acha que vou simplesmente fazê-lo pagar por um dia não ido ao SPA? Que droga os ricos fazem com seus dinheiros?

– Mais uma exigência. – Soou como uma pergunta.

Ela riu.

– Sim. Anote o endereço. Acho que deve ter esquecido isso também.

Claro. Passei meia hora encarando o teto até me levantar e seguir para o banho. A cada dia meu buraco ficava mais fundo, estava cavando para me enterrar, passamos a madrugada fazendo pesquisas sobre Marcus Foster e tudo o que sabia era que o cara tinha muito dinheiro e ganhou isso com desenvolvedor de software e muita gente queria seus trabalhos. Ao meio dia estava em frente ao SPA maravilhoso localizado na parte rica da cidade. Eu não queria saber o que reservei, apenas queria relaxar. Pegar tudo o que conseguisse.

Sara realmente parecia um ser arrogante, ninguém queria errar por ali enquanto cuidavam de mim assim que pisei meus pés no espaço, ou Marcus Foster fez uma visita pelo lugar. Respirei fundo e tentei sorrir, passar segurança, mas elas devolviam um sorriso assustado demais. E a tarde que era para ser relaxante, estava tensa, falhando em tudo.

– Quer alguma coisa? Uma água? Um suco? Um chá talvez? – Uma das mulheres conseguiu falar comigo sem parecer prestes a desmaiar pela primeira vez.

– Estou bem. – Avisei.

Algumas horas depois estava livre, cabelo perfeito e não me lembrava quando foi a última vez que fiz uma hidratação decente em um salão ou como minha pele havia estado tão perfeita. Chamei um táxi, sorte que reservei algum dinheiro e prometi demorar um longo tempo para voltar ali. Agora era esperar, tinha dois dias para encontrar Marcus Foster de novo, precisava estar como ele queria. E eu não sabia na verdade, como ele queria que eu estivesse.