O Contrato

DM Pager · Capítulo 4 de 28

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O Contrato

Capítulo 4

 

 

Não sei quanto tempo se passou desde que Marcus havia saído do quarto. Meu celular começou a tocar Love Game da Lady Gaga e me dei conta de a quanto tempo aquele era meu toque. O encontrei no fundo da bolsa, duas caras felizes sorriam para mim – Santana e Caroline.

–Oi. – Deixei todo o meu mal humor transparecer.

–Ah meu Deus que bom que atendeu! – Santana falava e pegou folego no fim. –Me diz que está inteira?

–Não, estou enterrada em um jardim e preciso de ajuda.

–Sara Malvin me diz que está brincando! – Gritou.

–Estou bem. Até demais. – Fechei os olhos.

–Onde está?

–Flórida. Em uma casa escondida em uma praia deserta.

–Como?

Encarei o teto.

–Estou falando sério, acho que Marcus está de férias. Única explicação para estarmos aqui. Ele tem uma mãe simpática e mais alguns membros da família que não conheci. Já tivemos nossa primeira, discussão. Bom, como lidar com um homem que te enxerga como uma barata? Meu Deus, eu não sou tão ruim assim.

Ouvi Caroline gritando para colocar no viva-voz.

–Pelo que Susan me explicou, ou repetiu, eu serei a namorada dele. Acho que é só um disfarce para a família, mas eu não sei o porquê disso tudo. Marcus é fechado demais, duro demais. É estranho. – Admiti.

–Se isso for demais para você, diz a verdade.

–Não diga, Sara! São vinte mil! – Cala a boca, Carol. Ouvi Santana berrar.

Passamos quase meia hora conversando até baterem na porta. Uma mulher baixinha sorria para mim e avisei que precisava desligar. Logo atrás vi Marcus parado, me encarando um pouco tenso ou pragmático, ela fechou a porta na cara dele.

–Sara?

Me levantei estendendo a mão: –Sara.

Ao invés disso ela me abraçou.

–Sou Nora. Irmã do Marcus, ele disse que estava cansada então prometo ser rápida. Só queria agradecer por ter vindo, não sabe o quanto somos gratos. – Segurou meus ombros. – Obrigada de verdade.

A porta se abriu.

–Chega, Nora. Sara está cansada. –Encarei Marcus, ouvir meu nome da sua boca foi estranho.

–Tudo bem. O jantar sai em meia hora. Nos vemos lá em baixo. –Piscou para mim. –Teremos muito tempo para nos conhecermos.

Assenti e a vi sair. Marcus me encarou. Estava fazendo um auto comparativo da mulher encantadora que esteve há mais ou menos vinte segundos no quarto com o homem me encarando agora. Marcus era maior do que qualquer coisa, de qualquer forma. Nora era pequena e delicada, seus cabelos presos para o alto em um rabo de cavalo perfeito. Ela poderia ter saído de uma videoaula de ginástica que Caroline costumava assistir, só que sem as roupas de ginástica bregas e algo mais sofisticado para ela. Sem contar a luz que irradiou agora sendo ofuscada pelo clima pesado de seu irmão mais velho.

–Você tem que ser grosseira com ela. – Falou.

–Por que? – Tinha certeza que minha cara não era a das melhores.

–Ela vai se afastar e não fazer perguntas.

E me odiar também, claro.

–Não vou fazer isso. Não posso fazer isso.

–Foi para isso que te paguei. Você disse que faria como combinado, que eles não seriam importantes ou alguém que você gostaria de contato.

–Você me pagou para ser sua namorada. Não para tratar mal sua família. Acho que você pode fazer isso sozinho com essa sua cara azeda. Sua energia é negativa demais. – O empurrei o ouvindo respirar fundo e soltar o ar lentamente.

–Esse é o primeiro dia. Você disse que era uma profissional e faria o que fosse mandando, então seja uma. – Falou nervoso.

O encarei.

–Vou fazer o que prometi, mas do meu jeito. Caso contrário, faça sozinho.

Alguém bateu à porta então deixamos o quarto. Já havia decretado aquele lugar como minha zona de conforto e me senti vulnerável fora dele, mas não tinha escolhas. Nora acenou vindo da cozinha com uma bandeja de salada, Leslie ria com alguma coisa que Sandra havia dito. Na sala, dois homens conversavam, um era loiro de certa idade e Marcus se parecia com ele o outro parecia um armário, mas que deixava seu lado armário de lado quando sorria fazendo suas covinhas darem sinal.

–Então eles chegaram. –O loiro se levantou se aproximando. –Seja bem-vinda a família Sara.

–Obrigada. –Apertei sua mão.

–Sou Tony, pai de Marcus e esse é Lucio.

O grandão apertou minha mão com um pouco de força.

–Sou o primo mais legal.

–Prazer primo mais legal. – Repeti contagiada pelo seu humor.

–Ficamos felizes em tê-la aqui. Marcus precisava nos apresentar. Foram longos meses. – Tony o encarou.

–Menos pai. –Marcus segurou minha cintura me aproximando dele. Pensei em me afastar, mas também pensei nos vinte mil em minha conta com uma boa encenação.

–Sara parece adorável. –Senti as mãos de Sandra em meu ombro me afastando um pouco Marcus. –Temos tanta coisa para conversar. E espero que Marcus não a prive de sua boa conversa.

O fitei. Marcus sorriu e vi uma certa luta em seus olhos para me deixar ficar com a sua mãe. Eu só queria entender porque todos pareciam agir automaticamente perto dele. Não era uma ação normal a meu ver.

–Certo, podemos conversar enquanto comemos. –Leslie se juntou a Lucio. Logo todos seguiam para cozinha.

Encarei a mesa por alguns segundos, era muita comida para algumas pessoas. Consegui visualizar Caroline com os olhos brilhando devorando cada especiaria ali presente. Ela não tinha controle da boca que tinha e depois chorava reclamando que estava acima do peso.

–Então Sara, é de Los Angeles mesmo? –Leslie sorriu me perguntando.

–Não, sou de Phoenix. – Encarei meu prato. – Moro em LA há alguns anos.

Marcus me fitou. Não sei de onde Sara havia dito que era, usaria a desculpa do disfarce caso ele me questionasse mais tarde. O que achava meio impossível, já que falar não era muito o seu forte.

–Me mudei para Los Angeles por causa da faculdade. – Completei.

–E o que cursou?

–Contabilidade. – O que era uma ironia dado pelo avanço em gastos.

Um som de surpresa ecoou pelo espaço. Marcus me observava a cada palavra e eu não sabia se era surpresa ou apenas me vigiando para não dizer nada que saísse do seu plano. Plano esse que eu ainda não conseguia entender.

–Hmm, então temos alguém aqui que gosta de números. –Lucio sorriu encarando seu prato e fiz um som em resposta.

Então era hora de mentir sobre como conheci Marcus. Nora me parecia a mais curiosa, tinha que ter cuidado com ela. Marcus e eu nos conhecemos em uma cafeteria, ele queria uma informação, tomamos um café e então surgiu uma amizade que em poucos meses se transformou em um relacionamento. Toquei sua mão e vi seu queixo endurecer, na verdade, acho que todos viram e me afastei o suficiente para fazê-lo voltar ao normal. Isso me incomodou mais do que eu achava possível.

–Fico feliz por você estar bem filho. –Sandra sorriu do outro lado da mesa. –Obrigada por estar conosco, Sara.

–Eu que agradeço por me deixarem entrar.

O clima foi voltando ao normal. Ajudei com a louça, tentei não me importar com os olhares das donas da casa. Ouvi algumas histórias, mas nada que pudesse me ajudar. Qual era o problema de Marcus Foster?

–Estou pensando em ir compras umas coisinhas básicas. Preciso de biquínis novos, quer vir comigo? –Nora segurou minha mão me arrastando para sala. – Leslie odeia. Não tive tempo de fazer isso ainda e preciso de fotos novas dessas férias.

–Marcus pode não gostar...

–Marcus não se importa. Vai ser legal, muitas lojas a nossa disposição.

Lojas! Não Sara, lojas não.

–Tudo bem. Eu vou. Mas com uma condição. – Ela parou. – Não podemos demorar por nada nesse mundo. Seu irmão pode ficar preocupado.

Ela riu.

– Marcus e sua fixação por seus amores.

Fixação?

Subi apenas para pegar meu celular. Encontrei com Marcus no meio do corredor, seu olhar me assustou um pouco, então estávamos de volta ao quarto quando ele me arrastou até lá.

–Aonde vai?

–Sair com a sua irmã. – Encarei a parede.

–Não diga nada a ela. Consegue fazer isso? – Segurou meu braço.

–Não vou. Agora pode soltar meu braço? – Encarei sua mão.

Se afastou alguns passos.

–Esteja aqui antes das nove.

Encarei o relógio, quase oito.

–Certo. Estarei aqui antes das nove e não direi nada a ninguém. – Fingi reverencia e o deixei.

Eram sempre frases automáticas. Nora me gritou do seu quarto quando sai do meu, parecia empolgada por estar indo as compras e no fundo, eu também estava mesmo sabendo que não compraria nada. Talvez uma bolsa, isso, você está na Flórida, bolsas são legais por aqui.

–Marcus disse alguma coisa? –Perguntou descendo as escadas.

–Só para não demorarmos muito.

–Marcus é extremamente ciumento e cuidadoso. – Falou.

Como? O Marcus que conheço me atiraria do segundo andar sem pensar duas vezes.

–Por que ele é assim?

Nora me encarou e não sabia se aquela havia sido uma boa pergunta. Eu queria saber mais, queria saber tudo. Mas minha curiosidade poderia me fazer cair.

–Ele apenas não sabe superar as coisas. Mas acho que você está o ajudando, só pelo fato dele tê-la deixado entrar em sua vida novamente.

Isso só me deixou mais curiosa. Nora escolheu um dos carros na garagem, deduzi ser de Lucio, pois, o mesmo a mandou ficar bem longe dos postes. Relaxei em meu banco aproveitando o tempo de paz que ela havia dado sem falar e observei Marcus andando pela praia. Estava um pouco longe, indo em direção a casa e se sentou a poucos metros. Nora também percebeu, mas não disse nada apenas sorriu e encarou a estrada que surgiu quando saímos do perímetro, mesmo assim senti algo diferente naquele sorriso. Era mais um “como desviar de qualquer pergunta agora”.

As pessoas na cidade eram incríveis. Literalmente usar roupas ali era quase raro. De um lado carros tocavam músicas altas, do outro, um grupo dançava na rua. Meus olhos se voltaram as vitrines, eu não posso. Repeti isso tantas vezes até Nora me fazer entrar em uma delas.

–Biquínis. Eu prefiro verdes, meu noivo gosta de verde e acabei me acostumando a isso também. Marcus gosta de azul. – Cantarolou.

Não vou comprar biquínis para impressionar seu irmão. Muito menos um biquíni!

–Digamos que estou com um cartão estourado. – O que não era mentira. –Não posso comprar nada. Já me sinto pecando apenas de olhar.

–Isso não será problema. Eu lhe dou de presente. –Segurou meus ombros me empurrando para as pilhas de biquínis diversos. –Esses dois aqui lhe parece cair muito bem. – Eu não chamaria de biquínis, por mais que já tivesse usado semelhantes.

–Pequenos demais.

–Perfeitos para você. Agora vá experimentá-los.

Passei um tempo me virando de um lado a outro até a mesma abrir as cortinas do provador e aplaudir. Estava perfeito, dois biquínis por conta dela que chegaria ao ouvido de seu irmão e ele acharia que eu estava a explorando. Isso é ótimo! Andamos em mais algumas lojas, ganhei uma bolsa e essa eu não consegui recusar, era perfeita. Quando vimos a hora já havia passado um pouco das nove e não parecia realmente que já estava tarde.

–Marcus vai ficar chateado. –Falei ao abrir a porta e dar de cara com ele sentado na soleira. Segurava a cabeça entre as mãos.

Nora não sorriu dessa vez, apenas pegou as sacolas – inclusive a minha – e entrou. Me aproximei me sentando a seu lado. Ficamos em silêncio por alguns longos minutos até ele me olhar de lado ainda com as mãos na cabeça. Não era um olhar amigo, eu sabia disso.

–Não sabe ver as horas? – Perguntou.

–Me desculpe, não posso dirigir um carro que não é meu e não tinha dinheiro para o táxi. E muito menos consigo controlar sua irmã. Mas isso você já deve saber...

–Não devia ter ido com ela.

–Está no contrato que eu deveria me isolar dentro do quarto? Quer que isso soe natural, ou vai precisar que eles te questionem? Afinal, você sabe o que é agir naturalmente?

Ele ainda me encarava. Senti meu coração bater rápido quando o olhei nos seus olhos pela primeira vez desde que começamos a pequena, discussão.

–Apenas evite o máximo de contato que conseguir. Ela não está tentando ser sua amiga.

– Por que está me dizendo isso?

– Estão todos pisando em ovos, você não percebeu ainda? – Me fitou. Seu olhar longe. – Se mantenha longe e fale o suficiente. Sei o que estou fazendo.

–Como quiser. –Falei o vendo se levantar e a porta bater pouco depois.

Mais uma vez me sentia estranha ali.

 

°°°

 

Quando entrei no quarto, Marcus estava no sofá lendo um livro – e de óculos, isso o deixaria mais atraente aos olhos de qualquer mulher. Estava calor e abri a janela um pouco mais, puxei os cobertores da cama e me refugiei ali, minha intenção era não usar cobertores afinal, estava em uma terra tropical onde isso era desnecessário a maior parte do tempo. Meus olhos foram pesando aos poucos, bem lentamente e me esqueci que ele estava ali e que poderia até estar me observando. Então eu dormi, ainda sem acreditar que passei pelo primeiro dia.