O Contrato
Capítulo 24
Avisei minha mãe que chegaria em dois dias. Ela estava ansiosa. Marcus me obrigou a passar com ele os dias antes de viajarmos, mas como eu precisava voltar para casa, nos encontrávamos sempre que eu deixava o trabalho. Passávamos duas horas jogando conversa fora até eu ter que voltar. Estava sendo a melhor semana da minha vida e quando as coisas iam bem elas me assustavam.
– O que foi Sara? – Caroline se sentou a meu lado – Por que está com essa cara?
– Não é nada.
– Com certeza é, pode me contar, sabe que não vou sair daqui até me contar.
– Só estou absorvendo as coisas, é meio estranho.
– Não é estranho, é só bom. – Suspirou.
– Isso é o que assusta. As coisas estão bem.
– A cobra já sabe?
Assenti.
– E?
– Ela não fala com Marcus desde então e ele não se importa. Pelo menos ele diz isso, mas... eles foram confidentes por todo esse tempo. Acha que ele não se importa?
– Eu me importaria, então eu acho que ele se importa. Eu pensaria que não gostaria das coisas desse jeito, acho que pensa igual. Mas ele te ama e te escolheu, então ele não vai tentar mudar isso, relaxa, ele te ama.
– Eu não duvido. Eu só não confio nela, o que é alguns meses comparado a todos esses anos?
– Sara isso não muda nada. Agora sorria, hoje é o nosso dia antes dele te arrastar daqui e vocês sumirem.
Santana pediu pizza e passamos a tarde assistindo nosso seriado favorito. Passamos o tempo perdido juntas, rindo de conversas que já havíamos nos esquecidos. E me lembrei de como era bom estar com elas. Não queria pensar que em algum momento as deixaria, seja por Marcus ou por um emprego em outro estado. Uma hora eu as deixaria.
– Por que está chorando Sara?
– Ah droga – Funguei – Eu amo vocês, não se esqueçam disso.
– Isso jamais, nós te amamos também – Santana me puxou para o seu colo – Você sendo só a Malvin ou a futura senhora Foster, descontrolada e cabeça oca.
Caroline me abraçou.
– Você pode nos deixar, se sua casa tiver piscina...
– Caroline. – Santana empurrou sua cabeça.
– Só para garantir. – Ela riu.
Eu sentiria falta disso. Sentiria falta do filtro de Caroline, da ordem de Santana. De casa. Minha mala estava pronta, deixei uma mensagem ao Marcus antes de ir para a cama. E não consegui dormir pelas duas horas seguintes, já estava sentindo a sua falta.
Acordei com Caroline falando ao celular, eu não ia trabalhar então fingi estar dormindo, elas entraram em meu quarto depositando um beijo em meu cabelo me xingando carinhosamente. Precisei arrumar alguma coisa para fazer a tarde, Marcus estava trabalhando então não apostava em uma ligação mesmo ele não tendo respondido minha mensagem da noite anterior.
– Vamos lá Sara, mantenha a calma.
As quatro horas mandei outra mensagem e ele me respondeu com um: Te ligo o mais rápido que conseguir. E ele não ligou. Então liguei para Nora como quem não quer nada e tudo parecia estar bem, mas horas mais tarde eu já não conseguia fingir que estava tudo bem. Santana foi a primeira a chegar, eu conseguia disfarçar meus problemas com ela. Com Caroline era diferente então acabei contando.
– Acha que aconteceu alguma coisa? – Perguntou com seus enormes olhos curiosos.
– Eu não sei. Ele me pegaria as oito e já são quase dez. Eu não vou ligar nem o encher de mensagens. Ele terá de dar sinal até amanhã de manhã, nosso voo sai as nove.
– Quer que eu ligue? – Caroline estava com a expressão que não me deixava calma.
– Dessa vez eu não me importo que faça isso.
Fiquei a seu lado apenas observando suas feições mudarem enquanto chamava. Depois do alô, sua expressão ficou pior do que estava minuto antes e se passaram três minutos até ela dizer: Pede para ele ligar o mais rápido possível. Era o celular dele e pelo que conhecia de Marcus ele não deixaria ninguém mexer nele.
– E? – Perguntei expectativa queimando meu estomago.
– Marcus estava ocupado. – Fez uma careta encarando o telefone em sua mão.
– Quem era?
– Não falou o nome, mas era mulher. – Me encarou.
– E o que ela disse?
– Que ele estava no hospital porquê... a Abby precisava dele. Eu não entendi a mulher não queria falar comigo. – Caroline estava chateada.
– Marcus no hospital? Com a Abby? – Oh não!
– É.
Respirei fundo.
– Eu não quero parecer louca, nem controladora, mas eu preciso ligar de novo – Tomei o telefone de sua mão e disquei os números. Fiz isso umas dez vezes e depois de deixar duas mensagens na caixa postal, desligaram o celular.
Passei o resto da noite repetindo a procissão de ligar e ligar, até ouvir a mesma mensagem, uma saudação eletrônica de deixe o seu recado.
– Você devia tentar dormir – Santana se deitou a meu lado – Deve ter acontecido alguma coisa grave, eles eram amigos lembra?
– Nada justifica Santana, um dia inteiro? Nossa viagem é amanhã. E agora ele desligou o telefone.
– Ele pode aparecer aqui cedo, vai dar tudo certo. Seu celular pode ter descarregado.
– Sabe, eu estava com medo disso... – Admiti.
– Não Sara! Por favor, não. Vimos Marcus Foster vegetar por atenção ele não faria nada desse tipo que você está pensando. – Me encarou.
Minha cabeça estava doendo.
– Tenho medo que ele se esqueça das promessas que fez.
– Ele não esqueceu.
– Eu conheço aquela mulher, alguma ela aprontou.
– Pode ser, mas eu tenho certeza que ele vai estar aqui amanhã.
Era inútil, mas tentei mais algumas vezes mandar uma mensagem, acabei dormindo e acordando com o alarme avisando que era a hora de levantar. Me permiti chorar depois que tentei mais uma vez seu celular e chamou até cair na caixa postal. Ele teve a ousadia de colocar o celular para carregar ou liga-lo novamente, ver milhares de mensagens e não retornar nenhuma ligação. Então eu não estava tão errada assim. Caroline me ajudou com as malas, dessa vez eu queria ver sua empolgação e suas palavras positivas, mas até ela percebeu que as coisas estavam ruins.
Até Caroline!
– Eu vou tentar de novo e ...
– Não precisa, tenho meia hora para pegar o voo.
– Tudo bem, sua mala já está no carro.
Tentei segurar o soluço, mas escapou.
– Oh Sara, o Foster é um homem morto – Me abraçou.
– Eu não quero chorar – Resmunguei.
– Não chore porque não vale a pena.
Santana avisou da hora e tentei uma última vez e chamou, chamou, chamou. Caixa postal. Era hora de ir. Tentei desligar meu cérebro, tentei não pensar em nada até que me fosse permitido surtar. Fingi não estar doendo, estava ficando boa nisso, levando em conta que esperava tudo. Meu voo saiu dez minutos depois que cheguei e até Ville seria rápido, enrolaria minha mãe e tentaria arrumar um lugar para ficar em Phoenix, era só uma parada rápida.
Mike me buscou como combinado, ele sabia preencher bem o silêncio que nos levou até minha casa. Mamãe me esperava na soleira com um sorriso enorme. Acho que me preparei para tudo menos para dar uma desculpa pela surpresa que não viria.
– Você chegou – Me abraçou – E então, como foi a viagem? – Segurou meu rosto me estudando.
– Foi cansativa, preciso de um banho e um remédio para dor de cabeça.
– Aconteceu alguma coisa? – Perguntou me estudando.
Neguei empurrando a porta e soltando minha mala no sofá.
– Tem certeza? – Me seguiu.
– Sim.
– E a surpresa que nos daria? – Seu sorriso estava lá novamente. Ela não havia entendido a surpresa... ufa...
– Bom, eu vou para a entrevista – Engoli o nó em minha garganta – E mesmo que eu não passe, eu vou ficar aqui até conseguir outra coisa.
Ela estava entre surpresa e confusa.
– Você tem certeza?
Não. Minha mãe estava feliz. Feliz de um jeito que começou a me deixar feliz também, com o tempo ela saberia que eu não estava. Mas precisamos lidar com as dores da vida.
– Foi a melhor surpresa de todas Sara.
Tinha certeza que não, mas ela não precisava saber.