O Contrato
Capítulo 8
Marcus não dormiu, acordei todas as vezes que ele tocou minha testa, minha bochecha colada em sua camisa suada. Ouvi algumas palavras tipo: merda e droga, algumas vezes e estava frio e chovendo. Em algum momento me cansei e deixei meus olhos se fecharem. Acordei com sol e sozinha. Meu corpo ainda estava quente e minha boca estava seca. Marcus me vestiu com uma camisa sua. Consegui sair da cama com a sensação de ter sido pisoteada por uma família de mamutes. Antes mesmo de endireitar o corpo ele apareceu e me encarou por um longo tempo até voltar a si.
– Está melhor? – Perguntou.
– Acho que sim.
– Acabei de ajeitar o barco. Consegui falar com Lucio e ele estará nos esperando do outro lado.
Calcei meu chinelo enquanto recolhia algumas coisas, entre elas o lençol da cama.
– Para que? – Apontei ao lençol.
– Você vai sentir frio se sua febre voltar.
Não era mais o Marcus que me abraçou a noite. E eu devia saber que aquele Marcus não voltaria mais, foi apenas um momento. Meu estômago odiava barcos, era da sua natureza. Me deitei no sofá me enrolando com o lençol e fechando os olhos. Minha decisão de ir embora ainda estava de pé e momento algum mudaria isso. Eu sabia que estava indo longe demais e uma hora ele saberia o verdadeiro motivo de estar nessa.
Sou Sara Malvin, uma consumista que teve 90% do cérebro corrompido por cartões de créditos e nenhum neurônio são ao decidir entrar nessa. Parecia tão fácil quando era apenas uma proposta. Seria pedir demais que ele, pelo menos, fosse velho? Ele era Marcus Foster e possuía uma bolha que ninguém inclusive eu conseguia entrar.
Fui acordada pelo mesmo ao chegar na costa sendo recebida por um chuvisco. Lucio tentou me carregar, mas fazia parte da farsa de Marcus ser amoroso e carinhoso então ele me carregou mesmo eu dizendo que conseguia andar com um joelho sendo uma bola acoplada. Nora parecia aflita, não vi Sandra ou Leslie por ali. Só abri meus olhos quando chegamos no quarto e Marcus me colocou na cama.
– Frio? – Perguntou.
– Muito.
Nora apareceu da porta.
– Precisam de alguma coisa? O tempo deu uma volta.
– Pode fazer uma sopa para ela?
Foi a primeira surpresa que tive. Marcus aceitando ajuda de Nora. Ele não aceitava nenhuma, na verdade afastava.
– Volto logo. – Nora havia ganhado o dia.
Meu celular tocou dentro da minha bolsa e Marcus seguiu meu olhar. Me afastei dos cobertores sentindo o piso frio sob meus pés e pegando a bolsa. Ele ainda me encarava, seus olhos pareciam estar em toda parte. Era Santana, havia mais de vinte mensagens, trinta ligações.
– Pode me dar licença? – Pedi com celular ainda tocando loucamente em minha mão.
– Precisamos conversar depois.
– Teremos tempo.
Esperei a porta se fechar para atender Santana que gritava do outro lado. Ela passou quase vinte minutos falando sozinha sem me deixar responder nenhuma de suas perguntas e tudo o consegui dizer foi: estou doente e vou embora. E foi a minha vez de explicar e ela ouvir.
Eu não podia dizer muita coisa, eu não confiava em minha total privacidade, mas ela entendeu, não seria como contar a Caroline. Caroline surtaria. Desliguei depois que a tosse me impossibilitou de continuar nossa conversa.
O livro de Marcus estava lá mais uma vez, perto. Mas o deixei de lado, precisava de um banho e foi o que fiz pegando uma roupa limpa e seguindo para o banheiro. Me encarei no espelho e por Deus, eu estava horrível. Não tão diferente de um cadáver agora.
Tirei minha roupa deixando formar uma bola de pano suada em meus pés. A água estava quente, sabia que estava mais quente do que poderia suportar em um dia normal, fechei os olhos e deixei a água deslizar pelo meu corpo. A sensação de ter Marcus em mim novamente, mesmo estando com a mente bagunçada, eu o senti. Sua respiração, seus dedos em meu cabelo enquanto – provavelmente – eu falava nada com nada. Deslizei minhas mãos por meu corpo, me lembrando que ele me viu nua – uma parte em mim pelo menos.
Precisava voltar para os meus sentidos reais e acordar. Marcus jamais me olharia como minha mente estava o fabricando agora. Nem um pouco desejável, Sara. Afastei minhas mãos de meu corpo, da forma que estava o usando agora e voltei ao meu banho. Não demorei muito dessa vez, vesti minha roupa e deixei o espaço cheio de fumaça voltando a me enrolar no cobertor. Ouvi um leve sussurro uma eternidade depois, Marcus segurava uma bandeja, não conseguia sentir cheiro algum, mas a aparência estava boa;
Ele tinha um olhar estranho para mim que não consegui identificar.
– Não vou me queimar. – Avisei e ele entendeu colocando a bandeja em meu colo. – Pode dormir, sua cara está péssima.
Deu de ombros.
Apenas se afastou cruzando as pernas e pegando o maldito livro. Eu não sou uma pessoa que vive com a cara enfiada em um livro, mas sabia que uma pessoa por mais lenta que fosse não levaria mais de dez minutos para ler duas folhas. Estava quase cheia quando o vi mudar de página e se demorar nela em seguida, fechar o livro em um baque me assustando.
– Podemos conversar agora? – Perguntou impaciente.
Assenti colocando a bandeja de lado. Sua respiração foi profunda.
– Não vamos quebrar o contrato. – Falou de uma vez.
– Eu não mudei minha palavra. Ainda quero ir embora e vou. Te devolvo cada centavo, não quero mais nada.
– Você não pode fazer isso. – Ele estava se controlando.
– Marcus, quem quer ser ajudado aceita ajuda. No máximo reconhece isso. Isso não está funcionando...
– Estou pagando. – Murmurou.
– E eu não estou fazendo um bom trabalho. Por isso estou me demitindo. Eu não quero mais.
Sorriu sem humor.
– Sem teatro.
– Isso não é teatro. Por mim eu iria agora mesmo, só preciso...
– Não. – Sua voz era firme. – Pense um pouco mais.
– Já pensei.
Passou as mãos na desordem que era seu cabelo antes de se voltar a mim.
– Me dê um tempo para me acostumar.
– Anos de falso relacionamento e você não se acostumou? – Cuspi as palavras.
Sua expressão endureceu.
– Uma semana é tudo.
Marcus recolheu a bandeja e se retirou. Acho que isso era um acordo fechado. Nora entrou no quarto logo depois se sentando na cama a meu lado. Entrelaçou nossos dedos e sorriu ou, pelo menos, tentou.
– Eu ouvi. – Choque era o que descrevia meu olhar quando ela disse essas duas palavras. Brincou com uma mecha de seu cabelo. Ela se parecia com ele as vezes. – Por que quer terminar com ele, Sara? – Me fitou. E lá estava o mesmo olhar.
– Até onde ouviu?
Nora mordeu os lábios e grunhiu.
– Você disse que ia embora e deu uma semana para ele. Eu sei que Marcus é difícil, mas ele te ama. Ele te escolheu. Eu o vi te espionar enquanto tomava banho, parecia tão encantado.
Oh droga!
Ele não me ama, mas sim ele me escolheu. Na verdade, nem isso. E como assim, Marcus me viu tomando banho? Ele viu quando me... oh droga!
– Ele é difícil. Somos difíceis por isso quero ir embora, dar um fim antes que seja tarde demais. – E não era mentira.
Nora encarou nossas mãos.
– Dê uma chance a ele, tente entendê-lo. – Pediu.
– Eu já tentei. – E ele quase me matou em todas elas.
– Ele falou sobre a Maggie? – Nora sussurrou tão baixo que tive de questioná-la com o olhar.
Neguei.
– Maggie era esposa dele eles namoraram por dez anos, se casaram e acabou.
– Acabou? – Uma lágrima brincava no canto de seus olhos.
– Maggie morreu em um acidente a três anos e meio. Estamos perto da sua data de morte e Marcus fica vulnerável. Eu sei que não devia estar lhe contando por dois motivos, você é a nova namorada dele e Maggie foi a mulher que ele mais amou. – Soltou minha mão cobrindo seu rosto.
Que ele ainda ama.
– Ele se esforça a cada dia, vemos isso. Não parece fácil geralmente as coisas trágicas não são fáceis, mas ele parece melhor.
– Não tem problema, ele nunca saberá que você me contou.
Sorriu deitando a cabeça em meu ombro. Eu queria saber mais, mas parecia o suficiente por um dia.
– Vou deixá-la descansar. – Sussurrou. – Qualquer coisa grita.
Assenti.
°°°
Dormi durante todo o dia, quando acordei já era tarde e Marcus cochilava em seu sofá. Ele tinha uma expressão cansada, mas eu sabia que qualquer simples gesto ele acordaria. As palavras de Nora ainda brincavam em minha cabeça e cheguei a sonhar com isso. Marcus tinha um amor que nem a morte conseguiu matar ou esquecer. Eu não sabia se isso era bom ou ruim. Bom, era péssimo.
Expulsei meus pensamentos, calcei meus chinelos e sai sem fazer barulho. Ouvi a TV do quarto ao lado ligada, não queria companhia. Apenas comer alguma coisa e voltar para a cama.
Achei um resto de salada de batata na geladeira, me servi com um pouco dela enquanto preparava um sanduíche a fome era demais para esperar. Ainda me via surpresa por não fazer barulho. Assim que o leite ferveu, recolhi tudo e sai pelos fundos. Estava frio, frio demais para uma droga de terra tropical. As ondas bravas me fizeram arrepiar só por lembrar de como elas eram.
Comecei a comer as observando, eram nada até se transformar em algo grande e quebrar. E foi assim que quase morri. Duas vezes. A porta bateu e engasguei com o pequeno susto, Marcus a segurava em um pedido de desculpas.
– Você deveria estar no quarto. – Falou calmamente.
– Acordei com fome, acho que dormi demais.
– Era só ter me chamado.
Limpei a garganta.
– Estou bem, não havia necessidade disso.
Ele se sentou a duas cadeiras da minha, ajeitou o capuz na cabeça e encarou a água. Marcus parecia bem mais novo assim, ficava bonito descontraído. Torcia meu estomago e me fazia me lembrar que ele me viu me tocando no banho.
– Talvez meu pai a questione. – Sussurrou.
– Por que?
Deu de ombros.
– Eu sei o que dizer. – Sussurrei quando não obtive resposta. – Não se preocupe.
– Obrigado.
– Pelo que? É só meu trabalho, certo?
– Por não ter dito nada a Nora.
Ah sim, eu que devia agradecê-la por ter me dito, alguma coisa. Seus olhos eram cansados quando os captei depois do meu devaneio.
– Ainda com fome? – Perguntou se pondo de pé.
Neguei.
– Quer dar uma volta?
Encarei o tempo escuro da noite. Eu não queria, mas ele estava tentando. Mesmo sabendo que no fim ele me expulsaria de sua bolha eu optei por segui-lo. Porque eu queria estar perto, infelizmente queria estar perto dele.