Os Números do Amor
Capítulo 8
Quando a porta do quarto se fechou atrás deles, Michael tirou os sapatos e foi andando até a janela. Abriu as cortinas e contemplou a vista do prédio ao lado, a Fundação Médica de Palo Alto. O que o fez lembrar de sua mãe, das contas, das responsabilidades e do cachê de acompanhante. E não era bem isso o que ele queria ter na mente naquele momento.
Ele fechou as cortinas e se virou para Stella, que estava de pé ao lado da cama. Ela desviou os olhos e ficou mexendo nas folhas dobradas que trazia nas mãos. Os planos de aula.
Michael se imaginou rasgando tudo e transformando em confete. Apesar de não saber precisar um motivo, detestara as listas. Em vez de agir de acordo com sua fantasia, ele se aproximou, pegou os papéis e colocou-os cuidadosamente sobre o criado-mudo, então encontrou uma caneta na gaveta e pôs em cima da AULA 1. Se Stella conseguisse se lembrar de marcar os quadradinhos, ele precisaria rever suas técnicas. Michael diminuiu a intensidade das luzes.
“Como eu… o que eu… talvez eu…” Stella levou a mão ao colarinho. “Quer que eu tire a roupa?”
“Não sei. Não está no plano de aula.” Ele logo se arrependeu de dizer aquilo. As listas o irritavam, mas ele não precisava tratá-la daquele modo. “Descul…”
“Tem razão. Não pensei em incluir isso.” Ela passou por ele e foi até o criado-mudo. Depois de observar a lista por um tempo, se inclinou e pegou a caneta, demonstrando a verdadeira função de uma saia justa para um homem: mostrar a curvatura perfeita de uma bela bunda.
Talvez tenha sido por isso que ele demorou tanto tempo para se dar conta de que ela não sabia o que estava fazendo. Stella não entendia grosseria ou sarcasmo. Talvez tivesse passado a vida mergulhada nos livros e não estivesse acostumada a socializar. Se fosse o caso, Michael estava pegando pesado demais com ela. “Se eu dissesse que seus planos de aula são ofensivos, como você reagiria?”, ele perguntou baixinho.
Ela o olhou por cima do ombro, alarmada. “Tem alguma parte que preciso reescrever? Posso fazer mudanças.” Stella se virou para o plano de aula e passou os dedos pelo texto, pensativa.
A irritação que oprimia o peito dele se aliviou. Era impossível se irritar se ela não entendia o motivo.
Stella mordeu o lábio e batucou os dedos na mesa cada vez mais depressa, até se virar para ele com um olhar ansioso. “Eu deveria ter escrito outra coisa que não ‘avaliação de desempenho’? Estava me referindo ao meu desempenho, claro. Não tem nada de errado com o seu. Mesmo se houvesse, eu não saberia. Não sou qualificada para julgar…”
Antes que ela tivesse um ataque de pânico, ele falou: “Era uma pergunta hipotética. Esquece”.
Ela pareceu confusa por um instante, mas piscou rapidamente e soltou um suspiro de alívio. “Ah, tudo bem.” Depois de ajeitar os óculos, se voltou para os papéis e escreveu “de Stella” depois de cada “avaliação de desempenho”.
Era um bom lembrete. A questão ali era ajudar no desempenho dela. E só. E daí se ela não via a situação como a realização de suas fantasias secretas, como outras clientes? Michael precisava seguir seu próprio conselho e parar de pensar tanto.
Enquanto ela passava para a segunda folha, ele tirou o paletó, colocou-o sobre o braço de uma poltrona e desabotoou a camisa. Depois de puxá-la para fora da calça, sentou na cama ao lado de Stella. Ela lançou um rápido olhar em sua direção, com a atenção capturada pela porção de pele exposta pela camisa aberta. A caneta parou no meio da anotação e caiu sobre o criado-mudo.
Michael abriu um sorriso de satisfação. As coisas estavam ficando menos assépticas.
Stella ajeitou os ombros antes de levar a mão ao colarinho. Os botões foram abertos num ritmo dolorosamente lento, então o tecido branco foi ao chão, junto com a saia cinza. A maneira como ela levantou o queixo quando permitiu que ele a olhasse mostrava determinação. E ele olhou.
Em geral preferia mulheres com seios grandes, lábios carnudos e coxas grossas. Gostava de carne preenchendo suas mãos. Stella não era daquele tipo. Tudo em si era modesto. No conjunto bege de calcinha e sutiã, seu corpo miúdo revelava ombros e braços elegantes, cintura estreita, quadris de curvas suaves e pernas bem formadas com tornozelos delicados. Não era o que ele sempre achou que preferisse, mas parecia perfeita.
“Tira o sutiã.” A voz dele soou mais áspera do que pretendia, mas foi inevitável. Estava morrendo de vontade de ver o restante do corpo dela. Stella podia não ter fantasiado sobre o tempo que passariam juntos, mas Michael sim.
Ela cerrou os punhos ao lado do corpo. “Isso é mesmo necessário? Não são meu maior atrativo. São pequenos.”
“É necessário, sim. Os homens gostam de ver, independente de tamanho.” E de tocar. Nossa, como ele queria tocar os peitos dela.
Stella fez uma careta, parecendo prestes a iniciar uma discussão. Quando levou a mão às costas para tirar o sutiã, ele prendeu a respiração.
Michael mordeu o lábio para segurar um sorriso. Viu aréolas rosadas e bicos protuberantes que — sem dúvida nenhuma — ficavam durinhos o tempo todo, chovesse ou fizesse sol. Stella Lane, a economista pudica, tinha peitos de atriz pornô. E ele os queria em sua boca.
“E agora?”, ela perguntou quase num sussurro.
Michael arrancou a camisa e jogou do outro lado da cama. “Acho que você pode marcar um quadradinho.”
Ela o encarou como se tivesse falado num idioma desconhecido. Depois de piscar várias vezes, sacudiu a cabeça e falou: “Tá”.
Inclinando o corpo para a frente, ela marcou um quadradinho no alto da lista. Depois ajeitou os óculos e ficou imóvel por um instante antes de tirá-los do rosto, remover o elástico dos cabelos e sacudi-los, fazendo com que caíssem em volta do rosto. Seus olhos castanhos vulneráveis procuraram os dele antes de se voltarem para a parede do outro lado do quarto.
O ar escapou dos pulmões de Michael, e seus órgãos internos amoleceram enquanto o restante de seu corpo endurecia. Maravilhosa.
E assustada. Como amenizar aquele medo?
“Me deixa abraçar você.”
Ela se aproximou o máximo que conseguia sem tocá-lo.
Ele segurou o riso. “Se você sentasse no meu colo ajudaria.”
Mordendo o lábio, Stella montou sobre ele. Porra, como ela estava perto. Toda exposta. Michael ficou todo duro de imediato, mas se obrigou a ir devagar. O principal ali era Stella. Achava que ela fosse se sentar toda rígida e tensa e que ele teria que descobrir alguma mágica para fazê-la relaxar, mas Stella foi logo se encostando e apoiou o rosto em seu ombro. Quando os braços dele a envolveram, ela soltou um suspiro profundo e se derreteu toda.
Os segundos se transformaram em minutos, e Michael se permitiu saborear o momento — sem falar, sem foder, sem fazer nada, só desfrutando da companhia. O quarto estava tão silencioso que dava para ouvir os carros rodando lá fora. Alguém passou conversando pelo corredor, então se afastou.
“Vai dormir de novo?”, ele perguntou por fim.
“Não.”
“Que bom.” Michael passou a ponta dos dedos pelos braços dela e sorriu quando viu os pelos se arrepiando. Ele passou o nariz em seu pescoço e sentiu o cheiro suave de sua pele, então deu um beijo no ponto sensível no fim do maxilar. Os lábios dela o tentavam, mas ele preferiu fazer algo menos invasivo e chupar o lóbulo de sua orelha, arrancando-lhe um suspiro trêmulo.
“Isso são preliminares?” O tom sussurrante da voz dela fez uma sensação de satisfação se espalhar pela pele dele.
“Sim.” Apesar de saber a resposta, Michael perguntou com a boca colada ao ouvido dela: “Gostou?”.
Stella estremeceu e se encostou nele um pouco mais. Um novo arrepio percorreu sua pele. “Sim, mas não é o que eu esperava.”
“O que você esperava?”
Ela sacudiu negativamente a cabeça.
“Me diz se quer que eu pare por aqui ou se quer alguma coisa específica”, Michael disse, acariciando os cabelos dela e puxando sua cabeça para trás. Uma trilha de beijos se seguiu pela linha do maxilar dela, passando pelo queixo até chegar ao canto da boca.
Perto demais da tentação dos lábios. O corpo inteiro dele estava ansioso pela sensação de um beijo profundo, e Michael quase cedeu, apesar do que havia sido combinado. Ele passara a semana toda sonhando com aquela boca. Mesmo sentindo que estava nadando contra a correnteza, forçou seus lábios a baixarem para o pescoço dela.
“Passa a mão em mim.” Michael levou as mãos dela ao seu peito.
As mãos espalmadas dela passearam por ele até encontrar seus mamilos. Como se estivesse fascinada com a textura, Stella passou os polegares nas pontas enrijecidas. Os músculos de Michael ficaram tensos, e ele estremeceu de prazer.
“Tudo bem fazer isso?”, ela perguntou.
“Eu gosto. E disso também.” Michael apertou os seios tentadores na palma das mãos e beliscou de leve os mamilos.
A respiração dela acelerou, e Stella olhou para baixo. As mãos bronzeadas de Michael sobre a pele clara dela e os mamilos sensuais entre os dedos dele era uma visão das mais eróticas. Ele não resistiu a um novo beliscão, e ficou todo satisfeito quando ela respirou fundo.
“Por que é tão bom quando você faz isso?” A curiosidade no tom de voz dela o fez sorrir.
“Quer experimentar algo ainda melhor?” Ela acenou hesitante. “Fica de joelhos para mim”, ele falou.
Ela flexionou as coxas para se levantar do colo dele. Com o corpo todo tenso e a respiração acelerada, pôs as mãos em seus ombros. A nova posição deixou seus mamilos pontudos na altura do rosto de Michael, como ele queria. Parecia que, se não tomasse cuidado, ela poderia furar seus olhos daquele jeito. Seria um acidente de trabalho. Se fosse sincero, no entanto, ele não sentiria que estava trabalhando. Não havia nenhuma fantasia rolando em sua cabeça, e ele não precisava mentir para si mesmo a cada quinze segundos. Naquele momento, com aquela mulher, a atração era inegável e verdadeira.
Ele passou as mãos pelas costas dela até sentir os músculos relaxarem sob as palmas. Em seguida deu um beijo na parte inferior de um seio. Ela fechou os dedos, cravando as unhas na pele dele.
Michael se inclinou para trás e perguntou: “Está tudo bem?”.
Ela limpou a garganta duas vezes. “Me diz o que você pretende fazer. Por favor.”
“Vou chupar esses peitos lindos e passar a língua neles.”
Stella apertou os ombros dele com mais força. “Foi uma descrição mais explícita do que eu esperava.”
“Como você teria falado?” Ele deslizou a boca da parte inferior do seio até o local onde a pele clara dava lugar ao contorno da aréola rosada.
“Não sei o que eu…”
Ele cobriu o mamilo com a boca e sugou com força.
“Michael.”
O som do nome dele saindo dos lábios dela foi tão inesperado quanto excitante. Michael a puxou mais para perto para devorá-la. Homem nenhum manteria a sanidade com peitos assim tão perto da cara, muito menos na boca, na ponta da língua. Ele poderia continuar com aquilo durante dias. Depois de se fartar de um, passou ao outro.
Enquanto mexia os dedos às cegas em seus cabelos, Stella se contorceu e arqueou o corpo para trás, pedindo mais sem perceber. Ela estava adorando, deixando sua mente genial ser ofuscada pelas carícias.
Antes de se dar conta, Michael subiu os lábios pelo pescoço dela, passando pelo queixo até chegar à boca. Conseguiu se segurar no último instante e colar o rosto no dela enquanto se repreendia mentalmente. Merda. Stella já dissera que não queria e ele insistia em…
Seus lábios se tocaram. Michael ficou todo tenso com a eletricidade que percorreu seu corpo. Ela acariciou seu lábio inferior com a língua, e seus instintos tomaram conta. Michael tomou a boca dela como um homem faminto.
Aquele gosto, aquela maciez, aquelas unhas no seu couro cabeludo, os beijos atrás de beijos.
“Desculpa. Sei que falei que não queria beijos.” Ela o beijou de novo. “Mas não consegui resistir. A semana inteira fiquei pensando em beijar você.” Ele absorveu aquelas palavras. Então não tinha sido o único. Mais um beijo entorpecedor. “E agora não consigo parar.” Um murmúrio escapou da garganta dela, e em seguida mais um beijo.
“Então não para.”
Michael entrelaçou a língua com a dela, e o corpo de Stella amoleceu em seus braços. Ela remexeu o quadril contra o volume em sua virilha e esfregou os mamilos em seu peito. Ele soltou um grunhido. Não sentia um desejo tão intenso por uma mulher desde… Teria alguma vez em toda a sua vida desejado tanto uma mulher?
Quando ele se inclinou para trás, os lábios dela continuaram entreabertos, soltando suspiros de excitação. Seus olhos demoraram para recuperar o foco e se concentrarem nele, e Michael esperou que ela fosse se virar e marcar mais um quadradinho na lista. Em vez disso, Stella enlaçou seu pescoço e o puxou para mais perto. Então deu um beijo em sua têmpora.
Uma sensação surpreendente de estar recebendo um carinho se espalhou pelo corpo dele. Ela não estava agindo como se o que acontecia entre eles fosse uma prestação de serviço em troca de pagamento. Agia como se aquilo significasse alguma coisa, como se houvesse um sentimento envolvido, talvez até por Michael.
Mais um quarto de hotel, mais uma cama, mais uma cliente em seus braços. Era uma noite de sexta como muitas outras. Só que ele nunca havia se sentido tão exposto, tão vulnerável, e ainda não tinha nem tirado a calça.
Era para ser só sexo. Não deveria haver sentimentos envolvidos. Michael não conseguiria continuar fazendo aquilo caso mexesse com ele. Seus outros programas iam parecer traição. Aquilo ele não faria. Estava na hora de afastar os absurdos da cabeça e se limitar aos negócios.
Stella sentia o peso de Michael entre as pernas. Algo frio roçou sua barriga, transportando-a de volta à realidade. Metálico. A fivela do cinto dele.
As coisas tinham saído dos trilhos. O que os dois deveriam estar fazendo? Ela repassou mentalmente a lista. Masturbação. Era hora de aprender a masturbar um homem.
Ele começou a beijar o pescoço dela, deixando sua boca livre para falar, mas àquela altura Stella nem se lembrava mais do que ia dizer. Os dentes dele arranhavam sua pele, e arrepios percorriam seu corpo. Seus mamilos se enrijeceram tanto que até doíam, mas as mãos quentes dele aliviaram o incômodo. Michael passou a língua em um dos bicos antes de puxar Stella de novo para si, fazendo até seus dedos dos pés se curvarem.
Uma mão ansiosa desceu por sua barriga e se enfiou por baixo do elástico da calcinha. Dedos experientes a tocaram com carícias ousadas. Ele estava mexendo lá. Exatamente onde ela precisava, apesar de não saber. Já havia sido tocada por outros homens antes, mas a sensação não fora a mesma. Só acontecia daquele jeito quando ela estava sozinha, mas nunca em tal intensidade.
“Você está toda molhada.” A cada sílaba, os lábios dele tocavam seus mamilos enrijecidos. A excitação dominou sua carne faminta antes que ele fechasse os dentes e a mordesse com todo o cuidado.
Seu corpo se enrijeceu com força, e ainda mais quando ele enfiou um dedo bem fundo, preenchendo-a. Michael fez movimentos circulares lentos com o polegar, e Stella começou a tremer. Ele lambeu o mamilo mordido e o abrigou de novo no calor da boca. Não foi preciso mais nada. A excitação chegou ao auge, prestes a explodir com uma força tremenda.
Aquilo a deixou apavorada.
Stella cerrou os punhos. “Para, para, eu não estou pronta.”
Enquanto ele se afastava, Stella apoiou os pés no colchão e se jogou para o outro lado da cama. Ela abraçou um travesseiro junto ao peito para esconder sua nudez. A frieza do objeto ajudou a aliviar a excitação, e ela respirou fundo. O orgasmo iminente se retraiu.
A expressão boquiaberta de Michael ao observá-la era de pura incompreensão. Stella sentiu suas bochechas vermelhas, e a vergonha comprimiu seu peito. Devia ser a pior cliente que ele já tivera. Quando Michael ergueu uma mão, o pânico se instalou de vez, e ela se afastou um pouco mais.
Ele a abaixou de imediato. “Calma, Stella, eu não vou… encostar em você. Só se quiser.”
Ela agarrou o travesseiro com mais força. “Eu sei. Desculpa. É que…”
“O que foi que eu fiz de errado?”
“Nada.”
As sobrancelhas dele se ergueram, deixando claro que não estava acreditando.
“Nunca tive um orgasmo com outra pessoa”, ela confessou.
Ele afastou os lábios e sacudiu a cabeça. Quando ia começar a falar, voltou a fazer um gesto negativo com a cabeça. “Você nunca… nunca mesmo?”
Ela sentiu seu rosto tão quente que, se estivesse de óculos, as lentes ficariam embaçadas. “Já. Mas sozinha.”
“Você não gosta?”, ele questionou, perplexo.
“Não, eu gosto.” Ela soltou o ar com força e tentou organizar seus pensamentos para formular uma explicação coerente. “Só acho mais seguro ter essa experiência sozinha. Já fiz sexo antes, e foi bem ruim. Passei o tempo todo vendo os caras grunhirem e suarem, jogando todo o peso em cima de mim. Para ser sincera, pareceu nojento. Queria que fizesse eu me sentir mais próxima de alguém, mas só serviu para me distanciar ainda mais. Não quero que isso aconteça com você.”
“Mas eu estava curtindo junto com você. E adorando.”
Ela soltou um som de irritação. “Você diz essas coisas porque estou pagando. Porque se sente obrigado. Não é isso que eu quero.”
“Por acaso parece que eu não estava gostando?” Ele aproximou a mão da região da virilha, chamando atenção para o volume impressionante sob a braguilha da calça.
Stella contorceu os lábios, mas permaneceu em silêncio. Se abrisse a boca naquele momento, correria um sério risco de dizer a coisa errada. Ele era um acompanhante experiente. Seu corpo provavelmente obedecia a comandos como golfinhos treinados.
“Você está me chamando de mentiroso.” Um brilho predatório surgiu nos olhos dele, que começou a se aproximar por cima das cobertas amarrotadas.
Ela recuou, por reflexo.
E acabou caindo da cama.
Enquanto ela esfregava a nuca, ele perguntou: “Está tudo bem?”.
Sua garganta se fechou de vergonha, e Stella só conseguiu dizer um breve “sim”.
Ele observou por um tempo seu corpo desajeitado caído. “Acho melhor encerrar a noite por aqui.”
Ela se encostou na parede e abraçou os joelhos junto ao peito. Os quadradinhos em branco do plano de aula eram um peso em sua mente, mas precisava entender e organizar os sentimentos em conflito dentro de si antes de seguir em frente. “Tudo bem por você?”
Ele assentiu. Sem dizer nada, ficou de pé, vestiu a camisa e a abotoou. Ela suprimiu um protesto ao vê-lo cobrir a pele e os músculos que sua inquietação a impedia de apreciar.
Depois que Michael calçou os sapatos e vestiu o paletó, ela se lembrou de uma coisa. Ficou de pé em um pulo e pegou o tablet na bolsa. “Só um segundinho.” Era difícil encontrar a página e se cobrir com o travesseiro ao mesmo tempo, mas no fim Stella conseguiu.
“O que é isso?”
“Preciso da sua autorização para liberar um número de celular pré-pago para você, se não se incomodar. Acho uma boa ideia para entrar em contato um com o outro durante a semana, se preciso. Por questões logísticas.” Caso ele quisesse cancelar tudo. “Falei com o serviço de atendimento ao cliente da agência e sugeri que desenvolvessem um programa anônimo de troca de mensagens, mas enquanto isso…”
Um brilho de divertimento surgiu nos olhos dele enquanto pensava, olhando para a tela acesa. “Você me deu seu número oficial. Fico surpreso por não querer o meu.”
“Assim é melhor para você, não?” Porque, para ela, com certeza era.
Quando as aulas terminassem, nenhum dos dois ia querer que ela ficasse ligando sem parar só para ter suas chamadas recusadas uma depois da outra. Stella não conseguia se imaginar agindo de forma tão desesperada. Mas nunca havia ficado obcecada por alguém antes.
Não que estivesse obcecada por ele. Ainda.
Era difícil decifrar a expressão facial dele quando falou: “É melhor mesmo para mim, obrigado”.
Michael tirou o celular do bolso e habilitou o número pré-pago nele através do tablet. Alguns instantes depois, um som de vibração ressoou na bolsa dela.
“Pronto”, ele disse com um sorriso.
“Perfeito. Obrigada.” Ela abriu um sorriso forçado.
Ele deu um passo na direção da porta, então se deteve. “A gente deveria experimentar fazer alguma coisa diferente na sexta que vem. Que tal sair?”
O coração dela se comprimiu. “Sair?”
“Para dançar, ou beber… Talvez numa casa noturna? Ouvi falar que abriu um lugar novo em San Francisco…”
“Eu não danço.” E não bebia. E nunca tinha ido a uma casa noturna.
“Posso ensinar você. A aula pode ser em seguida. Confia em mim.”
Confiar.
Era a segunda vez que ele pedia uma demonstração de confiança. O que pensaria se Stella contasse como era difícil para ela fazer coisas como sair para dançar e beber? Deveria ser divertido. Para ela, era uma imposição — uma imposição trabalhosa. Era capaz de interagir com outras pessoas se quisesse, mas havia um custo. Às vezes maior, às vezes menor.
Naquele caso, a recompensa valeria o sacrifício?
“Como isso ajudaria com as aulas?”, ela perguntou.
“Você pensa demais. Vai te ajudar a desligar um pouco a cabeça e relaxar. Além disso, eu danço bem. Vai ser divertido. Topa?”
Stella disse a si mesma que a ideia de “desligar um pouco a cabeça” — o que quer que significasse — e a possibilidade de avançar um pouco mais no plano de aula fizeram com que aceitasse. Mas era só uma parte da coisa, a menor.
A principal era o brilho nos olhos de Michael. Ele queria sair, e queria que ela o acompanhasse. Era uma espécie de encontro. Embora não fosse, claro. Stella sabia que não era.
“Não garanto que vou conseguir dançar.”
“Então você topa?”, ele perguntou, inclinando a cabeça.
Stella ergueu o queixo e assentiu.
Michael sorriu, exibindo os dentes branquíssimos. “Ótimo. Vou planejar tudo e aviso você. Vai ser legal.” Ele se inclinou para a frente e deu um beijo rápido em seu rosto antes de sair do quarto.
Stella trancou a porta e se jogou na cama, atordoada. Era para ser apenas uma aula de sexo. Por que as coisas estavam se complicando tanto? Por que seu corpo a traía daquele jeito? E por que queria tanto agradar Michael, a ponto de aceitar ir a uma casa noturna com ele? Quem era aquela mulher? Ela nem se reconhecia mais.